
Mauro Porto (*)
Colocar policiais reformados em salas de aula de escolas cívico-militares é confundir farda com formação. Ensinar cidadania não é dar ordem, nem respeito se aprende no grito.
Escola é lugar de diálogo, diversidade e pensamento — não de adestramento. Edgar Morin já avisava: educar é lidar com a complexidade da vida, com diferenças e contradições. Reduzir a escola à lógica do quartel é simplificar o ser humano até ele caber numa fila.
Paulo Freire foi ainda mais claro: educação é um ato de amor. Onde imperam medo, humilhação e punição, não há amor — há submissão.
Dermeval Saviani sempre defendeu a escola como espaço de formação crítica, não como fábrica de obediência.
Militarizar o ensino é trocar conhecimento por hierarquia e chamar silêncio de disciplina. O resultado é visível. Salas viram quartéis improvisados e surgem cenas patéticas, como o recente caso em São Paulo, onde erros grotescos de português escancararam o óbvio: disciplina não substitui saber.
Quem não domina a própria língua dificilmente ensinará dignidade, pluralidade ou democracia. A escola deveria formar gente livre, não corpos obedientes.
Educação não é extensão da segurança pública. Quando se militariza o ensino, o que se perde não é só a pedagogia — é a cidadania.
(*) Advogado

Um PM reformado, monitor de escola cívico-militar em Caçapava (SP), escreveu “descançar” e “continêcia” na lousa — e virou símbolo do problema trazido por esse tipo de instituição.
Defensores do modelo dizem que é mimimi e “preconceito linguístico”. Não é. Quem assume função de educador impacta a formação de crianças e precisa estar treinado para isso.
O episódio reforça o alerta de educadores: militarizar a escola não melhora o ensino. Troca-se professor qualificado por quem foi treinado para outra função.
A promessa era disciplina e qualidade. O resultado vem sendo censura, assédio e erros básicos. Pelo menos, a “continêcia” foi à bandeira brasileira — não à dos EUA.
Dados publicados pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo mostram um aumento no número de mortes provocadas pela polícia em 2025. Agora, vemos que nem a língua portuguesa escapou.
(*) Leonardo Sakamoto é Jornalista/Colunista/UOL.