
(*) Cláudio Leitão
Os mais antigos ou mais experientes, rs, que lerem este texto vão se lembrar deste termo. Quando éramos crianças tínhamos uma brincadeira chamada “jogando bolinhas de gude”. Desenhávamos um triangulo na areia e ali colocávamos as bolas de gude. Com uma bolinha especial tentávamos bater nestas bolas dentro do triângulo e fazê-las saírem. Estas bolas passavam então a serem nossas. Era uma disputa divertida e vencia o mais habilidoso.
Porém, sempre tem aqueles que querem ser mais espertos e malandros do que os outros. Aqueles que sempre burlam as regras de um jogo limpo. Ai no meio do jogo, um destes gritava: É BACULEJA ! Após o grito, pegava todas as bolinhas de gude no triângulo e saia correndo.
Me lembrei deste termo ao observar este festival de denúncias de compras e contratações suspeitas que ocorre nas redes sociais, com possibilidade de desvios de dinheiro público em Cabo Frio, nesta “nova gestão” do velho PL. Ao decretar o estado de calamidade financeira no município, a prefeitura abriu a possibilidade de dispensa de licitações e adesões de ata, além de outras modalidades, visando comprar e contratar serviços sem cumprir aquela burocracia legal mais abrangente e segura.
Tendo como base o governo anterior da Furtado, também de triste memória, alguns contratos praticamente dobraram de valor, principalmente na coleta do lixo, aluguel de veículos e ambulâncias, publicidade, manutenção elétrica, serviços de TI, além de outros. As denúncias ocorrem somente nas redes sociais. A mídia regular está “estranhamente” calada. A Câmara de Vereadores, onde “tudo está dominado pelo prefeito” está em silêncio sepulcral. Tristemente, este fato não é surpresa para ninguém. A população preferiu escolher como representantes apenas vereadores ligados diretamente ao prefeito. Para que eleger um vereador de oposição para fiscalizar? Só para esse cara ficar “enchendo o saco do nosso amado prefeito, pô !
Um denunciante bem conhecido na cidade tem dito nas redes sociais que existe um operador principal que atua nos “certames licitatórios”, mas não cita o nome do “probo cidadão”. Uma pena ! Teve uma na Educação no valor de 3 milhões de reais que o TCE barrou. Ufa, pelo menos uma !
Mas o “Baculeja” segue sendo dado. Convido os interessados a acompanhar regularmente o Diário Oficial do Município, pois lá são publicados um resumo dos contratos e compras efetuadas. Alguns valores chamam muito atenção. Parece que o município vive uma realidade financeira e orçamentária dos sonhos. Por que então estamos em calamidade financeira?
Na Saúde, inclusive, este quadro foi reafirmado com um novo decreto. Os bastidores da política local seguem indicando que muito mais vem por aí. Não tenham dúvidas, pode “cair o mundo” no município que os vereadores vão seguir caladinhos. Azar o nosso, pois, infelizmente, os órgãos ou instâncias fiscalizadoras sempre demoram demais para agir. Os “caras do baculeja” acreditam firmemente na impunidade futura.
Já estive dentro do processo político municipal participando de muitos enfrentamentos e muita luta. Três candidaturas a prefeito e duas a vereador, além de participação em atos e movimentos sociais. Não fui eleito, sou ruim de voto, dizem eles quando faço críticas a esta conjuntura política e a este modelo de gestão que existe na cidade há mais de 40 anos.
Sim, participei de dois governos, um como secretário de educação, Governo Adriano, onde fiquei apenas 10 meses e saí porque denunciei desvios de recursos que não foram enviados para a educação, fato que gerou uma Ação Cível Pública que tramita lentamente na justiça até hoje. No outro fui assessor do prefeito José Bonifácio, que como todos sabem faleceu no meio do mandato. Saí quando entrou a Furtado. Digo isso, porque nunca compactuei com “sacanagens” com o dinheiro público.
Neste momento, eu ando muito pessimista com os rumos da política, não só no nosso município como também no estado e no país. Vai ver estou ficando velho e de “saco cheio”. A luta é sempre muito dura. Mudar ou reformar os mecanismos de nossa democracia burguesa para incluir os trabalhadores e os excluídos é uma tarefa hercúlea e que exige muito de todos nós. Há avanços, lógico, frutos desta luta, mas enfrentar esta elite financeira que controla o estado brasileiro é “osso duro de roer”, principalmente agora que eles têm o apoio de uma extrema direita contra os mais pobres, sem princípios e mal intencionada. Ela está presente em todas as esferas de poder.
Porém, confesso e admito, esse meu desânimo não deveria acontecer, pois se não renovarmos nossas esperanças na luta diária os tais “dias melhores” que almejamos de forma coletiva nunca virão. Vamos ver se consigo me “reciclar” e voltar a este embate novamente.
(*) Claudio Leitão é Economista e professor de História.