
Luciana G. Rugani (*)
Terça-feira (24), participei do encontro sobre história e cultura, locais e regionais, organizado pelo escritor, historiador e pesquisador, José Correia, na Capela de São Francisco da Penitência (ao lado do Convento Nossa Senhora dos Anjos) em Cabo Frio. O encontro acontece sempre na última terça-feira de cada mês, de 15:00 às 17:00.
O tema desta edição foi uma homenagem ao primeiro poeta modernista cabo-friense, Waldemir Terra Cardoso, que morreu em 26/1/1936, aos 24 anos, em decorrência da tuberculose, em Itaipava, onde tentava se recuperar da doença.

Waldemir Terra Cardoso nasceu em 3/1/1912, em Cabo Frio. Filho de Luiz José Cardoso e de Inayá Garcia Terra Cardoso, Waldemir publicou dois livros: “Borboletas” (1931) e “Zé-tarrafeiro e outros poemas” (1935).
Waldemir era um poeta de família tradicional, mas, apesar da pouca idade, já havia adquirido uma visão mais aberta, que ia além dos limites dos costumes, dos valores, das crenças e das tradições das famílias mais abastadas e mais tradicionais da cidade. Apaixonou-se por uma moça, também filha de família tradicional, mas o amor dos dois não foi aprovado pelos pais da moça.
Se voltarmos os olhos ao passado e buscarmos analisar o contexto daquela época, início do século XX, veremos que os valores, as tradições e os preconceitos eram ainda muito arraigados. As moças, quando crianças, costumavam ser predestinadas a um bom casamento, e um casamento era considerado “bom” quando o marido fosse um homem bem afeito a atividades que garantissem a continuidade ou o aumento da riqueza das famílias. Waldemir era um poeta e, talvez, não deve ter sido muito bem visto pela família da moça, portanto foram proibidos de viver esse amor.
Mas as tradições não podem com o amor, principalmente com o amor dos românticos incontestáveis daquela época, e então o casal seguiu se encontrando com a ajuda de amigos, até o adoecimento e morte do poeta.
José Correia fez a leitura de um artigo de sua autoria, intitulado “Dá pra ser feliz em Cabo Frio?”, publicado na Revista Nossa Tribo. Neste artigo, José Correia faz uma análise dos poemas “Culpa dos Pais”, de Pedro Guedes Alcoforado, e “Zé-tarrafeiro”, de Waldemir Terra Cardoso. O poema de Pedro Guedes trazia um casal apaixonado que também vivia um amor proibido, e que acabou se encontrando na praia e se entregando ao mar para viverem o amor na eternidade. Já o poema de Waldemir falava sobre um cabo-friense e uma mulher “estrangeira”, natural da serra, um casal igualmente apaixonado e proibido de viver o amor, que decide abrir mão de viver na cidade, deixa tudo para trás e se instala em uma pequena habitação em um arraial de pescadores, e ali, junto à vida marinha e à simplicidade do local, edifica o lar mais feliz do arraial. Segundo José Correia, a pergunta “Dá pra ser feliz em Cabo Frio?” seria a cena de fundo dos dois poemas e Pedro Guedes e Waldemir, cada um com seu poema, estariam dando respostas diferentes a essa pergunta. Waldemir, em “Zé-tarrafeiro”, revela uma profunda mudança de estilo e revela também seu olhar humanístico ao focar o pescador, o homem do povo e a vida simples junto à natureza marinha, e evidencia também o seu amadurecimento artístico.
Fiquei me perguntando se, talvez, Waldemir também construiría para si e para sua amada um destino semelhante ao do personagem, se iria abrir mão da tradição e da vida urbana para viver o amor em uma área rural, na vila de pescadores, com toda a simplicidade e com todo o acolhimento encontrados junto à natureza, livre da rigidez preconceituosa da tradição conservadora daquela época. Quem sabe o seu poema “Zé-tarrafeiro” não descreveria um sonho seu a ser realizado, caso a tuberculose não o tivesse levado?…
Para finalizar o encontro, homenageamos o poeta com a leitura de seus poemas junto ao seu túmulo, no Cemitério da Ordem Terceira de São Francisco, anexo à capela.
Foi mais um encontro maravilhoso, rico de informações e histórias, em que pudemos conhecer um poeta que, mesmo tão jovem e vivendo em um passado tão distante, já possuía um olhar amplo, sem amarras. Com certeza, um jovem poeta cuja alma grandiosa não cabia na pequenez dos valores mundanos da família tradicional daquele tempo.
(*) Luciana G. Rugani
Pensadora, escritora e poeta