Vento frio, praia rasa…Estou de volta aos amigos que aqui deixeiDe volta aos cafés e as discussões políticasAs risadas com o mau humor da vidaMatando a saudade com abraços apertadosPois pode ser que não volte maisO acaso e o destino se convergemUm barco fantasma navega no canal. José Sette de Barros é artista plástico, escritor […]
Categoria: Crônica/Conto/Poesia
CONTOS DE CARNAVAL
Rubem Braga (*) A MOÇA DO CARNAVAL Minha amiga Lila Bôscoli, que faz com muita eficiência e graça a crônica feminina de Ultima Hora do Rio, telefonou outro dia para saber o que eu achava da mulher foliona. Ela se referia a essa que dança cantando, de braços abertos, no salão ou em cima da […]
ADOLESCÊNCIA
Luís Fernando Veríssimo (*) O apelido dele era “cascão” e vinha da infância. Uma irmã mais velha descobrira uma mancha escura que subia pela sua perna e que a mãe, apreensiva, a princípio atribuiu que era sujeira mesmo. – Você não toma banho, menino? – Tomo, mãe. – E não se esfrega? Aquilo já era […]
Nato per la scarpetta
Luciana G. Rugani (*) Há certas verdades das quais costumamos nos esquecer, ou das quais pouco nos lembramos. E entre elas estão alguns postulados científicos dos quais eu mesma não costumo me lembrar. Hoje, dando uma rápida olhada nas redes sociais, passei por um vídeo no qual se dizia que nunca um mesmo lugar será […]
CANÇÃO DO DIA DE SEMPRE
Mário Quintana (*) Tão bom viver dia a dia…A vida, assim, jamais cansa… Viver tão só de momentosComo essas nuvens no céu… E só ganhar, toda a vida,Inexperiência… esperança… E a rosa louca dos ventosPresa à copa do chapéu. Nunca dês um nome a um rio:Sempre é outro rio a passar. Nada jamais continua,Tudo vai […]
DE MEL A PIOR
Fernando Sabino (*) – Qual é a primeira pessoa do presente do indicativo do verbo adequar? – pergunta-me ele ao telefone. – Nós adequamos – respondo com segurança. – Primeira do singular – insiste ele. – Espera lá, deixe ver. Com essa você me pegou. E arrisco, vacilante: – Eu adéquo? – Não, senhor. – […]
Clarice Lispector Brasília é construída na linha do horizonte. – Brasília é artificial. Tão artificial como devia ter sido o mundo quando foi criado. Quando o mundo foi criado, foi preciso criar um homem especialmente para aquele mundo. Nós somos todos deformados pela adaptação à liberdade de Deus. Não sabemos como seríamos se tivéssemos sido […]
UM MISERÁVEL
Nelson Rodrigues (*) Apanhou uma gripe danada. Contorcia-se nos acessos de tosse. E ela própria chamava o marido:— Vem cá, Belmiro, vem cá.Ele largava o jornal e vinha. A mulher perguntava:— Escuta só.E, de fato, os brônquios de Zuleika só faltavam assoviar. Ela própria, no fim de cada crise, gemia:— Acho que apanhei algum golpe […]
NEM A ROSA, NEM O CRAVO…
Jorge Amado (*) As frases perdem seu sentido, as palavras perdem sua significação costumeira, como dizer das árvores e das flores, dos teus olhos e do mar, das canoas e do cais, das borboletas nas árvores, quando as crianças são assassinadas friamente pelos nazistas? Como falar da gratuita beleza dos campos e das cidades, quando […]
A TRANSIÇÃO DE YARA
Luciana G. Rugani (*) Por cerca de uns cinquenta anos, Yara morou em um planeta em que viver era como caminhar em linha ascendente, onde cada etapa somava-se às demais e a experiência adquirida em cada uma delas dava-lhe uma energia e uma certeza de saldo positivo no final. Yara era a mais nova de […]