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Crônica/Conto/Poesia

CAÇA-DOTES

Estava comprando fósforos, no charuteiro, quando apareceu o Aarão,impressionadíssimo. Faz a pergunta:— Sabe quem morreu?— Quem?— O Ernesto!Tomou um susto:— O marido da Suzana?Sim, o marido da Suzana, sim!— Morreu? E quando? De quê?Entraram no café, sentaram-se e Aarão deu maiores detalhes:— Morreu há uns quarenta minutos. Colapso.Norival, mexendo com a colher no fundo da […]

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HÁ DIAS ASSIM

O texto que se segue é um covite ao opaco da vida, uma figura observa, aceita e, aos poucos, deixa ir. Um conto-poema sobre o nosso direito de viver dias sem cor — e ainda assim, esperar pelas estrelas. *Há dias assim* Enquanto as noites continuarem estreladas, haverá sempre a esperança de um amanhecer com […]

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ELA TEM ALMA DE POMBA

Que a televisão prejudica o movimento da pracinha Jerônimo Monteiro, em todos os Cachoeiros de Itapemirim, não há dúvida. Sete horas da noite era hora de uma pessoa acabar de jantar, dar uma volta pela praça para depois pegar uma sessão das 8 no cinema. Agora todo mundo fica em casa venda uma novela, depois […]

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O MOTORISTA DAS VIÚVAS

Nos anos cinquenta e sessenta a Semana Santa era um acontecimento religioso, que tomava conta de todos na cidade. No entendimento daquele menino de família católica a Procissão do Senhor Morto era o momento que provocava o maior medo. Não era pequeno o temor daquela procissão, que serpenteava pelas ruas escuras de Cabo Frio com […]

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O CONTO DA ILHA DESCONHECIDA

Um homem foi bater à porta do rei e disse-lhe, Dá-me um barco. A casa do rei tinha muitas mais portas, mas aquela era a das petições. Como o rei passava todo o tempo sentado à porta dos obséquios (entenda-se, os obséquios que lhe faziam a ele), de cada vez que ouvia alguém a chamar […]

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CAIXA DE SAPATO

Na antevéspera do casamento, andou sentindo umas coisas esquisitas. Chamou a atenção de d. Flor: – Mamãe, olha meu braço! A velha veio espiar: – O quê? E Olivinha, num suspiro: – Estou toda arrepiada! Era verdade. De vez em quando, apesar do dia quente, experimentava um frio breve e intenso. Por alguns segundos, chegava […]

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EU E BEBU NA HORA NEUTRA DA MADRUGADA

Muitos homens, e até senhoras, já receberam a visita do Diabo, e conversaram com ele de um modo elegante e paradoxal. Centenas de escritores sem assunto inventaram uma palestra com o Diabo. Quanto a mim, o caso é diferente. Ele não entrou subitamente em meu quarto, não apareceu pelo buraco da fechadura, nem sob a […]

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A GALINHA FUZILADA

Naquele tempo era coronel. Hoje, passados que são uns anos, deve ser muito mais. Declaro, em seu favor, que foi o militar mais militar que conheci. Morava em Jacarepaguá, em frente à minha casa, e sua família, muito numerosa, era sua tropa, perfeitamente instruída e disciplinada. Na rua, mesmo em passeio, andavam todos de passo […]

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AMOR

Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde. Depositou o volume no colo e o bonde começou a andar. Recostou-se então no banco procurando conforto, num suspiro de meia satisfação. Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, […]

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A DAMA DO LOTAÇÃO

Às dez horas da noite, debaixo de chuva, Carlinhos foi bater na casa do pai. O velho, que andava com a pressão baixa, ruim de saúde como o diabo, tomou um susto:— Você aqui? A essa hora?E ele, desabando na poltrona, com profundíssimo suspiro:— Pois é, meu pai, pois é!— Como vai Solange? — perguntou […]