
Luciana G. Rugani (*)
Por cerca de uns cinquenta anos, Yara morou em um planeta em que viver era como caminhar em linha ascendente, onde cada etapa somava-se às demais e a experiência adquirida em cada uma delas dava-lhe uma energia e uma certeza de saldo positivo no final.
Yara era a mais nova de quatro filhos, tendo sido criada em um ambiente tranquilo e sem brigas familiares. Seus pais trabalhavam para sustentar a família e sempre buscaram destacar para os filhos o valor do estudo e do trabalho como os principais bens a serem almejados. No mundo de Yara, os valores recebidos de seus pais, como ética, honestidade e desejo de uma sociedade mais harmônica, sem exploração e sem violência, eram comuns à grande maioria dos habitantes do planeta. O valor de um ser humano era aferido com base na índole e no caráter que se expressava em atitudes, e não nos bens materiais que ele possuísse.
Yara cresceu em seu mundo convivendo pouco, mas harmonicamente, com seus irmãos, pois cada um deles, ainda jovens, seguiam seus caminhos.
Mas, chegou o dia do grande terremoto. Um terremoto diferente, não muito intenso e abrupto, mas sim duradouro e persistente. A princípio, um torpor a invadiu e, logo mais, algo como um sono profundo. E eis que ela sentiu-se impulsionada, como se fora um foguete, para outro planeta.
Despertou e estava em outro mundo, bem diferente do anterior. Era como se ela despertasse em local inóspito, onde os seres eram de pouca conversa e viviam concentrados em seus aparelhos telefônicos que ela, mais tarde, aprendeu que se chamavam “celulares”.
Não encontrou o diálogo e a interação que havia entre os habitantes de seu planeta anterior. Sua família também foi transportada para o novo mundo. Seus pais já idosos, seus irmãos, cada um com seu estilo, com seus ideais, seguiam vivendo suas vidas e Yara, para eles, era agora apenas mais uma pessoa da família, e ali, entre eles, destacavam mais as diferenças do que a harmonia de antes.
Com o tempo, Yara percebeu que os valores éticos e o desejo de uma sociedade mais harmônica para todos não era de todos os habitantes dali. Aliás, cada habitante parecia viver em um mundo próprio onde o que valia era o que cada um queria, sem importar o desejo do outro. Yara vivenciou experiências que a levaram à percepção de que, nesse novo mundo, o valor de um ser era aferido por seu potencial de utilidade.
O termo “amigo” havia adquirido um novo significado, correspondendo a todo aquele que estava adicionado em sua rede social, e as relações agora eram “contatos”. Esses contatos interagiam em grupos de trabalho, de escola, de atividades outras, mas uma interação bem diferente e que ela não conhecia. Uma interação baseada em “likes”, curtidas, comentários e postagens. Uma boa imagem era tudo que importava ali.
A verdade contida nessas relações deveria manter-se oculta, pois o importante era manter e divulgar uma bela imagem que refletisse popularidade, e silêncio total para questionamentos ou colocações que pudessem, quem sabe, ofuscar o brilho dessa imagem. E nessa mesma diretriz seguiam os demais valores. O que valia ali era a casca da fruta, a capa do livro. Ninguém mais tinha paciência e tolerância para cultivar relações. Jogavam no tempo a culpa de tudo, porém não era isso.
O que não havia ali era vontade de construir, as divergências não eram para serem toleradas e aparadas. Elas se somavam, uma sobre a outra, e constituíam grandes muros. Envelhecer, nesse novo mundo, não era mais subir a linha ascendente como antes, mas sim galgar degraus para o esquecimento, pois a sociedade valorizava os seres como força de trabalho.
O diálogo com os mais velhos era cada vez mais difícil, pois para eles era ainda mais tortuoso esse novo mundo, especialmente por ser tão tecnológico.
Yara sentiu a diferença e deu-se conta de que agora teria que lidar com a nova realidade, que teria que se preparar para envelhecer ali, pois seu mundo havia ficado para trás e havia sido destruído pelo grande terremoto. Ela viu-se ali, de pé, a contemplar pela janela todo esse novo panorama, a somar incertezas em sua mente, em relação ao seu porvir.
A noite caiu, e ela permaneceu ali, imersa em seus pensamentos e dúvidas. Seu pescoço pendeu sobre o peitoril da janela e ela, ali mesmo, adormeceu.
(*) Luciana G. Rugani – Pensadora, escritora e poeta.
3 respostas em “A TRANSIÇÃO DE YARA”
Um belo texto, que nos transporta a um passado distante, mas saudável, prazeroso, auspicioso, harmonioso, que preservava os bons valores e sentimentos, valorizava a ética, honra, moral, bons costumes.
O terremoto nos transportou para um lugar infinitamente deficiente, chegamos ao Brasil contemporâneo.
Em relação à pauta de moral e bons costumes, aqui neste planeta ela é usada como cortina de fumaça e disfarce para que as pessoas não enxerguem a realidade podre que ocultam. Basta ver os tais “conservadores” que por trás de máscaras de “santidade” traem esposas, violentam mulheres, assediam crianças e fazem fortuna com dinheiro sujo.
E, no geral, o que me preocupa muito neste planeta é a presença de pessoas assim no controle de grandes potências mundiais e na disseminação de ideias fascistas pelo planeta, juntamente com divulgação de mentiras com fim de manter o domínio da população incauta. No Brasil da atualidade, até respiramos um ar mais leve nesse sentido, pois temos agora um governo humano, democrata e que busca a boa interação entre os povos, mas me preocupa muito a sombra fascista e sua sede de poder a tentar jogos sujos para voltar ao poder.
Grande Yara!