BLOG DO TOTONHO

  • CANHÕES DO FORTE SÃO MATHEUS

    Canhões do Forte São Matheus – Antônio José Christovão – 2023.

  • PEQUENAS DOSES

    Luiz Antônio Nogueira da Guia.

    Porto Alegre

    Se existe uma via pública onde a bagunça no estacionamento e no trânsito em geral está instalada e precisando de correção urgente é a Rua Porto Alegre. Recentemente ocupada por muitos bares, botecos e restaurantes dos mais diferentes tipos e sabores, a Porto Alegre se recente de ordem. Quem sabe um dia mães com seus bebês nos carrinhos possam transitar nas calçadas e não serem obrigadas a perigosamente caminhar no asfalto?

    Major Bellegard

    A Rua Major Bellegar, no Centro, é paralela a um dos pontos comerciais e turísticos mais importantes de Cabo Frio, o Boulevard Canal, que há muito vem solicitando melhorias a Prefeitura. A Major Bellegard passa nos fundos do Boulevard e apesar de ali estar a Secretaria Municipal de Fazenda, é uma rua praticamente abandonada. Virou apenas um grande estacionamento e paraíso dos flanelinhas.

    Não quero choro nem vela

    O musical sobre a vida e obra de Noel Rosa estreia dia 20 (sexta-feira), às 20 horas, no Teatro Átila Costa, em São Pedro da Aldeia. O texto é de Geraldo Afonso e a direção de Daniel Ericsson, com grande elenco. É uma produção rara na Região dos Lagos. Imperdível!!!! Adquira ingressos pelo Sympla:
    https://www.sympla.com.br/evento/espetaculo-teatral-musical-nao-quero-choro-nemvela-vida-e-obra-de-noel-rosa/3317193

    Guga Chacra

    A posição do jornalismo do Grupo Globo é tão favorável aos EUA e a Israel, que até mesmo o comentarista Guga Chacra reclamou na GloboNews. A cobertura sempre com viés israelense, falava do Hezbollah, como se o Líbano não existisse. Guga, visivelmente irritado, intereveio e colocou as coisas no seu devido lugar.

    A Covardia do Sionismo

    A covardia do regime sionista não tem limites. O estado colonial e genocida de Israel tem taras semelhantes ao nazismo: matar crianças e mulheres, destruir hospitais, atacar civis. Os primeiros dias de guerra contra o Irã comprovam isso. Seu exército formado por degenerados é a mais pura escória Breno Altman – Opera Mundi – 03/03/2026.

    A Linha do Departamento de Estado

    A guerra da dobradinha EUA + Israel contra o Irã deslocou o eixo do noticiário na mídia corporativa para o plano internacional. Os grandes portais de notícias como Globo.com e UOL fazem campanha com discurso do Departamento de Estado sos EUA e internamente continuaran a publicar noticiário contrário ao governo e favorável ao “perfil moderado” de Flávio Bolsonaro.

    A Mídia Corporativa defende a escravidão moderna

    Da mesma maneira que hoje faz campanha contra a extinção da semana 6 x 1, para impedir um dia a mais de descando para o trabalhador, o velho “O Globo” também fez campanha contra o 13º salário. Sempre ao lado das elites “O Globo”, a “Folha de São Paulo e o “Estado de São Paulo” (Estadão) defendem a escravidão moderna, como defenderiam a escravidão, no século XIX.

    Falta de candidatos

    Por incrível que pareça o “bloco progressista” ainda não apresentou candidatos a Assembleia Legislativa (ALERJ) e a Câmara de Deputados Federais, aqui em Cabo Frio. É uma situação complicada e se o fato se confirmar, terá uma repercussão bem forte na eleição para o Legislativo estadual e federal, em outubro de 2026 e também para o pleito de 2028.

  • BOA VIAGEM, SENHOR PRESIDENTE

    Gabriel Garcia Márquez (*)

    Estava sentado no banco de madeira debaixo das folhas amarelas do
    parque solitário, contemplando os cisnes empoeirados com as mãos apoiadas no pomo de prata da bengala, e pensando na morte. Quando veio a Genebra pela primeira vez o lago era sereno e diáfano, e havia gaivotas mansas que se aproximavam para comer nas mãos, e mulheres de aluguel que pareciam fantasmas das seis da tarde, com véus de organdi e sombrinhas de seda. Agora a única mulher possível, até onde a vista alcançava, era uma vendedora de flores no embarcadouro deserto. Ele custava a crer que o tempo tivesse podido fazer semelhantes estragos não apenas em sua vida, mas no mundo.

    Era um desconhecido a mais na cidade de desconhecidos ilustres. Estava
    de terno azul-escuro com listras brancas, colete de brocado e o chapéu duro dos magistrados aposentados. Tinha um bigode altivo de mosqueteiro, o cabelo azulado e abundante com ondulações românticas, as mãos de harpista com a aliança de viúvo no anular esquerdo, os olhos alegres. A única coisa que delatava o estado de sua saúde era o cansaço da pele. E ainda assim, aos 73 anos, continuava sendo de uma elegância clássica.

    Naquela manhã, no entanto, sentia-se a salvo de toda vaidade. Os anos de
    glória e poder haviam ficado para trás sem remédio, e agora só permaneciam os da morte.

    Havia voltado a Genebra depois de duas guerras mundiais, em busca de
    uma resposta terminante para uma dor que os médicos da Martinica não
    conseguiram identificar. Havia previsto não mais do que quinze dias, mas já haviam-se passado seis semanas de exames extenuantes e resultados incertos, e ainda não se vislumbrava o final. Buscavam a dor no fígado, nos rins, no pâncreas, na próstata, onde menos estava. Isso, até aquela quinta-feira indesejável, na qual o médico menos notório dos muitos que o haviam visto chamou-o às nove da manhã no pavilhão de neurologia.

    O escritório parecia uma cela de monges, e o médico era pequeno e
    lúgubre, e tinha a mão direita engessada por causa de uma fratura no polegar

    Quando apagou a luz, apareceu na tela a radiografia iluminada de uma
    espinha dorsal que ele não reconheceu como sua até que o médico apontou com uma varinha, debaixo de sua cintura, a união de duas vértebras.

    Sua dor está aqui – disse a ele.

    Para ele, não era tão fácil. Sua dor era improvável e escorregadia, e às
    vezes parecia estar nas costelas direitas e às vezes no baixo-ventre, e muitas
    vezes o surpreendia com uma agulhada instantânea na virilha. O médico
    escutou-o em suspenso e com a varinha imóvel na tela. “Por isso nos despistou durante tanto tempo”, disse. “Mas agora sabemos que está aqui.” Depois colocou o indicador na fronte e precisou:

    Embora, a rigor senhor presidente, sua dor esteja aqui.

    Seu estilo clínico era tão dramático que a sentença final pareceu benévola:
    o presidente tinha que se submeter a uma operação arriscada e inevitável.

    Perguntou qual era a margem de risco, e o velho doutor envolveu-o numa
    luz de incerteza.

    Não podemos dizer com segurança – disse

    Até pouco tempo atrás, explicou, os riscos de acidentes fatais eram
    grandes, e mais ainda os de diferentes paralisias em diversos graus. Mas com os avanços médicos das duas guerras esses temores eram coisas do passado.

    Vá tranqüilo – concluiu. – Prepare bem suas coisas e nos avise. Mas não se
    esqueça que quanto antes, melhor.

    Não era uma boa manhã para digerir essa má notícia, e menos ainda à
    intempérie. Havia saído muito cedo do hotel, sem abrigo, porque viu um sol radiante pela janela, e havia ido com seus passos contados do Chemin du Beau Soleil, onde estava o hospital, até o refúgio dos namorados furtivos do parque inglês. Estava ali fazia mais de uma hora, sempre pensando na morte, quando começou o outono. O lago encrespou-se como um oceano embravecido, e um vento de desordem espantou as gaivotas e arrasou com as últimas folhas. O presidente se levantou e, em vez de comprar da florista, arrancou uma margarida dos canteiros públicos e colocou-a na lapela.

    A florista o surpreendeu.

    Estas flores não são de Deus, senhor – disse,
    contrariada. – São da prefeitura.

    Ele não deu atenção. Afastou-se com passos ligeiros, empunhando a
    bengala pelo meio, e fazendoa girar de vez em quando, com um ar um tanto libertino.

    Na ponte do Mont Blanc estavam, a toda pressa, tirando as bandeiras da
    Confederação enlouquecidas pela ventania, e o esbelto chafariz coberto de
    espuma apagou-se antes do tempo. O presidente não reconheceu sua cafeteria de sempre sobre o embarcadouro, porque haviam retirado o toldo verde do terraço e as varandas floridas do verão acabavam de ser fechadas. No salão, os lustres estavam acesos em pleno dia, e o quarteto de cordas tocava um Mozart premonitório. O presidente apanhou no balcão um jornal da pilha reservada aos clientes, pendurou o chapéu e a bengala no cabide, pôs os óculos com armação de ouro para ler na mesa mais afastada, e só então tomou consciência de que havia chegado o outono. Começou a ler pela página internacional, onde encontrava muito de vez em quando alguma notícia das Américas, e continuou lendo de trás para diante até que a garçonete levou sua garrafa diária de água de Evian. Há mais de trinta anos havia renunciado ao hábito do café por imposição de seus médicos. Mas dissera: “Se alguma vez tiver a certeza de que vou morrer, tornarei a tomar café.” Talvez a hora tivesse chegado.

    Traga também um café – pediu num francês perfeito. E explicou, sem
    reparar no duplo sentido: – À italiana, desses que levantam um morto.

    Tomou-o sem açúcar, devagar, e depois colocou a xícara de boca para
    baixo, para que o sedimento do café, após tantos anos, tivesse tempo de
    escrever seu destino. O sabor recuperado redimiu-o por um instante de seu
    mau pensamento. Um instante depois, como parte do mesmo sortilégio, sentiu que alguém olhava para ele. Então passou as páginas com um gesto casual, olhou por cima dos óculos, e viu o homem pálido e com a barba por fazer, com um boné esportivo e uma jaqueta de couro com forro de ovelha, que afastou o olhar no mesmo instante para não tropeçar com o dele.

    Sua cara era familiar. Haviam se cruzado várias vezes no vestíbulo do
    hospital, havia tornado a vê-lo num dia qualquer numa motoneta pela
    Promenade du Lac enquanto contemplava os cisnes, mas nunca sentiu-se
    reconhecido. Não descartou, em todo caso, a possibilidade de ser outra das
    tantas fantasias persecutórias do exílio.

    Terminou o jornal sem pressa, flutuando nos ceios suntuosos de Brahms,
    até que a dor foi mais forte que a analgia da música. Então olhou o reloginho de ouro que usava pendurado numa corrente no bolso do colete, e tomou as duas pílulas calmantes do meio-dia com o último gole da água de Evian.

    Antes de tirar os óculos decifrou seu destino no assentamento do café, e
    sentiu um estremecimento glacial: ali estava a incerteza. Finalmente pagou a conta com uma gorjeta estreita, apanhou o chapéu e a bengala no cabide, e saiu para a rua sem olhar o homem que olhava para ele. Afastou-se com seu andar festivo, beirando os canteiros de flores despedaçadas pelo vento, e acreditou-se liberado do feitiço.

    Mas de repente sentiu passos atrás dos seus, deteve-se ao dobrar uma
    esquina e deu meia-volta. O homem que o seguia teve que parar em seco para não tropeçar com ele, e olhou-o assustado, a menos de dois palmos de seus olhos.

    . Senhor presidente – murmurou.

    . Diga a quem estiver pagando a você que não tenha ilusões – disse o
    presidente, sem perder o sorriso ou o encanto da voz. – Minha saúde está perfeita.

    . Ninguém melhor que eu para saber disso disse o homem, humilhado
    pela carga de dignidade que lhe caiu em cima. – Trabalho no hospital.
    A dicção e a cadência, e ainda sua timidez, eram as de um caribenho puro.

    – Não me diga que é médico – disse o presidente.

    – . Quem me dera, senhor – disse o homem.

    . Sou chofer de ambulância.

    . Sinto muito – disse o presidente, convencido de seu erro. – É um trabalho
    duro.

    .Não tanto como o seu, senhor.
    Ele olhou-o sem reservas, apoiou-se na bengala com as duas mãos, e
    perguntou-lhe com um interesse real:

    . De onde o senhor é?

    . Do Caribe.

    . Já percebi – disse o presidente. – Mas de que país?

    . Do mesmo que o senhor, presidente – disse o homem, e estendeu-lhe a
    mão. – Meu nome é Homero Rey.
    O presidente interrompeu-o surpreso sem soltar sua mão.

    . Caramba! – disse. – Que bom nome!
    Homero relaxou.

    . E tem mais – disse. – Homero Rey de la CasUma punhalada invernal surpreendeu-os indefesos na metade da rua. O presidente estremeceu até os ossos e compreendeu que não poderia caminhar sem abrigo os dois quarteirões que faltavam até a pensão de pobres onde costumava comer.

    . Já almoçou? – perguntou a Homero.

    . Não almoço nunca – disse Homero. – Como uma vez só de noite, na
    minha casa.

    . Faça uma exceção hoje – disse com todos os seus encantos à flor da pele. – Eu convido.

    Pegou-o pelo braço e levou-o até o restaurante em frente, com o nome
    dourado no toldo: Le Boeuf Couronné. O interior era estreito e cálido, e não parecia haver nenhum lugar livre. Homero Rey, surpreso por ninguém
    conhecer o presidente, continuou até o fundo do salão para pedir ajuda.

    É presidente em exercício? – perguntou o dono.

    . Não – disse Homero. – Derrubado.
    O dono soltou um sorriso de aprovação.

    . Para esses – disse – tenho sempre uma mesa especial.
    Levou-os a um lugar afastado no fundo do salão, onde podiam falar à
    vontade. O presidente agradeceu.

    Nem todos reconhecem como o senhor a dignidade do exílio – disse.

    A especialidade da casa eram costelas de boi na brasa. O presidente e seu
    convidado olharam em volta, e viram nas outras mesas os grandes pedaços
    assados com uma beirada de gordura tenra. “É uma carne magnífica”,
    murmurou o presidente. “Mas para mim é proibida.” Fixou em Homero um olhar travesso e mudou de tom.

    . Na verdade, me proibiram tudo.

    . O café também – disse Homero -, e mesmo assim tomou.

    . Você notou? – disse o presidente. – Mas hoje foi só uma exceção num dia excepcional.

    A exceção daquele dia não foi só o café. Também encomendou uma
    costela de boi na brasa e uma salada de legumes frescos sem outro tempero além de um jorro de azeite de oliva. Seu convidado pediu a mesma coisa, mais meia garrafa de vinho tinto.
    Enquanto esperavam a carne, Homero tirou do bolso da jaqueta uma
    carteira sem dinheiro e com muitos papéis, e mostrou ao presidente uma foto desbotada.
    Ele se reconheceu em mangas de camisa, com vários quilos a menos e o
    cabelo e o bigode de um negro intenso, nomeio de um tumulto de jovens que haviam se empinado para sobressair. De um só olhar reconheceu o lugar, reconheceu os emblemas de uma campanha eleitoral maçante, reconheceu a data ingrata.

    “Que barbaridade!’ murmurou. “Sempre disse que a gente envelhece mais
    rápido nos retratos que na vida real’ E devolveu a foto com um gesto de último
    ato.

    . Lembro-me muito bem – disse. – Foi há milhares de anos na arena de
    galos de briga de San Cristóbal de las Casas.

    . É a minha cidade – disse Homero, e apontou a si mesmo no grupo: – Este
    sou eu. O presidente reconheceu-o.

    . Você era uma criança!

    . Quase – disse Homero. – Estive com o senhor em toda a campanha do sul
    como dirigente das brigadas universitárias. O presidente antecipou-se à recriminação.

    . Eu, é claro, nem ao menos reparava no senhor – disse.

    . Ao contrário, era muito gentil conosco disse Homero. – Mas éramos
    tantos que não é possível que o senhor se lembre.

    . E depois?

    . Quem melhor que o senhor para saber?
    disse Homero. – Depois do golpe militar, o milagre é estarmos nós dois
    aqui, prontos para comer meio boi. Não foram muitos os que tiveram a mesma sorte.

    Nesse momento chegaram os pratos. O presidente pôs o guardanapo no
    pescoço, como um babador de criança, e não foi insensível à calada surpresa do convidado. “Se não fizer isto perco uma gravata por refeição”, disse. Antes de começar provou o ponto da carne, aprovou-o com um gesto satisfeito, e voltou ao tema.

    . O que não entendo – disse – é por que não me procurou antes de maneira
    aberta, em vez de me seguir feito um sabujo.

    Então Homero contou-lhe que o havia reconhecido desde que oviu entrar
    no hospital por uma porta reservada para casos muito especiais. Era pleno
    verão, e ele estava com um terno completo de linho branco das Antilhas, com sapatos combinados em branco e negro, a margarida na lapela, e a formosa cabeleira alvoroçada pelo vento. Homero verificou que ele estava sozinho em Genebra, sem a ajuda de ninguém, pois conhecia de cor a cidade onde havia terminado seus estudos de Direito. A direção do hospital, por solicitação sua, tomou as determinações internas para assegurar o sigilo absoluto. Naquela mesma noite, Homero combinou com sua mulher fazer contato com ele. No entanto, o havia seguido por cinco semanas buscando uma ocasião propícia, e talvez não tivesse sido capaz de cumprimentá-lo se ele não o tivesse enfrentado.

    Fico feliz de ter feito isso – disse o presidente -, embora na verdade não
    me incomode nem um pouco estar sozinho.

    . Não é justo.

    . Por que? – perguntou-lhe o presidente com sinceridade. – A maior vitória da minha vida foi conseguir que me esqueçam.

    . Nós lembramos do senhor mais do que o senhor imagina – disse Homero sem dissimular sua emoção. – É uma alegria vê-lo assim, saudável e jovem.

    . No entanto – disse ele sem dramatismo -, tudo indica que morrerei em
    pouco tempo.

    . Suas possibilidades de se recuperar são muito altas – disse Homero.
    O presidente deu um salto de surpresa, mas não perdeu a graça.

    . Opa! – exclamou. – Será que na bela Suíça foi abolido o sigilo médico?

    . Em nenhum hospital do mundo existem segredos para um chofer de
    ambulância – disse Homero.

    . Pois o que sei fiquei sabendo há apenas duas horas e pela boca do único que deveria estar sabendo.

    . Seja como for, o senhor não morrerá em vão – disse Homero. – Alguém
    irá colocá-lo no lugar que lhe corresponde como grande exemplo de dignidade.
    O presidente fingiu um assombro cômico.

    . Obrigado por me prevenir – disse.
    Comia como fazia tudo: devagar e com um grande esmero. Enquanto isso,
    olhava para Homero direto nos olhos, de maneira que este tinha a impressão de ver o que ele pensava. Após uma longa conversa de evocações nostálgicas, deu um sorriso maligno.

    . Havia decidido não me preocupar com o meu cadáver – disse -, mas
    agora vejo que devo tomar certas precauções de romance policial para que ninguém o encontre.

    . Vai ser inútil – brincou Homero. – No hospital não existem mistérios que durem mais que uma hora.
    Quando terminaram o café, o presidente leu o fundo de sua xícara, e
    tornou a estremecer: a mensagem era a mesma. No entanto, sua expressão não se alterou. Pagou a conta em dinheiro, mas antes verificou a soma várias vezes, contou várias vezes o dinheiro com um cuidado excessivo, e deixou uma gorjeta que só mereceu um resmungo do garçom.

    . Foi um prazer – concluiu, ao se despedir de Homero. – Não tenho data
    para a operação, e nem mesmo decidi se vou ou não me operar. Mas se tudo der certo, tornaremos a nos encontrar.

    . E por que não antes? – disse Homero.
    Lázara, minha mulher, é cozinheira de ricos. Ninguém prepara o arroz
    com camarões melhor que ela, e gostaríamos de tê-lo em casa uma noite dessas.

    . Fui proibido de comer mariscos, mas vou com muito prazer – disse. – É só dizer quando.

    . Quinta-feira é meu dia de folga – disse Homero.

    . Perfeito – disse o presidente. – Quinta às sete da noite estou em sua casa.
    Será um prazer.

    . Passarei para buscá-lo – disse Homero.

    . Hotelerie Dames, 14 rue de l’Industrie. Atrás da estação. Certo?

    . Certo – disse o presidente, e levantou-se mais encantador que nunca. –
    Pelo que estou vendo, sabe até o número do meu sapato.

    . Claro, senhor – disse Homero, divertido.

    . Quarenta e um.

    O que Homero Rey não contou ao presidente, mas continuou contando
    durante anos para quem quisesse ouvir, foi que seu propósito inicial não era tão inocente. Como outros choferes de ambulância, tinha acordos com empresas funerárias e companhias de seguro para vender serviços dentro do próprio hospital, sobretudo a pacientes estrangeiros de escassos recursos.

    Eram lucros mínimos, e além disso era preciso reparti-los com outros
    empregados que passavam de mão em mão os relatórios secretos sobre os
    doentes graves. Mas era um bom consolo para um desterrado sem porvir que subsistia a duras penas com sua mulher e seus dois filhos com um salário ridículo.
    Lázara Davis, sua mulher, foi mais realista. Era uma mulata fina de San
    Juan de Puerto Rico, miúda e maciça, da cor do caramelo em repouso e com uns olhos de cadela brava que combinavam muito bem com sua maneira de ser. Haviam se conhecido nos serviços de caridade do hospital, onde ela trabalhava como ajudante de tudo depois que um agiota de seu país, que a havia levado como babá, deixou-a à deriva em Genebra. Haviam se casado pelo ritual católico, embora ela fosse princesa ioruba, e viviam num sala e dois quartos nooitavo andar sem elevador de um edifício de imigrantes africanos. Tinham uma menina de nove anos, Bárbara, e um menino de sete, Lázaro, com alguns indícios menores de retardamento mental.

    Lázara Davis era inteligente e de mau humor, mas de entranhas ternas.
    Considerava-se a si mesma como uma Touro pura, e tinha uma fé cega em seus augúrios astrais. No entanto, nunca pôde cumprir o sonho de ganhar a vida como astróloga de milionários.

    Em compensação, contribuía em casa com recursos ocasionais, e às vezes
    importantes, preparando jantares para senhoras ricas que se exibiam a seus
    convidados fazendo crer que eram elas as autoras dos excitantes pratos
    antilhanos. Homero, por sua vez, era tímido de solenidade, e não dava para
    nada além do pouco que fazia, mas Lázara não concebia a vida sem ele pela inocência de seu coração e o calibre da sua arma. Tinham dado certo, mas os anos vinham cada vez mais duros e as crianças cresciam. Pelos tempos em que o presidente chegou, haviam começado a bicar suas economias de cinco anos. De maneira que quando Homero Rey o descobriu entre os doentes incógnitos do hospital, mergulharam em ilusões.

    Não sabiam direito o que iriam pedir, nem com que direito. No primeiro
    momento haviam pensado em vender-lhe um funeral completo, inclusive a
    embalsamação e a repatriação. Mas pouco a pouco foram percebendo que a morte não parecia tão iminente quanto a princípio. No dia do almoço já
    estavam atordoados pelas dúvidas.

    Na verdade, Homero não tinha sido dirigente das brigadas universitárias,
    nem nada parecido, e a única vez em que participou da campanha eleitoral foi quando fizeram a foto que haviam encontrado por milagre no murundu do guarda-roupa. Mas seu fervor era verdadeiro. Era verdade também que
    precisou fugir do país por sua participação de resistência nas ruas contra o
    golpe militar, embora a única razão para continuar vivendo em Genebra depois de tantos anos fosse a sua pobreza de espírito. Portanto, uma mentira a mais ou a menos não devia ser um obstáculo para ganhar o favor do presidente.

    A primeira surpresa de ambos foi que o desterrado ilustre morasse num
    hotel de quarta categoria no bairro triste de la Grotte, entre imigrantes asiáticos e mariposas da noite, e que comesse sozinho nas pensões de pobres, quando Genebra estava cheia de residências dignas para políticos em desgraça. Homero o havia visto repetir dia após dia os atos daquele dia. Havia acompanhado-o de vista, e às vezes numa distância menos que prudente, em seus passeios noturnos entre os muros lúgubres e os lampiões amarelos da cidade velha. Havia visto o presidente absorto durante horas diante da estátua de Calvino. Havia subido atrás dele passo a passo a escadaria de pedra, sufocado pelo perfume ardente dos jasmins, para contemplar os lentos entardeceres do verão do alto do Bourg-le-Four. Certa noite, viu-o debaixo da primeira garoa, sem abrigo ou guarda-chuva, fazendo fila com os estudantes para um concerto de Rubinstein. “Não sei como não pegou uma pneumonia”, disse depois para a mulher. No sábado anterior, quando o tempo começou a mudar, o havia visto comprando um abrigo de outono com uma gola de falso visom, mas não nas lojas luminosas da rue du Rhône, onde compravam os emires fugitivos, e sim
    no Mercado de Pulgas.

    . Então, não há nada a ser feito! – exclamou Lázara quando Homero
    contou tudo isso. – É um avarento de merda, capaz de se fazer enterrar pelabeneficência na vala comum. Nunca vamos tirar nada dele.

    . Vai ver é pobre de verdade – disse Homero -, depois de tantos anos sem
    emprego.

    . Ai, moreno, uma coisa é ser Peixes com ascendente em Peixes e outra
    coisa é ser idiota – disse Lázara.

    . Todo mundo sabe que se mandou com o ouro do governo e que é o
    exilado mais rico da Martinica. Homero, que era dez anos mais velho, havia crescido impressionado com a notícia de que o presidente estudara em Genebra, trabalhando como pedreiro. Lázara, porém, havia sido criada entre os escândalos da imprensa inimiga, magnificados numa casa de inimigos, onde foi babá desde menina. Portanto, na noite em que Homero chegou sufocado de júbilo porque havia almoçado com o presidente, para ela não foi suficiente o argumento de que havia sido convidado para um restaurante caro. Aborreceu-se com Homero por ele não ter pedido nada do muito que haviam sonhado, de bolsas de estudo para as crianças até um emprego melhor no hospital. Pareceu-lhe uma confirmação de suas suspeitas a decisão de que jogassem o seu cadáver aos urubus em vez de gastar seus francos num enterro digno e numa repatriação gloriosa. Mas a gota que transbordou o copo foi anotícia que Homero reservou para o final, de que havia convidado o presidente para comer arroz de camarões na quinta-feira à noite.

    . Só faltava essa – gritou Lázara -, que ele morra aqui, envenenado com
    camarões de lata, e a gente acabe tendo de enterrá-lo com as economias das crianças.

    O que enfim determinou sua conduta foi o peso de sua lealdade conjugal.
    Teve que pedir emprestados a uma vizinha três jogos de talheres de alpaca e uma saladeira de vidro, e a outra uma cafeteira elétrica, e a outra uma toalha bordada e um jogo chinês para o café. Trocou as cortinas velhas pelas novas, que eles só usavam em dias de festa, e tirou o forro dos móveis. Passou um dia inteiro esfregando o chão, sacudindo o pó, mudando coisas de lugar, até que conseguiu o contrário do que para eles teria sido mais conveniente, que eracomover o convidado com o decoro de sua pobreza.

    Na quinta-feira à noite, depois que se repôs do sufoco dos oito andares, o
    presidente apareceu na porta com o novo abrigo velho e o chapéu melão de outro tempo, e com uma única rosa para Lázara.

    Ela se impressionou com sua formosura viril e suas maneiras de príncipe,
    mas acima de tudo viu-o como esperava: falso e rapinante. Pareceu-lhe
    impertinente, porque ela havia cozinhado com todas as janelas abertas para
    evitar que o vapor dos camarões impregnasse a casa, e a primeira coisa que ele fez ao entrar foi respirar fundo, como num êxtase súbito, e exclamar com os olhos fechados e os braços abertos: “Ah, o cheiro do nosso mar!”,

    Pareceu-lhe mais avarento que nunca por levar uma única rosa, sem
    dúvida roubada nos jardins públicos.

    Pareceu-lhe insolente, pelo desdém com que olhou os recortes de jornais
    sobre suas glórias presidenciais, e os galhardetes e bandeirolas da campanha, que Homero havia pregado com tanto candor na parede da sala.

    Achou-o duro de coração, porque nem cumprimentou Bárbara e Lázaro, que tinham feito um presente para ele, e durante o jantar mencionou duas coisas que não conseguia suportar: os cães e as crianças. No entanto, seu sentido caribenho da hospitalidade se impôs sobre seus preconceitos.

    Havia vestido a túnica africana de suas noites de festa e seus colares e
    pulseiras de candomblé, e não fez durante o jantar um único gesto nem disse uma palavra de sobra. Foi mais que impecável: perfeita.

    Na verdade o arroz de camarões não estava entre as virtutudes da sua
    cozinha, mas foi feito com os melhores desejos, e saiu muito bom. O presidente serviu-se duas vezes sem medir elogios, e encantou-se com as fatias fritas de banana madura e a salada de abacate, embora não tenha compartilhado as nostalgias.

    Lázara conformou-se com escutar até a sobremesa, quando Homero
    encalhou sem nenhum motivo no beco sem saída da existência de Deus.

    Tinha que ser – disse Lázara, com um sobressalto triunfal, e perguntou
    com bons modos: Não é demais dois Peixes numa mesma mesa?

    Eu sim, acredito que existe – disse o presidente -, mas não tem nada a ver
    com os seres humanos.

    Cuida de coisas muito maiores.

    Eu só acredito nos astros – disse Lázara, e sondou a reação do presidente.

    Que dia o senhor nasceu?

    Onze de março.

    . Tinha que ser – disse Lázara, com um sobressalto triunfal, e perguntou
    com bons modos:

    Não é demais dois Peixes numa mesma mesa?

    Os homens continuavam falando de Deus quando ela foi para a cozinha
    preparar o café. Havia recolhido os pratos e travessas e ansiava no fundo da alma que a noite acabasse bem. De regresso à sala com o café, deu de encontro com uma frase solta pelo presidente e que a deixou atônita:

    . Não tenha dúvida, meu querido amigo: a pior coisa que aconteceu a
    nosso pobre país é que eu tenha sido presidente. Homero viu Lázara na porta com as xícaras chinesas e a cafeteira emprestada, e achou que ela ia desmaiar. Também o presidente reparou nela.”Não me olhe assim, senhora”, disse de modo afável. “Estou falando com o coração.” E depois, voltando-se para Homero, terminou:

    . Pelo menos estou pagando caro pela minha insensatez.

    Lázara serviu o café, apagou o lustre que estava bem em cima da mesa e
    cuja luz inclemente estorvava a conversa, e a sala ficou numa penumbra íntima. Pela primeira vez se interessou pelo convidado, cuja graça não conseguia dissimular sua tristeza. A curiosidade de Lázara aumentou quando ele terminou o café e virou a xícara de boca para baixo para que a borra repousasse.

    O presidente contou a eles, depois da sobremesa, que havia escolhido a
    ilha de Martinica para seu desterro, pela amizade com o poeta Aimé Césaire, que naquela época acabava de publicar seu Cahier d’un retour au pays natal, e prestou-lhe ajuda para começar uma nova vida. Com o que lhes restava da herança da esposa compraram uma casa de madeiras nobres nas colinas de Fort de France, com telas de arame nas janelas e uma varanda de mar cheia de flores primitivas, onde era um gozo dormir com o alvoroço dos grilos e a brisa de melado e rum de cana dos trapiches. Ficou ali com a esposa, catorze anos mais velha que ele e doente desde seu parto único, entrincheirado contra o destino na releitura viciosa de seus clássicos latinos, em latim, e com a convicção de que aquele era o ato final de sua vida.

    Durante anos precisou resistir às tentações de todo tipo de aventura que
    seus partidários derrotados lhe propunham.

    . Mas nunca tornei a abrir uma carta – disse.

    . Nunca, desde que descobri que até as mais urgentes eram menos
    urgentes uma semana depois, e que dois meses depois não se lembrava delas nem mesmo quem as havia escrito.

    Olhou para Lázara à meia-luz quando ela acendeu um cigarro, e tirou-o da
    mulher com um movimento ávido dos dedos. Deu uma tragada profunda, e reteve a fumaça na garganta. Lázara, surpreendida, apanhou o maço e os
    fósforos para acender outro, mas ele devolveu-lhe o cigarro aceso. “A senhora fuma com tanto gosto que não pude resistir à tentação”, disse ele. Mas teve que soltar a fumaça porque sofreu um princípio de tosse.

    . Abandonei o vício há muitos anos, mas ele não me abandonou – disse. –
    Algumas vezes, consegue me vencer. Como agora. A tosse deu-lhe duas outras sacudidas. A dor voltou. O presidente olhou
    as horas no reloginho de bolso, e tomou as duas pílulas da noite. Depois, sondou o fundo da xícara: nada havia mudado, mas daquela vez não
    estremeceu.

    Tem mentira e não tem – disse o presidente com uma calma celestial. –
    Tratando-se de um presidente, as piores ignomínias podem ser as duas coisas ao mesmo tempo: verdade e mentira.

    Havia vivido na Martinica todos os dias do exílio, sem outro contato com
    o exterior que as poucas notícias do jornal oficial, sustentando-se com as aulas de espanhol e latim num liceu oficial e com as traduções que às vezes Aim Césaire encomendava.

    Alguns de meus antigos partidários foram presidentes depois de mim –
    disse.

    Sáyago – disse Homero.

    Sáyago e outros – disse ele. – Todos como eu: usurpando uma honra que
    não merecíamos com um ofício que não sabíamos fazer. Alguns perseguem só o poder, mas a maioria busca ainda menos que isso: o emprego.

    Lázara se encrespou.

    O senhor sabe o que dizem do senhor?
    perguntou.

    Homero, alarmado, interveio:

    Tudo mentira.

    . Tem mentira e não tem – disse o presidente com uma calma celestial. –
    Tratando-se de um presidente, as piores ignomínias podem ser as duas coisas ao mesmo tempo: verdade e mentira.

    Havia vivido na Martinica todos os dias do exílio, sem outro contato com
    o exterior que as poucas notícias do jornal oficial, sustentando-se com as aulas de espanhol e latim num liceu oficial e com as traduções que às vezes Aimé Césaire encomendava.

    O calor era insuportável em agosto, e ele ficava na rede até o meio-dia,
    lendo ao arrulho do ventilador no teto do dormitório. Sua mulher cuidava dos pássaros que criava soltos, mesmo nas horas de mais calor, protegendo-se do sol com um chapéu de palha de abas grandes, adornado de morangos artificiais e flores de organdi. Mas quando o calor diminuía era bom tomar a fresca na varanda, ele com a vista fixa no mar até que chegavam as trevas, e ela em sua cadeira de balanço de vime, com o chapéu de aba quebrada e as bijuterias em todos os dedos, vendo passar os navios do mundo. “Esse vai para Puerto Santo”, dizia ela. “Esse quase nem pode andar com a carga de banana-ouro de Puerto Santo”, dizia. Pois achava impossível que passasse um barco que não fosse de sua terra. Ele bancava o surdo, embora no fim ela tenha conseguido esquecer melhor que ele, porque ficou sem memória. Permaneciam assim até que terminavam os crepúsculos fragorosos, e tinham que se refugiar na casa derrotados pelos mosquitos. Num daqueles tantos agostos, enquanto lia o jornal na varanda, o presidente deu um salto de assombro.

    . Porra! – disse. – Morri no Estoril!

    Sua esposa, levitando no torpor, espantou-se com a notícia. Eram seis
    linhas na quinta página do jornal que era impresso na virada da esquina, onde publicavam suas traduções ocasionais, e cujo diretor passava para visitá-lo de vez em quando. E agora dizia que tinha morrido no Estoril de Lisboa, balneário e abrigo da decadência européia, onde nunca havia estado, e talvez o único lugar do mundo onde não teria querido morrer. A esposa morreu de verdade um ano depois, atormentada pela última lembrança que lhe restava para aquele instante: a do filho único, que havia participado na derrubada do pai, e foi fuzilado mais tarde por seus próprios cúmplices.

    O presidente suspirou. “Somos assim, e nada poderá redimir-nos”, disse.
    “Um continente concebido pela merda do mundo inteiro sem um instante de amor: filhos de raptos, violações, de tratos infames, de enganos, de inimigos com inimigos.” Enfrentou os olhos africanos de Lázara, que o examinavam sem piedade, e tentou amansá-la com sua lábia de velho professor.

    . A palavra mestiçagem significa misturar as lágrimas com o sangue que
    corre. O que se pode esperar de semelhante beberagem?

    Lázara cravou-o em seu lugar com um silencio de morte. Mas conseguiu
    superar-se, pouco antes da meia-noite, e despediu-se dele com um beijo formal.

    O presidente se opôs a que Homero o acompanhasse ao hotel, mas não
    pôde impedir que o ajudasse a conseguir um táxi. De volta para casa, Homero encontrou a mulher desfeita em fúria.

    . Esse é o presidente mais bem derrubado do mundo – disse ela. – Um
    tremendo filho da puta.

    Apesar dos esforços que Homero fez para tranqüilizá-la, passaram em
    claro uma noite terrível. Lázara reconhecia que era um dos homens mais belos que havia visto, com um poder de sedução devastador e uma virilidade de reprodutor. “Do jeito que está, velho e fodido, ainda deve ser um tigre na cama”, disse. Mas achava que havia desperdiçado esses dons de Deus a serviço do fingimento. Não podia suportar seus alardes por ter sido o pior presidente de seu país. Nem seu jeito de asceta, pois estava convencida de que era dono de metade das usinas de açúcar da Martinica. Nem a hipocrisia de seu desdém pelo poder, se era evidente que daria tudo para voltar nem que fosse por um minuto à presidência para mandar seus inimigos comer pó.

    . E tudo isso – concluiu – só para nos ter rendidos aos seus pés.

    . O que ele pode ganhar com isso? – perguntou Homero.

    . Nada – disse ela. – Acontece que a vaidade é um vício que não se sacia
    com nada.

    Era tanta a sua fúria que Homero não conseguiu agüentá-la na cama, e foi
    terminar a noite enrolado num cobertor no divã da sala. Lázara levantou-se
    também de madrugada, nua de corpo inteiro, como costumava dormir e ficar em casa, e falando sozinha num monólogo de uma corda só. Num instante apagou da memória da humanidade qualquer rastro do jantar indesejável. Devolveu ao amanhecer as coisas emprestadas, mudou as cortinas novas pelas velhas e pôs os móveis em seu lugar, até que a casa voltou a ser tão pobre e decente como havia sido até a noite anterior. Finalmente arrancou os recortes de jornal, os retratos, as bandeirolas e galhardetes da campanha abominável, e jogou tudo na lata de lixo com um grito final.

    . Vai pro caralho!

    Uma semana depois do jantar, Homero encontrou o presidente esperando
    por ele na saída do hospital, com a súplica de que o acompanhasse até seu
    hotel. Subiram os três andares empinados até uma água-furtada com uma única clarabóia que dava para um céu de cinzas, e atravessada por uma corda com roupa para secar. Havia além disso uma cama de casal que ocupava a metade do espaço, uma cadeira simples, uma bacia e um bidê portátil, e um guarda roupa de pobre com um espelho nublado. O presidente reparou na impressão de Homero.

    É o mesmo cubículo onde vivi meus anos de estudante – disse, como que
    se desculpando.
    Reservei-o de Fort de France.

    Tirou de um pequeno saco de veludo e espalhou sobre a cama o saldo
    final de seus recursos: várias pulseiras de ouro com diferentes adornos de
    pedras preciosas, um colar de pérolas de três voltas e outros dois de ouro e
    pedras preciosas; três correntes de ouro com medalhas de santos e um par de brincos de ouro com esmeraldas, outro com diamantes e outro com rubis; três relicários, onze anéis com todo tipo de pedras preciosas e um diadema de brilhantes que podia ter sido de uma rainha. Depois tirou de um estojo diferente três pares de abotoaduras de prata e duas de ouro com seus correspondentes prendedores de gravata, e um relógio de bolso folheado em ouro branco. Finalmente tirou de uma caixa de sapatos suas seis condecorações: duas de ouro, uma de prata, e o resto de pura sucata.

    . É tudo o que me resta na vida – disse.

    Não tinha outra alternativa a não ser vender tudo para completar os
    gastos médicos, e desejava que Homero fizesse o favor com o maior sigilo. No entanto, Homero não se sentiu capaz de ajudá-lo se não tivesse as notas fiscais em regra.

    O presidente lhe explicou que eram prendas de sua esposa herdadas de
    uma avó colonial que por sua vez havia herdado um pacote de ações de minas de ouro da Colômbia. O relógio, as abotoaduras e os prendedores de gravata eram dele. As condecorações, claro, não tinham sido de ninguém antes.

    . Não acredito que alguém tenha notas fiscais de coisas como essas – disse.

    Homero foi inflexível.

    . Nesse caso – refletiu o presidente -, não tenho outro remédio a não ser
    mostrar minha cara.

    Começou a recolher as jóias com uma calma calculada.

    “Peço que me perdoe, meu querido Homero, mas é que não há pior
    pobreza que a de um presidente pobre”, disse. “Até sobreviver parece indigno.”

    Nesse instante, Homero viu-o com o coração, e se rendeu.

    Naquela noite, Lázara voltou tarde para casa.

    Da porta viu as jóias radiantes debaixo da luz de mercúrio da sala, e foi
    como se tivesse visto um escorpião em sua cama.

    . Não seja imbecil, moreno – disse assustada.

    . O que estas coisas estão fazendo aqui?

    A explicação de Homero deixou-a ainda mais inquieta. Sentou-se para
    examinar as jóias, uma por uma, com uma meticulosidade de ourives. Num
    certo momento suspirou: “Deve valer uma fortuna.” No final, ficou olhando Homero sem encontrar uma saida para seu ofuscamento.

    . Caralho – disse. – Como é que a gente faz para saber se o que esse homem falou é verdade?

    . E por que não? – disse Homero. – Acabo de ver que ele mesmo lava sua
    roupa, e a seca no quarto igualzinho a nós, pendurada num arame.

    . Porque é avarento – disse Lázara.

    . Ou porque é pobre – disse Homero.

    Lázara tornou a examinar as jóias, mas agora com menos atenção, porque
    ela também estava vencida. Assim, na manhã seguinte vestiu-se com o que tinha de melhor, enfeitou-se com as jóias que lhe pareceram as mais caras, pôs quantos anéis pôde em cada dedo, até no polegar, e quantas pulseiras conseguiu em cada braço, e foi
    vendê-las. “Vamos ver quem pede nota fiscal a Lázara Davis”, disse ao sair,
    empavonando-se de riso. Escolheu a joalheria exata, com mais ares de prestígio, onde sabia que vendia-se e comprava-se sem muitas perguntas, e entrou apavorada mas pisando firme.

    Um vendedor vestido a rigor, enxuto e pálido, fez para ela uma vênia
    teatral ao beijar sua mão, e colocou-se às suas ordens. O interior era mais claro que o dia, pelos espelhos e as luzes intensas, e a loja inteira parecia um diamante. Lázara, olhando pouco para o funcionário com temor que ele percebesse a farsa, continuou até o fundo.

    O funcionário convidou-a a sentar-se diante de uma das três escrivaninhas
    Luis XV que serviam de vitrines individuais, e estendeu em cima um lenço
    imaculado. Depois sentou-se na frente de Lázara e esperou.

    . Em que posso servi-la?

    Ela tirou os anéis, as pulseiras, os colares, os brincos, tudo que estava à
    vista, e foi colocando sobre a escrivaninha numa ordem de tabuleiro de xadrez.

    A única coisa que queria, disse, era conhecer seu verdadeiro valor.
    O joalheiro pôs o monóculo no olho esquerdo, e começou a examinar as
    jóias com um silêncio clínico.

    Após um longo tempo, sem interromper o exame, perguntou:

    . De onde a senhora é?

    Lázara não havia previsto esta pergunta.

    . Ai, meu senhor – suspirou. – De muito longe.

    . Imagino – disse ele.

    Voltou ao silencio, enquanto Lázara examinava-o sem misericórdia com
    seus terríveis olhos de ouro.

    O joalheiro consagrou uma atenção especial ao diadema de diamantes, e
    colocou-o separado das outras jóias. Lázara suspirou.

    . O senhor é um Virgem perfeito – disse.

    O joalheiro não interrompeu o exame.

    . Como sabe?

    . Pelo seu modo de ser – disse Lázara.

    Ele não fez nenhum comentário até que terminou, e dirigiu-se a ela com a
    mesma parcimônia do princípio.

    . De onde vem tudo isso?

    . Herança da minha avó – disse Lázara com voz tensa. – Morreu o ano
    passado em Paramaribo, aos noventa e sete anos.

    O joalheiro olhou-a então nos olhos. “Sinto muito”, disse. “Mas o único
    valor destas coisas é o peso do ouro.” Pegou o diadema com a ponta dos dedos e fez com que brilhasse debaixo da luz deslumbrante.

    . Menos esta – disse. – É muito antiga, egípcia talvez, e teria um valor
    incalculável se não fosse pelo estado dos brilhantes. Mas de todo modo, tem um certo valor histórico. Em troca, as pedras das outras jóias, as ametistas, as esmeraldas, os rubis, os opalas, todas, sem exceção, eram falsas. “Sem dúvida, as originais foram boas”, disse o joalheiro, enquanto recolhia as peças para devolvê-las. “Mas de tanto passar de uma geração a outra as pedras legítimas foram ficando no caminho, substituídas por cacos de garrafa.” Lázara sentiu uma náusea verde, respirou fundo e dominou o pânico. O vendedor a consolou:

    . É comum acontecer, senhora.

    . Já sei – disse Lázara, aliviada. – Por isso quero me livrar delas.

    Então sentiu que estava além da farsa, e tornou a ser ela mesma. Sem mais
    rodeios tirou da bolsa as abotoaduras, o relógio de bolso, os prendedores de gravata, as condecorações de ouro e prata, e o resto das jóias pessoais do presidente, e pôs tudo em cima da mesa.

    . Isto também? – perguntou o joalheiro.

    . Tudo – disse Lázara.

    Os francos suíços com que lhe pagaram eram tão novos que teve medo de
    manchar os dedos com a tinta fresca. Recebeu-os sem contar, e o joalheiro
    despediu-se na porta com a mesma cerimônia da recepção.

    Já de saída, segurando a porta de vidro para ela, atrasou-a um instante.

    . Uma última coisa, senhora – disse -, sou Aquário.

    No começo da noite Homero e Lázara levaram o dinheiro ao hotel. Feitas
    todas as contas, faltava um pouco. De maneira que o presidente tirou e foi
    pondo sobre a cama a aliança de casamento, o relógio com a corrente e as
    abotoaduras e o prendedor de gravatas que estava usando.

    Lázara devolveu-lhe a aliança.

    . Isto não – disse. – Uma lembrança destas não se pode vender.

    O presidente admitiu e tornou a pôr a aliança.

    Lázara devolveu-lhe também o relógio do colete. “Isto também não”, disse.

    O presidente não concordou mas ela o colocou em seu lugar.

    . Quem pode querer vender relógios na Suíça?

    . Já vendemos um – disse o presidente.

    . Sim, mas não porque era relógio, porque era de ouro.

    . Este também é de ouro – disse o presidente.

    Sim – disse Lázara. – Só que o senhor pode até ficar sem se operar, mas
    não pode ficar sem saber as horas.

    Tampouco aceitou a armação de ouro dos óculos, embora ele tivesse outro
    par com armação de tartaruga. Calculou na mão o peso das jóias, e pôs um fim às dúvidas.

    . Além do mais – disse -‘ isto basta.

    Antes de sair, tirou da corda a roupa molhada, sem consultá-lo, e levou-a
    para secar e passar em casa. Foram embora na motoneta, Homero conduzindo, e Lázara na garupa, abraçada à sua cintura.

    As luzes dos postes acabavam de ser acesas na tarde malva. O vento havia
    arrancado as últimas folhas, e as árvores pareciam fósseis depenados.
    Um rebocador descia pelo Ródano com um rádio a todo volume que ia
    deixando pelas ruas uma trilha de música. Georges Brassens cantava:
    Mon amour tiens bien la barre, le temps va passer par lã, et le temps est
    una barbare dans le genre d’A ttila, par lã oà son cheval passe Pamour ne
    repousse pas. Homero e Lázara corriam em silencio embriagados pela canção e o cheiro memorável dos jacintos. Após um tempinho, ela pareceu despertar de um longo sonho.

    . Caralho! – disse.

    . O que?

    . Coitado do velho! – disse Lázara. – Que vida de merda!

    Na sexta-feira seguinte, 7 de outubro, o presidente foi operado numa
    sessão de cinco horas que num primeiro momento deixou as coisas tão obscuras como estavam. A rigor, o único consolo era saber que estava vivo. Depois de dez dias, foi levado para um quarto com outros doentes, e puderam visitá-lo. Era outro: desorientado e macilento, e com um cabelo ralo que se soltava com o puro roçar do travesseiro. De sua antiga altivez só lhe restava a fluidez das mãos. Sua primeira tentativa de caminhar com duas bengalas ortopédicas foi desalentadora.

    Lázara ficava para dormir ao seu lado para economizar o custo de uma
    enfermeira noturna. Um dos doentes do quarto passou a primeira noite
    gritando com pânico da morte. Aquelas vigílias intermináveis acabaram com as últimas resistências de Lázara.

    Quatro meses depois de ter chegado a Genebra, teve alta. Homero,
    administrador meticuloso de seus fundos exíguos, pagou as contas do hospital e levou-o em sua ambulância com outros empregados que ajudaram a subi-lo até o oitavo andar. Instalou-se no quarto das crianças, que nunca reconheceu, e pouco a pouco voltou à realidade. Empenhou-se nos exercícios de reabilitação com um rigor militar, e voltou a caminhar com sua bengala solitária. Mas mesmo vestido com a boa roupa de antes estava muito longe de ser o mesmo, tanto por seu aspecto quanto por sua maneira de ser. Temeroso do inverno que se anunciava muito severo, e que na realidade foi o mais cruel do século atéaquela altura, decidiu regressar num barco que zarpava de Marselha no dia 13 de dezembro, contra a opinião dos médicos que queriam vigiá-lo um pouco mais. Na última hora o dinheiro não deu para tudo, e Lázara quis completá-lo escondida de seu marido com um arranhão a mais nas economias das crianças,
    mas também ali encontrou menos do que esperava. Então Homero confessou que havia pegado escondido dela para completar a conta do hospital.
    Bem – resignou-se Lázara. – Digamos que era o filho mais velho.

    No dia 11 de dezembro foi embarcado no trem de Marselha debaixo de
    uma forte tormenta de neve, e só quando voltaram para casa encontraram uma carta de despedida no criado-mudo das crianças. Deixou lá sua aliança para Bárbara, junto com a da esposa morta, que jamais tentou vender, e o relógio de corrente para Lázaro. Como era domingo, alguns vizinhos caribenhos que descobriram o segredo haviam acudido à estação de Cornavin com um conjunto de harpas de Veracruz. O presidente estava sem fôlego, com o abrigo de perdulário e um longo cachecol colorido que tinha sido de Lázara, mas ainda assim permaneceu na boléia do último vagão acenando com o chapéu debaixo do açoite do vendaval.

    O trem começava a acelerar quando Homero percebeu que tinha ficado
    com a bengala. Correu até o extremo da plataforma e lançou-a com bastante força para que o presidente a agarrasse no ar, mas ela caiu entre as rodas e foi destroçada. Foi um instante de terror. A última coisa que Lázara viu foi a mão trêmula esticada para agarrar a bengala que nunca alcançou, e o guarda do trem que conseguiu agarrar pelo cachecol o ancião coberto de neve, e salvou-o no vazio. Lázara correu apavorada ao encontro do marido tentando rir entre as lágrimas.

    . Deus meu – gritou para ele -, esse homem não morre de jeito nenhum.

    Chegou são e salvo, conforme anunciou em seu extenso telegrama de
    gratidão. Não se voltou a saber nada dele durante mais de um ano. Por fim
    chegou uma carta de seis folhas manuscritas na qual já era impossível
    reconhecê-lo. A dor havia voltado, tão intensa e pontual como antes, mas ele decidiu não dar importância e dedicar-se a viver a vida do jeito que fosse. O poeta Aimé Césaire tinha lhe dado outra bengala com incrustações de nácar, mas estava decidido a não usá-la. Fazia seis meses que comia carne com regularidade, e todo tipo de mariscos, e era capaz de beber até vinte xícaras diárias de café da montanha. Mas já não lia o fundo da xícara porque seus prognósticos saíam ao contrário.

    No dia em que fez setenta e cinco anos havia tomado uns cálices pequenos
    do esplêndido rum da Martinica, que caíram muito bem, e voltou a fumar. Nãose sentia melhor, é claro, nem pior. No entanto, o motivo real da carta era para comunicar-lhes que se sentia tentado a voltar ao seu país para colocar-se à frente de um movimento renovador, por uma causa justa e uma pátria digna, nem que fosse apenas pela glória mesquinha de não morrer de velhice na própria cama. Neste sentido, concluía a carta, a viagem para Genebra tinha sido providencial.
    Junho de 1979

    Gabriel Garcia Márquez – 1927/2014.

  • DO CANTO DO FORTE PARA À PRAIA

    Antônio José Christovão – 2023.

  • PEQUENAS DOSES

    Luiz Antônio Nogueira da Guia.

    Populismo em desespero

    O prefeito de Búzios, Alexandre Martins (Republicanos), fotografado de enxada na mão, tentando limpar e desobstruir ralos da rede de águas pluviais é um exemplo claro de desenfreado de populismo oportunista. No mínimo, fazendo um trabalho, que seu governo já deveria ter executado com bastante antecedência para que a população não fosse prejudicada.Como diria minha avó, “Babau seu Chico”.

    As nuvens celestes engordaram

    Os prefeitos tendem a colocar a culpa no velho e bom São Pedro, que durante muito tempo controlou as gordas torneiras das nuvens celestes. Acontece que com o passar dos anos e a falta de consciência das tribos dos humanos se desenvolveu o tal do aquecimento global, que foi tirando das mãos do velho santo o controle das torneiras celestes, provocando desastres aqui, ali e acolá. Quem sofre? A população mais pobre.

    Demagogia é sinônimo de crueldade.

    Outros prefeitos, também numerosos, tem a audácia de colocar a culpa dos desastres ditos “naturais” na população mais pobre que, mora em lugares inadequados, digamos assim. O problema é que nenhum desses prefeitos cumpre a legislação como deveria, impedindo a construção em lugares perigosos e criando políticas habitacionais, que atendessem as necessidades habitacionais.

    Demagogia é sinônimo de crueldade 2

    O resultado dessa inércia ou descaso administrativo por parte das prefeituras leva a população mais pobre a se ajeitar em áreas consideradas de risco. Na hora das chuvas torrenciais, obviamente é o setor da população mais atingido, o que mais sofre. Fazer demagogia nesses momentos é sinônimo de crueldade.

    A Biblioteca

    A Biblioteca Municipal Walter Nogueira executa belo trabalho em benefício da população, especialmente dos estudantes das redes públicas do estado e do município. O prédio, porém, que abriga a biblioteca está em péssimo estado e em outras coisas não recebe mais doações por falta de espaço. Uma pena que a mesma prefeitura, que tão rapidamente reformou o “Correão” não tenha a mesma presteza para atender a biblioteca.

    Na Faixa de Gaza

    O professor José Américo Trindade, conhecido como o “russo branco”, Capitão Babadovsky ou simplesmente Babade, Octávio Perelló, João Sérgio e o militante do PSOL, Cláudio Leitão, formaram na tarde de ontem a linha de frente contra o avanço sionista e imperialista no Oriente Médio. Todos sentiram a falta do maior defensor da Palestina, na Região dos Lagos, Juninho Nogueira, que anda sumido lá pelas bandas do Jardim Flamboyant ou entocado na Faixa de Gaza. A conferir!

    Nas redes sociais …

    As redes sociais da Internet tem sido palco de conflitos e denúncias de toda sorte, particularmente contra o governo municipal, o que de certa maneira espelha o início da corrida eleitoral. Lamentavelmente, percebe-se que boa parte das denúncias não vem acompanhadas de provas contundentes, mas dotadas de muita agressividade.

    Fissuras na Câmara?

    A tendência é aparecerem algumas fissuras, na Câmara, eliminando o monopólio político do governo no Legislativo. Alguns vereadores, obviamente apoiarão candidatos (acordos antigos) que não aqueles do prefeito Serginho Azevedo. É bom ficar de olho nos efeitos na administração pública, principalmente nas relações Executivo/Legislativo.

  • DIVULGAÇÃO
  • CASA TOMADA

    Júlio Cortázar (*)

    Gostávamos da casa porque, além de ser espaçosa e antiga (as casas antigas de hoje sucumbem às mais vantajosas liquidações dos seus materiais), guardava as lembranças de nossos bisavós, do avô paterno, de nossos pais e de toda a nossa infância.

    Acostumamo-nos Irene e eu a persistir sozinhos nela, o que era uma loucura, pois nessa casa poderiam viver oito pessoas sem se estorvarem. Fazíamos a limpeza pela manhã, levantando-nos às sete horas, e, por volta das onze horas, eu deixava para Irene os últimos quartos para repassar e ia para a cozinha. O almoço era ao meio-dia, sempre pontualmente; já que nada ficava por fazer, a não ser alguns pratos sujos. Gostávamos de almoçar pensando na casa profunda e silenciosa e em como conseguíamos mantê-la limpa. Às vezes chegávamos a pensar que fora ela a que não nos deixou casar. Irene dispensou dois pretendentes sem motivos maiores, eu perdi Maria Esther pouco antes do nosso noivado. Entramos na casa dos quarenta anos com a inexpressada ideia de que o nosso simples e silencioso casamento de irmãos era uma necessária clausura da genealogia assentada por nossos bisavós na nossa casa. Ali morreríamos algum dia, preguiçosos e toscos primos ficariam com a casa e a mandariam derrubar para enriquecer com o terreno e os tijolos; ou melhor, nós mesmos a derrubaríamos com toda justiça, antes que fosse tarde demais.

    Irene era uma jovem nascida para não incomodar ninguém. Fora sua atividade matinal, ela passava o resto do dia tricotando no sofá do seu quarto. Não sei por que tricotava tanto, eu penso que as mulheres tricotam quando consideram que essa tarefa é um pretexto para não fazerem nada. Irene não era assim, tricotava coisas sempre necessárias, casacos para o inverno, meias para mim, xales e coletes para ela. Às vezes tricotava um colete e depois o desfazia num instante porque alguma coisa lhe desagradava; era engraçado ver na cestinha aquele monte de lã encrespada resistindo a perder sua forma anterior. Aos sábados eu ia ao centro para comprar lã; Irene confiava no meu bom gosto, sentia prazer com as cores e jamais tive que devolver as madeixas. Eu aproveitava essas saídas para dar uma volta pelas livrarias e perguntar em vão se havia novidades de literatura francesa. Desde 1939 não chegava nada valioso na Argentina. Mas é da casa que me interessa falar, da casa e de Irene, porque eu não tenho nenhuma importância. Pergunto-me o que teria feito Irene sem o tricô. A gente pode reler um livro, mas quando um casaco está terminado não se pode repetir sem escândalo. Certo dia encontrei numa gaveta da cômoda xales brancos, verdes, lilases, cobertos de naftalina, empilhados como num armarinho; não tive coragem de lhe perguntar o que pensava fazer com eles. Não precisávamos ganhar a vida, todos os meses chegava dinheiro dos campos que ia sempre aumentando. Mas era só o tricô que distraía Irene, ela mostrava uma destreza maravilhosa e eu passava horas olhando suas mãos como puas prateadas, agulhas indo e vindo, e uma ou duas cestinhas no chão onde se agitavam constantemente os novelos. Era muito bonito.

    Como não me lembrar da distribuição da casa! A sala de jantar, uma sala com gobelins, a biblioteca e três quartos grandes ficavam na parte mais afastada, a que dá para a rua Rodríguez Pena. Somente um corredor com sua maciça porta de mogno isolava essa parte da ala dianteira onde havia um banheiro, a cozinha, nossos quartos e o salão central, com o qual se comunicavam os quartos e o corredor. Entrava-se na casa por um corredor de azulejos de Maiorca, e a porta cancela ficava na entrada do salão. De forma que as pessoas entravam pelo corredor, abriam a cancela e passavam para o salão; havia aos lados as portas dos nossos quartos, e na frente o corredor que levava para a parte mais afastada; avançando pelo corredor atravessava-se a porta de mogno e um pouco mais além começava o outro lado da casa, também se podia girar à esquerda justamente antes da porta e seguir pelo corredor mais estreito que levava para a cozinha e para o banheiro. Quando a porta estava aberta, as pessoas percebiam que a casa era muito grande; porque, do contrário, dava a impressão de ser um apartamento dos que agora estão construindo, mal dá para mexer-se; Irene e eu vivíamos sempre nessa parte da casa, quase nunca chegávamos além da porta de mogno, a não ser para fazer a limpeza, pois é incrível como se junta pó nos móveis. Buenos Aires pode ser uma cidade limpa; mas isso é graças aos seus habitantes e não a outra coisa. Há poeira demais no ar, mal sopra uma brisa e já se apalpa o pó nos mármores dos consoles e entre os losangos das toalhas de macramê; dá trabalho tirá-lo bem com o espanador, ele voa e fica suspenso no ar um momento e depois se deposita novamente nos móveis e nos pianos.

    Lembrarei sempre com toda a clareza porque foi muito simples e sem circunstâncias inúteis. Irene estava tricotando no seu quarto, por volta das oito da noite, e de repente tive a ideia de colocar no fogo a chaleira para o chimarrão. Andei pelo corredor até ficar de frente à porta de mogno entreaberta, e fazia a curva que levava para a cozinha quando ouvi alguma coisa na sala de jantar ou na biblioteca. O som chegava impreciso e surdo, como uma cadeira caindo no tapete ou um abafado sussurro de conversa. Também o ouvi, ao mesmo tempo ou um segundo depois, no fundo do corredor que levava daqueles quartos até a porta. Joguei-me contra a parede antes que fosse tarde demais, fechei-a de um golpe, apoiando meu corpo; felizmente a chave estava colocada do nosso lado e também passei o grande fecho para mais segurança.

    Entrei na cozinha, esquentei a chaleira e, quando voltei com a bandeja do chimarrão, falei para Irene:

    — Tive que fechar a porta do corredor. Tomaram a parte dos fundos.

    Ela deixou cair o tricô e olhou para mim com seus graves e cansados olhos.

    — Tem certeza?

    Assenti.

    — Então — falou pegando as agulhas — teremos que viver deste lado.

    Eu preparava o chimarrão com muito cuidado, mas ela demorou um instante para retornar à sua tarefa. Lembro-me de que ela estava tricotando um colete cinza; eu gostava desse colete.

    Os primeiros dias pareceram-nos penosos, porque ambos havíamos deixado na parte tomada muitas coisas de que gostávamos. Meus livros de literatura francesa, por exemplo, estavam todos na biblioteca. Irene pensou numa garrafa de Hesperidina de muitos anos. Frequentemente (mas isso aconteceu somente nos primeiros dias) fechávamos alguma gaveta das cômodas e nos olhávamos com tristeza.

    — Não está aqui.

    E era mais uma coisa que tínhamos perdido do outro lado da casa.

    Porém também tivemos algumas vantagens. A limpeza simplificou-se tanto que, embora levantássemos bem mais tarde, às nove e meia por exemplo, antes das onze horas já estávamos de braços cruzados. Irene foi se acostumando a ir junto comigo à cozinha para me ajudar a preparar o almoço. Depois de pensar muito, decidimos isto: enquanto eu preparava o almoço, Irene cozinharia os pratos para comermos frios à noite. Ficamos felizes, pois era sempre incômodo ter que abandonar os quartos à tardinha para cozinhar. Agora bastava pôr a mesa no quarto de Irene e as travessas de comida fria.

    Irene estava contente porque sobrava mais tempo para tricotar. Eu andava um pouco perdido por causa dos livros, mas, para não afligir minha irmã, resolvi rever a coleção de selos do papai, e isso me serviu para matar o tempo. Divertia-nos muito, cada um com suas coisas, quase sempre juntos no quarto de Irene que era o mais confortável. Às vezes Irene falava:

    — Olha esse ponto que acabei de inventar. Parece um desenho de um trevo?

    Um instante depois era eu que colocava na frente dos seus olhos um quadradinho de papel para que olhasse o mérito de algum selo de Eupen e Malmédy. Estávamos muito bem, e pouco a pouco começamos a não pensar. Pode-se viver sem pensar.

    (Quando Irene sonhava em voz alta eu perdia o sono. Nunca pude me acostumar a essa voz de estátua ou papagaio, voz que vem dos sonhos e não da garganta. Irene falava que meus sonhos consistiam em grandes sacudidas que às vezes faziam cair o cobertor ao chão. Nossos quartos tinham o salão no meio, mas à noite ouvia-se qualquer coisa na casa. Ouvíamos nossa respiração, a tosse, pressentíamos os gestos que aproximavam a mão do interruptor da lâmpada, as mútuas e frequentes insônias.

    Fora isso tudo estava calado na casa. Durante o dia eram os rumores domésticos, o roçar metálico das agulhas de tricô, um rangido ao passar as folhas do álbum filatélico. A porta de mogno, creio já tê-lo dito, era maciça. Na cozinha e no banheiro, que ficavam encostados na parte tomada, falávamos em voz mais alta ou Irene cantava canções de ninar. Numa cozinha há bastante barulho da louça e vidros para que outros sons irrompam nela. Muito poucas vezes permitia-se o silêncio, mas, quando voltávamos para os quartos e para o salão, a casa ficava calada e com pouca luz, até pisávamos devagar para não incomodar-nos. Creio que era por isso que, à noite, quando Irene começava a sonhar em voz alta, eu ficava logo sem sono.)

    É quase repetir a mesma coisa menos as consequências. Pela noite sinto sede, e antes de ir para a cama eu disse a Irene que ia até a cozinha pegar um copo d´água. Da porta do quarto (ela tricotava) ouvi barulho na cozinha ou talvez no banheiro, porque a curva do corredor abafava o som. Chamou a atenção de Irene minha maneira brusca de deter-me, e veio ao meu lado sem falar nada. Ficamos ouvindo os ruídos, sentindo claramente que eram deste lado da porta de mogno, na cozinha e no banheiro, ou no corredor mesmo onde começava a curva, quase ao nosso lado.

    Sequer nos olhamos. Apertei o braço de Irene e a fiz correr comigo até a porta cancela, sem olhar para trás. Os ruídos se ouviam cada vez mais fortes, porém surdos, nas nossas costas. Fechei de um golpe a cancela e ficamos no corredor. Agora não se ouvia nada.

    — Tomaram esta parte — falou Irene. O tricô pendia das suas mãos e os fios chegavam até a cancela e se perdiam embaixo da porta. Quando viu que os novelos tinham ficado do outro lado, soltou o tricô sem olhar para ele.

    — Você teve tempo para pegar alguma coisa? — perguntei-lhe inutilmente.

    — Não, nada.

    Estávamos com a roupa do corpo. Lembrei-me dos quinze mil pesos no armário do quarto. Agora já era tarde.

    Como ainda ficara com o relógio de pulso, vi que eram onze da noite. Enlacei com meu braço a cintura de Irene (acho que ela estava chorando) e saímos assim à rua. Antes de partir senti pena, fechei bem a porta da entrada e joguei a chave no ralo da calçada. Não fosse algum pobre-diabo ter a ideia de roubar e entrar na casa, a essa hora e com a casa tomada.

    Nota: Fonte e autoria da tradução não identificadas. O conto Casa Tomada foi publicado pela primeira vez em 1946 no periódico argentino Los Anales de Buenos Aires.

    Júlio Cortázar – 1914/1984.

  • O FORTE SÃO MATHEUS
    Antônio José Christovão – Foto de 2013.

    O Forte São Mateus é um ponto de referência histórico e turístico para a cidade. Fica num dos extremos da Praia do Forte, no topo de uma ilhota, ligada ao continente por uma pequena ponte.

    Apesar de não ser muito alto, a subida até lá em cima não é isenta de risco de queda. Esse risco tende a aumentar, naturalmente, com a idade e com quaquer problema físico, visual ou motor, de quem deseja subir, conhecer o Forte por dentro e apreciar a linda vista.

    O piso, muito irregular, é, em alguns trechos, parcialmente pavimentado por pedras incrustadas no solo, aparentemente realizado há séculos. Em outros trechos, pisa-se nas próprias pedras inclinadas que formam a ilha. Só existe uma corrente lateral para apoio, simulando um corrimão, a qual não inspira nenhuma confiança.

    Sei que não se pode desfigurar o sítio, em função da necessidade de se manter as suas características o mais próximo possível do original. Por outro lado, acredito que esse monumento mereceria um estudo das autoridades visando a encontrar e viabilizar uma forma de acesso segura, mas que o agredisse ao mínimo.

    Antônio José Christovão – Texto de 2026.

  • PEQUENAS DOSES

    Luiz Antônio Nogueira da Guia.

    O Teatro continua fechado

    Apesar dos inúmeros anúncios que a reforma doTeatro Municipal Inah de Azevedo Mureb está praticamente no fim, a sua reinauguração não acontece e o teatro para desgosto dos cabofrienses continua fechado. Quantas plateias deixaram de ser formadas nos últimos anos? Quantos grupos teatrais minguaram sem o teatro?

    Prateleiras diferentes

    As imagens da operação policial na prisão de um procurado pela justiça escondido no Condomínio da Ilha do Anjo refletem bem a assimetria da ação policial. Na favela, tiro, porrada e bomba, mas em condomínio de luxo a ação é bem conduzida, cirúrgica, sem disparar qualquer tiro. No vídeo, ao ser recolhido ao helicóptero o capturado não estava sequer algemado.

    Só Imagine

    Pois é, primeiro ressaltar a diferença e a importância da Polícia Federal quando ela comanda a investigação. Imagine meu caro leitor uma ação dessa natureza feita pela PM e Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro no Complexo do Alemão. Complexo da Penha ou mesmo por aqui, em bairros populares de Cabo Frio e Região dos Lagos.

    A culpa é de São Pedro?

    Mais uma vez as chuvas causaram grandes estragos em Cabo Frio e na Região dos Lagos. Não adianta colocar a culpa em São Pedro, que está com as costas cansadas de tanto ser acusado de tudo e mais um pouco pelos governantes terrenos. Não custa lembrar que é justamente São Pedro que tem em mãos as chaves para entrada no céu, portanto, não é bom brigar com ele

    Aquecimento global

    Que tal lembrar ao governo do Estado e aos senhores que administram a região que profundas alterações climáticas estão acontecendo e é preciso se preparar para elas? Certamente, ouviram falar em aquecimento global e suas consequências para a humanidade, principalmente para as cidades litorâneas. Que tal refletir sobre o tema?

    Impostos, Taxas e Contas a pagar

    No dia-a-dia de Cabo Frio nota-se grande irritação na sociedade pela maneira como foi aprovada e implementada a Taxa do Lixo, especialmente pela chamada classe média. Importante não esquecer que é essa camada da sociedade a mais gravada por impostos, particularmente no início do ano: a lista de impostos, taxas e contas a pagar é grande e explica a irritação da opinião pública.

    O humor nas redes sociais

    O governo e os técnicos em comunicação social da administração do prefeito Serginho Azevedo precisam começar a examinar com paciência e firmeza as razões do desgaste junto as redes sociais. O governo que tinha a hegemonia nas redes tem perdido gradativamente o apoio e sofrido uma chuva, quase diária, de questionamentos.

    O Desgaste

    É claro que parte do problema vem do desgaste natural do próprio governo e junto com ele o processo eleitoral de 2026, que aguça as denúncias mesmo nas almas mais recolhidas: desgastar o adversário em ano de eleição é quase um mantra na política brasileira. Não é só isso, é preciso colocar o pé no chão e tentar acertar o passo.

    Praia do Siqueira

    O lodo continua a ser retirado da tradicional Praia do Siqueira. É pouco, muito pouco para os anos de estragos no bairro, que segundo os fotógrafos, tem o mais belo por do sol da cidade. A Praia do Siqueira está precisando de uma reforma e maquiagem na orla, mais cuidado com o bairro que dá tanta coisa bonita para Cabo Frio.

  • CONTRABANDISTA

    João Simões Lopes Neto (*)

    Batia nos anos o corpo magro mas sempre teso do Jango Jorge, um que foi capitão duma maloca de contrabandistas que fez cancha nos banhados do Ibirocaí.

    Esse gaúcho desabotinado levou a existência inteira a cruzar os campos da fronteira: à luz do sol, no desmaiado da lua, na escuridão das noites, na cerração das madrugadas…; ainda que chovesse reiúnos acolherados ou que ventasse como por alma de padre, nunca errou vau, nunca perdeu atalho, nunca desandou cruzada!…

    Conhecia as querências, pelo faro: aqui era o cheiro do açouta-cavalo florescido, lá o dos trevais, o das guabirobas rasteiras, do capim-limão; pelo ouvido: aqui, cancha de graxains, lá os pastos que ensurdecem ou estalam no casco do cavalo; adiante, o chapechape, noutro ponto, o areão. Até pelo gosto ele dizia a parada, porque sabia onde estavam águas salobres e águas leves, com sabor de barro ou sabendo a limo.

    Tinha vindo das guerras do outro tempo; foi um dos que peleou na batalha de Ituzaingo; foi do esquadrão do general José de Abreu e sempre que falava do Anjo da Vitória ainda tirava o chapéu, numa braçada larga, como se cumprimentasse alguém de muito respeito, numa distância muito longe.

    Foi sempre um gaúcho quebralhão, e despilchado sempre, por ser muito de mãos abertas.

    Se numa mesa de primeira ganhava uma ponchada de balastracas, reunia a gurizada da casa, fazia — pi! pi! pi! pi! — como pra galinhas e semeava as moedas, rindo-se do formigueiro que a miuçalha formava, catando as pratas no terreiro.

    Gostava de sentar um laçaço num cachorro, mas desses laçaços de apanhar a paleta à virilha, e puxado a valer, tanto, que o bicho que o tomava, ficando entupido de dor, e lombeando-se, depois de disparar um pouco é que gritava, num — caim! caim! caim! — de desespero.

    Outras vezes dava-lhe para armar uma jantarola, e sobre o fim do festo, quando já estava tudo meio entropigaitado, puxava por uma ponta da toalha e lá vinha, de tirão seco, toda a traquitanda dos pratos e copos e garrafas e restos de comidas e caldas dosdoces!…

    Depois garganteava a chuspa e largava as onças pras unhas do bolicheiro, que aproveitava o vento e le echaba cuentas degran capitãn… Era um pagodista!

    Aqui há poucos anos — coitado — pousei no arranchamento dele. Casado ou doutro jeito, estava afamilhado. Não nos víamos desde muito tempo.

    A dona da casa era uma mulher mocetona ainda, bem parecida e mui prazenteira; de filhos, uns três matalotes já emplumados e uma mocinha — pro caso, uma moça —, que era o — santo-antoninho-onde-te-porei! — daquela gente toda.

    E era mesmo uma formosura; e prendada, mui habilidosa; tinha andado na escola e sabia botar os vestidos esquisitos das cidadãs da vila. E noiva, casadeira, já era. E deu o caso, que quando eu pousei, foi justo pelas vésperas do casamento; estavam esperando o noivo e o resto do enxoval dela. O noivo chegou no outro dia, grande alegria; começaram os aprontamentos, e como me convidaram com gosto, fiquei pro festo.

    O Jango Jorge saiu na madrugada seguinte, para ir buscar o tal enxoval da filha. Aonde, não sei; parecia-me que aquilo devia ser feito em casa, à moda antiga, mas, como cada um manda no que é seu…

    Fiquei verdeando, à espera, e fui dando um ajutório na matança dos leitões e no tiramento dos assados com couro.

    Nesta terra do Rio Grande sempre se contrabandeou, desde em antes da tomada das Missões.

    Naqueles tempos o que se fazia era sem malícia, e mais por divertir e acoquinar as guardas do inimigo: uma partida de guascas montava a cavalo, entrava na Banda Oriental e arrebanhava uma ponta grande de eguariços, abanava o poncho e vinha a meia-rédea; apartava-se a potrada e largava-se o resto; os de lá faziam conosco a mesma cousa; depois era com gados, que se tocava a trote e galope, abandonando os assoleanos.

    Isto se fazia por despique dos espanhóis e eles se pagavam desquitando-se do mesmo jeito.

    Só se cuidava de negacear as guardas do Cerro Largo, em Santa Tecla, no Haedo… O mais, era várzea!

    Depois veio a guerra das Missões; o governo começou a dar sesmarias e uns quantíssimos pesados foram-se arranchando por essas campanhas desertas. E cada um tinha que ser um rei pequeno… e aguentar-se com as balas, as lunares e os chifarotes que tinha em casa!…Foi o tempo do manda-quem-pode!… E foi o tempo que o gaúcho, o seu cavalo e o seu facão, sozinhos, conquistaram e defenderam estes pagos!…

    Quem governava aqui o continente era um chefe que se chamava o capitãogeneral; ele dava as sesmarias mas não garantia o pelego dos sesmeiros…

    Vancê tome tenência e vá vendo como as cousas, por si mesmas, se explicam. Naquela era, a pólvora era do el-rei nosso senhor e só por sua licença é que algum particular graúdo podia ter em casa um polvarim… Também só na vila de Porto Alegre é que havia baralhos de jogar, que eram feitos só na fábrica do rei nosso senhor, e havia fiscal, sim, senhor, das cartas de jogar, e ninguém podia comprar senão dessas!

    Por esses tempos antigos também o tal rei nosso senhor mandou botar pra fora os ourives da vila do Rio Grande e acabar com os lavrantes e prendistas dos outros lugares desta terra, só pra dar flux aos retnois…

    Agora imagine vancê se a gente lá de dentro podia andar com tantas etiquetas e pedindo louvado pra se defender, pra se divertir e pra luxar!… O tal rei nosso senhor não se enxergava, mesmo!… E logo com quem!… Com a gauchada!…

    Vai então, os estancieiros iam em pessoa ou mandavam ao outro lado, nos espanhóis, buscar pólvora e balas, pras pederneiras, cartas de jogo e prendas de ouro pras mulheres e preparos de prata pros arreios…; e ninguém pagava dízimos dessas cousas.

    Às vezes lá voava pelos ares um cargueiro, com cangalhas e tudo, numa explosão de pólvora; doutras uma partilha de milicianos saía de atravessado e tomava conta de tudo, a couce d’arma: isto foi ensinando a escaramuçar com os golas-de-couro.

    Nesse serviço foram-se aficionando alguns gaúchos: recebiam as encomendas e pra aproveitar a monção e não ir com os cargueiros debalde, levavam baeta, que vinha do reino, e fumo em corda, que vinha da Bahia, e algum porrão de canha. E faziam trocas, de elas por elas, quase. Os paisanos das duas terras brigavam, mas os mercadores sempre se entendiam…

    Isto veio mais ou menos assim até a guerra dos Farrapos; depois vieram as califórnias do Chico Pedro; depois a guerra do Rosas.

    Aí inundou-se a fronteira da província de espanhóis e gringos emigrados. A cousa então mudou de figura. A estrangeirada era mitrada, na regra, e foi quem ensinou a gente de cá a mergulhar e ficar de cabeça enxuta…; entrou nos homens a sedução de ganhar barato: bastava ser campeiro e destorcido. Depois, andava-se empandilhado, bem armado; podia-se às vezes dar um vareio nos milicos, ajustar contas com algum devedorde desaforos, aporrear algum subdelegado abelhudo…

    Não se lidava com papéis nem contas de cousas: era só levantar os volumes, encangalhar, tocar e entregar!… Quanta gauchagem leviana aparecia, encostava-se. Rompeu a guerra do Paraguai. O dinheiro do Brasil ficou muito caro: uma onça de ouro, que corria por trinta e dois, chegou a valer quarenta e seis mil-réis!… Imagine o que a estrangeirada bolou nas contas!…

    Começou-se a cargueirear de um tudo: panos, águas de cheiro, armas, minigâncias, remédios, o diabo a quatro!… Era só pedir por boca! Apareceram também os mascates de campanha, com baús encangalhados e canastras, que passavam pra lá vazios e voltavam cheios, desovar aqui…

    Polícia pouca, fronteira aberta, direitos de levar couro e cabelo e nas coletarias umas papeladas cheias de benzeduras e rabioscas… Ora… ora!… Passar bem, paisano!…

    A semente grelou e está a árvore ramalhuda, que vancê sabe, do contrabando de hoje. O Jango Jorge foi maioral nesses estropícios. Desde moço. Até a hora da morte.

    Eu vi.

    Como disse, na madrugada véspera do casamento o Jango Jorge saiu para ir buscar o enxoval da filha. Passou o dia; passou a noite.

    No outro dia, que era o do casamento, até de tarde, nada. Havia na casa uma gentama convidada; da vila, vizinhos, os padrinhos, autoridades, moçada. Havia de se dançar três dias!… Corria o amargo e copinhos de licor de butiá.

    Roncavam cordeonas no fogão, violas na ramada, uma caixa de música na sala. Quase ao entrar do sol a mesa estava posta, vergando ao peso dos pratos enfeitados.

    A dona da casa, por certo traquejada nessas bolandinas do marido, estava sossegada, ao menos ao parecer.

    Às vezes mandava um dos filhos ver se o pai aparecia, na volta da estrada, encoberta por uma restinga fechada de arvoredo.

    Surgiu dum quarto o noivo, todo no trinque, de colarinho duro e casaco de rabo. Houve caçoadas, ditérios, elogios.

    Só faltava a noiva; mas essa não podia aparecer, por falta do seu vestido branco, dos seus sapatos brancos, do seu véu branco, das suas flores de laranjeira, que o pai fora buscar e ainda não trouxera. As moças riam-se; as senhoras velhas cochichavam.

    Entardeceu.

    Nisto correu voz que a noiva estava chorando: fizemos uma algazarra e ela — tãoboazinha! — veio à porta do quarto, bem penteada, ainda num vestidinho de chita de andar em casa, e pôs-se a rir pra nós, pra mostrar que estava contente.

    A rir, sim, rindo na boca, mas também a chorar lágrimas grandes, que rolavam devagar nos olhos pestanudos…

    E rindo e chorando estava, sem saber por quê… sem saber por que, rindo e chorando, quando alguém gritou do terreiro: — Aí vem o Jango Jorge, com mais gente!…

    Foi um vozerio geral; a moça porém ficou, como estava, no quadro da porta, rindo e chorando, cada vez menos sem saber por quê… pois o pai estava chegando e o seu vestido branco, o seu véu, as suas flores de noiva… Era já fusco-fusco. Pegaram a acender as luzes.

    E nesse mesmo tempo parava no terreiro a comitiva; mas num silêncio, tudo. E o mesmo silêncio foi fechando todas as bocas e abrindo todos os olhos. Então vimos os da comitiva descerem de um cavalo o corpo entregue de um homem, ainda de pala enfiado…

    Ninguém perguntou nada, ninguém informou de nada; todos entenderam tudo…; que a festa estava acabada e a tristeza começada…

    Levou-se o corpo pra sala da mesa, para o sofá enfeitado, que ia ser o trono dos noivos. Então um dos chegados disse:

    — A guarda nos deu em cima… tomou os cargueiros… E mataram o capitão, porque ele avançou sozinho pra mula ponteira e suspendeu um pacote que vinha solto.., e ainda o amarrou no corpo… Aí foi que o crivaram de balas… parado… Os ordinários!… Tivemos que brigar, pra tomar o corpo!

    A sia-dona mãe da noiva levantou o balandrau do Jango Jorge e desamarrou o embrulho; abriu-o.

    Era o vestido branco da filha, os sapatos brancos, o véu branco, as flores de laranjeira…

    Tudo numa plastada de sangue… tudo manchado de vermelho, toda a alvura daquelas cousas bonitas como que bordada de cobrado, num padrão esquisito, de feitios estrambólicos… como flores de cardo solferim esmagadas a casco de bagual!…

    Então rompeu o choro na casa toda.

    (*) João Simões Lopes Neto – 1865/1916.

    (**) Conto incluído na coletânea “Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século”, organizado pelo crítico literário Italo Moriconi

  • SEMANA LIA NAVARRO 5

    Enseada das Palmeiras – Lia Navarro 5

  • PEQUENAS DOSES

    Luiz Antônio Nogueira da Guia.

    A prisão não foi feita na favela

    Foi preso, em Cabo Frio, aquele que é considerado pela polícia um criminoso de altísima periculosidade. Engraçado que o criminoso não foi capturado no Jacaré, no Manoel Corrêa e muito menos no Jardim Esperança e adjacências. O homem estava muito bem instalado em um dos condomínios mais luxuosos de Cabo Frio e da Região dos Lagos, o Condomínio da Ilha do Anjo. Caso estivesse em São Paulo poderia estar em Alphaville ou mesmo na Avenida Faria Lima.

    A violência interessa a quem?

    Não houve matança, tiroteios e violência extrema como a ultradireita tanto gosta e procura tirar ganhos eleitorais: tiro, porrada e bomba, só em favelas e bairros populares, onde as famílias dos jovens mortos é que são obrigadas a explicar, que seus filhos não pertenciam a organizações criminosas.

    A violência interessa a quem? 2

    A captura ocorrida em Cabo Frio de um suspeito considerado um dos líderes do crime organizado não foi na favela. Será que um dia os que defendem a violência e o genocídio contra as comunidades pobres, especialmente de jovens negros, vão finalmente perceber a realidade? Ou não interessa entender?

    O modelho é falho e incompetente

    Diariamente os jornais, sites e portais de notícias trazem vídeos, fotos de operações políciais contra o tráfico. quase sempre em comunidades populares. Os “rambos” são fotografados e se postam no entorno das pequenas apreensões. No dia seguinte realizam ritual semelhante de “enxugar gelo”, num processo que não termina, algo semelhante ao “moto perpétuo”. Alguém tem explicar a essa turma, que esse modelo falhou e que não dá mais.

    36 anos da Folha dos Lagos

    A contagem é regressiva para a Folha dos Lagos comemorar 36 anos de fundação. O jornal circulou pela primeira vez em abril de 1990, no dia 30. Detalhe importante: o fundador, jornalista Moacir Cabral, expandiu os negócios e criou o Dom Cabral, o “maior bar do mundo”, que faz sucesso entre os boêmios da cidade.

    É triste

    É triste: Teatro Municipal Inah de Azevedo Mureb fechado, a Biblioteca Walter Nogueira caindo aos pedaços e… o Cine Recreio, fechado há muitos anos, sem qualquer utilização. Também é doloroso ver o antigo prédio da Telerj transformado em Palácio dos Ratos

    Cacique de Ramos no Itajuru

    O Cacique de Ramos, histórico bloco carnavalesco carioca, berço de gente como Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho e Sombrinha, se apresenta neste sábado na Quadra do Itajuru. Criado em 1961 o Cacique é patrimônio imaterial do Estado e durante muito tempo teve como rivais o Bafo da Onça e o Boêmios de Irajá. O evento é da Escola de Samba Império de Cabo Frio.

    O Desgaste!

    Alguns “analistas de café”, encontrados no perímetro, da Prefeitura até o Largo de Santo Antônio estão surpresos como Serginho Azevedo (PL) tem apanhado nas redes sociais. A pergunta que não quer calar é: o que está pegando no governo do “tapetinho”? A já famosa Taxa de Lixo não consegue explicar o desgaste. O desgaste é real ou se manifesta com mais ênfase na rede?

    Cerco ao Irã

    Continua a pressão dos EUA contra o Irã, com Trump caindo mais uma vez em contradição, embora a grande imprensa não dedique muito tempo a qualquer análise, que não tenha a visão ofcial do governo norte-americano. Afinal, se os EUA destruiram, após bombardeios ditos arrasadores, a capacidade iraniana de produzir bombas atômicas, qual é realmente o problema?

    Vira-latas

    Não consegui ver na TV aberta nenhuma análise concreta sobre o discurso de Trump ao Congresso dos EUA. Foi uma encenação vergonhosa! Tão mal produzida, que, certamente os animadores de auditório brasileiros fariam bem melhor. A mídia corporativa brasileira dentro do seu manual de vira-latas não arranha a expressão de decadência das relações políticas dos EUA expressas na fala de Trump.

  • UNIVERSAL

    José Sette de Barros (*)

    Não há o que entender

    Nem Sócrates, Hegel

    Kant, Espinosa, Marx

    Nietzsche, Eisenstein…

    Mesmo outros super-homens

    Nunca viajaram para fora e

    Para dentro deste e doutros

    Infindáveis mundos…

    Como entender o infinito

    O fim do ser, o nada

    Além…

    Alguém, Ninguém.

    (*) José Sette de Barros é Cineasta, Escritor e Artista Plástico.

  • SEMANA LIA NAVARRO 4

    Forte São Matheus – Lia Navarro 4

  • PEQUENAS DOSES

    Luiz Antônio Nogueira da Guia.

    A vida de Noel Rosa

    O espetáculo musical sobre a história do samba e a vida do grande Noel Rosa estreia em 20 de março, às 20 horas, no Teatro Átila Costa, em São Pedro da Aldeia. O texto é do escritor Geraldo Afonso. A direção é de Daniel Ericsson e a produção da Samburá Multiartes.

    Críticas

    O ex-deputado Janio Mendes e os sites de notícias do ex-vereador e ex-secretário Dirlei Pereira e Juarez Volotão tem se notabilizado pelas críticas ao governo de Serginho Azevedo. Janio Mendes tem concentrado seu discurso nas áreas de economia/finanças, especialmente sobre o IPTU e a cobrança da Taxa de Lixo.

    Caminhos opostos

    Depois de muitos anos de atuação política, inclusive ocupando cargos no executivo municipal, Dirlei Pereira e o ex-prefeito Alair Corrêa ficaram em caminhos opostos politicamente. Dirlei é um crítico ácido da administração de Serginho Azevedo e Alair, desde a eleição em 2024, tem demonstrado apoio ao prefeito de Cabo Frio.

    A Praça da Ferradura precisa de bancos

    Manoel Eduardo (Marreco) o veterano “vereador do povo”, aquele que há muitos anos defende as causas populares de Búzios pergunta ao prefeito Alexaandre Martins: por que na Praça da Ferradura não há bancos? Como sempre o veterano político buziano sai em defesa dos direitos da população. O prefeito precisa trabalhar mais rápido e melhor.

    Rússia X Ucrânia

    O Blog colocou hoje a segunda etapa da matéria jornalística sobre o conflito entre a Rússia e Ucrânia. A guerra completou quatro anos essa semana e é alvo de desinformação generalizada, produção em massa de “fake news”. O Blog, sem juízo de valor, expõe matéria com o outro lado da informação, de origem russa, quase nunca publicada pela mídia corporativa ocidental.

    Baixaria

    Melodramas e baixarias de toda a sorte marcaram o discurso de Donald Trump frente ao Congresso dos EUA. A cada fala, por mais curta e sem importância que fosse, os republicanos levantavam-se e cobriam Trump de palmas: parecia ensaio comandado por Roque, ajudante de palco de Sílvio Santos: o homem do Baú fazia melhor.

    Modelo nefasto

    Grande parte do Congreso Nacional Brasileiro (Câmara de Deputados Federais e Senado Federal da República), com clara hegemonia da direita e ultradireita parece ter pegado como modelo o norte-americano. As cenas de explícita baixaria e leis absolutamente exdrúxulas são cada vez mais comuns.

    Programa “Minha primeira arma”

    O Portal da Câmara de Deputados mostra os absurdos perpetrados pela extrema direita no Parlamento. A Comissão de Segurança Pública da Câmara dos Deputados aprovou em fevereiro de 2026 projetos que facilitam a compra de armas, incluindo o PL 2.959/2025 (Programa “Minha Primeira Arma”) e o PL 4.750/24. Ambos visam facilitar a aquisição de armas por jovens, reduzem impostos e chegam ao ponto de criar linhas de crédito específicas para facilitar as compras.

    Vergonha da Nação

    Os deputados poderiam ter criado programas como “Meu primeiro livro” ou “Minha primeira peça de teatro” ou mesmo “O meu 1º Filme”. Nada disso interessa a eles, que dentro da arrogância típica do nazi-fascismo, desejam violência e morte como solução para os múltiplos problemas da sociedade.

  • A HIPOCRISIA COMO CONFLITO SOCIAL

    Luciana G. Rugani (*)

    Alguns acontecimentos dos últimos dias deixaram muito material sobre o qual a sociedade precisa se debruçar e pensar, cada um se autoanalisar e refletir sobre as tantas mudanças sociais pelas quais já passamos e sobre a necessidade de seguir pra frente, deixando pra trás aquilo que não cabe mais e que representa o atraso e o preconceito.
    Frequentemente, acontecem tragédias em que homens, covardemente, por meio de violência contra a mulher ou contra os filhos, destroem a própria família. Dias atrás, um tribunal absolveu um homem que mantinha relação marital com uma criança de 12 anos (a enorme repercussão contrária acabou levando à revisão da sentença). No carnaval, houve o desfile de uma escola de samba que buscou promover um importante debate crítico por meio de uma de suas alas.
    E o que teriam em comum tantos fatos diferentes?
    Na base de todos encontra-se um conflito social que precisamos reconhecer e sobre o qual é preciso refletir: a hipocrisia, o distanciamento entre os rótulos e as atitudes, hipocrisia essa que, às vezes, costuma enganar algumas pessoas a ponto de elas nem perceberem que a reforçam. Em alguns casos, essa hipocrisia tem raiz em conceitos arcaicos, impregnados culturalmente e ocultos sob enganosos entendimentos oriundos de um orgulho dominador e possessivo. Conceitos como “Deus, Pátria e Família”, por exemplo, totalmente deturpados, fora da nossa realidade atual, interpretados de maneira arcaica como uma maneira de impor um domínio cuja raíz é um orgulho eivado de arrogância e preconceito.
    Não entrarei aqui no campo de nenhuma religião específica, mas, se fizermos uma reflexão básica sobre o conceito de “Deus”, considerando a ideia de um criador de todo o universo, atemporal, onisciente, sem começo e nem fim, que é a ideia básica de qualquer discussão sobre o tema, é claro que a imagem de alguém humano, imperfeito e dotado dos mesmos erros e características de qualquer ser humano é incompatível com a ideia de uma fonte criadora de todo o universo. Então por que compreendê-lo da mesma maneira humanizada que os antigos, de inteligência primária, que constituíam uma sociedade ainda primitiva e brutalizada, o compreendiam? Já não é tempo de rever, mais profundamente, os conceitos? Uma comparação básica que muito ajuda nessa reflexão: por que muitos desses que usam a máscara religiosa como algo formal, como uma capa para esconder as aberrações que executam, quase nunca falam em Jesus? Por que preferem se agarrar a passagens do Antigo Testamento e pouco se importam com as falas de Cristo? O Novo Testamento abriu uma nova era, em que, segundo o ensino pregado por Jesus, a força e a imposição de domínio sobre o outro seriam substituídos por leis de amor, pelo respeito e pelo não-julgar, portanto abraçar esse novo entendimento certamente exigiria abrir mão do orgulho pernicioso, do preconceito, da visão de superioridade e de posse sobre o outro.
    E o conceito de “Pátria”, tão utilizado para transmitir uma sensação de que a sociedade deve estar sempre pronta a seguir um comando forte e ditatorial, esquecendo que pátria se defende é na defesa da soberania roubada no dia a dia, que pátria se fortalece é no combate às injustiças sociais e na defesa da democracia, pois uma sociedade mais justa e próspera para todos é que a tornará mais forte e independente.
    E o que dizer então do conceito de “Família”! Esse, então, é um dos mais deturpados a todo instante. A imagem de bela família mas que, por dentro, no lar, impera a violência contra a mulher, a visão dos filhos e da mulher como propriedade, a visão preconceituosa da mulher, esquecendo que ela também é um ser livre, que, ao unir-se a um homem, não passou a ser propriedade dele. Uma imagem de bela família que contrasta com a imposição da ideia de que o homem é quem domina e que à mulher cabe “edificar” o lar, ou seja, o homem pode errar à vontade que o lar está nas mãos da mulher, e ela nunca deve errar, sob pena de pesado julgamento. Uma visão totalmente arcaica, enganosa, sem nenhum sentido de realidade, que deveria ter sido deixada lá atrás, nas dobras do tempo, nos primórdios de séculos passados. A mulher não é propriedade. A menina, criança, tem direito a estudar, a se formar, a tornar-se uma mulher e cidadã livre para, a partir daí, escolher seus caminhos e tomar suas decisões. Jamais se deve encarar como normal a relação conjugal de um homem com uma criança, nem justificá-la como comum em razão de ser costume em alguma localidade. Não, isso não é normal, foi um costume normal no passado arcaico, em que a subjugação feminina era aceita, porém há séculos isso ficou pra trás e lá deve permanecer. A sociedade evoluiu, e os conceitos também precisam evoluir. E se é para utilizar o mesmo verbo, hoje o lar é “edificado” sobre pilares como respeito, amor, companheirismo e responsabilidades compartilhadas. Fruto de uma parceria horizontal, e não de uma relação de superioridade ou de domínio, não de uma hierarquia rígida e baseada na posse.
    Incrível como tantas pessoas se escondem sobre os rótulos enganosos desses conceitos e aprontam as piores aberrações! Sabemos que não há perfeição, pois somos humanos, somos imperfeitos e por isso estamos vivos, para evoluir ao menos um pouco e deixar pra trás preconceitos e conceitos arcaicos. Mas não estamos aqui para conservar hábitos, costumes e entendimentos que já não cabem mais em nossa sociedade.
    Costumam usar também o termo “conservador” como se fosse algo saudável e bom. Quando que conservar entendimentos equivocados e ultrapassados é algo saudável? Basta refletir um pouco mais!
    Outra coisa que tem se tornado muito comum é o uso da interpretação mais conveniente para garantir a preservação de outros interesses. Vimos isso na questão da ala da escola de samba à qual me referi no início. No desfile, o que houve foi uma crítica social a comportamentos, à hipocrisia presente nos comportamentos. Não houve nada relativo a religiões específicas, entretanto alguns políticos e líderes religiosos sem escrúpulos, que usam as máscaras e os rótulos da religião como meio de defender interesses outros, sejam econômicos ou políticos, articularam a divulgação, para seus seguidores, de uma interpretação equivocada, como se a escola estivesse se referindo aos membros de determinado nicho religioso. Com isso, buscaram atrair a indignação dos religiosos contra a escola, e aqueles que não param para analisar profundamente e se deixam levar pelos rótulos, mais uma vez entraram no jogo enganoso dos hipócritas, morderam a isca e perderam uma boa oportunidade de compreender a crítica social feita e abrir os olhos para perceber os falsos e hipócritas da atualidade.
    Nos dias atuais, a hipocrisia pode ser encarada como um importante conflito social, pois sua propagação tem promovido intolerância, radicalismo e profundas dissensões. E, no âmbito religioso, a hipocrisia aliada à fé sem questionamentos, à política e impulsionada pela força da internet e das redes sociais torna-se uma venda imposta a grande parte de seguidores das mais diversas religiões, a ponto de alguns defenderem justamente aquilo que mais mal faz para a essência real dessas religiões.

    (*) Luciana G. Rugani – Pensadora, escritora e poeta.

  • Raízes da operação militar especial russa: história do conflito ucraniano – 2

    Moradores de Sevastopol em um concerto festivo após a realização do referendo sobre o status da Crimeia

    Crimeia

    Buscando proteger seu direito à autodeterminação e à língua materna, os habitantes da Crimeia, em referendo realizado em 16 de março de 2014, votaram esmagadoramente a favor da reunificação com a Rússia. A região foi incorporada à Rússia.

    Proclamação de RPD e RPL, bombardeio de cidades

    Na primavera de 2014, foram proclamadas repúblicas populares nos territórios das regiões de Donetsk e Lugansk. Em resposta, as autoridades da Ucrânia acusaram a população de “separatismo” e iniciaram uma operação militar na região, que se transformou em um conflito armado em grande escala. Contra a milícia popular, foram lançados tanques e aviação.

    Cidades como Donetsk, Gorlovka, Lugansk e Debaltsevo foram submetidas por anos a bombardeios de artilharia pelo regime ucraniano. Bairros residenciais, hospitais e escolas foram destruídos.

    1. Uma mulher na varanda de uma casa bombardeada pelo exército ucraniano. – AP Photo / Mstyslav Chernov.

    2. Milicianos populares transportam uma vítima mortal do ataque aéreo da Força Aérea Ucraniana contra o prédio da administração regional em Lugansk – Sputnik / Evgeny Biyatov

    3. Uma mulher olha através de uma janela quebrada de seu apartamento depois que ele foi atingido pela artilharia ucraniana na área de Voroshilovsky, no centro de Donetsk, Ucrânia. – AP Photo / Manu Brabo

    ‘A Madona de Gorlovka’

    Em 27 de julho de 2014, as formações armadas das Forças Armadas da Ucrânia bombardearam as ruas de Gorlovka com lançadores de foguetes Grad. 22 moradores da cidade morreram, entre eles a “Madona de Gorlovka” Kristina Zhuk e sua filha de dez meses, Kira. Com a criança no colo, a mãe tentou fugir dos soldados ucranianos. A foto de Kristina morta, deitada na grama da praça da cidade ainda segurando sua filha, tornou-se um símbolo do terror bárbaro da Ucrânia contra o povo resistente do Donbass.

    “A Madonna de Gorlovka” — a jovem Kristina Zhuk e sua filha de 10 meses morreram em 27 de julho de 2014, quando formações armadas da Ucrânia bombardearam as ruas de Gorlovka com lançadores Grad. Foto / Belaya Kniga Novorossii

    Tragédia em Zugres

    Em 13 de agosto de 2014, as Forças Armadas da Ucrânia bombardearam uma praia infantil na cidade de Zugres. 13 pessoas morreram no local, quatro outras posteriormente. Mais de 40 ficaram feridas. Segundo testemunhas, o dia estava quente e a praia no rio Krynka estava lotada de banhistas, muitos com crianças pequenas. A investigação mostrou que o bombardeio da praia infantil em Zugres foi realizado com lançamento de foguetes do sistema Smerch.

    Acordos de Minsk

    Uma tentativa de deter o conflito armado e a morte de civis foram os Acordos de Minsk. Assinados em 2014 e 2015 com mediação da Rússia, Alemanha e França, os acordos estabeleciam medidas essenciais para resolver a situação: aprovar uma lei de anistia para todos os participantes do conflito civil, declarar as repúblicas de Donetsk e Lugansk como territórios especiais e consolidar isso na Constituição ucraniana, organizar eleições locais, entre outras.

    Mas nenhum ponto foi cumprido. A Ucrânia violou sistematicamente os acordos. Não houve cessar-fogo nem retirada das armas ucranianas: observadores da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) registravam regularmente bombardeios das Forças Armadas da Ucrânia em Donetsk e Lugansk, inclusive com uso de armamento pesado. Além disso, Kiev constantemente dificultava o monitoramento da OSCE, negando acesso a várias áreas.

    Como posteriormente admitiram líderes europeus, os acordos foram assinados não para serem cumpridos, mas para ganhar tempo e reforçar o poder militar da Ucrânia. O ex-presidente ucraniano, Pyotr Poroshenko, declarava abertamente que o objetivo de Kiev não era a paz, mas o desgaste do inimigo. Sua frase infame de que “os filhos deles ficarão presos em porões” mostrava o desprezo da elite de Kiev pelo sofrimento dos habitantes do Donbass.

    Presidente da Belarus Aleksandr Lukashenko, seu homólogo russo Vladimir Putin, ex-chanceler alemã Angela Merkel, ex-presidente francês François Hollande e ex-presidente ucraniano Pyotr Poroshenko em 11 de fevereiro de 2015 durante uma reunião destinada a pôr fim a dez meses de combates na Ucrânia. - Sputnik Brasil

    Presidente da Belarus Aleksandr Lukashenko, seu homólogo russo Vladimir Putin, ex-chanceler alemã Angela Merkel, ex-presidente francês François Hollande e ex-presidente ucraniano Pyotr Poroshenko em 11 de fevereiro de 2015 durante uma reunião destinada a pôr fim a dez meses de combates na Ucrânia. – AFP 2023 / HO/Presidential Press-service/Mykola Lazarenko

    Novo ciclo do conflito

    O atual líder ucraniano, Vladimir Zelensky, que assumiu o poder em abril de 2019, continuou a política repressiva das autoridades ucranianas contra a população do sudeste do país. Em 17 de fevereiro de 2022, a RPD e RPL informaram sobre os bombardeios mais intensos dos últimos meses pelas Forças Armadas da Ucrânia.

    Objetivos da operação militar especial

    21 de fevereiro de 2022. O presidente russo, Vladimir Putin, durante o discurso. – Sputnik / Aleksei Nikolsky

    O presidente russo, Vladimir Putin, explicou que tomou essa decisão em nome das pessoas que estavam sofrendo genocídio por parte do regime de Kiev. Vladimir Putin (24 de fevereiro de 2022): “As circunstâncias exigem de nós ações decisivas e imediatas. As repúblicas populares do Donbass pediram ajuda à Rússia. Em relação a isso, de acordo com o artigo 51, parte 7, da Carta da ONU, com a sanção do Conselho da Federação e em cumprimento aos tratados de amizade e assistência mútua ratificados pela Assembleia Federal com a RPD e a RPL, tomei a decisão de conduzir uma operação militar especial”.

    Garantir Objetivos principais da operação militar especial:

    – Garantir os direitos da população de língua russa.

    – Legitimar a escolha do povo.

    – Desmilitarização (neutralizar a ameaça militar e impedir os planos da Ucrânia de aderir à OTAN).

    – Desnazificação (reprimir a disseminação da ideologia neonazista).

    Incorporação dos novos territórios à Rússia

    Em setembro de 2022, foram realizados referendos na RPD, RPL e nas regiões de Zaporozhie e Kherson sobre a incorporação desses territórios à Rússia. A grande maioria dos moradores votou a favor. Em 30 de setembro foram assinados os tratados de incorporação das quatro regiões à Rússia.

    Putin reconhece a independência das Repúblicas de Donetsk e Lugansk da Ucrânia, 21 de fevereiro de 2022. – Sputnik / Aleksei Nikolsky

  • SEMANA LIA NAVARRO 3

    Portinho – Lia Navarro 3

  • PEQUENAS DOSES

    Luiz Antônio Nogueira da Guia

    Sem candidatos

    Estamos no final de fevereiro e até o momento não se tem qualquer notícia de candidatos do campo da esquerda, em Cabo Frio. Os movimentos que se percebe são de cabos eleitorais, trabalhando politicamente para candidatos a Assembleia Legislativa ou Câmara Federal da capital e de outras cidades.

    Tem consequências

    É óbvio que a ausência de candidatos próprios da esquerda, no município para a Assembleia Legislativa e a Câmara Federal, enfraquece esse campo para em 2028 ter candidaturas fortes para a Câmara de Vereadores e até para Prefeito. É um dos fatores que contribui para que hoje a Câmara tenha o monopólio político e ideológico de vereadores do “bloco conservador”.

    Questão de aliança

    Para mudar o panorama político e ideológico da Câmara de Vereadores de Cabo Frio é necessário que o “bloco progressista”, representado pelo PT, PDT e PSB e a esquerda (PSOL, Rede Sustentabilidade e Unidade Popular) façam sólidas alianças. Com “rachas” a tendência é o “bloco conservador” continuar a ter monopólio do Legislativo.

    Cambalhotas

    É claro que a vida política é cheia de nuances e reviravoltas, mas Aldo Rebelo, ex-presidente do Partido Comunista do Brasil (PC do B), na Democracia Cristã (DC) é um pouco demais. A política brasileira não para de nos reservar surpresas. Ela não pula ou mesmo grita, mas dá cambalhotas dignas de circo do interior.

    Trump e a Decadência

    O governo Donald Trump, com sua fanfarronice e caminhos belicosos e tortuosos, está expondo ao planeta a decadência dos EUA, que com a queda e fragmentação da URSS, havia se transformado em potência unipolar. O dólar derrete aceleradamente e muito em breve as transações internacionais serão realizadas através de uma bolsa de moedas.

    Rússia X Ucrânia

    Para quem quer se informar para além da mídia corporativa, em especial Organizações Globo, Estado de São Paulo (Estadão), Folha de São Paulo, Reuters, Assoc Press, o Blog trás, dividida em capítulos, ampla matéria sobre o conflito entre a Rússia e a Ucrânia, com a visão russa, produzida pelo Portal Sputnik. Vale conferir.

    Nem os Keynesianos

    O Blog convida seus leitores a buscar veículos alternativos, na medida em que a grande mídia corporativa dá uma visão distorcida da realidade. Focam em apenas um lado do universo político/ideológico, que é bem mais amplo. Exemplo: todos são contrários a derrubada da semana 6 X 1, como já se posicionaram contra o salário mínimo e o 13º.

    John Maynard Keynes – 1883/1946.

    Nem os Keynesianos 2

    Basta ver, que os “jornalões”: só buscam a opinião dos economistas liberais (Escola de Chicago) e neoliberais, ligados a especulação financeira. São tão caras de pau, que até mesmo os economistas de orientação keynesiana não são chamados a debater. Ao grande público é dado apenas a visão do mercado financeiro.

  • Raízes da operação militar especial russa: história do conflito ucraniano -1

    Golpe de Estado na Ucrânia

    Os eventos do Euromaidan levaram à crise política na Ucrânia. Em novembro de 2013, o presidente ucraniano Viktor Yanukovich recusou-se a assinar o Acordo de Associação com a União Europeia, temendo a ruptura das relações já existentes com a Rússia. Essa decisão provocou protestos em massa em Kiev.

    O confronto de três meses entre as forças de segurança e os manifestantes – muitos dos quais nacionalistas – resultou em dezenas de mortes e um golpe de Estado.

    Na noite de 22 de fevereiro, os ativistas do Euromaidan tomaram o complexo governamental, assumindo o controle dos prédios do parlamento, da presidência e do governo. Como resultado do golpe de Estado, o poder foi transferido para a oposição. O presidente legítimo Viktor Yanukovich foi forçado a fugir urgentemente para a Rússia.

    1. Policiais durante confrontos com manifestantes na Praça da Independência em Kiev – Sputnik / Andrei Stenin

    2. Policiais durante confrontos com manifestantes na Praça da Independência em Kiev – Sputnik / Aleksei Furman

    3. Participante de ações em apoio à integração europeia da Ucrânia na rua Grushevsky em Kiev – Sputnik / Andrei Stenin

    4. Policiais são vistos na Praça Maidan, em Kiev, onde começaram os confrontos entre manifestantes e a polícia – Sputnik / Andrei Stenin

    Perseguições à língua russa

    Desde 2014, as autoridades de Kiev iniciaram uma ofensiva sistemática contra a população de língua russa. Foram aprovadas leis que limitam o uso da língua russa:

    – Foi revogada a Lei de Bases da Política Linguística do Estado, de 2012.

    – Reduziu-se o número de escolas onde o ensino era realizado em língua russa. A partir de 1º de setembro de 2020, as escolas que ensinavam em idioma russo na Ucrânia passaram a ensinar no idioma oficial.

    – Foram aprovadas emendas à Lei da Televisão e Radiodifusão. A quota de transmissão em ucraniano na televisão e rádio de âmbito nacional e regional aumentou para 75% por semana, e para 60% na mídia local.

    – Foi suspensa a transmissão de canais de TV russos, proibida a exibição de filmes russos e vedada a participação de artistas incluídos na “lista de pessoas que representam ameaça à segurança nacional”.

    – Foi aprovada a Lei de Garantia do Funcionamento do Ucraniano como Língua Nacional.

    – Foram aprovadas as leis sobre os povos autóctones da Ucrânia e sobre as minorias nacionais da Ucrânia, que excluíram definitivamente os russos da proteção jurídica do Estado.

    Perseguição da Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Moscou

    Mosteiro feminino de Santa Iveron (à direita) e a igreja de Santa Olga, princesa igual aos apóstolos (à esquerda), destruídos durante as hostilidades em Donetsk. - Sputnik Brasil

    Mosteiro feminino de Santa Iveron (à direita) e a igreja de Santa Olga, princesa igual aos apóstolos (à esquerda), destruídos durante as hostilidades em Donetsk.

    A perseguição da Igreja Ortodoxa Ucraniana, historicamente ligada ao Patriarcado de Moscou, se tornou norma, incluindo a tomada de templos e a perseguição de clérigos desta Igreja:

    – Em 23 de setembro de 2024, entrou em vigor a lei “Sobre a proteção da ordem constitucional no campo das atividades das organizações religiosas”. Na Ucrânia, a atividade da Igreja Ortodoxa Ucraniana foi praticamente proibida.

    – A lei “Sobre liberdade de consciência e organizações religiosas” incluiu um artigo especial que proíbe a atividade na Ucrânia de organizações religiosas ligadas à Igreja Ortodoxa Russa.

    – Houve a tomada do Mosteiro de Pechersk de Kiev e do Mosteiro de Pochaev, com a remoção de parte das relíquias religiosas, incluindo as relíquias de santos.

    – Tomadas em massa de templos. Foram tomadas catedrais e outras igrejas em Ivano-Frankovsk e Lvov, deixando essas cidades sem templos da Igreja Ortodoxa Ucraniana. As autoridades retiraram as catedrais da Santíssima Trindade e da Transfiguração em Chernigov da posse da comunidade da Igreja Ortodoxa Ucraniana. Em Cherkasy, foi tomado o Mosteiro do Nascimento da Santíssima Virgem.

    – Cerca de 180 processos criminais foram abertos contra clérigos e arcebispos da Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Moscou. 20 bispos e sacerdotes foram privados da cidadania ucraniana.

    – Uma nova forma de repressão contra os clérigos da Igreja Ortodoxa Ucraniana foi a sua mobilização forçada para as Forças Armadas da Ucrânia.

    1. Igreja destruída após bombardeio aéreo na cidade de Krasnodon – Sputnik / Valery Melnikov

     2. Moradores de Lugansk após bombardeio da cidade – Sputnik / Valery Melnikov

     3.  Cúpula e teto destruídos do templo em honra à Ícone da Mãe de Deus de Iverskaya do Mosteiro Iverskaya feminino de Donetsk, localizado perto do aeroporto da cidade de Donetsk, destruído durante os combates no Sudeste da Ucrânia. – Sputnik / Vera Kostamo

    Insatisfação da população de língua russa no sudeste do país

    Após o golpe de 2014, começaram intensos protestos no Leste do país, onde predominava a população de idioma russo, inclusive no Donbass e na Crimeia. Os moradores dessas regiões exigiram uma solução para a questão do status da língua russa e a realização de uma reforma constitucional, incluindo a federalização da Ucrânia.

    No Donbass, foi formada uma milícia popular.

    O massacre de Odessa

    Incêndio na Casa dos Sindicatos em Odessa – Sputnik / Aleksandr Polishuk

    Em 2 de maio de 2014, dezenas de pessoas morreram e foram queimadas vivas na Casa dos Sindicatos de Odessa. Os apoiadores do Euromaidan destruíram o acampamento dos ativistas que discordavam da política das autoridades ucranianas. As pessoas tentaram se salvar na Casa dos Sindicatos, mas foram bloqueadas e morreram no incêndio.

    Os acontecimentos em Odessa marcaram o episódio final do confronto civil entre os apoiadores do governo ucraniano da época e os opositores do golpe de Estado.

    1. Incêndio na Casa dos Sindicatos em Odessa – Sputnik / Aleksandr Polishuk

     2.  Incêndio na Casa dos Sindicatos em Odessa (a entrada central está pegando fogo) – Sputnik / Aleksandr Polishuk

     3. As pessoas saíram para o parapeito durante o incêndio na Casa dos Sindicatos em Odessa. À direita: o rosto e o cabelo da moça foram atingidos por um trapo ensopado numa mistura inflamável de uma garrafa de “coquetel Molotov” jogada. – Aleksandr Polishuk

     4. O corpo da pessoa que morreu em decorrência do incêndio no edifício da Casa dos Sindicatos em Odessa – Sputnik / Denis Petrov


222 respostas em “BLOG DO TOTONHO”

Que delícia ler o Blog do Totonho, leitura variada, focada, informativa, inteligente… O leitor alem de boa informação, tem cultura e notícias da terrinha. Parabéns Totonho!

Sr. Totonho, bom dia
A Associação Nossa Lagoa Viva vem por este intermédio solicitar esclarecimentos sobre a origem da matéria divulgada nessa mídia, alegando que são palavras expressas na Instituição. Informamos que tal matéria desvincule nossa instituição e também encaminhamos uma nota oficial que talvez desconhecida por voces.

O Blog recebeu do Sr. Carlos Alberto Cardozo o seguinte texto:
Bom dia
Ong Nossa Lagoa Viva, vai atuar com esperança , atenção e vigilancia com relação a retirada do lodo e seu início.
Sabemos que a palavra FISCALIZAR incomoda a muitos, mas se faz necessário por algumas questões:
Está em jogo a comunidade Siqueirense.
1) O custo da obra. A placa que está lá não traz nada é completamente obscura, e sem aquela famoso QRCODE de pesquisa?
2)O cronograma da obra, Se foi elaborado estudo de impacto e se a obra de retirada do lodo atingirá até a extensão da veiga de Almeida?
3) Vai ser cumprido o que foi dito pelo INEA na reunião do pier, com boias de contensão e ainda a contratação de mão de obra do povo Siqueirense.
São preocupações legítimas até porque o histórico do governador e de deixar obras inacabadas, assim foram as 8 Faetecs desde 2023, com custos já gastos em torno de 170 milhões.
Dinheiro do povo!!
Estamos de olho vivo e faro fino!!
Vamuquivamu!!!!!

Sem qualquer problema o Blog publicará a nota oficial da instituição. O Blog está a disposição da Ong Nossa Lagoa Viva

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Equipe DivulgaMais

Totonho adoro ler o seu blog , como cabo-friense saudosista mato minha curiosidade com suas informações sobre nossa cidade . Política e arte combinam bem para desanuviar esses tempos difíceis.

Boa noite Totonho.Que maravilha, a casa do ex-prefeito Edilson Duarte, de arquitetura única, é que não tem igual em toda a cidade, ser DEMOLIDA , e construírem uma drogaria Pacheco……com uma “arquitetura” que tem em qualquer lugar. Porque eu soube há muitos anos atrás, que foi a Pacheco que comprou…..e o PT cabofriense ??? Continua como se não existisse por aqui….fraco,…….igual a chuchu , sem gosto…., ninguém viu ,ninguém sabe, sou LULA sempre , ser petista tá difícil , mudou presidente, executiva, diretório….tudo como antes e…..nada…..!!! E o festival sabores….!!!!???? Qual a novidade????chovendo no molhado……ninguém sai do Rio, São Paulo ou seja de onde for para um ” festival” que não tem nada de diferente e atrativo…comida???? Qualquer “buteco” tem…..programação pachorrenta, chata, sem encanto, nada interessante, conquistador…….

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