
Luciana G. Rugani (*)
Terça-feira (3), no Museu de Arte Religiosa e Tradicional – Mart, em Cabo Frio, aconteceu a 5a. Edição do projeto “Leituras no MART”, organizado pelo Clube de Leitura da Sophia Editora. Primeira edição de 2026, o encontro abriu o ano com o tema “Memória e Identidade Feminina” e o debate foi em torno do conto “Sem Enfeite Nenhum”, da renomada escritora mineira, Adélia Prado.
O conto traz a narrativa de uma filha sobre sua mãe, retratando suas crenças, seus medos, sua religiosidade e seu jeito de ser. Um modo de ser que reflete um padrão muito comum da mulher do interior, nos anos quarenta e cinquenta, mas que propõe reflexões sobre alguns padrões comportamentais que até hoje são muito presentes em nossa sociedade.
O debate foi rico em colocações relevantes, incluindo relatos pessoais e discussões sobre aspectos psicológicos comportamentais, que nos levaram a uma visão mais profunda do texto, e justamente isso é o que torna os encontros no MART tão preciosos e o que nos faz gostar tanto de participar desses momentos! Ali, não apenas lemos o texto, mas nos debruçamos sobre ele, debatemos, ouvimos e nos expressamos sobre os mais variados aspectos do conteúdo. Às vezes, pequenos detalhes do texto, que talvez não perceberíamos se não estivéssemos em grupo, com a presença do olhar do outro, nos possibilitam extrair o conteúdo essencial e, talvez, até mesmo as razões que levaram o texto a existir. É uma oportunidade para que cada participante possa contribuir com seu olhar diferenciado, fruto de seu conhecimento ou de sua experiência de vida, e, assim ajudar a construir uma imagem mais robusta e profunda do texto, levando-o a ampliar seu sentido para cada um dos leitores que ali estão.
A análise do conto, cuja autoria é de uma mulher e cuja narrativa é feita também por uma mulher e sobre outra mulher, nos trouxe, entre outras, reflexões sobre costumes, sobre a educação rígida e repressora à qual as mulheres eram submetidas e também sobre o lado psicológico de certos comportamentos replicados até hoje em nossa sociedade. Quantas mulheres não podiam (algumas até hoje não se permitem) ser quem são, gostar de cores quentes, como, por exemplo, vermelho ou laranja, usar enfeites, cultivar a alegria e a espontaneidade em suas vidas? A mulher sobre a qual versa a narrativa tinha um só vestido em branco e preto e um mantô cinza do qual ela gostava muito, mas bastou um instante de arte para que ela logo colorisse um desenho de alaranjado, enquanto se entusiasmava ao falar sobre como ela teria sido e como teria sido seu modo de falar, caso houvesse tido tempo para estudar. Naquele momento ali, naquele curto encontro com a arte, ela falou sobre si de uma maneira muito entusiasmada! Será que, talvez, naquele breve instante, ela teria se sentido ela mesma, em pura essência, sem os tantos bloqueios e proibições comportamentais impostos à mulher? Seria um breve instante em que sua essência original, sempre oculta pelos costumes e padrões do tipo “uma mulher tem que ser discreta, não pode usar isso ou aquilo, não pode vestir essa ou aquela roupa, dessa ou daquela cor”, teria vindo à tona?
Ao longo da história, os costumes e padrões de nossa sociedade sempre podaram muito a essência feminina. O patriarcado, sistema sobre o qual nossa sociedade foi estruturada, dava ao homem todo o controle e autoridade sobre a mulher e os filhos, e a mulher era muito subjugada pela força masculina. Infelizmente, essa visão ainda permanece nos dias atuais e se materializa de maneira cruel nos altos índices de feminicídio e de violência, das mais diversas formas, contra a mulher. Muitas vezes, esse domínio da mulher pelo homem mantém-se travestido de crenças, de hábitos, de costumes e até de religião, sendo, assim, replicados até mesmo por muitas mulheres, de forma inconsciente. E tudo isso, crenças, hábitos, costumes, religiões, tudo isso deve estar sempre em evolução e precisa ser reavaliado de acordo com a sociedade atual. É preciso um repensar de tudo isso para que se enxergue, claramente e sem disfarces, o real conteúdo que vem sendo replicado por gerações. Hábitos culturais, como piadas machistas, circunstâncias ou colocações que revelam uma objetificação da mulher, padrões de comportamento e de estilo de ser, julgamento social de comportamento, enfim, muitas vezes, coisas pequenas que constituem hábitos ou comportamentos diários que nem sempre se percebe, mas que precisam ser repensados, analisados e questionados. E sem esquecer que, antes de tudo, é essencial a auto-observação com atenção para encontrar em si mesma, ou em si mesmo, o que precisa ser mudado.
Essas foram algumas reflexões que o conto me proporcionou e que compartilho com vocês, especialmente por estarmos no mês da mulher, data comemorativa que nos chama a um constante repensar sobre a mulher na atualidade.
E sobre os encontros no Mart, eles acontecem na 1a. terça-feira de cada mês, às 18 horas, sempre com um texto diferente. São ótimas oportunidades de aprendizado e de convívio social.
(*) Luciana G. Rugani – Pensadora, escritora e poeta.