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‘A DIFÍCIL MORAL DA HISTÓRIA’

Zuenir Ventura (*)

Quando o conheci, ele tinha 9 anos e acabara de escapar da chacina de Vigário Geral, em 1993. Era uma das cinco crianças sobreviventes de uma família de evangélicos que teve oito pessoas fuziladas por um grupo de policiais militares que invadiu a favela atrás de traficantes. Vítor Carlos, suas duas irmãs e dois primos acabaram sendo poupados e saíram pelos fundos da casa pulando de laje em laje. A mãe, o avô e a avó, quatro tias e um tio foram executados.

Há dias, a advogada Cristina Leonardos me ligou para dizer que Vítor, agora com 20 anos e pai de uma filha de 15 dias, tinha sido preso vendendo maconha e cocaína numa boca de fumo da Maré. Foi um choque para todos. Sua maior preocupação era com Vera Lúcia, a tia que criou os meninos sobreviventes e que é uma espécie de mãe-coragem. Há quase doze anos lidera os parentes das vítimas na luta por justiça e para receber uma indenização do Estado.

Decepcionada, essa mulher de fibra e de princípios que procurou transmitir aos filhos de criação sólidos valores morais não consegue entender o que aconteceu. Vítor alega — como fez na entrevista ao repórter Leslie Leitão, do Extra — que entrou para o tráfico, onde faturava até R$ 100 por dia, porque “estava sem dinheiro e precisava sustentar a família”. Vera não é de aceitar como álibi as adversidades da vida e por isso tem dificuldade em desculpá-lo. “Sempre disse que não é porque perdi minha família na chacina que vou sair por aí fazendo besteira.”

Não é fácil tirar uma moral dessa história. Não se trata de fazer a defesa prévia de Vítor, mas ele não parece ter a “vocação” irreversível para o crime : ao que tudo indica, nunca pegou em armas e considerava a atividade ilícita como um “emprego”. A desagregação familiar causada pela violência policial, o desajuste emocional, a revolta (ele ainda não recebeu a indenização que o Estado foi condenado pelo Tribunal de Justiça a pagar), a necessidade de dinheiro, alguma coisa enfim de sua história de vida pode ter pesado no seu desvio de conduta.

Por ironia, Vítor está no mesmo prédio da Polinter em que se encontra preso o último dos PMs da chacina. Foragido desde 1993, ele se entregou quando sua foto apareceu recentemente no programa “Linha direta”.

Segundo Vera, “arrependido e envergonhado”, o seu sobrinho pede uma segunda chance. Não cabe a mim dizer se ele merece. Mas o Estado e a sociedade que não tiveram pressa em fazer justiça (dos 50 acusados da execução de 21 inocentes, só seis foram condenados até hoje) nem em reparar os danos causados a essa família, talvez devam refletir com calma antes de condenar Vítor Carlos.

11 de maio de 2005

Jornalista premiado que ocupa a cadeira de número 32 na ABL, Zuenir Ventura foi colunista do GLOBO de 1999 a 2022.

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