Vivia dizendo:— O sujeito que trata bem mulher está desgraçado! Está frito! E dava conselhos aos tímidos:— Dá-lhe duro! Deixa de ser besta! — e suspirava: — Ah, se fosse comigo! Os outros escutavam, no fundo maravilhados com essa ostentação de selvageria. Uns comentavam, nas suas costas:— É potoca! Garganta pura!Mas não era. Bonito, com […]
Categoria: Crônica/Conto/Poesia
TERRA E MAR TIÃO E DALINA
Tenho uma história pra contarDe seu Tião que vive à beira marPescador de anchova e tainhaCumpre sua sina de noite e de dia Seu Tião é rude e pacienteNão se passa por descrenteCasado com dona DalinaTrabalhou um tempo na salina Foi onde a conheceuE onde seu pai morreuDona Dalina muito sábiaLevou à frente sua lábia […]
NA PRÓXIMA SEGUNDA…
O início da semana é interessante, especialmente quando solar, como se a vida recomeçasse sempre às segundas. Visão de aposentado, condição que promete se tornar cada vez mais rara, após a reforma trabalhista votada por aqueles que costumam dedicar-se a promover a si mesmos à custa do trabalho e a dor dos outros. Após domingo […]
O Instituto Junguiano, em homenagem à dra. Nise da Silveira, promoveu uma série de debates, no Rio, sobre a sua obra generosa e inovadora no campo da psiquiatria. Tive nisso uma participação mínima porque o chofer encarregado de levar-me até o local do evento desconhecia as ruas de Botafogo e, por essa razão, rodou comigo […]
O CHANTAGISTA
A futura sogra, que era professora e tinha um gênio adorável, dizia sempre:— O essencial no casamento é a compreensão. E insistia, acima de tudo, num ponto que lhe parecia essencial:— Nada de discussões! Nada de bate-bocas!Fernando ouvia tudinho e, mais tarde, com os amigos, dava demonstrações do maior entusiasmo: “Tenho uma sogra que é […]
NO RESTAURANTE
– Quero lasanha. Aquele anteprojeto de mulher – quatro anos, no máximo, desabrochando na ultraminissaia – entrou decidido no restaurante. Não precisava de menu, não precisava de mesa, não precisava de nada. Sabia perfeitamente o que queria. Queria lasanha. O pai, que mal acabara de estacionar o carro em uma vaga de milagre, apareceu para […]
O RELÓGIO
Ao redor da vida do homemhá certas caixas de vidro,dentro das quais, como em jaula,se ouve palpitar um bicho. Se são jaulas não é certo;mais perto estão das gaiolasao menos, pelo tamanhoe quadradiço de forma. Umas vezes, tais gaiolasvão penduradas nos muros;outras vezes, mais privadas,vão num bolso, num dos pulsos. Mas onde esteja: a gaiolaserá […]
MÓDULO VERÃO
As cigarras começaram de novo, brutas e brutas.Nem um pouco delicadas as cigarras são.Esguicham atarraxadas nos troncoso vidro moído de seus peitos, todo ele– chamado canto – cinzento-seco, garrade pelo e arame, um áspero metal.As cigarras têm cabeça de noiva,as asas como véu, translúcidas.As cigarras têm o que fazer,têm olhos perdoáveis.Quem não quis junto deles […]
Deu-se que na semana anterior eu havia entrado naquele pequeno boteco da estrada de Correias e comprado um pacote de cigarros. Dez carteiras. Comprei, paguei, saí. Não cheguei a notar nem de leve que o meu gesto me fizera conhecido. Dias depois, volto ao botequim. A mocinha, provavelmente filha do vendeiro, e na qual eu […]
SUFLÊ DE CHUCHU
Houve uma grande comoção em casa com o primeiro telefonema da Duda, a pagar, de Paris. O primeiro telefonema desde que ela embarcara, mochila nas costas (a Duda, que em casa não levantava nem a sua roupa do chão!), na Varig, contra a vontade do pai e da mãe. Você nunca saiu de casa sozinha, minha […]