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Crônica/Conto/Poesia

AS FILHAS DE LILITH

Júnia Rocha (*)

Foi num dia nublado entristecido que ela se deu conta.

Calada e contida, espreitava o mundo de sua janela. A todos agradava, era gentileza e simpatia. Não sabia importunar, em tudo concordava. Pacífica, complacente e comedida. Piedosa que só, altruísta. Eis que a forjaram boazinha.

Muito cedo a ensinaram sobre os sinônimos de aprovação, sobre fechar as pernas, sobre rir baixo, sobre manter o cabelo preso, sobre usar cores pálidas, entre tantos outros códigos comportamentais impostos. A opressão sobre o feminino o estrangulando com seus tentáculos.

Ela havia aprendido sobre a linearidade do tempo, sobre uma forma única de entender o mundo. E acreditou que ele fosse fixo assim, por muito tempo se manteve encolhida naquele espaço de limite traçado onde não cabia o atrevimento de suas indagações.

Mas o que ela não sabia era que havia uma natureza nata pulsante que a conduzia para si e que se dava para além de suas percepções conscientes. Era alguma coisa latente que ela sem escolher farejava. Sua força de fêmea a impelia para esse lugar. Ela teria que haver-se com ela, observar seu rosto transfigurado no espelho, desconhecer-se, estranhar-se, assustar-se com o que fizera de si, com o que permitira que fosse feito de si. Foi preciso perder-se no labirinto dos caminhos enganosos, foi preciso afogar-se na “má água” de suas fontes contaminadas de equívocos. Foi preciso que lhe sufocassem o ar para que recuperasse o último fôlego de vida.

Foi num dia nublado entristecido que Eva entendeu quem era.

Eva se viu costela de Adão. Eva lembrou de todos os silenciamentos, de todos os dedos apontados em julgamento em sinal de recriminação, lembrou de todos os papéis a ela atribuídos, como desempenhar modelos domésticos de esposa e mãe. Eva não tinha querer, Eva só consentia, Eva era um ser servil dentro do espectro da conveniência machista. Eva se viu numa sociedade de homens, conservadorista, que podava sua atuação na construção de sua história e de sua cidadania. E, perplexa, enxergou todos os mecanismos coercitivos com que a subjugaram, toda forma de violência moral e sexual com que a sujeitaram, todos os sonhos pueris de afeto traídos pela pornografia do abuso, toda injustiça praticada contra seus talentos desvalorizados, toda sua identidade corrompida por regras que anularam sua autenticidade, toda potência de sua sensibilidade transformada em fragilidade com intuito de enfraquecê-la. Eva reconheceu que o seu poder fora usurpado.

Então, Eva chorou um pranto de cachoeira, torrentes de dores desaguaram sobre pedras irregulares e pontiagudas arrastando tudo o que encontrava pela frente, despejando tormentos inexprimíveis no precipício dos rios e no abismo de todos os mares. Neste dia, o mar agitou-se por todo o continente, ondas ressacadas inundaram costas e submergiram ilhas e aldeias longínquas. Eva viu esvaírem-se todas as suas certezas e arrancadas as máscaras de sua persona. Mas o planeta sinalizou arco-íris em meio à tempestade e ela quis descobrir quem era.

Foi num dia nublado entristecido que Eva rebelou-se e despediu-se do paraíso.

E numa busca desenfreada, ela seguiu ao encontro de todas as suas partes despedaçadas. E foi aprendendo com a alegria inocente da sua menina e com a raiva legítima de suas contrariedades. Apaixonou-se por si mesma quando adentrou na estrada de sua solitude e surpreendeu-se com a intensidade amorosa de seu próprio amparo e acolhida. Aprendeu a exorcizar monstros imaginários ao deixar para trás as cavernas do obscurantismo, ousando caminhar pelo portal das infinitas possibilidades.

E foi assim que as primeiras lutas foram travadas, tratava-se de suas batalhas internas, de recuperar tudo o que lhe fora negado, de resgatar das profundezas suas genuínas verdades consentindo que resplandecessem.

Foi num dia nublado não mais entristecido que, feito uma miragem, apareceu-lhe Lilith revelando-lhe a face.

E Lilith dançou para Eva com os quadris em rebolado, incitando-a, provocando-a, gargalhando seu riso desavergonhado, exalando aromas de mistérios, evocando a memória primitiva de sua ancestralidade, de forma tão visceral, tão naturalmente selvagem a ponto de libertar Eva de sua alma aprisionada, fundindo-se a ela com a sua alquimia mágica.

Desde então, para todo lado surgem Filhas de Lilith povoando a Terra, conquistando espaços, mijando calçadas, descabeladas, coloridas, desbocadas, reclamando direitos, acumulando vitórias, denunciando crueldades, revendo valores, reposicionando lugares, fincando novas bandeiras, marcando territórios, donas de si, sabedoras das marcas das infinitas cicatrizes que lhes sangraram o peito e lhes trouxeram aqui, resistindo pelas vozes que foram amortecidas e silenciadas, sendo farol de esperança de um novo tempo inaugurado.

Foi num dia ensolarado que, uma mulher, embuída de sua inteireza, de seu renascer e do desabrochar de sua humanidade, proclamou para os quatro cantos da Terra seu próprio grito de liberdade.

(*) Junia Rocha é Prifessora, Pesquisadora e Escritora.

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