Nelson Rodrigues – 1912/1980 (*) De vez em quando, eu esbarro num saudosista. É um sujeitoesplêndido, que vive enfiado no passado. Direi mais: — vive feliz erealizado no passado como um peixinho num aquário de sala devisitas. E convenhamos que isto é bonito, é lindo. Outro dia, umdeles atracou-se comigo no meio da rua; arrastou-me […]
Categoria: Crônica/Conto/Poesia
NINGUÉM ESCOLHE
Ninguém escolhe ter fomeNinguém escolhe não ter um larNinguém escolhe o abandono Ninguém escolhe a violência das ruasNinguém escolhe dormir ao relentoNinguém escolhe uma vida de dor Fechar os olhos não mudará a realidadeIgnorar, só reforçaráO frio egoísmo da sociedadeNada fazer para ajudarEm algo que cabe a todos auxiliarÉ ignorar a realidadeDe que aquilo que […]
CABARÉ MINEIRO – 1992
Estou estatelado entalado e desfigurado por nada… Pois nada vale a fina pena de um artista. Meus olhos ardem os ouvidos doem lendo o inaudito ser indevido vociferando sobre o manto das iniqüidades passageiras. Criar, criar, criar até mal os ossos serem expostos… Mas não serão os que não gosto Que jogarão a última pá […]
O TEATRO DO DIABO
Que o diabo é uma criatura ardilosa todos nós sabemos. O que poucos imaginam, talvez, é que às vezes a sua maldade vem embrulhada em um perverso senso de humor. Se o sujeito soubesse disso antes, provavelmente pensaria duas vezes antes de invocar o “coisa ruim” para com ele chegar a um entendimento. A essa […]
Nelson Rodrigues – 1912/1980. “O brasileiro é um feriado”. “O Brasil é um elefante geográfico. Falta-lhe, porém, um rajá, isto é, um líder que o monte”. “Sou a maior velhice da América Latina. Já me confessei uma múmia, com todos os achaques das múmias”. “Toda oração é linda. Duas mãos postas são sempre tocantes, ainda […]
A VOZ DA ESTUPIDEZ
Ouço a voz da estupidezNo caos sob o domínio do medoNa truculência de poderosos medíocresNa bronquice dos que só têm poder Ouço a voz da estupidezNos que aplaudem desordem impostaEm simplistas insanosQue represam mares com diques efêmeros A voz da estupidezEnsurdece a plateia toscaQue se inebria com foscos brilhos Uma plateia que prefere não ver […]
Nelson Rodrigues – 1912/1980. Eis que o Hélio Pellegrino e o Mário Pedrosa foram passar três dias em Cabo Frio. O Mário tem, lá, uma casa selvagem. Eu os imagino na praia, ouvindo o silêncio das ilhas. Nada de jornal, de manchete. Estavam espantosamente sós. E não leram, através das 72 horas, um único e […]
LIBERDADE & CORDIALIDADE
Sombras de luzes difusas Arquitetando sonhos Acordando o dia Sucumbindo o ontem Mandrágora de um só destino Nuvens no céu de cobre Cata-vento de areia solta Lagoa de sol e sal Magia que vem de longe Dos confins do Himalaia Bode velho enterrado Cobiça dos incautos A cordialidade brasileira Subiu as montanhas Cortou o leito […]
Hoje, com o crescimento das mídias sociais e com o objetivo de disputar o podium das visualizações e o número de “likes”, há uma verdadeira guerra de narrativas e verdadeiros espetáculos por parte de alguns agentes politicos nas mais diversas casas legislativas, locais onde deveriam predominar debates com seriedade e pactuados com a verdade. Esse […]
A MENINA SEM ESTRELA
Nelson Rodrigues – 1912/1980 Quando meu irmão Mário Filho morreu, escrevi que a morte é anterior a si mesma. Ela começa muito antes, é toda uma luminosa e paciente elaboração. Nos seus últimos dias, Mário Filho teve a lucidez, a sabedoria, a chama de quem vai morrer. Não vi no seu rosto, no seu último […]