- PEQUENAS DOSESpor blogdototonho

Luiz Antônio Nogueira da Guia.
Sanduiche de Pão com Pão?
Por 47 votos a 15, Federação com o PT acaba de ser derrotada no Diretório Nacional do PSOL. Afinal, tratava-se de uma Federação entre socialistas e social-democratas ou apenas uma aliança entre social-democratas, isto é com o mesmo conteúdo político e ideológico, com apenas algumas nuances de diferença?
Antigas eleições
O debate estava sonolento na Sociedade Musical Santa Helena quando foi sugerida a Hilton Massa uma possível coligação sua com Claudionor Muniz, ambos candidatos a prefeito de Cabo Frio. Hilton Massa disse, provocando risadas entre os presentes: “sanduiche de pão com pão”, no caso, entre dois candidatos conservadores e com pouquíssimos votos.
- VIGIA DO FORTE SÃO MATHEUS – CABO FRIO – RJpor blogdototonho


Vigia do Forte São Matheus – 2023 – Cabo Frio/RJ – Antônio José Christovão.

- PEQUENAS DOSESpor blogdototonho

Luiz Antônio Nogueira da Guia.

Não quero choro nem vela – A Vaquinha
Olá! A vaquinha “Colabore com o espetáculo Não Quero Choro nem Vela” precisa do seu apoio. Contribua fazendo uma doação ou compartilhando com seus contatos. Toda ajuda faz a diferença! https://www.vakinha.com.br/5957790?utm_campaign=whatsapp&utm_medium=website&utm_content=5957790&utm_source=social-shares
Vida & Poesia de Noel Rosa
A vida, a poesia e o legado de um dos maiores nomes da Música Popular Brasileira ganham os palcos no espetáculo teatral musicado “Não Quero Choro Nem Vela: Vida e obra de Noel Rosa”, que estreia no dia 20 de março de 2026, às 20 horas, no Teatro Municipal Dr. Átila Costa, em São Pedro d’Aldeia (RJ).

Cabo Frio continua sem Teatro
Esse belíssimo espetáculo sobre a vida e a poesia de Noel Rosa estreia no Teatro Municipal Átila Costa, na cidade vizinha de São Pedro da Aldeia, porque aqui em Cabo Frio vamos completar uma década sem o Teatro Municipal Inah de Azevedo Mureb. O estádio de futebol, conhecido como “Correão” já foi reformado e reinaugurado. É impossível compreender as escolhas do governo.
Semana 8M no IFF/Cabo Frio
A semana 8M no IFF Campus Cabo Frio – “Ocupar, lutar, cuidar” – acontece entre os dias 9 e 13 de março, tendo como objetivo propor reflexão e ação sobre corpo, direito e enfrentamento a violências, através de mesas-redondas, oficinas e palestras, fortalecendo o diálogo, escuta e protagonismo. A programação inclui ainda atividades ligadas à dança, arte, futebol e defesa pessoal: um convite para ocupar espaços, lutar por direitos e cuidar de si e do outro.
Falta de respeito
O problema entre empresas de prestação de serviços, concessionárias e as prefeituras se arrastam pelas cidades brasileiras. As empresas de telefonia penduram seus fios de qualquer jeito, formando uma “massaroca”, que enfeia as cidades, deixando as prefeituras o trabalho de retirar. Faturam alto, deixando o ônus para o poder público.
Falta de respeito 2
Acontece também com as concessionárias de energia, gás e fornecimento de água e tratamento de esgoto. Falta cronograma, coordenação entre o público e o privado e sobra desleixo e desrespeito com aqueles brasileiros que trabalham duro, pagam seus impostos e percebem que o percentual de retorno é pequeno.
Praia do Siqueira
A orla da Praia do Siqueira, considerado o mais belo por do sol de toda a Região dos Lagos, está precisando ao menos de uma “guaribada” por parte da Prefeitura. A orla precisa ser reurbanizada, mas enquanto a “grande obra de reurbanização” não vem a área precisa de limpeza e manutenção. A conferir!
Avanço sobre áreas públicas
A Prefeitura bem que poderia criar cursos, ensinando aos empresários, que existem definições específicas para o que é privado e o que é público. Infelizmente, se verifica em tempo quase integral empresários avançando sobre áreas públicas, que, obviamente não pertencem a eles e dane-se o cidadão-contribuinte, que vai perdendo o espaço que é seu. A Prefeitura precisa ser mais dura com quem quer ganhar na marra o espaço que é público.
Buracos & Tapetinho
O último governo de José Bonifácio sofreu grande desgaste junto a opinião pública em função da campanha oposicionista sobre os buracos nas ruas da cidade: o então prefeito alegava que primeiro era necessário sanear as finanças municipais. O prefeito não teve tempo para concluir seu projeto de saneamento das finanças, mas o deixou bem estruturado.
Taxa do Lixo
Depois do desastre do governo de Magdala Furtado, Serginho Azevedo se elegeu, com quase 70% dos votos e criou o “efeito tapetinho”, que a sua comunicação social soube aproveitar muito bem, mas todo governo tem o ponto crucial de desgaste. Serginho Azevedo apanha com a criação da Taxa do Lixo. Qual a solução que o governo vai encaminhar?
- MISTICISMO HUMORÍSTICOpor blogdototonho

Eça de Queiroz (*)
Voltei. É agora que as toutinegras emigram. Andei pelos campos neste ar desfalecido do Inverno outonal.
Agora o azul está indolentemente belo. Tem quase uma irônica serenidade. E o azul intenso, frio, triunfante. Tem a luz, a beleza, a força, a inefabilidade. Agora a luz enternecida dos campos arrasta-se pelas grandes águas quietas e pálidas, onde o vento revolve e espalha a agonia das folhas.
Quando voltava, vi uma casa pequena, esbranquiçada, escondida entre as bênçãos indolentes das árvores. Tinha a serena quietação de quem tem ouvido segredos extáticos e era triste e religiosa como a entrada amarelecida de um convento católico. Havia uma corrente de água delgada que fazia claras murmurações, e era como o acompanhamento, natural e melódico, de uma écloga latina. Entre as árvores estava um banco solitário onde o musgo se dependurava. Nas plantas, nas clematites, nas trepadeiras que o cercavam, havia um murmúrio como de vozes distantes que contam felicidades perdidas. A pedra escura e molhada do banco tinha a tristeza das pedras do cemitério à luz consoladora, purificadora e branca que cai dos céus outonais.
Agora, ali sobre aquele banco dorme estirada a grande luz do Sol, e à noite o luar, porque já não há naquela casa namorados contemplativos, que venham de noite ou à sesta despertar para se poderem sentar — aqueles dormentes de luz.
Aquela casa abandonada faz lembrar amores místicos: e quando se vê à luz dolente do escurecer, faz subir do coração como um sabor de beijos antigos e esquecidos.
As árvores erguiam em atitudes violentas e proféticas os seus braços nus, engelhados, suplicantes para o frio azul, esperando no entorpecimento a fermentação violenta das seivas. Os ramos frios e nítidos deixavam passar indiferentes, sem as suspender, sem as acariciar, as moles nudezas das nuvens.
Toda a Natureza no tempo dos frios está impassível e sonolenta.
Passei por um cemitério. Andava um coveiro abrindo covas. Tinha um rosto inerte e animal. A luz dissipava-se. E uma estrela, que se chama Vênus, luzia metálica, ardente, desejosa, lancinante, num fundo sinistro de ramagens.
O coveiro é um semeador. Semeia corpos. Somente não tem esperança nem o amor das colheitas. Quem ceifará aquela plantação crescida? Quem sabe se os corpos que se atiram a vala, sementes fúnebres, se abrem, lá em cima, em searas divinas de que nós apenas vemos a ponta das raízes que são as estrelas? Mas não. A alma morre. O corpo revive e dissipa-se na matéria enorme.
E na alma que estão as más vontades, os negros remorsos, as lacerações do mal: o corpo desce livre, novo e são para as uberdades limosas das covas.
Quando chega o último frio, ódios, amores, tristezas, invejas, melancolias, desejos, todos cansados das lutas e da vida, dizem à Natureza como gladiadores vencidos: “Os que vão morrer saúdam- te!” E morrem. A vida e o seu suplício é absorvida na insensibilidade da Natureza, no silêncio perpétuo, na força fatal e cega. E a matéria vai pelos ares, pelas planícies, amolece-se nas sombras, vivifica-se nos raios claros, e rochedo, floresta, torrente, fluido, vapor, ruído, movimento, estremecimento confuso do corpo de Cibele: e a matéria sente a vida universal, a palpitação do átomo debaixo da forma, sente-se banhada pelas claridades suaves e pelos cheiros dos fenos, sente-se impelida para a luz magnética dos astros e dilacerada nos ásperos movimentos da terra. A matéria tem a consciência augusta da sua vitalidade. E assim, sob a tua impassibilidade, há uma angústia imensa, uma vida ardente, impiedosa, uma alma terrível, ó formidável Natureza!
A noite descia: caía de cima uma claridade láctea: pesava um austero e lento silêncio: a larga brancura celeste era gloriosa; os pastores desciam com os rebanhos lentos, balando; havia pelo ar uma bondade indefinida, uma virtude fluida: eu lembrava-me dos Elísios olímpicos e mitológicos onde, na claridade, passam as sombras heroicas, serenas, brancas, leves, levadas por um vento divino. Claridades sem sol!
Eu ia, escutando os passos da doce noite que vinha caminhando. Ia- me afundando no tédio como um navio roto numa maré do equinócio. Enchiam-me a alma crepúsculos brancos. Entrei no grande arvoredo negro. Àquelas horas, os linfáticos, os inocentes, os místicos, encontram nos arvoredos languidezas e elevações ascéticas. Mas eu tremia entre a ramaria inquieta como um mar, misteriosa como um firmamento — tremia como um homem medroso que visse erguer-se um mono. Toda aquela negra decoração de ramos torcidos, de folhagens lívidas, de silêncios, enchia-me de um terror profundo e trivial. A luz dissipada e transfiguradora do ocaso dava aos troncos um estranho aspecto de lutadores, vindos do sangue e dos incêndios: os sinos distantes eram como vozes indefinidas de miséria e de dor.
Passava um vento incessante e perseguidor. Os mochos voavam, e as águas sonoras eram como vozes vingativas e trágicas. A Lua entorpecida passava por detrás da estacada de ramos. O vento era rouco e lento como um canto católico de ofícios. E o grasnar lento e arrastado dos corvos parecia uma ladainha bárbara de padres. As árvores doentias rangiam ao vento hibernal, o ar estava diáfano, lácteo e mortuário. As estrelas que apareciam tinham o olhar lancinante.
Cheguei à estalagem. Embaixo na lareira um magro fogo lambia as fuligens. A luz do meu quarto tinha a lividez dos círios, e o espelho tinha reflexos pálidos, como de sombras mitológicas que passassem. Ouviam-se os lobos.
Lembravam-me então as outras noites, claras, doces, lentas, em que o céu derrama sonolências; então também eu ia por entre as árvores e ouvia ondas sonoras de cantigas, que o vento fazia retinir através da bruma, entre o acre cheiro das eflorescências.
Aquelas vozes claras eram doces, santas, saídas de cristais, como veladas por um luar.

Eram como claridades sonoras de estrelas. Era uma multidão de formas divinas que assim cantavam, divindades feéricas, willis, nixes, peris, fadas, que passavam ligeiras sem despertar os ramos adormecidos. Aquelas nudezas celestes, filhas do fogo, flores do mal, ondas do ar, entrelaçavam-se, dançando nas obscuridades, que as cintilações estelares franjavam de palidezas. No meio dos nevoeiros humanos elas faziam resplandecer diante dos olhos as visões paradisíacas, as criaturas siderais de lânguidos misticismos. Elas iam naqueles enlaçamentos, brancas e louras, cheias de lirismo, com os pés vermelhos e magoados de terem pisado auroras, iam, pousando nos jacintos, nos mirtos, nas rosas bárbaras cheias de sangue radioso, iam rolando sobre a brancura soluçante dos lírios e a sua voz triste subia por entre o azul lácteo para a Lua chorosa.
Quando assim estava no quarto da estalagem, inerte como uma múmia, pensando nestas coisas, vi repentinamente através das vidraças a Lua aparecer-me.
Mas não era aquela pura e imaculada Lua cor de opala — que derrama brancuras, como se através do azul caíssem lírios. Era uma Lua metálica, fria, hostil, material como uma moeda de ouro nova.
Ela aparecia-me mortuária e lívida como uma sombra finada, que se ergue às grades de um adro. E o seu olhar, lancinante e rápido, estava cheio das minhas agonias…
Ora nessa estalagem encontrei um amigo, antigo camarada, que se tinha feito saltimbanco.
Fez bem. Cansado dos pedantes, dos burgueses, dos ventres mercantis, dos imbecis afogados em gordura, fez-se saltimbanco e vive entre os palhaços. Faz farsas coberto de farrapos luzentes, engole espadas, dança farto de vinho como um Sileno.
Dorme numa capa esfarrapada, com a nuca sobre um tambor, à frescura das estrelas e sob a bondade dos luares.
Às vezes tem frio e fome e gela nuns calções feitos de veludilho e de galões de ouro. Anda errante de vila em vila e a populaça da lama admira-o cingido do seu diadema de metal luzente. Dança sobre a corda, e os seus gestos e as suas musculaturas fazem soluçar de desejos as gitanas e as feiticeiras. Que lhe importam as grandezas e as materialidades felizes?
Ele tem a multidão extática e enlevada nos giros dos seus sapatos, e tem uma bem-amada de tranças tão compridas como os ramos de um chorão e aneladas e fortes como negros penachos de voluptuosidade, e a sua testa tem um reflexo de luar, de mármore e de espelho: e tem um belo seio de formas bárbaras.
Ele pula à noite, no circo aluminado, enquanto as toutinegras cantam nos canaviais. Ele faz girar vinte punhais de cobre em volta da cabeça num círculo puro e sonoro. E a multidão, um dia, vendo aquele diadema terrível e faiscante, e o saltimbanco impassível, grave, enfarinhado sob aquela coroa de luz, tomá-lo-á por um ídolo e fá-lo-á igual aos deuses!
Ele, o meu saltimbaco, tem a alma de ouro e o coração de diamante — e ri-se, ri-se, quando o vento soa como flauta do Inverno, e ao concerto das corujas e das ondas as estrelas dançam.
A miséria anda-lhe cavando a sepultura. Um dia, abandonado da bem-amada, morrerá sem pão, sem luz, sem calor, sem orações e sem sol. E não sofrerá mais. Viu durante a vida todo um povo curvado, aplaudindo, debaixo dos seus borzeguins. Os tambores e os clarinetes tocarão o dia melhor do saltimbanco, o dia em que morrer: tocarão o seu melhor dia os ferrinhos, os timbales, os clarinetes e os tambores!
Todas estas coisas se parecem com sonhos. Mas o que é o sonho? O que são as visões? São as atitudes, fantásticas e desmanchadas, que a sombra dá às verdades. Já pensava assim o poeta Li Tai-Pé, que escrevia sobre as coisas santas da China, entre porcelanas e lacas, ao sopro dos nenúfares, vestido de sedas amarelas, perfumado de charão — doce contemplativo, branco diante de um vaso de margaridas!
(*) Eça de Queiroz – 1845/1900.
- DIVULGAÇÃOpor blogdototonho




- BOCA DA BARRA – CABO FRIO/RJpor blogdototonho




Boca da Barra – Cabo Frio/RJ – 2023 – Antônio José Christovão.
- PEQUENAS DOSESpor blogdototonho

Luiz Antônio Nogueira da Guia.
Situação eleitoral complicada
Daniele Martins, esposa do prefeito Alexandre Martins (Republicanos) é a titular da Secretária da Mulher de Búzios e deve ser a candidata governista a Assembleia Legislativa (ALERJ). Como o eleitorado buziano é bastante pequeno, em comparação, principalmente com Cabo Frio, Araruama e Macaé, além de representar um governo bastante desgastado politicamente, a candidata vai ter que remar bastante. A conferir!
Falhas geológicas
O monopólio político do prefeito Serginho Azevedo (PL), na Câmara de Vereadores de Cabo Frio tem sido sacudido por pequenas tremores decorrentes das “falhas geológicas” do sistema. Era previsto na medida em que seria impossível que todos os nobres frequentadores do Plenário Oswaldo Rodrigues tivessem os mesmos candidatos a Assembleia Legislativa e a Câmara Federal.
Boulevard Canal
O Boulevard Canal, que de boulevard tem muito pouco ou quase nada, tenta se recuperar como ponto importante para o turismo em Cabo Frio. O investimento privado, entretanto, precisa da cobertura do governo municipal, no campo paisagístico e também da segurança, antiga reclamação dos comerciantes locais.
Calçadas
Logo que começou o governo, o prefeito Serginho Azevedo (PL) falou sobre a necessidade de melhoria das calçadas da cidade. Depois, talvez pelos numerosos problemas, esqueceu e nunca mais falou no assunto, ao mesnos com a ênfase necessária. As calçadas são péssimas, quase todas esburacadas e com inclinação inexplicável.
Calçadas 2
Inaceitável que, em determinados bairros as calçadas existem apenas como enfeites, porque grande parte das pessoas é obrigada a caminhar pela via pública, podendo ser atropelada aqui, ali e também o velho e desgastado acolá. Brincadeiras a parte, a cidade precisa com urgência de mais civilidade e calçadas decentes são fundamentais.
Calçadas 3
Não se trata apenas da ocupação de mesas, cadeiras, em bares e restaurantes, como também por oficinas, agências de motos e automóveis, cujos proprietários devem acreditar que o seu imóvel e negócio pode ocupar toda a extensão da calçada. Ao pedestre resta apenas o conformismo diante da incivilidade ou pode apelar para a autoridade pública responsável?
Calçadas 4
A bagunça é tamanha que tem gente que coloca cones e até mesmo cadeiras entre o meio-fio e o asfalto, determinando que o espaço da via pública lhe pertence. O absurdo é tal que cabe imaginar que a pessoa não conhece o sentido da expressão “via pública”. Com muito otimismo podemos imaginar que não saiba a diferença entre o que é privado e o que é público. Não é?
A ONG Nossa Lagoa Viva cobra da Prefeitura e da Prolagos
A ONG Nossa Lagoa Viva reclama junto a Secretaria Municipal de Serviços Públicos contra os “serviços de má qualidade prestados no pavimento das ruas no bairro da Siqueira”, cobrando a restituição imediata do pavimento viário no bairro da Praia do Siqueira nos termos da Lei Ordinária Municipal nº3.343/2021, ou seja, “concessionárias de serviços públicos são obrigadas a restituir o pavimento (asfalto ou calçamento) às condições originais”. É o mínimo, que deveria estar sendo cumprido.
- ENCONTRO EM HOMENAGEM AO POETA CABO-FRIENSE WALDEMIR TERRA CARDOSOpor blogdototonho

Luciana G. Rugani (*)
Terça-feira (24), participei do encontro sobre história e cultura, locais e regionais, organizado pelo escritor, historiador e pesquisador, José Correia, na Capela de São Francisco da Penitência (ao lado do Convento Nossa Senhora dos Anjos) em Cabo Frio. O encontro acontece sempre na última terça-feira de cada mês, de 15:00 às 17:00.
O tema desta edição foi uma homenagem ao primeiro poeta modernista cabo-friense, Waldemir Terra Cardoso, que morreu em 26/1/1936, aos 24 anos, em decorrência da tuberculose, em Itaipava, onde tentava se recuperar da doença.

Waldemir Terra Cardoso nasceu em 3/1/1912, em Cabo Frio. Filho de Luiz José Cardoso e de Inayá Garcia Terra Cardoso, Waldemir publicou dois livros: “Borboletas” (1931) e “Zé-tarrafeiro e outros poemas” (1935).
Waldemir era um poeta de família tradicional, mas, apesar da pouca idade, já havia adquirido uma visão mais aberta, que ia além dos limites dos costumes, dos valores, das crenças e das tradições das famílias mais abastadas e mais tradicionais da cidade. Apaixonou-se por uma moça, também filha de família tradicional, mas o amor dos dois não foi aprovado pelos pais da moça.Se voltarmos os olhos ao passado e buscarmos analisar o contexto daquela época, início do século XX, veremos que os valores, as tradições e os preconceitos eram ainda muito arraigados. As moças, quando crianças, costumavam ser predestinadas a um bom casamento, e um casamento era considerado “bom” quando o marido fosse um homem bem afeito a atividades que garantissem a continuidade ou o aumento da riqueza das famílias. Waldemir era um poeta e, talvez, não deve ter sido muito bem visto pela família da moça, portanto foram proibidos de viver esse amor.
Mas as tradições não podem com o amor, principalmente com o amor dos românticos incontestáveis daquela época, e então o casal seguiu se encontrando com a ajuda de amigos, até o adoecimento e morte do poeta.
José Correia fez a leitura de um artigo de sua autoria, intitulado “Dá pra ser feliz em Cabo Frio?”, publicado na Revista Nossa Tribo. Neste artigo, José Correia faz uma análise dos poemas “Culpa dos Pais”, de Pedro Guedes Alcoforado, e “Zé-tarrafeiro”, de Waldemir Terra Cardoso. O poema de Pedro Guedes trazia um casal apaixonado que também vivia um amor proibido, e que acabou se encontrando na praia e se entregando ao mar para viverem o amor na eternidade. Já o poema de Waldemir falava sobre um cabo-friense e uma mulher “estrangeira”, natural da serra, um casal igualmente apaixonado e proibido de viver o amor, que decide abrir mão de viver na cidade, deixa tudo para trás e se instala em uma pequena habitação em um arraial de pescadores, e ali, junto à vida marinha e à simplicidade do local, edifica o lar mais feliz do arraial. Segundo José Correia, a pergunta “Dá pra ser feliz em Cabo Frio?” seria a cena de fundo dos dois poemas e Pedro Guedes e Waldemir, cada um com seu poema, estariam dando respostas diferentes a essa pergunta. Waldemir, em “Zé-tarrafeiro”, revela uma profunda mudança de estilo e revela também seu olhar humanístico ao focar o pescador, o homem do povo e a vida simples junto à natureza marinha, e evidencia também o seu amadurecimento artístico.Fiquei me perguntando se, talvez, Waldemir também construiría para si e para sua amada um destino semelhante ao do personagem, se iria abrir mão da tradição e da vida urbana para viver o amor em uma área rural, na vila de pescadores, com toda a simplicidade e com todo o acolhimento encontrados junto à natureza, livre da rigidez preconceituosa da tradição conservadora daquela época. Quem sabe o seu poema “Zé-tarrafeiro” não descreveria um sonho seu a ser realizado, caso a tuberculose não o tivesse levado?…
Para finalizar o encontro, homenageamos o poeta com a leitura de seus poemas junto ao seu túmulo, no Cemitério da Ordem Terceira de São Francisco, anexo à capela.
Foi mais um encontro maravilhoso, rico de informações e histórias, em que pudemos conhecer um poeta que, mesmo tão jovem e vivendo em um passado tão distante, já possuía um olhar amplo, sem amarras. Com certeza, um jovem poeta cuja alma grandiosa não cabia na pequenez dos valores mundanos da família tradicional daquele tempo.
(*) Luciana G. Rugani
Pensadora, escritora e poeta - ESPETÁCULO TEATRAL MUSICAL CELEBRA VIDA E OBRA DE NOEL ROSA EM ESTREIA NA REGIÃO DOS LAGOSpor blogdototonho

A vida, a poesia e o legado de um dos maiores nomes da Música Popular Brasileira ganham os palcos no espetáculo teatral musicado “Não Quero Choro Nem Vela: Vida e obra de Noel Rosa”, que estreia no dia 20 de março de 2026, às 20 horas, no Teatro Municipal Dr. Átila Costa, em São Pedro d’Aldeia (RJ)
A montagem propõe um encontro sensível e emocionante com a trajetória de Noel Rosa, o eterno Poeta da Vila, conduzindo o público por sua breve, porém intensa, passagem pela história do samba. A narrativa é construída por atores e músicos que, entre cenas e canções, revisitam momentos marcantes da vida do compositor, costurados por clássicos que atravessam gerações e permanecem vivos no imaginário popular.
Reconhecido como o primeiro compositor brasileiro de classe média a se dedicar ao samba, Noel foi responsável por aproximar o gênero do asfalto, ampliando seu alcance e transformando definitivamente a música urbana brasileira. Mesmo tendo falecido precocemente, aos 26 anos, deixou um repertório imortal, com obras como “Fita Amarela”, cujo verso “não quero choro nem vela” inspira o título do espetáculo.
A dramaturgia e a concepção da obra buscam mais do que uma homenagem: propõem uma leitura profunda e afetiva sobre a memória de Noel, evidenciando sua genialidade, suas contradições e a potência poética de suas composições. O resultado é um espetáculo que une teatro e música em uma experiência sensorial, capaz de emocionar tanto admiradores do samba quanto novos públicos.
Com texto assinado por Geraldo Afonso e direção de Daniel Ericsson, a produção é da Samburá Multiartes, sob coordenação de Patricia Caldara. O elenco reúne Kéren Hapuk, Simon Soul, Yuri Vasconcellos, Diego Vivas, Manuela Dominato, Roberta Sant’anna, Gustavo Seabra, Jean Maciel, Lara Suzana além dos músicos Miguel R. Hevia e Vitalino, que dão vida sonora ao universo de Noel Rosa, em um espetáculo de 1 hora e 40 minutos e classificação indicativa de 14 anos.
Após a estreia, o espetáculo seguirá em circulação por teatros e clubes da Região dos Lagos e por outras cidades do Estado do Rio de Janeiro, reforçando seu compromisso com a valorização da memória cultural brasileira e a democratização do acesso às artes.
Serviço: Espetáculo: Não Quero Choro Nem Vela: Vida e obra de Noel Rosa Estreia: 20 de março de 2026 (sexta-feira) Horário: 20 horas Duração: 1h40min Classificação Indicativa: 14 anos Local: Teatro Municipal Dr. Átila Costa – R. Francisco Santos Silva, 555 – Nova São Pedro – São Pedro d’Aldeia (RJ) Ingressos: R$ 70,00 (inteira) | R$ 35,00 (meia) Adquira pelo Sympla:https://www.sympla.com.br/evento/espetaculo-teatral-musical-nao-quero-choro-nem-vela-vida-e-obra-de-noel-rosa/3317193
Ficha técnica:
Texto e dramaturgia: Geraldo Afonso
Direção: Daniel Ericsson
Direção musical: Kéren Hapuk
Preparação de corpo: Diego Vivas
Arranjos: Miguel R. Hevia e Vitalino
Iluminação: Aníbal Junior (Juninho)
Cenografia: Daniel Ericsson
Figurino: Roberta Sampaio
Elenco: Kéren Hapuk
Simon Soul
Yuri Vasconcellos
Diego Vivas
Manuela Dominato
Roberta Sant’anna
Gustavo Seabra
Jean Maciel
Lara Suzana
Músicos: Vitalino
Miguel R. Hevia
Produção Executiva: Patricia Caldara
Assessoria de Imprensa: Samburá Multiartes
Comunicação: Roberta Sampaio
Design: Victor Dias - CANHÕES DO FORTE SÃO MATHEUSpor blogdototonho


Canhões do Forte São Matheus – Antônio José Christovão – 2023.
- PEQUENAS DOSESpor blogdototonho

Luiz Antônio Nogueira da Guia.
Porto Alegre
Se existe uma via pública onde a bagunça no estacionamento e no trânsito em geral está instalada e precisando de correção urgente é a Rua Porto Alegre. Recentemente ocupada por muitos bares, botecos e restaurantes dos mais diferentes tipos e sabores, a Porto Alegre se recente de ordem. Quem sabe um dia mães com seus bebês nos carrinhos possam transitar nas calçadas e não serem obrigadas a perigosamente caminhar no asfalto?
Major Bellegard
A Rua Major Bellegar, no Centro, é paralela a um dos pontos comerciais e turísticos mais importantes de Cabo Frio, o Boulevard Canal, que há muito vem solicitando melhorias a Prefeitura. A Major Bellegard passa nos fundos do Boulevard e apesar de ali estar a Secretaria Municipal de Fazenda, é uma rua praticamente abandonada. Virou apenas um grande estacionamento e paraíso dos flanelinhas.

Não quero choro nem vela
O musical sobre a vida e obra de Noel Rosa estreia dia 20 (sexta-feira), às 20 horas, no Teatro Átila Costa, em São Pedro da Aldeia. O texto é de Geraldo Afonso e a direção de Daniel Ericsson, com grande elenco. É uma produção rara na Região dos Lagos. Imperdível!!!! Adquira ingressos pelo Sympla:
https://www.sympla.com.br/evento/espetaculo-teatral-musical-nao-quero-choro-nemvela-vida-e-obra-de-noel-rosa/3317193Guga Chacra
A posição do jornalismo do Grupo Globo é tão favorável aos EUA e a Israel, que até mesmo o comentarista Guga Chacra reclamou na GloboNews. A cobertura sempre com viés israelense, falava do Hezbollah, como se o Líbano não existisse. Guga, visivelmente irritado, intereveio e colocou as coisas no seu devido lugar.
A Covardia do Sionismo
“A covardia do regime sionista não tem limites. O estado colonial e genocida de Israel tem taras semelhantes ao nazismo: matar crianças e mulheres, destruir hospitais, atacar civis. Os primeiros dias de guerra contra o Irã comprovam isso. Seu exército formado por degenerados é a mais pura escória“ Breno Altman – Opera Mundi – 03/03/2026.
A Linha do Departamento de Estado
A guerra da dobradinha EUA + Israel contra o Irã deslocou o eixo do noticiário na mídia corporativa para o plano internacional. Os grandes portais de notícias como Globo.com e UOL fazem campanha com discurso do Departamento de Estado sos EUA e internamente continuaran a publicar noticiário contrário ao governo e favorável ao “perfil moderado” de Flávio Bolsonaro.

A Mídia Corporativa defende a escravidão moderna
Da mesma maneira que hoje faz campanha contra a extinção da semana 6 x 1, para impedir um dia a mais de descando para o trabalhador, o velho “O Globo” também fez campanha contra o 13º salário. Sempre ao lado das elites “O Globo”, a “Folha de São Paulo e o “Estado de São Paulo” (Estadão) defendem a escravidão moderna, como defenderiam a escravidão, no século XIX.
Falta de candidatos
Por incrível que pareça o “bloco progressista” ainda não apresentou candidatos a Assembleia Legislativa (ALERJ) e a Câmara de Deputados Federais, aqui em Cabo Frio. É uma situação complicada e se o fato se confirmar, terá uma repercussão bem forte na eleição para o Legislativo estadual e federal, em outubro de 2026 e também para o pleito de 2028.

- BOA VIAGEM, SENHOR PRESIDENTEpor blogdototonho

Gabriel Garcia Márquez (*)
Estava sentado no banco de madeira debaixo das folhas amarelas do
parque solitário, contemplando os cisnes empoeirados com as mãos apoiadas no pomo de prata da bengala, e pensando na morte. Quando veio a Genebra pela primeira vez o lago era sereno e diáfano, e havia gaivotas mansas que se aproximavam para comer nas mãos, e mulheres de aluguel que pareciam fantasmas das seis da tarde, com véus de organdi e sombrinhas de seda. Agora a única mulher possível, até onde a vista alcançava, era uma vendedora de flores no embarcadouro deserto. Ele custava a crer que o tempo tivesse podido fazer semelhantes estragos não apenas em sua vida, mas no mundo.Era um desconhecido a mais na cidade de desconhecidos ilustres. Estava
de terno azul-escuro com listras brancas, colete de brocado e o chapéu duro dos magistrados aposentados. Tinha um bigode altivo de mosqueteiro, o cabelo azulado e abundante com ondulações românticas, as mãos de harpista com a aliança de viúvo no anular esquerdo, os olhos alegres. A única coisa que delatava o estado de sua saúde era o cansaço da pele. E ainda assim, aos 73 anos, continuava sendo de uma elegância clássica.Naquela manhã, no entanto, sentia-se a salvo de toda vaidade. Os anos de
glória e poder haviam ficado para trás sem remédio, e agora só permaneciam os da morte.Havia voltado a Genebra depois de duas guerras mundiais, em busca de
uma resposta terminante para uma dor que os médicos da Martinica não
conseguiram identificar. Havia previsto não mais do que quinze dias, mas já haviam-se passado seis semanas de exames extenuantes e resultados incertos, e ainda não se vislumbrava o final. Buscavam a dor no fígado, nos rins, no pâncreas, na próstata, onde menos estava. Isso, até aquela quinta-feira indesejável, na qual o médico menos notório dos muitos que o haviam visto chamou-o às nove da manhã no pavilhão de neurologia.O escritório parecia uma cela de monges, e o médico era pequeno e
lúgubre, e tinha a mão direita engessada por causa de uma fratura no polegarQuando apagou a luz, apareceu na tela a radiografia iluminada de uma
espinha dorsal que ele não reconheceu como sua até que o médico apontou com uma varinha, debaixo de sua cintura, a união de duas vértebras.Sua dor está aqui – disse a ele.
Para ele, não era tão fácil. Sua dor era improvável e escorregadia, e às
vezes parecia estar nas costelas direitas e às vezes no baixo-ventre, e muitas
vezes o surpreendia com uma agulhada instantânea na virilha. O médico
escutou-o em suspenso e com a varinha imóvel na tela. “Por isso nos despistou durante tanto tempo”, disse. “Mas agora sabemos que está aqui.” Depois colocou o indicador na fronte e precisou:Embora, a rigor senhor presidente, sua dor esteja aqui.
Seu estilo clínico era tão dramático que a sentença final pareceu benévola:
o presidente tinha que se submeter a uma operação arriscada e inevitável.Perguntou qual era a margem de risco, e o velho doutor envolveu-o numa
luz de incerteza.Não podemos dizer com segurança – disse
Até pouco tempo atrás, explicou, os riscos de acidentes fatais eram
grandes, e mais ainda os de diferentes paralisias em diversos graus. Mas com os avanços médicos das duas guerras esses temores eram coisas do passado.Vá tranqüilo – concluiu. – Prepare bem suas coisas e nos avise. Mas não se
esqueça que quanto antes, melhor.Não era uma boa manhã para digerir essa má notícia, e menos ainda à
intempérie. Havia saído muito cedo do hotel, sem abrigo, porque viu um sol radiante pela janela, e havia ido com seus passos contados do Chemin du Beau Soleil, onde estava o hospital, até o refúgio dos namorados furtivos do parque inglês. Estava ali fazia mais de uma hora, sempre pensando na morte, quando começou o outono. O lago encrespou-se como um oceano embravecido, e um vento de desordem espantou as gaivotas e arrasou com as últimas folhas. O presidente se levantou e, em vez de comprar da florista, arrancou uma margarida dos canteiros públicos e colocou-a na lapela.A florista o surpreendeu.
Estas flores não são de Deus, senhor – disse,
contrariada. – São da prefeitura.Ele não deu atenção. Afastou-se com passos ligeiros, empunhando a
bengala pelo meio, e fazendoa girar de vez em quando, com um ar um tanto libertino.Na ponte do Mont Blanc estavam, a toda pressa, tirando as bandeiras da
Confederação enlouquecidas pela ventania, e o esbelto chafariz coberto de
espuma apagou-se antes do tempo. O presidente não reconheceu sua cafeteria de sempre sobre o embarcadouro, porque haviam retirado o toldo verde do terraço e as varandas floridas do verão acabavam de ser fechadas. No salão, os lustres estavam acesos em pleno dia, e o quarteto de cordas tocava um Mozart premonitório. O presidente apanhou no balcão um jornal da pilha reservada aos clientes, pendurou o chapéu e a bengala no cabide, pôs os óculos com armação de ouro para ler na mesa mais afastada, e só então tomou consciência de que havia chegado o outono. Começou a ler pela página internacional, onde encontrava muito de vez em quando alguma notícia das Américas, e continuou lendo de trás para diante até que a garçonete levou sua garrafa diária de água de Evian. Há mais de trinta anos havia renunciado ao hábito do café por imposição de seus médicos. Mas dissera: “Se alguma vez tiver a certeza de que vou morrer, tornarei a tomar café.” Talvez a hora tivesse chegado.
Traga também um café – pediu num francês perfeito. E explicou, sem
reparar no duplo sentido: – À italiana, desses que levantam um morto.Tomou-o sem açúcar, devagar, e depois colocou a xícara de boca para
baixo, para que o sedimento do café, após tantos anos, tivesse tempo de
escrever seu destino. O sabor recuperado redimiu-o por um instante de seu
mau pensamento. Um instante depois, como parte do mesmo sortilégio, sentiu que alguém olhava para ele. Então passou as páginas com um gesto casual, olhou por cima dos óculos, e viu o homem pálido e com a barba por fazer, com um boné esportivo e uma jaqueta de couro com forro de ovelha, que afastou o olhar no mesmo instante para não tropeçar com o dele.Sua cara era familiar. Haviam se cruzado várias vezes no vestíbulo do
hospital, havia tornado a vê-lo num dia qualquer numa motoneta pela
Promenade du Lac enquanto contemplava os cisnes, mas nunca sentiu-se
reconhecido. Não descartou, em todo caso, a possibilidade de ser outra das
tantas fantasias persecutórias do exílio.Terminou o jornal sem pressa, flutuando nos ceios suntuosos de Brahms,
até que a dor foi mais forte que a analgia da música. Então olhou o reloginho de ouro que usava pendurado numa corrente no bolso do colete, e tomou as duas pílulas calmantes do meio-dia com o último gole da água de Evian.Antes de tirar os óculos decifrou seu destino no assentamento do café, e
sentiu um estremecimento glacial: ali estava a incerteza. Finalmente pagou a conta com uma gorjeta estreita, apanhou o chapéu e a bengala no cabide, e saiu para a rua sem olhar o homem que olhava para ele. Afastou-se com seu andar festivo, beirando os canteiros de flores despedaçadas pelo vento, e acreditou-se liberado do feitiço.Mas de repente sentiu passos atrás dos seus, deteve-se ao dobrar uma
esquina e deu meia-volta. O homem que o seguia teve que parar em seco para não tropeçar com ele, e olhou-o assustado, a menos de dois palmos de seus olhos.. Senhor presidente – murmurou.
. Diga a quem estiver pagando a você que não tenha ilusões – disse o
presidente, sem perder o sorriso ou o encanto da voz. – Minha saúde está perfeita.. Ninguém melhor que eu para saber disso disse o homem, humilhado
pela carga de dignidade que lhe caiu em cima. – Trabalho no hospital.
A dicção e a cadência, e ainda sua timidez, eram as de um caribenho puro.– Não me diga que é médico – disse o presidente.
– . Quem me dera, senhor – disse o homem.
. Sou chofer de ambulância.
. Sinto muito – disse o presidente, convencido de seu erro. – É um trabalho
duro..Não tanto como o seu, senhor.
Ele olhou-o sem reservas, apoiou-se na bengala com as duas mãos, e
perguntou-lhe com um interesse real:. De onde o senhor é?
. Do Caribe.
. Já percebi – disse o presidente. – Mas de que país?
. Do mesmo que o senhor, presidente – disse o homem, e estendeu-lhe a
mão. – Meu nome é Homero Rey.
O presidente interrompeu-o surpreso sem soltar sua mão.. Caramba! – disse. – Que bom nome!
Homero relaxou.. E tem mais – disse. – Homero Rey de la CasUma punhalada invernal surpreendeu-os indefesos na metade da rua. O presidente estremeceu até os ossos e compreendeu que não poderia caminhar sem abrigo os dois quarteirões que faltavam até a pensão de pobres onde costumava comer.
. Já almoçou? – perguntou a Homero.
. Não almoço nunca – disse Homero. – Como uma vez só de noite, na
minha casa.. Faça uma exceção hoje – disse com todos os seus encantos à flor da pele. – Eu convido.
Pegou-o pelo braço e levou-o até o restaurante em frente, com o nome
dourado no toldo: Le Boeuf Couronné. O interior era estreito e cálido, e não parecia haver nenhum lugar livre. Homero Rey, surpreso por ninguém
conhecer o presidente, continuou até o fundo do salão para pedir ajuda.É presidente em exercício? – perguntou o dono.
. Não – disse Homero. – Derrubado.
O dono soltou um sorriso de aprovação.. Para esses – disse – tenho sempre uma mesa especial.
Levou-os a um lugar afastado no fundo do salão, onde podiam falar à
vontade. O presidente agradeceu.Nem todos reconhecem como o senhor a dignidade do exílio – disse.
A especialidade da casa eram costelas de boi na brasa. O presidente e seu
convidado olharam em volta, e viram nas outras mesas os grandes pedaços
assados com uma beirada de gordura tenra. “É uma carne magnífica”,
murmurou o presidente. “Mas para mim é proibida.” Fixou em Homero um olhar travesso e mudou de tom.. Na verdade, me proibiram tudo.
. O café também – disse Homero -, e mesmo assim tomou.
. Você notou? – disse o presidente. – Mas hoje foi só uma exceção num dia excepcional.
A exceção daquele dia não foi só o café. Também encomendou uma
costela de boi na brasa e uma salada de legumes frescos sem outro tempero além de um jorro de azeite de oliva. Seu convidado pediu a mesma coisa, mais meia garrafa de vinho tinto.
Enquanto esperavam a carne, Homero tirou do bolso da jaqueta uma
carteira sem dinheiro e com muitos papéis, e mostrou ao presidente uma foto desbotada.
Ele se reconheceu em mangas de camisa, com vários quilos a menos e o
cabelo e o bigode de um negro intenso, nomeio de um tumulto de jovens que haviam se empinado para sobressair. De um só olhar reconheceu o lugar, reconheceu os emblemas de uma campanha eleitoral maçante, reconheceu a data ingrata.“Que barbaridade!’ murmurou. “Sempre disse que a gente envelhece mais
rápido nos retratos que na vida real’ E devolveu a foto com um gesto de último
ato.. Lembro-me muito bem – disse. – Foi há milhares de anos na arena de
galos de briga de San Cristóbal de las Casas.. É a minha cidade – disse Homero, e apontou a si mesmo no grupo: – Este
sou eu. O presidente reconheceu-o.. Você era uma criança!
. Quase – disse Homero. – Estive com o senhor em toda a campanha do sul
como dirigente das brigadas universitárias. O presidente antecipou-se à recriminação.. Eu, é claro, nem ao menos reparava no senhor – disse.
. Ao contrário, era muito gentil conosco disse Homero. – Mas éramos
tantos que não é possível que o senhor se lembre.. E depois?
. Quem melhor que o senhor para saber?
disse Homero. – Depois do golpe militar, o milagre é estarmos nós dois
aqui, prontos para comer meio boi. Não foram muitos os que tiveram a mesma sorte.Nesse momento chegaram os pratos. O presidente pôs o guardanapo no
pescoço, como um babador de criança, e não foi insensível à calada surpresa do convidado. “Se não fizer isto perco uma gravata por refeição”, disse. Antes de começar provou o ponto da carne, aprovou-o com um gesto satisfeito, e voltou ao tema.. O que não entendo – disse – é por que não me procurou antes de maneira
aberta, em vez de me seguir feito um sabujo.Então Homero contou-lhe que o havia reconhecido desde que oviu entrar
no hospital por uma porta reservada para casos muito especiais. Era pleno
verão, e ele estava com um terno completo de linho branco das Antilhas, com sapatos combinados em branco e negro, a margarida na lapela, e a formosa cabeleira alvoroçada pelo vento. Homero verificou que ele estava sozinho em Genebra, sem a ajuda de ninguém, pois conhecia de cor a cidade onde havia terminado seus estudos de Direito. A direção do hospital, por solicitação sua, tomou as determinações internas para assegurar o sigilo absoluto. Naquela mesma noite, Homero combinou com sua mulher fazer contato com ele. No entanto, o havia seguido por cinco semanas buscando uma ocasião propícia, e talvez não tivesse sido capaz de cumprimentá-lo se ele não o tivesse enfrentado.
Fico feliz de ter feito isso – disse o presidente -, embora na verdade não
me incomode nem um pouco estar sozinho.. Não é justo.
. Por que? – perguntou-lhe o presidente com sinceridade. – A maior vitória da minha vida foi conseguir que me esqueçam.
. Nós lembramos do senhor mais do que o senhor imagina – disse Homero sem dissimular sua emoção. – É uma alegria vê-lo assim, saudável e jovem.
. No entanto – disse ele sem dramatismo -, tudo indica que morrerei em
pouco tempo.. Suas possibilidades de se recuperar são muito altas – disse Homero.
O presidente deu um salto de surpresa, mas não perdeu a graça.. Opa! – exclamou. – Será que na bela Suíça foi abolido o sigilo médico?
. Em nenhum hospital do mundo existem segredos para um chofer de
ambulância – disse Homero.. Pois o que sei fiquei sabendo há apenas duas horas e pela boca do único que deveria estar sabendo.
. Seja como for, o senhor não morrerá em vão – disse Homero. – Alguém
irá colocá-lo no lugar que lhe corresponde como grande exemplo de dignidade.
O presidente fingiu um assombro cômico.. Obrigado por me prevenir – disse.
Comia como fazia tudo: devagar e com um grande esmero. Enquanto isso,
olhava para Homero direto nos olhos, de maneira que este tinha a impressão de ver o que ele pensava. Após uma longa conversa de evocações nostálgicas, deu um sorriso maligno.. Havia decidido não me preocupar com o meu cadáver – disse -, mas
agora vejo que devo tomar certas precauções de romance policial para que ninguém o encontre.. Vai ser inútil – brincou Homero. – No hospital não existem mistérios que durem mais que uma hora.
Quando terminaram o café, o presidente leu o fundo de sua xícara, e
tornou a estremecer: a mensagem era a mesma. No entanto, sua expressão não se alterou. Pagou a conta em dinheiro, mas antes verificou a soma várias vezes, contou várias vezes o dinheiro com um cuidado excessivo, e deixou uma gorjeta que só mereceu um resmungo do garçom.. Foi um prazer – concluiu, ao se despedir de Homero. – Não tenho data
para a operação, e nem mesmo decidi se vou ou não me operar. Mas se tudo der certo, tornaremos a nos encontrar.. E por que não antes? – disse Homero.
Lázara, minha mulher, é cozinheira de ricos. Ninguém prepara o arroz
com camarões melhor que ela, e gostaríamos de tê-lo em casa uma noite dessas.. Fui proibido de comer mariscos, mas vou com muito prazer – disse. – É só dizer quando.
. Quinta-feira é meu dia de folga – disse Homero.
. Perfeito – disse o presidente. – Quinta às sete da noite estou em sua casa.
Será um prazer.. Passarei para buscá-lo – disse Homero.
. Hotelerie Dames, 14 rue de l’Industrie. Atrás da estação. Certo?
. Certo – disse o presidente, e levantou-se mais encantador que nunca. –
Pelo que estou vendo, sabe até o número do meu sapato.. Claro, senhor – disse Homero, divertido.
. Quarenta e um.
O que Homero Rey não contou ao presidente, mas continuou contando
durante anos para quem quisesse ouvir, foi que seu propósito inicial não era tão inocente. Como outros choferes de ambulância, tinha acordos com empresas funerárias e companhias de seguro para vender serviços dentro do próprio hospital, sobretudo a pacientes estrangeiros de escassos recursos.Eram lucros mínimos, e além disso era preciso reparti-los com outros
empregados que passavam de mão em mão os relatórios secretos sobre os
doentes graves. Mas era um bom consolo para um desterrado sem porvir que subsistia a duras penas com sua mulher e seus dois filhos com um salário ridículo.
Lázara Davis, sua mulher, foi mais realista. Era uma mulata fina de San
Juan de Puerto Rico, miúda e maciça, da cor do caramelo em repouso e com uns olhos de cadela brava que combinavam muito bem com sua maneira de ser. Haviam se conhecido nos serviços de caridade do hospital, onde ela trabalhava como ajudante de tudo depois que um agiota de seu país, que a havia levado como babá, deixou-a à deriva em Genebra. Haviam se casado pelo ritual católico, embora ela fosse princesa ioruba, e viviam num sala e dois quartos nooitavo andar sem elevador de um edifício de imigrantes africanos. Tinham uma menina de nove anos, Bárbara, e um menino de sete, Lázaro, com alguns indícios menores de retardamento mental.Lázara Davis era inteligente e de mau humor, mas de entranhas ternas.
Considerava-se a si mesma como uma Touro pura, e tinha uma fé cega em seus augúrios astrais. No entanto, nunca pôde cumprir o sonho de ganhar a vida como astróloga de milionários.Em compensação, contribuía em casa com recursos ocasionais, e às vezes
importantes, preparando jantares para senhoras ricas que se exibiam a seus
convidados fazendo crer que eram elas as autoras dos excitantes pratos
antilhanos. Homero, por sua vez, era tímido de solenidade, e não dava para
nada além do pouco que fazia, mas Lázara não concebia a vida sem ele pela inocência de seu coração e o calibre da sua arma. Tinham dado certo, mas os anos vinham cada vez mais duros e as crianças cresciam. Pelos tempos em que o presidente chegou, haviam começado a bicar suas economias de cinco anos. De maneira que quando Homero Rey o descobriu entre os doentes incógnitos do hospital, mergulharam em ilusões.Não sabiam direito o que iriam pedir, nem com que direito. No primeiro
momento haviam pensado em vender-lhe um funeral completo, inclusive a
embalsamação e a repatriação. Mas pouco a pouco foram percebendo que a morte não parecia tão iminente quanto a princípio. No dia do almoço já
estavam atordoados pelas dúvidas.Na verdade, Homero não tinha sido dirigente das brigadas universitárias,
nem nada parecido, e a única vez em que participou da campanha eleitoral foi quando fizeram a foto que haviam encontrado por milagre no murundu do guarda-roupa. Mas seu fervor era verdadeiro. Era verdade também que
precisou fugir do país por sua participação de resistência nas ruas contra o
golpe militar, embora a única razão para continuar vivendo em Genebra depois de tantos anos fosse a sua pobreza de espírito. Portanto, uma mentira a mais ou a menos não devia ser um obstáculo para ganhar o favor do presidente.A primeira surpresa de ambos foi que o desterrado ilustre morasse num
hotel de quarta categoria no bairro triste de la Grotte, entre imigrantes asiáticos e mariposas da noite, e que comesse sozinho nas pensões de pobres, quando Genebra estava cheia de residências dignas para políticos em desgraça. Homero o havia visto repetir dia após dia os atos daquele dia. Havia acompanhado-o de vista, e às vezes numa distância menos que prudente, em seus passeios noturnos entre os muros lúgubres e os lampiões amarelos da cidade velha. Havia visto o presidente absorto durante horas diante da estátua de Calvino. Havia subido atrás dele passo a passo a escadaria de pedra, sufocado pelo perfume ardente dos jasmins, para contemplar os lentos entardeceres do verão do alto do Bourg-le-Four. Certa noite, viu-o debaixo da primeira garoa, sem abrigo ou guarda-chuva, fazendo fila com os estudantes para um concerto de Rubinstein. “Não sei como não pegou uma pneumonia”, disse depois para a mulher. No sábado anterior, quando o tempo começou a mudar, o havia visto comprando um abrigo de outono com uma gola de falso visom, mas não nas lojas luminosas da rue du Rhône, onde compravam os emires fugitivos, e sim
no Mercado de Pulgas.. Então, não há nada a ser feito! – exclamou Lázara quando Homero
contou tudo isso. – É um avarento de merda, capaz de se fazer enterrar pelabeneficência na vala comum. Nunca vamos tirar nada dele.. Vai ver é pobre de verdade – disse Homero -, depois de tantos anos sem
emprego.. Ai, moreno, uma coisa é ser Peixes com ascendente em Peixes e outra
coisa é ser idiota – disse Lázara.. Todo mundo sabe que se mandou com o ouro do governo e que é o
exilado mais rico da Martinica. Homero, que era dez anos mais velho, havia crescido impressionado com a notícia de que o presidente estudara em Genebra, trabalhando como pedreiro. Lázara, porém, havia sido criada entre os escândalos da imprensa inimiga, magnificados numa casa de inimigos, onde foi babá desde menina. Portanto, na noite em que Homero chegou sufocado de júbilo porque havia almoçado com o presidente, para ela não foi suficiente o argumento de que havia sido convidado para um restaurante caro. Aborreceu-se com Homero por ele não ter pedido nada do muito que haviam sonhado, de bolsas de estudo para as crianças até um emprego melhor no hospital. Pareceu-lhe uma confirmação de suas suspeitas a decisão de que jogassem o seu cadáver aos urubus em vez de gastar seus francos num enterro digno e numa repatriação gloriosa. Mas a gota que transbordou o copo foi anotícia que Homero reservou para o final, de que havia convidado o presidente para comer arroz de camarões na quinta-feira à noite.
. Só faltava essa – gritou Lázara -, que ele morra aqui, envenenado com
camarões de lata, e a gente acabe tendo de enterrá-lo com as economias das crianças.O que enfim determinou sua conduta foi o peso de sua lealdade conjugal.
Teve que pedir emprestados a uma vizinha três jogos de talheres de alpaca e uma saladeira de vidro, e a outra uma cafeteira elétrica, e a outra uma toalha bordada e um jogo chinês para o café. Trocou as cortinas velhas pelas novas, que eles só usavam em dias de festa, e tirou o forro dos móveis. Passou um dia inteiro esfregando o chão, sacudindo o pó, mudando coisas de lugar, até que conseguiu o contrário do que para eles teria sido mais conveniente, que eracomover o convidado com o decoro de sua pobreza.Na quinta-feira à noite, depois que se repôs do sufoco dos oito andares, o
presidente apareceu na porta com o novo abrigo velho e o chapéu melão de outro tempo, e com uma única rosa para Lázara.Ela se impressionou com sua formosura viril e suas maneiras de príncipe,
mas acima de tudo viu-o como esperava: falso e rapinante. Pareceu-lhe
impertinente, porque ela havia cozinhado com todas as janelas abertas para
evitar que o vapor dos camarões impregnasse a casa, e a primeira coisa que ele fez ao entrar foi respirar fundo, como num êxtase súbito, e exclamar com os olhos fechados e os braços abertos: “Ah, o cheiro do nosso mar!”,Pareceu-lhe mais avarento que nunca por levar uma única rosa, sem
dúvida roubada nos jardins públicos.Pareceu-lhe insolente, pelo desdém com que olhou os recortes de jornais
sobre suas glórias presidenciais, e os galhardetes e bandeirolas da campanha, que Homero havia pregado com tanto candor na parede da sala.Achou-o duro de coração, porque nem cumprimentou Bárbara e Lázaro, que tinham feito um presente para ele, e durante o jantar mencionou duas coisas que não conseguia suportar: os cães e as crianças. No entanto, seu sentido caribenho da hospitalidade se impôs sobre seus preconceitos.
Havia vestido a túnica africana de suas noites de festa e seus colares e
pulseiras de candomblé, e não fez durante o jantar um único gesto nem disse uma palavra de sobra. Foi mais que impecável: perfeita.Na verdade o arroz de camarões não estava entre as virtutudes da sua
cozinha, mas foi feito com os melhores desejos, e saiu muito bom. O presidente serviu-se duas vezes sem medir elogios, e encantou-se com as fatias fritas de banana madura e a salada de abacate, embora não tenha compartilhado as nostalgias.Lázara conformou-se com escutar até a sobremesa, quando Homero
encalhou sem nenhum motivo no beco sem saída da existência de Deus.Tinha que ser – disse Lázara, com um sobressalto triunfal, e perguntou
com bons modos: Não é demais dois Peixes numa mesma mesa?Eu sim, acredito que existe – disse o presidente -, mas não tem nada a ver
com os seres humanos.Cuida de coisas muito maiores.
Eu só acredito nos astros – disse Lázara, e sondou a reação do presidente.
Que dia o senhor nasceu?
Onze de março.
. Tinha que ser – disse Lázara, com um sobressalto triunfal, e perguntou
com bons modos:Não é demais dois Peixes numa mesma mesa?
Os homens continuavam falando de Deus quando ela foi para a cozinha
preparar o café. Havia recolhido os pratos e travessas e ansiava no fundo da alma que a noite acabasse bem. De regresso à sala com o café, deu de encontro com uma frase solta pelo presidente e que a deixou atônita:. Não tenha dúvida, meu querido amigo: a pior coisa que aconteceu a
nosso pobre país é que eu tenha sido presidente. Homero viu Lázara na porta com as xícaras chinesas e a cafeteira emprestada, e achou que ela ia desmaiar. Também o presidente reparou nela.”Não me olhe assim, senhora”, disse de modo afável. “Estou falando com o coração.” E depois, voltando-se para Homero, terminou:. Pelo menos estou pagando caro pela minha insensatez.
Lázara serviu o café, apagou o lustre que estava bem em cima da mesa e
cuja luz inclemente estorvava a conversa, e a sala ficou numa penumbra íntima. Pela primeira vez se interessou pelo convidado, cuja graça não conseguia dissimular sua tristeza. A curiosidade de Lázara aumentou quando ele terminou o café e virou a xícara de boca para baixo para que a borra repousasse.O presidente contou a eles, depois da sobremesa, que havia escolhido a
ilha de Martinica para seu desterro, pela amizade com o poeta Aimé Césaire, que naquela época acabava de publicar seu Cahier d’un retour au pays natal, e prestou-lhe ajuda para começar uma nova vida. Com o que lhes restava da herança da esposa compraram uma casa de madeiras nobres nas colinas de Fort de France, com telas de arame nas janelas e uma varanda de mar cheia de flores primitivas, onde era um gozo dormir com o alvoroço dos grilos e a brisa de melado e rum de cana dos trapiches. Ficou ali com a esposa, catorze anos mais velha que ele e doente desde seu parto único, entrincheirado contra o destino na releitura viciosa de seus clássicos latinos, em latim, e com a convicção de que aquele era o ato final de sua vida.Durante anos precisou resistir às tentações de todo tipo de aventura que
seus partidários derrotados lhe propunham.. Mas nunca tornei a abrir uma carta – disse.
. Nunca, desde que descobri que até as mais urgentes eram menos
urgentes uma semana depois, e que dois meses depois não se lembrava delas nem mesmo quem as havia escrito.Olhou para Lázara à meia-luz quando ela acendeu um cigarro, e tirou-o da
mulher com um movimento ávido dos dedos. Deu uma tragada profunda, e reteve a fumaça na garganta. Lázara, surpreendida, apanhou o maço e os
fósforos para acender outro, mas ele devolveu-lhe o cigarro aceso. “A senhora fuma com tanto gosto que não pude resistir à tentação”, disse ele. Mas teve que soltar a fumaça porque sofreu um princípio de tosse.. Abandonei o vício há muitos anos, mas ele não me abandonou – disse. –
Algumas vezes, consegue me vencer. Como agora. A tosse deu-lhe duas outras sacudidas. A dor voltou. O presidente olhou
as horas no reloginho de bolso, e tomou as duas pílulas da noite. Depois, sondou o fundo da xícara: nada havia mudado, mas daquela vez não
estremeceu.Tem mentira e não tem – disse o presidente com uma calma celestial. –
Tratando-se de um presidente, as piores ignomínias podem ser as duas coisas ao mesmo tempo: verdade e mentira.Havia vivido na Martinica todos os dias do exílio, sem outro contato com
o exterior que as poucas notícias do jornal oficial, sustentando-se com as aulas de espanhol e latim num liceu oficial e com as traduções que às vezes Aim Césaire encomendava.Alguns de meus antigos partidários foram presidentes depois de mim –
disse.Sáyago – disse Homero.
Sáyago e outros – disse ele. – Todos como eu: usurpando uma honra que
não merecíamos com um ofício que não sabíamos fazer. Alguns perseguem só o poder, mas a maioria busca ainda menos que isso: o emprego.Lázara se encrespou.
O senhor sabe o que dizem do senhor?
perguntou.Homero, alarmado, interveio:
Tudo mentira.
. Tem mentira e não tem – disse o presidente com uma calma celestial. –
Tratando-se de um presidente, as piores ignomínias podem ser as duas coisas ao mesmo tempo: verdade e mentira.Havia vivido na Martinica todos os dias do exílio, sem outro contato com
o exterior que as poucas notícias do jornal oficial, sustentando-se com as aulas de espanhol e latim num liceu oficial e com as traduções que às vezes Aimé Césaire encomendava.O calor era insuportável em agosto, e ele ficava na rede até o meio-dia,
lendo ao arrulho do ventilador no teto do dormitório. Sua mulher cuidava dos pássaros que criava soltos, mesmo nas horas de mais calor, protegendo-se do sol com um chapéu de palha de abas grandes, adornado de morangos artificiais e flores de organdi. Mas quando o calor diminuía era bom tomar a fresca na varanda, ele com a vista fixa no mar até que chegavam as trevas, e ela em sua cadeira de balanço de vime, com o chapéu de aba quebrada e as bijuterias em todos os dedos, vendo passar os navios do mundo. “Esse vai para Puerto Santo”, dizia ela. “Esse quase nem pode andar com a carga de banana-ouro de Puerto Santo”, dizia. Pois achava impossível que passasse um barco que não fosse de sua terra. Ele bancava o surdo, embora no fim ela tenha conseguido esquecer melhor que ele, porque ficou sem memória. Permaneciam assim até que terminavam os crepúsculos fragorosos, e tinham que se refugiar na casa derrotados pelos mosquitos. Num daqueles tantos agostos, enquanto lia o jornal na varanda, o presidente deu um salto de assombro.. Porra! – disse. – Morri no Estoril!
Sua esposa, levitando no torpor, espantou-se com a notícia. Eram seis
linhas na quinta página do jornal que era impresso na virada da esquina, onde publicavam suas traduções ocasionais, e cujo diretor passava para visitá-lo de vez em quando. E agora dizia que tinha morrido no Estoril de Lisboa, balneário e abrigo da decadência européia, onde nunca havia estado, e talvez o único lugar do mundo onde não teria querido morrer. A esposa morreu de verdade um ano depois, atormentada pela última lembrança que lhe restava para aquele instante: a do filho único, que havia participado na derrubada do pai, e foi fuzilado mais tarde por seus próprios cúmplices.O presidente suspirou. “Somos assim, e nada poderá redimir-nos”, disse.
“Um continente concebido pela merda do mundo inteiro sem um instante de amor: filhos de raptos, violações, de tratos infames, de enganos, de inimigos com inimigos.” Enfrentou os olhos africanos de Lázara, que o examinavam sem piedade, e tentou amansá-la com sua lábia de velho professor.
. A palavra mestiçagem significa misturar as lágrimas com o sangue que
corre. O que se pode esperar de semelhante beberagem?Lázara cravou-o em seu lugar com um silencio de morte. Mas conseguiu
superar-se, pouco antes da meia-noite, e despediu-se dele com um beijo formal.O presidente se opôs a que Homero o acompanhasse ao hotel, mas não
pôde impedir que o ajudasse a conseguir um táxi. De volta para casa, Homero encontrou a mulher desfeita em fúria.. Esse é o presidente mais bem derrubado do mundo – disse ela. – Um
tremendo filho da puta.Apesar dos esforços que Homero fez para tranqüilizá-la, passaram em
claro uma noite terrível. Lázara reconhecia que era um dos homens mais belos que havia visto, com um poder de sedução devastador e uma virilidade de reprodutor. “Do jeito que está, velho e fodido, ainda deve ser um tigre na cama”, disse. Mas achava que havia desperdiçado esses dons de Deus a serviço do fingimento. Não podia suportar seus alardes por ter sido o pior presidente de seu país. Nem seu jeito de asceta, pois estava convencida de que era dono de metade das usinas de açúcar da Martinica. Nem a hipocrisia de seu desdém pelo poder, se era evidente que daria tudo para voltar nem que fosse por um minuto à presidência para mandar seus inimigos comer pó.. E tudo isso – concluiu – só para nos ter rendidos aos seus pés.
. O que ele pode ganhar com isso? – perguntou Homero.
. Nada – disse ela. – Acontece que a vaidade é um vício que não se sacia
com nada.Era tanta a sua fúria que Homero não conseguiu agüentá-la na cama, e foi
terminar a noite enrolado num cobertor no divã da sala. Lázara levantou-se
também de madrugada, nua de corpo inteiro, como costumava dormir e ficar em casa, e falando sozinha num monólogo de uma corda só. Num instante apagou da memória da humanidade qualquer rastro do jantar indesejável. Devolveu ao amanhecer as coisas emprestadas, mudou as cortinas novas pelas velhas e pôs os móveis em seu lugar, até que a casa voltou a ser tão pobre e decente como havia sido até a noite anterior. Finalmente arrancou os recortes de jornal, os retratos, as bandeirolas e galhardetes da campanha abominável, e jogou tudo na lata de lixo com um grito final.. Vai pro caralho!
Uma semana depois do jantar, Homero encontrou o presidente esperando
por ele na saída do hospital, com a súplica de que o acompanhasse até seu
hotel. Subiram os três andares empinados até uma água-furtada com uma única clarabóia que dava para um céu de cinzas, e atravessada por uma corda com roupa para secar. Havia além disso uma cama de casal que ocupava a metade do espaço, uma cadeira simples, uma bacia e um bidê portátil, e um guarda roupa de pobre com um espelho nublado. O presidente reparou na impressão de Homero.É o mesmo cubículo onde vivi meus anos de estudante – disse, como que
se desculpando.
Reservei-o de Fort de France.Tirou de um pequeno saco de veludo e espalhou sobre a cama o saldo
final de seus recursos: várias pulseiras de ouro com diferentes adornos de
pedras preciosas, um colar de pérolas de três voltas e outros dois de ouro e
pedras preciosas; três correntes de ouro com medalhas de santos e um par de brincos de ouro com esmeraldas, outro com diamantes e outro com rubis; três relicários, onze anéis com todo tipo de pedras preciosas e um diadema de brilhantes que podia ter sido de uma rainha. Depois tirou de um estojo diferente três pares de abotoaduras de prata e duas de ouro com seus correspondentes prendedores de gravata, e um relógio de bolso folheado em ouro branco. Finalmente tirou de uma caixa de sapatos suas seis condecorações: duas de ouro, uma de prata, e o resto de pura sucata.. É tudo o que me resta na vida – disse.
Não tinha outra alternativa a não ser vender tudo para completar os
gastos médicos, e desejava que Homero fizesse o favor com o maior sigilo. No entanto, Homero não se sentiu capaz de ajudá-lo se não tivesse as notas fiscais em regra.O presidente lhe explicou que eram prendas de sua esposa herdadas de
uma avó colonial que por sua vez havia herdado um pacote de ações de minas de ouro da Colômbia. O relógio, as abotoaduras e os prendedores de gravata eram dele. As condecorações, claro, não tinham sido de ninguém antes.. Não acredito que alguém tenha notas fiscais de coisas como essas – disse.
Homero foi inflexível.
. Nesse caso – refletiu o presidente -, não tenho outro remédio a não ser
mostrar minha cara.Começou a recolher as jóias com uma calma calculada.
“Peço que me perdoe, meu querido Homero, mas é que não há pior
pobreza que a de um presidente pobre”, disse. “Até sobreviver parece indigno.”Nesse instante, Homero viu-o com o coração, e se rendeu.
Naquela noite, Lázara voltou tarde para casa.
Da porta viu as jóias radiantes debaixo da luz de mercúrio da sala, e foi
como se tivesse visto um escorpião em sua cama.. Não seja imbecil, moreno – disse assustada.
. O que estas coisas estão fazendo aqui?
A explicação de Homero deixou-a ainda mais inquieta. Sentou-se para
examinar as jóias, uma por uma, com uma meticulosidade de ourives. Num
certo momento suspirou: “Deve valer uma fortuna.” No final, ficou olhando Homero sem encontrar uma saida para seu ofuscamento.. Caralho – disse. – Como é que a gente faz para saber se o que esse homem falou é verdade?
. E por que não? – disse Homero. – Acabo de ver que ele mesmo lava sua
roupa, e a seca no quarto igualzinho a nós, pendurada num arame.. Porque é avarento – disse Lázara.
. Ou porque é pobre – disse Homero.
Lázara tornou a examinar as jóias, mas agora com menos atenção, porque
ela também estava vencida. Assim, na manhã seguinte vestiu-se com o que tinha de melhor, enfeitou-se com as jóias que lhe pareceram as mais caras, pôs quantos anéis pôde em cada dedo, até no polegar, e quantas pulseiras conseguiu em cada braço, e foi
vendê-las. “Vamos ver quem pede nota fiscal a Lázara Davis”, disse ao sair,
empavonando-se de riso. Escolheu a joalheria exata, com mais ares de prestígio, onde sabia que vendia-se e comprava-se sem muitas perguntas, e entrou apavorada mas pisando firme.Um vendedor vestido a rigor, enxuto e pálido, fez para ela uma vênia
teatral ao beijar sua mão, e colocou-se às suas ordens. O interior era mais claro que o dia, pelos espelhos e as luzes intensas, e a loja inteira parecia um diamante. Lázara, olhando pouco para o funcionário com temor que ele percebesse a farsa, continuou até o fundo.O funcionário convidou-a a sentar-se diante de uma das três escrivaninhas
Luis XV que serviam de vitrines individuais, e estendeu em cima um lenço
imaculado. Depois sentou-se na frente de Lázara e esperou.. Em que posso servi-la?
Ela tirou os anéis, as pulseiras, os colares, os brincos, tudo que estava à
vista, e foi colocando sobre a escrivaninha numa ordem de tabuleiro de xadrez.A única coisa que queria, disse, era conhecer seu verdadeiro valor.
O joalheiro pôs o monóculo no olho esquerdo, e começou a examinar as
jóias com um silêncio clínico.Após um longo tempo, sem interromper o exame, perguntou:
. De onde a senhora é?
Lázara não havia previsto esta pergunta.
. Ai, meu senhor – suspirou. – De muito longe.
. Imagino – disse ele.
Voltou ao silencio, enquanto Lázara examinava-o sem misericórdia com
seus terríveis olhos de ouro.O joalheiro consagrou uma atenção especial ao diadema de diamantes, e
colocou-o separado das outras jóias. Lázara suspirou.. O senhor é um Virgem perfeito – disse.
O joalheiro não interrompeu o exame.
. Como sabe?
. Pelo seu modo de ser – disse Lázara.
Ele não fez nenhum comentário até que terminou, e dirigiu-se a ela com a
mesma parcimônia do princípio.. De onde vem tudo isso?
. Herança da minha avó – disse Lázara com voz tensa. – Morreu o ano
passado em Paramaribo, aos noventa e sete anos.O joalheiro olhou-a então nos olhos. “Sinto muito”, disse. “Mas o único
valor destas coisas é o peso do ouro.” Pegou o diadema com a ponta dos dedos e fez com que brilhasse debaixo da luz deslumbrante.. Menos esta – disse. – É muito antiga, egípcia talvez, e teria um valor
incalculável se não fosse pelo estado dos brilhantes. Mas de todo modo, tem um certo valor histórico. Em troca, as pedras das outras jóias, as ametistas, as esmeraldas, os rubis, os opalas, todas, sem exceção, eram falsas. “Sem dúvida, as originais foram boas”, disse o joalheiro, enquanto recolhia as peças para devolvê-las. “Mas de tanto passar de uma geração a outra as pedras legítimas foram ficando no caminho, substituídas por cacos de garrafa.” Lázara sentiu uma náusea verde, respirou fundo e dominou o pânico. O vendedor a consolou:. É comum acontecer, senhora.
. Já sei – disse Lázara, aliviada. – Por isso quero me livrar delas.
Então sentiu que estava além da farsa, e tornou a ser ela mesma. Sem mais
rodeios tirou da bolsa as abotoaduras, o relógio de bolso, os prendedores de gravata, as condecorações de ouro e prata, e o resto das jóias pessoais do presidente, e pôs tudo em cima da mesa.. Isto também? – perguntou o joalheiro.
. Tudo – disse Lázara.
Os francos suíços com que lhe pagaram eram tão novos que teve medo de
manchar os dedos com a tinta fresca. Recebeu-os sem contar, e o joalheiro
despediu-se na porta com a mesma cerimônia da recepção.Já de saída, segurando a porta de vidro para ela, atrasou-a um instante.
. Uma última coisa, senhora – disse -, sou Aquário.
No começo da noite Homero e Lázara levaram o dinheiro ao hotel. Feitas
todas as contas, faltava um pouco. De maneira que o presidente tirou e foi
pondo sobre a cama a aliança de casamento, o relógio com a corrente e as
abotoaduras e o prendedor de gravatas que estava usando.Lázara devolveu-lhe a aliança.
. Isto não – disse. – Uma lembrança destas não se pode vender.
O presidente admitiu e tornou a pôr a aliança.
Lázara devolveu-lhe também o relógio do colete. “Isto também não”, disse.
O presidente não concordou mas ela o colocou em seu lugar.
. Quem pode querer vender relógios na Suíça?
. Já vendemos um – disse o presidente.
. Sim, mas não porque era relógio, porque era de ouro.
. Este também é de ouro – disse o presidente.
Sim – disse Lázara. – Só que o senhor pode até ficar sem se operar, mas
não pode ficar sem saber as horas.Tampouco aceitou a armação de ouro dos óculos, embora ele tivesse outro
par com armação de tartaruga. Calculou na mão o peso das jóias, e pôs um fim às dúvidas.. Além do mais – disse -‘ isto basta.
Antes de sair, tirou da corda a roupa molhada, sem consultá-lo, e levou-a
para secar e passar em casa. Foram embora na motoneta, Homero conduzindo, e Lázara na garupa, abraçada à sua cintura.As luzes dos postes acabavam de ser acesas na tarde malva. O vento havia
arrancado as últimas folhas, e as árvores pareciam fósseis depenados.
Um rebocador descia pelo Ródano com um rádio a todo volume que ia
deixando pelas ruas uma trilha de música. Georges Brassens cantava:
Mon amour tiens bien la barre, le temps va passer par lã, et le temps est
una barbare dans le genre d’A ttila, par lã oà son cheval passe Pamour ne
repousse pas. Homero e Lázara corriam em silencio embriagados pela canção e o cheiro memorável dos jacintos. Após um tempinho, ela pareceu despertar de um longo sonho.. Caralho! – disse.
. O que?
. Coitado do velho! – disse Lázara. – Que vida de merda!

Na sexta-feira seguinte, 7 de outubro, o presidente foi operado numa
sessão de cinco horas que num primeiro momento deixou as coisas tão obscuras como estavam. A rigor, o único consolo era saber que estava vivo. Depois de dez dias, foi levado para um quarto com outros doentes, e puderam visitá-lo. Era outro: desorientado e macilento, e com um cabelo ralo que se soltava com o puro roçar do travesseiro. De sua antiga altivez só lhe restava a fluidez das mãos. Sua primeira tentativa de caminhar com duas bengalas ortopédicas foi desalentadora.Lázara ficava para dormir ao seu lado para economizar o custo de uma
enfermeira noturna. Um dos doentes do quarto passou a primeira noite
gritando com pânico da morte. Aquelas vigílias intermináveis acabaram com as últimas resistências de Lázara.Quatro meses depois de ter chegado a Genebra, teve alta. Homero,
administrador meticuloso de seus fundos exíguos, pagou as contas do hospital e levou-o em sua ambulância com outros empregados que ajudaram a subi-lo até o oitavo andar. Instalou-se no quarto das crianças, que nunca reconheceu, e pouco a pouco voltou à realidade. Empenhou-se nos exercícios de reabilitação com um rigor militar, e voltou a caminhar com sua bengala solitária. Mas mesmo vestido com a boa roupa de antes estava muito longe de ser o mesmo, tanto por seu aspecto quanto por sua maneira de ser. Temeroso do inverno que se anunciava muito severo, e que na realidade foi o mais cruel do século atéaquela altura, decidiu regressar num barco que zarpava de Marselha no dia 13 de dezembro, contra a opinião dos médicos que queriam vigiá-lo um pouco mais. Na última hora o dinheiro não deu para tudo, e Lázara quis completá-lo escondida de seu marido com um arranhão a mais nas economias das crianças,
mas também ali encontrou menos do que esperava. Então Homero confessou que havia pegado escondido dela para completar a conta do hospital.
Bem – resignou-se Lázara. – Digamos que era o filho mais velho.No dia 11 de dezembro foi embarcado no trem de Marselha debaixo de
uma forte tormenta de neve, e só quando voltaram para casa encontraram uma carta de despedida no criado-mudo das crianças. Deixou lá sua aliança para Bárbara, junto com a da esposa morta, que jamais tentou vender, e o relógio de corrente para Lázaro. Como era domingo, alguns vizinhos caribenhos que descobriram o segredo haviam acudido à estação de Cornavin com um conjunto de harpas de Veracruz. O presidente estava sem fôlego, com o abrigo de perdulário e um longo cachecol colorido que tinha sido de Lázara, mas ainda assim permaneceu na boléia do último vagão acenando com o chapéu debaixo do açoite do vendaval.O trem começava a acelerar quando Homero percebeu que tinha ficado
com a bengala. Correu até o extremo da plataforma e lançou-a com bastante força para que o presidente a agarrasse no ar, mas ela caiu entre as rodas e foi destroçada. Foi um instante de terror. A última coisa que Lázara viu foi a mão trêmula esticada para agarrar a bengala que nunca alcançou, e o guarda do trem que conseguiu agarrar pelo cachecol o ancião coberto de neve, e salvou-o no vazio. Lázara correu apavorada ao encontro do marido tentando rir entre as lágrimas.. Deus meu – gritou para ele -, esse homem não morre de jeito nenhum.
Chegou são e salvo, conforme anunciou em seu extenso telegrama de
gratidão. Não se voltou a saber nada dele durante mais de um ano. Por fim
chegou uma carta de seis folhas manuscritas na qual já era impossível
reconhecê-lo. A dor havia voltado, tão intensa e pontual como antes, mas ele decidiu não dar importância e dedicar-se a viver a vida do jeito que fosse. O poeta Aimé Césaire tinha lhe dado outra bengala com incrustações de nácar, mas estava decidido a não usá-la. Fazia seis meses que comia carne com regularidade, e todo tipo de mariscos, e era capaz de beber até vinte xícaras diárias de café da montanha. Mas já não lia o fundo da xícara porque seus prognósticos saíam ao contrário.No dia em que fez setenta e cinco anos havia tomado uns cálices pequenos
do esplêndido rum da Martinica, que caíram muito bem, e voltou a fumar. Nãose sentia melhor, é claro, nem pior. No entanto, o motivo real da carta era para comunicar-lhes que se sentia tentado a voltar ao seu país para colocar-se à frente de um movimento renovador, por uma causa justa e uma pátria digna, nem que fosse apenas pela glória mesquinha de não morrer de velhice na própria cama. Neste sentido, concluía a carta, a viagem para Genebra tinha sido providencial.
Junho de 1979Gabriel Garcia Márquez – 1927/2014.
- DO CANTO DO FORTE PARA À PRAIApor blogdototonho


Antônio José Christovão – 2023.
- PEQUENAS DOSESpor blogdototonho

Luiz Antônio Nogueira da Guia.
Populismo em desespero
O prefeito de Búzios, Alexandre Martins (Republicanos), fotografado de enxada na mão, tentando limpar e desobstruir ralos da rede de águas pluviais é um exemplo claro de desenfreado de populismo oportunista. No mínimo, fazendo um trabalho, que seu governo já deveria ter executado com bastante antecedência para que a população não fosse prejudicada.Como diria minha avó, “Babau seu Chico”.
As nuvens celestes engordaram
Os prefeitos tendem a colocar a culpa no velho e bom São Pedro, que durante muito tempo controlou as gordas torneiras das nuvens celestes. Acontece que com o passar dos anos e a falta de consciência das tribos dos humanos se desenvolveu o tal do aquecimento global, que foi tirando das mãos do velho santo o controle das torneiras celestes, provocando desastres aqui, ali e acolá. Quem sofre? A população mais pobre.
Demagogia é sinônimo de crueldade.
Outros prefeitos, também numerosos, tem a audácia de colocar a culpa dos desastres ditos “naturais” na população mais pobre que, mora em lugares inadequados, digamos assim. O problema é que nenhum desses prefeitos cumpre a legislação como deveria, impedindo a construção em lugares perigosos e criando políticas habitacionais, que atendessem as necessidades habitacionais.
Demagogia é sinônimo de crueldade 2
O resultado dessa inércia ou descaso administrativo por parte das prefeituras leva a população mais pobre a se ajeitar em áreas consideradas de risco. Na hora das chuvas torrenciais, obviamente é o setor da população mais atingido, o que mais sofre. Fazer demagogia nesses momentos é sinônimo de crueldade.
A Biblioteca
A Biblioteca Municipal Walter Nogueira executa belo trabalho em benefício da população, especialmente dos estudantes das redes públicas do estado e do município. O prédio, porém, que abriga a biblioteca está em péssimo estado e em outras coisas não recebe mais doações por falta de espaço. Uma pena que a mesma prefeitura, que tão rapidamente reformou o “Correão” não tenha a mesma presteza para atender a biblioteca.
Na Faixa de Gaza
O professor José Américo Trindade, conhecido como o “russo branco”, Capitão Babadovsky ou simplesmente Babade, Octávio Perelló, João Sérgio e o militante do PSOL, Cláudio Leitão, formaram na tarde de ontem a linha de frente contra o avanço sionista e imperialista no Oriente Médio. Todos sentiram a falta do maior defensor da Palestina, na Região dos Lagos, Juninho Nogueira, que anda sumido lá pelas bandas do Jardim Flamboyant ou entocado na Faixa de Gaza. A conferir!
Nas redes sociais …
As redes sociais da Internet tem sido palco de conflitos e denúncias de toda sorte, particularmente contra o governo municipal, o que de certa maneira espelha o início da corrida eleitoral. Lamentavelmente, percebe-se que boa parte das denúncias não vem acompanhadas de provas contundentes, mas dotadas de muita agressividade.
Fissuras na Câmara?
A tendência é aparecerem algumas fissuras, na Câmara, eliminando o monopólio político do governo no Legislativo. Alguns vereadores, obviamente apoiarão candidatos (acordos antigos) que não aqueles do prefeito Serginho Azevedo. É bom ficar de olho nos efeitos na administração pública, principalmente nas relações Executivo/Legislativo.

- DIVULGAÇÃOpor blogdototonho




- CASA TOMADApor blogdototonho

Júlio Cortázar (*)
Gostávamos da casa porque, além de ser espaçosa e antiga (as casas antigas de hoje sucumbem às mais vantajosas liquidações dos seus materiais), guardava as lembranças de nossos bisavós, do avô paterno, de nossos pais e de toda a nossa infância.
Acostumamo-nos Irene e eu a persistir sozinhos nela, o que era uma loucura, pois nessa casa poderiam viver oito pessoas sem se estorvarem. Fazíamos a limpeza pela manhã, levantando-nos às sete horas, e, por volta das onze horas, eu deixava para Irene os últimos quartos para repassar e ia para a cozinha. O almoço era ao meio-dia, sempre pontualmente; já que nada ficava por fazer, a não ser alguns pratos sujos. Gostávamos de almoçar pensando na casa profunda e silenciosa e em como conseguíamos mantê-la limpa. Às vezes chegávamos a pensar que fora ela a que não nos deixou casar. Irene dispensou dois pretendentes sem motivos maiores, eu perdi Maria Esther pouco antes do nosso noivado. Entramos na casa dos quarenta anos com a inexpressada ideia de que o nosso simples e silencioso casamento de irmãos era uma necessária clausura da genealogia assentada por nossos bisavós na nossa casa. Ali morreríamos algum dia, preguiçosos e toscos primos ficariam com a casa e a mandariam derrubar para enriquecer com o terreno e os tijolos; ou melhor, nós mesmos a derrubaríamos com toda justiça, antes que fosse tarde demais.
Irene era uma jovem nascida para não incomodar ninguém. Fora sua atividade matinal, ela passava o resto do dia tricotando no sofá do seu quarto. Não sei por que tricotava tanto, eu penso que as mulheres tricotam quando consideram que essa tarefa é um pretexto para não fazerem nada. Irene não era assim, tricotava coisas sempre necessárias, casacos para o inverno, meias para mim, xales e coletes para ela. Às vezes tricotava um colete e depois o desfazia num instante porque alguma coisa lhe desagradava; era engraçado ver na cestinha aquele monte de lã encrespada resistindo a perder sua forma anterior. Aos sábados eu ia ao centro para comprar lã; Irene confiava no meu bom gosto, sentia prazer com as cores e jamais tive que devolver as madeixas. Eu aproveitava essas saídas para dar uma volta pelas livrarias e perguntar em vão se havia novidades de literatura francesa. Desde 1939 não chegava nada valioso na Argentina. Mas é da casa que me interessa falar, da casa e de Irene, porque eu não tenho nenhuma importância. Pergunto-me o que teria feito Irene sem o tricô. A gente pode reler um livro, mas quando um casaco está terminado não se pode repetir sem escândalo. Certo dia encontrei numa gaveta da cômoda xales brancos, verdes, lilases, cobertos de naftalina, empilhados como num armarinho; não tive coragem de lhe perguntar o que pensava fazer com eles. Não precisávamos ganhar a vida, todos os meses chegava dinheiro dos campos que ia sempre aumentando. Mas era só o tricô que distraía Irene, ela mostrava uma destreza maravilhosa e eu passava horas olhando suas mãos como puas prateadas, agulhas indo e vindo, e uma ou duas cestinhas no chão onde se agitavam constantemente os novelos. Era muito bonito.

Como não me lembrar da distribuição da casa! A sala de jantar, uma sala com gobelins, a biblioteca e três quartos grandes ficavam na parte mais afastada, a que dá para a rua Rodríguez Pena. Somente um corredor com sua maciça porta de mogno isolava essa parte da ala dianteira onde havia um banheiro, a cozinha, nossos quartos e o salão central, com o qual se comunicavam os quartos e o corredor. Entrava-se na casa por um corredor de azulejos de Maiorca, e a porta cancela ficava na entrada do salão. De forma que as pessoas entravam pelo corredor, abriam a cancela e passavam para o salão; havia aos lados as portas dos nossos quartos, e na frente o corredor que levava para a parte mais afastada; avançando pelo corredor atravessava-se a porta de mogno e um pouco mais além começava o outro lado da casa, também se podia girar à esquerda justamente antes da porta e seguir pelo corredor mais estreito que levava para a cozinha e para o banheiro. Quando a porta estava aberta, as pessoas percebiam que a casa era muito grande; porque, do contrário, dava a impressão de ser um apartamento dos que agora estão construindo, mal dá para mexer-se; Irene e eu vivíamos sempre nessa parte da casa, quase nunca chegávamos além da porta de mogno, a não ser para fazer a limpeza, pois é incrível como se junta pó nos móveis. Buenos Aires pode ser uma cidade limpa; mas isso é graças aos seus habitantes e não a outra coisa. Há poeira demais no ar, mal sopra uma brisa e já se apalpa o pó nos mármores dos consoles e entre os losangos das toalhas de macramê; dá trabalho tirá-lo bem com o espanador, ele voa e fica suspenso no ar um momento e depois se deposita novamente nos móveis e nos pianos.
Lembrarei sempre com toda a clareza porque foi muito simples e sem circunstâncias inúteis. Irene estava tricotando no seu quarto, por volta das oito da noite, e de repente tive a ideia de colocar no fogo a chaleira para o chimarrão. Andei pelo corredor até ficar de frente à porta de mogno entreaberta, e fazia a curva que levava para a cozinha quando ouvi alguma coisa na sala de jantar ou na biblioteca. O som chegava impreciso e surdo, como uma cadeira caindo no tapete ou um abafado sussurro de conversa. Também o ouvi, ao mesmo tempo ou um segundo depois, no fundo do corredor que levava daqueles quartos até a porta. Joguei-me contra a parede antes que fosse tarde demais, fechei-a de um golpe, apoiando meu corpo; felizmente a chave estava colocada do nosso lado e também passei o grande fecho para mais segurança.

Entrei na cozinha, esquentei a chaleira e, quando voltei com a bandeja do chimarrão, falei para Irene:
— Tive que fechar a porta do corredor. Tomaram a parte dos fundos.
Ela deixou cair o tricô e olhou para mim com seus graves e cansados olhos.
— Tem certeza?
Assenti.
— Então — falou pegando as agulhas — teremos que viver deste lado.
Eu preparava o chimarrão com muito cuidado, mas ela demorou um instante para retornar à sua tarefa. Lembro-me de que ela estava tricotando um colete cinza; eu gostava desse colete.
Os primeiros dias pareceram-nos penosos, porque ambos havíamos deixado na parte tomada muitas coisas de que gostávamos. Meus livros de literatura francesa, por exemplo, estavam todos na biblioteca. Irene pensou numa garrafa de Hesperidina de muitos anos. Frequentemente (mas isso aconteceu somente nos primeiros dias) fechávamos alguma gaveta das cômodas e nos olhávamos com tristeza.
— Não está aqui.
E era mais uma coisa que tínhamos perdido do outro lado da casa.
Porém também tivemos algumas vantagens. A limpeza simplificou-se tanto que, embora levantássemos bem mais tarde, às nove e meia por exemplo, antes das onze horas já estávamos de braços cruzados. Irene foi se acostumando a ir junto comigo à cozinha para me ajudar a preparar o almoço. Depois de pensar muito, decidimos isto: enquanto eu preparava o almoço, Irene cozinharia os pratos para comermos frios à noite. Ficamos felizes, pois era sempre incômodo ter que abandonar os quartos à tardinha para cozinhar. Agora bastava pôr a mesa no quarto de Irene e as travessas de comida fria.
Irene estava contente porque sobrava mais tempo para tricotar. Eu andava um pouco perdido por causa dos livros, mas, para não afligir minha irmã, resolvi rever a coleção de selos do papai, e isso me serviu para matar o tempo. Divertia-nos muito, cada um com suas coisas, quase sempre juntos no quarto de Irene que era o mais confortável. Às vezes Irene falava:
— Olha esse ponto que acabei de inventar. Parece um desenho de um trevo?
Um instante depois era eu que colocava na frente dos seus olhos um quadradinho de papel para que olhasse o mérito de algum selo de Eupen e Malmédy. Estávamos muito bem, e pouco a pouco começamos a não pensar. Pode-se viver sem pensar.
(Quando Irene sonhava em voz alta eu perdia o sono. Nunca pude me acostumar a essa voz de estátua ou papagaio, voz que vem dos sonhos e não da garganta. Irene falava que meus sonhos consistiam em grandes sacudidas que às vezes faziam cair o cobertor ao chão. Nossos quartos tinham o salão no meio, mas à noite ouvia-se qualquer coisa na casa. Ouvíamos nossa respiração, a tosse, pressentíamos os gestos que aproximavam a mão do interruptor da lâmpada, as mútuas e frequentes insônias.
Fora isso tudo estava calado na casa. Durante o dia eram os rumores domésticos, o roçar metálico das agulhas de tricô, um rangido ao passar as folhas do álbum filatélico. A porta de mogno, creio já tê-lo dito, era maciça. Na cozinha e no banheiro, que ficavam encostados na parte tomada, falávamos em voz mais alta ou Irene cantava canções de ninar. Numa cozinha há bastante barulho da louça e vidros para que outros sons irrompam nela. Muito poucas vezes permitia-se o silêncio, mas, quando voltávamos para os quartos e para o salão, a casa ficava calada e com pouca luz, até pisávamos devagar para não incomodar-nos. Creio que era por isso que, à noite, quando Irene começava a sonhar em voz alta, eu ficava logo sem sono.)

É quase repetir a mesma coisa menos as consequências. Pela noite sinto sede, e antes de ir para a cama eu disse a Irene que ia até a cozinha pegar um copo d´água. Da porta do quarto (ela tricotava) ouvi barulho na cozinha ou talvez no banheiro, porque a curva do corredor abafava o som. Chamou a atenção de Irene minha maneira brusca de deter-me, e veio ao meu lado sem falar nada. Ficamos ouvindo os ruídos, sentindo claramente que eram deste lado da porta de mogno, na cozinha e no banheiro, ou no corredor mesmo onde começava a curva, quase ao nosso lado.
Sequer nos olhamos. Apertei o braço de Irene e a fiz correr comigo até a porta cancela, sem olhar para trás. Os ruídos se ouviam cada vez mais fortes, porém surdos, nas nossas costas. Fechei de um golpe a cancela e ficamos no corredor. Agora não se ouvia nada.
— Tomaram esta parte — falou Irene. O tricô pendia das suas mãos e os fios chegavam até a cancela e se perdiam embaixo da porta. Quando viu que os novelos tinham ficado do outro lado, soltou o tricô sem olhar para ele.
— Você teve tempo para pegar alguma coisa? — perguntei-lhe inutilmente.
— Não, nada.
Estávamos com a roupa do corpo. Lembrei-me dos quinze mil pesos no armário do quarto. Agora já era tarde.
Como ainda ficara com o relógio de pulso, vi que eram onze da noite. Enlacei com meu braço a cintura de Irene (acho que ela estava chorando) e saímos assim à rua. Antes de partir senti pena, fechei bem a porta da entrada e joguei a chave no ralo da calçada. Não fosse algum pobre-diabo ter a ideia de roubar e entrar na casa, a essa hora e com a casa tomada.
Nota: Fonte e autoria da tradução não identificadas. O conto Casa Tomada foi publicado pela primeira vez em 1946 no periódico argentino Los Anales de Buenos Aires.
Júlio Cortázar – 1914/1984.
- O FORTE SÃO MATHEUSpor blogdototonho

Antônio José Christovão – Foto de 2013. O Forte São Mateus é um ponto de referência histórico e turístico para a cidade. Fica num dos extremos da Praia do Forte, no topo de uma ilhota, ligada ao continente por uma pequena ponte.
Apesar de não ser muito alto, a subida até lá em cima não é isenta de risco de queda. Esse risco tende a aumentar, naturalmente, com a idade e com quaquer problema físico, visual ou motor, de quem deseja subir, conhecer o Forte por dentro e apreciar a linda vista.
O piso, muito irregular, é, em alguns trechos, parcialmente pavimentado por pedras incrustadas no solo, aparentemente realizado há séculos. Em outros trechos, pisa-se nas próprias pedras inclinadas que formam a ilha. Só existe uma corrente lateral para apoio, simulando um corrimão, a qual não inspira nenhuma confiança.
Sei que não se pode desfigurar o sítio, em função da necessidade de se manter as suas características o mais próximo possível do original. Por outro lado, acredito que esse monumento mereceria um estudo das autoridades visando a encontrar e viabilizar uma forma de acesso segura, mas que o agredisse ao mínimo.
Antônio José Christovão – Texto de 2026.
- PEQUENAS DOSESpor blogdototonho

Luiz Antônio Nogueira da Guia.
O Teatro continua fechado
Apesar dos inúmeros anúncios que a reforma doTeatro Municipal Inah de Azevedo Mureb está praticamente no fim, a sua reinauguração não acontece e o teatro para desgosto dos cabofrienses continua fechado. Quantas plateias deixaram de ser formadas nos últimos anos? Quantos grupos teatrais minguaram sem o teatro?
Prateleiras diferentes
As imagens da operação policial na prisão de um procurado pela justiça escondido no Condomínio da Ilha do Anjo refletem bem a assimetria da ação policial. Na favela, tiro, porrada e bomba, mas em condomínio de luxo a ação é bem conduzida, cirúrgica, sem disparar qualquer tiro. No vídeo, ao ser recolhido ao helicóptero o capturado não estava sequer algemado.
Só Imagine
Pois é, primeiro ressaltar a diferença e a importância da Polícia Federal quando ela comanda a investigação. Imagine meu caro leitor uma ação dessa natureza feita pela PM e Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro no Complexo do Alemão. Complexo da Penha ou mesmo por aqui, em bairros populares de Cabo Frio e Região dos Lagos.
A culpa é de São Pedro?
Mais uma vez as chuvas causaram grandes estragos em Cabo Frio e na Região dos Lagos. Não adianta colocar a culpa em São Pedro, que está com as costas cansadas de tanto ser acusado de tudo e mais um pouco pelos governantes terrenos. Não custa lembrar que é justamente São Pedro que tem em mãos as chaves para entrada no céu, portanto, não é bom brigar com ele
Aquecimento global
Que tal lembrar ao governo do Estado e aos senhores que administram a região que profundas alterações climáticas estão acontecendo e é preciso se preparar para elas? Certamente, ouviram falar em aquecimento global e suas consequências para a humanidade, principalmente para as cidades litorâneas. Que tal refletir sobre o tema?
Impostos, Taxas e Contas a pagar
No dia-a-dia de Cabo Frio nota-se grande irritação na sociedade pela maneira como foi aprovada e implementada a Taxa do Lixo, especialmente pela chamada classe média. Importante não esquecer que é essa camada da sociedade a mais gravada por impostos, particularmente no início do ano: a lista de impostos, taxas e contas a pagar é grande e explica a irritação da opinião pública.
O humor nas redes sociais
O governo e os técnicos em comunicação social da administração do prefeito Serginho Azevedo precisam começar a examinar com paciência e firmeza as razões do desgaste junto as redes sociais. O governo que tinha a hegemonia nas redes tem perdido gradativamente o apoio e sofrido uma chuva, quase diária, de questionamentos.
O Desgaste
É claro que parte do problema vem do desgaste natural do próprio governo e junto com ele o processo eleitoral de 2026, que aguça as denúncias mesmo nas almas mais recolhidas: desgastar o adversário em ano de eleição é quase um mantra na política brasileira. Não é só isso, é preciso colocar o pé no chão e tentar acertar o passo.
Praia do Siqueira
O lodo continua a ser retirado da tradicional Praia do Siqueira. É pouco, muito pouco para os anos de estragos no bairro, que segundo os fotógrafos, tem o mais belo por do sol da cidade. A Praia do Siqueira está precisando de uma reforma e maquiagem na orla, mais cuidado com o bairro que dá tanta coisa bonita para Cabo Frio.





- CONTRABANDISTApor blogdototonho

João Simões Lopes Neto (*)
Batia nos anos o corpo magro mas sempre teso do Jango Jorge, um que foi capitão duma maloca de contrabandistas que fez cancha nos banhados do Ibirocaí.
Esse gaúcho desabotinado levou a existência inteira a cruzar os campos da fronteira: à luz do sol, no desmaiado da lua, na escuridão das noites, na cerração das madrugadas…; ainda que chovesse reiúnos acolherados ou que ventasse como por alma de padre, nunca errou vau, nunca perdeu atalho, nunca desandou cruzada!…
Conhecia as querências, pelo faro: aqui era o cheiro do açouta-cavalo florescido, lá o dos trevais, o das guabirobas rasteiras, do capim-limão; pelo ouvido: aqui, cancha de graxains, lá os pastos que ensurdecem ou estalam no casco do cavalo; adiante, o chapechape, noutro ponto, o areão. Até pelo gosto ele dizia a parada, porque sabia onde estavam águas salobres e águas leves, com sabor de barro ou sabendo a limo.
Tinha vindo das guerras do outro tempo; foi um dos que peleou na batalha de Ituzaingo; foi do esquadrão do general José de Abreu e sempre que falava do Anjo da Vitória ainda tirava o chapéu, numa braçada larga, como se cumprimentasse alguém de muito respeito, numa distância muito longe.
Foi sempre um gaúcho quebralhão, e despilchado sempre, por ser muito de mãos abertas.
Se numa mesa de primeira ganhava uma ponchada de balastracas, reunia a gurizada da casa, fazia — pi! pi! pi! pi! — como pra galinhas e semeava as moedas, rindo-se do formigueiro que a miuçalha formava, catando as pratas no terreiro.
Gostava de sentar um laçaço num cachorro, mas desses laçaços de apanhar a paleta à virilha, e puxado a valer, tanto, que o bicho que o tomava, ficando entupido de dor, e lombeando-se, depois de disparar um pouco é que gritava, num — caim! caim! caim! — de desespero.
Outras vezes dava-lhe para armar uma jantarola, e sobre o fim do festo, quando já estava tudo meio entropigaitado, puxava por uma ponta da toalha e lá vinha, de tirão seco, toda a traquitanda dos pratos e copos e garrafas e restos de comidas e caldas dosdoces!…
Depois garganteava a chuspa e largava as onças pras unhas do bolicheiro, que aproveitava o vento e le echaba cuentas degran capitãn… Era um pagodista!
Aqui há poucos anos — coitado — pousei no arranchamento dele. Casado ou doutro jeito, estava afamilhado. Não nos víamos desde muito tempo.
A dona da casa era uma mulher mocetona ainda, bem parecida e mui prazenteira; de filhos, uns três matalotes já emplumados e uma mocinha — pro caso, uma moça —, que era o — santo-antoninho-onde-te-porei! — daquela gente toda.
E era mesmo uma formosura; e prendada, mui habilidosa; tinha andado na escola e sabia botar os vestidos esquisitos das cidadãs da vila. E noiva, casadeira, já era. E deu o caso, que quando eu pousei, foi justo pelas vésperas do casamento; estavam esperando o noivo e o resto do enxoval dela. O noivo chegou no outro dia, grande alegria; começaram os aprontamentos, e como me convidaram com gosto, fiquei pro festo.
O Jango Jorge saiu na madrugada seguinte, para ir buscar o tal enxoval da filha. Aonde, não sei; parecia-me que aquilo devia ser feito em casa, à moda antiga, mas, como cada um manda no que é seu…
Fiquei verdeando, à espera, e fui dando um ajutório na matança dos leitões e no tiramento dos assados com couro.
Nesta terra do Rio Grande sempre se contrabandeou, desde em antes da tomada das Missões.
Naqueles tempos o que se fazia era sem malícia, e mais por divertir e acoquinar as guardas do inimigo: uma partida de guascas montava a cavalo, entrava na Banda Oriental e arrebanhava uma ponta grande de eguariços, abanava o poncho e vinha a meia-rédea; apartava-se a potrada e largava-se o resto; os de lá faziam conosco a mesma cousa; depois era com gados, que se tocava a trote e galope, abandonando os assoleanos.
Isto se fazia por despique dos espanhóis e eles se pagavam desquitando-se do mesmo jeito.
Só se cuidava de negacear as guardas do Cerro Largo, em Santa Tecla, no Haedo… O mais, era várzea!
Depois veio a guerra das Missões; o governo começou a dar sesmarias e uns quantíssimos pesados foram-se arranchando por essas campanhas desertas. E cada um tinha que ser um rei pequeno… e aguentar-se com as balas, as lunares e os chifarotes que tinha em casa!…Foi o tempo do manda-quem-pode!… E foi o tempo que o gaúcho, o seu cavalo e o seu facão, sozinhos, conquistaram e defenderam estes pagos!…
Quem governava aqui o continente era um chefe que se chamava o capitãogeneral; ele dava as sesmarias mas não garantia o pelego dos sesmeiros…
Vancê tome tenência e vá vendo como as cousas, por si mesmas, se explicam. Naquela era, a pólvora era do el-rei nosso senhor e só por sua licença é que algum particular graúdo podia ter em casa um polvarim… Também só na vila de Porto Alegre é que havia baralhos de jogar, que eram feitos só na fábrica do rei nosso senhor, e havia fiscal, sim, senhor, das cartas de jogar, e ninguém podia comprar senão dessas!
Por esses tempos antigos também o tal rei nosso senhor mandou botar pra fora os ourives da vila do Rio Grande e acabar com os lavrantes e prendistas dos outros lugares desta terra, só pra dar flux aos retnois…
Agora imagine vancê se a gente lá de dentro podia andar com tantas etiquetas e pedindo louvado pra se defender, pra se divertir e pra luxar!… O tal rei nosso senhor não se enxergava, mesmo!… E logo com quem!… Com a gauchada!…
Vai então, os estancieiros iam em pessoa ou mandavam ao outro lado, nos espanhóis, buscar pólvora e balas, pras pederneiras, cartas de jogo e prendas de ouro pras mulheres e preparos de prata pros arreios…; e ninguém pagava dízimos dessas cousas.
Às vezes lá voava pelos ares um cargueiro, com cangalhas e tudo, numa explosão de pólvora; doutras uma partilha de milicianos saía de atravessado e tomava conta de tudo, a couce d’arma: isto foi ensinando a escaramuçar com os golas-de-couro.
Nesse serviço foram-se aficionando alguns gaúchos: recebiam as encomendas e pra aproveitar a monção e não ir com os cargueiros debalde, levavam baeta, que vinha do reino, e fumo em corda, que vinha da Bahia, e algum porrão de canha. E faziam trocas, de elas por elas, quase. Os paisanos das duas terras brigavam, mas os mercadores sempre se entendiam…
Isto veio mais ou menos assim até a guerra dos Farrapos; depois vieram as califórnias do Chico Pedro; depois a guerra do Rosas.
Aí inundou-se a fronteira da província de espanhóis e gringos emigrados. A cousa então mudou de figura. A estrangeirada era mitrada, na regra, e foi quem ensinou a gente de cá a mergulhar e ficar de cabeça enxuta…; entrou nos homens a sedução de ganhar barato: bastava ser campeiro e destorcido. Depois, andava-se empandilhado, bem armado; podia-se às vezes dar um vareio nos milicos, ajustar contas com algum devedorde desaforos, aporrear algum subdelegado abelhudo…
Não se lidava com papéis nem contas de cousas: era só levantar os volumes, encangalhar, tocar e entregar!… Quanta gauchagem leviana aparecia, encostava-se. Rompeu a guerra do Paraguai. O dinheiro do Brasil ficou muito caro: uma onça de ouro, que corria por trinta e dois, chegou a valer quarenta e seis mil-réis!… Imagine o que a estrangeirada bolou nas contas!…
Começou-se a cargueirear de um tudo: panos, águas de cheiro, armas, minigâncias, remédios, o diabo a quatro!… Era só pedir por boca! Apareceram também os mascates de campanha, com baús encangalhados e canastras, que passavam pra lá vazios e voltavam cheios, desovar aqui…
Polícia pouca, fronteira aberta, direitos de levar couro e cabelo e nas coletarias umas papeladas cheias de benzeduras e rabioscas… Ora… ora!… Passar bem, paisano!…
A semente grelou e está a árvore ramalhuda, que vancê sabe, do contrabando de hoje. O Jango Jorge foi maioral nesses estropícios. Desde moço. Até a hora da morte.
Eu vi.
Como disse, na madrugada véspera do casamento o Jango Jorge saiu para ir buscar o enxoval da filha. Passou o dia; passou a noite.
No outro dia, que era o do casamento, até de tarde, nada. Havia na casa uma gentama convidada; da vila, vizinhos, os padrinhos, autoridades, moçada. Havia de se dançar três dias!… Corria o amargo e copinhos de licor de butiá.
Roncavam cordeonas no fogão, violas na ramada, uma caixa de música na sala. Quase ao entrar do sol a mesa estava posta, vergando ao peso dos pratos enfeitados.
A dona da casa, por certo traquejada nessas bolandinas do marido, estava sossegada, ao menos ao parecer.
Às vezes mandava um dos filhos ver se o pai aparecia, na volta da estrada, encoberta por uma restinga fechada de arvoredo.
Surgiu dum quarto o noivo, todo no trinque, de colarinho duro e casaco de rabo. Houve caçoadas, ditérios, elogios.
Só faltava a noiva; mas essa não podia aparecer, por falta do seu vestido branco, dos seus sapatos brancos, do seu véu branco, das suas flores de laranjeira, que o pai fora buscar e ainda não trouxera. As moças riam-se; as senhoras velhas cochichavam.
Entardeceu.
Nisto correu voz que a noiva estava chorando: fizemos uma algazarra e ela — tãoboazinha! — veio à porta do quarto, bem penteada, ainda num vestidinho de chita de andar em casa, e pôs-se a rir pra nós, pra mostrar que estava contente.
A rir, sim, rindo na boca, mas também a chorar lágrimas grandes, que rolavam devagar nos olhos pestanudos…
E rindo e chorando estava, sem saber por quê… sem saber por que, rindo e chorando, quando alguém gritou do terreiro: — Aí vem o Jango Jorge, com mais gente!…
Foi um vozerio geral; a moça porém ficou, como estava, no quadro da porta, rindo e chorando, cada vez menos sem saber por quê… pois o pai estava chegando e o seu vestido branco, o seu véu, as suas flores de noiva… Era já fusco-fusco. Pegaram a acender as luzes.
E nesse mesmo tempo parava no terreiro a comitiva; mas num silêncio, tudo. E o mesmo silêncio foi fechando todas as bocas e abrindo todos os olhos. Então vimos os da comitiva descerem de um cavalo o corpo entregue de um homem, ainda de pala enfiado…
Ninguém perguntou nada, ninguém informou de nada; todos entenderam tudo…; que a festa estava acabada e a tristeza começada…
Levou-se o corpo pra sala da mesa, para o sofá enfeitado, que ia ser o trono dos noivos. Então um dos chegados disse:
— A guarda nos deu em cima… tomou os cargueiros… E mataram o capitão, porque ele avançou sozinho pra mula ponteira e suspendeu um pacote que vinha solto.., e ainda o amarrou no corpo… Aí foi que o crivaram de balas… parado… Os ordinários!… Tivemos que brigar, pra tomar o corpo!
A sia-dona mãe da noiva levantou o balandrau do Jango Jorge e desamarrou o embrulho; abriu-o.
Era o vestido branco da filha, os sapatos brancos, o véu branco, as flores de laranjeira…
Tudo numa plastada de sangue… tudo manchado de vermelho, toda a alvura daquelas cousas bonitas como que bordada de cobrado, num padrão esquisito, de feitios estrambólicos… como flores de cardo solferim esmagadas a casco de bagual!…
Então rompeu o choro na casa toda.
(*) João Simões Lopes Neto – 1865/1916.
(**) Conto incluído na coletânea “Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século”, organizado pelo crítico literário Italo Moriconi
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BOA NOITE TOTONHO. HÁ UM BOM TEMPO NÃO ESCREVO NADA.MAS, VOU APROVEITAR….rrrrssss . O PT CABO FRIO NINGUEM SABE,NINGUEM VIU. NINGUEM OUVE,SUMIU…TENHO PROCURADO PARA SABER DE NOVIDADES,MAS….