No antigo edifício onde passei minha infância, havia um sistema de lixeiras que eu nunca mais vi em nenhuma construção contemporânea. Na parte da área de serviço, havia uma porta de metal que abria de um jeito que, para uma mente infantil, lembrava o movimento das pontes levadiças de um castelo medieval (imagino que o […]
Categoria: Crônica/Conto/Poesia
VIAJANDO O SERTÃO
Viajamos, da madrugada de 16 à manhã de 29 de maio, 1307 quilômetros: 837 de automóvel, 40 de auto-de-linha, 38 de trem, 30 de canoa, 2 de rebocador e 360 de hidroavião. Esse cômputo é a expressão oficial e sisuda, mas não corresponde inteiramente à verdade. Andamos a pé, de cadeirinha, de macaquinho, dentro d’água, […]
CARTA DE PARIS
I Eu penso em você, minha filha. Aqui lágrimas fracas, dores mínimas, chuvas outonais apenas esboçando a majestade de um choro de viúva, águas mentirosas fecundando campos de melancolia, tudo isso de repente iluminou minha memória quando cruzei a ponte sobre o Sena. A velha Paris já terminou. As cidades mudam mas meu coração está […]
Em 12 de março, a Academia de Artes, Ciências e Letras de Iguaba Grande – AACLIG lançou a segunda antologia “AACLIG e AMIGOS”, por ocasião do aniversário de 17 anos da academia. Dela participam 33 escritores, entre acadêmicos e não-acadêmicos. Em 2022, foi lançada a primeira antologia “AACLIG e AMIGOS”, da qual participei com meu […]
ALVINHO, BOM PALPITE
O Alvinho encarava um batente que não era mole. Se virava mais que charuto em boca de bêbado por uma grana muito mixuruca, que mal dava pra ele escorar os repuxos. Coisa que não é mole, hoje em dia, com a vida custando os olhos da cara como anda. Muito nego se abilola. Principalmente se […]
UM PALÁCIO NOITE ADENTRO
Sem nunca antes ter desejado uma casa, aquele homem surpreendeu-se desejando um palácio. E o desejo que tinha começado pequeno rapidamente cresceu, ocupando todo o seu querer com cúpulas e torres, fossos e porões, e imensas escadarias cujos degraus se perderiam na sombra, ou no céu. Mas como construir um palácio quando se é apenas […]
MÁXIMAS DO BARÃO DE ITARARÉ
Máximas do Barão de Itararé: 1. “De onde menos se espera, daí é que não sai nada.” 2. “Quando pobre come frango, um dos dois está doente.” 3. “Tempo é dinheiro. Vamos, então, pagar as nossas dívidas com o tempo.” 4. “O fígado faz muito mal à bebida.” 5. “Negociata é todo bom negócio para […]
O ALEIJADO
Era contra o casamento. E não fazia o menor mistério. Confessava, claramente, que tinha uma espécie de tara. Havia, em redor, um espanto.— Tara?— Pois não. Tara, sim.— Mas como?E ele, com alegre naturalidade:— Só gosto de mulher casada.— No duro?— No duro. Tenho horror das solteiras. Não me interessam…Este cinismo de salão causava um […]
Já fazia um tempo e ele estava às voltas com um pensamento recorrente: Desejava ser pai. Muitas coisas passavam por sua cabeça como o amadurecimento necessário, a perpetuação de um legado, a experiência da dedicação ao outro. Consumido por noites praticamente insones em seu quarto de solteiro no qual vivia na casa da mãe, concluiu […]
Alguém pode explicar por que os bancos das praças são colocados fora da área de sombra das árvores, que são poucas? Alguma explicação botânica? Talvez a necessidade de martírio pessoal numa época de aquecimento global? Será a forma que as autoridades encontraram para disseminar a vitamina D, sem investimentos na saúde pública, em profunda penúria? […]