Numa noite quente, mexendo em papéis quase perdidos… “NOITE FRIA“ Quando a gente chega em casa e sente aquela angústia de ter passado uma noite em vão, andando pelas ruas e bares à procura de uma aventura ou de alguém com quem curtir a noite, e vê bem à sua frente uma folha em branco, […]
Categoria: Crônica/Conto/Poesia
O ESCRAVO ETÍOPE
Nelson Rodrigues – 1912/1980. Saiu do colégio com 15 anos e trouxe para o mundo a sua inocência maravilhada. Ninguém mais sensível e exclamativa. De uma fragilidade física impressionante, qualquer esforço dava-lhe palpitações, falta de ar; uma simples aragem a resfriava. O médico da família, que a examinou várias vezes, repetia:— Tem uma saúde muito […]
O ALMOÇO!
A calcinha estava mais para calçola. Branca e uns poucos babados suaves e coloridos lhe davam alguma graça. Com calma e também alguma preguiça colocou antes a perna esquerda, depois à direita, sempre com cuidado. Vestiu a calcinha, olhou, apalpou e sentiu que estava dobrada atrás. Ajeitou e achou que ficou bem. Levantou a cabeça, […]
José Saramago (*) – 1922/2010. Quando, há alguns meses, recebi convite para viajar até Hamburgo, onde, por iniciativa da Universidade, se ia realizar um encontro de escritores de língua portuguesa e espanhola, figurei-me na imaginação uma magna assembleia debatendo ardorosamente, como se deveria esperar de tão caldeados salgues, fortíssimas questões de identidade e de procura, […]
SAUDADE NENHUMA DE MIM
Martha Medeiros Volta e meia, crônicas, romances e poemas terminam com a indefectível frase: “Saudades de mim”. Será que eu já escrevi isso alguma vez, que sinto saudades de mim? Devo ter cometido, eu também, esta dramatização barata, somos todos reincidentes nos clichês. Mas, olha, sinceramente, não sinto, não. Lembro de uma menina que se […]
O MENINO E A MATRACA
O barulho da matraca na procissão do Senhor Morto, na sexta-feira da paixão foi dos meus grandes medos quando menino. Existiam outros tantos, como a visão apocalíptica do cipó-camarão na mão de minha mãe ou mesmo os cascudos dos garotos mais velhos, que não poupavam os quengos dos mais novos, inclusive o meu, que ficava […]
A NOVA ROUPA DO REI
Creio que todos conheçam aquela velha história da roupa do rei. O que poucos sabem é que depois daquela vergonha monumental a que fora exposto perante o seu povo, o rei decidira arrumar suas trouxas (excetuando-se, é claro, a tal “roupa invisível”) e vir embora para o Brasil. Sua alteza chegou bem no período do […]
DESPEDIDA
Rubem Braga – 1913/1990. E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perde da outra, procura-a por um instante e depois adere a […]
AS BOAS COISAS DA VIDA
Rubem Braga – 1913/1990. Uma revista mais ou menos frívola pediu a várias pessoas para dizer as “dez coisas que fazem a vida valer a pena”. Sem pensar demasiado, fiz esta pequena lista: – Esbarrar às vezes com certas comidas da infância, por exemplo: aipim cozido, ainda quente, com melado de cana que vem numa […]
E O CARNAVAL?
Enquanto começo a escrever este texto, ouço na TV uma matéria (mais uma das tantas) que falam sobre o mais novo ditador no planeta, o aloprado que voltou a presidir a nação conhecida como a “maior democracia do mundo” (entre aspas mesmo). É repugnante cada fala desse personagem! Mas, antes que o texto resvale para […]