
Hoje, todos os telejornais e demais mídias escritas e digitais no mundo destacam o “fim da guerra” entre Israel e o Hamas. Eu entendo que nestes últimos dois anos nunca houve uma guerra de verdade. Israel é um estado organizado e tem forças armadas com algo grau de sofisticação, potência e eficiência. O Hamas não é um estado e não tem “forças armadas” de forma organizada. Logo, guerra é entre estados com algum grau de paridade de forças.
O Hamas é um braço político armado do povo palestino que usa de táticas terroristas para atacar Israel. Sim, seus métodos são condenáveis, pois não miram só instalações miilitares, mas também já fez milhares de vítimas civis ao longo da sua história. Mas nada é comparável com a atuação do exército israelense em Gaza. Os números falam muito alto. Foram mais de 70 mil vítimas, sendo que 3/4 destas vítimas não eram combatentes, mas sim mulheres e crianças. Nada justifica este massacre em nome do “combate ao terrorismo”. Gaza, hoje, está completamente destruída pelos bombardeios israelenses. Não há casas para o povo palestino voltar para casa.
O tratado de paz mediado por Trump, Hamas e países árabes é uma paz imposta aos palestinos. É um acordo que vai poupar vidas, mas o que ocorrerá com o processo de reconstrução de Gaza e o que será do futuro político do povo palestino não estão bem definidos. Israel e os EUA não concordam com a implantação de um Estado Palestino soberano. O resto do mundo não tem força política e nem interesse geopolítico de fazer pressão para que isso aconteça. A “paz” será tutelada com uma comissão internacional, sendo que esta comissão será presidida por Donald Trump. O Rappa já dizia numa música há anos atrás: “paz sem voz não é paz, é medo”.
A cobertura da mídia é parcial e claramente favorável ao consórcio Israel/EUA. Não citam os abusos cometidos pelos sionistas ao longo das últimas décadas. A ocupação irregular das áreas palestinas por colonos israelenses já foi condenada inúmeras vezes pela ONU e comunidade internacional. Nada foi feito para impedir. O método truculento que as forças armadas israelenses usam em qualquer protesto legítimo dos palestinos também. Tudo isso foi agravado com a chegada de Netanyahu ao poder. A extrema direita israelense perpetrou abusos em série contra a população civil palestina não só em Gaza, mas também em toda a Cisjordânia. E toda vez que há opressão, há também a reação. Como a Palestina não é um estado, esta veio através destas organizações paramilitares como Hamas, Jihad Islâmica e outras de menor expressão.
O tema “Oriente Médio” é sempre muito complexo e envolve dezenas de variáveis: políticas, socias, étnicas, históricas, econômicas, religiosas, além de outras. Os grandes especialistas no tema nunca são chamados pelos políticos para participarem das discussões e possíveis soluções destes conflitos. Ao longo da história, o poder bélico e econômico das grandes potências mundiais sempre falou mais alto e sufocou movimentos legítimos de libertação, não só na palestina como também em outros países da região. O caso do povo curdo que até hoje reivindica um estado é outro foco de conflito constante na região. São milhões de pessoas querendo autonomia e autodeterminação. O mundo finge que não vê.
Não acredito que o povo palestino será contemplado de forma positiva e satisfatória com este “acordo de paz”. É na minha opinião apenas um frágil cessar fogo. Existe a promessa de milhões de dólares em investimento na infraestrutura destruída pelo covarde exército israelense. Não acredito que isso vá ocorrer para favorecer o povo palestino. Há inúmeros interesses econômicos envolvendo aquela área, inclusive de natureza imobiliária. O garoto, o jovem palestino quer muito mais do que isso. Quer um futuro, coisa que os “donos do poder” no mundo se recusam a dar.
Claudio Leitão é economista e professor de História.
Uma resposta em “A PAZ SUFOCADA IMPOSTA AOS PALESTINOS”
Muito bom este texto. Muito esclarecedor, principalmente considerando o tão parcial noticiário da mídia.