
Mauro Porto (*)
Em Cabo Frio, cidade de cerca de 230 mil habitantes e já abarrotada com mais de mil igrejas, lá vem mais um templo inaugurado por Silas Malafaia.
Se fé virasse alvará, a prefeitura tinha que abrir uma secretaria exclusiva para administrar milagre por metro quadrado.
Enquanto comércio fecha as portas, ambulante sua no sol e morador faz malabarismo pra pagar a obscena taxa de lixo aprovada na surdina pela Câmara — sempre diligente quando o assunto é pesar no bolso do contribuinte — há um setor blindado contra tempestades: o da religião-empresa.
A Constituição promete igualdade perante a lei. Na prática, o fiel paga imposto, o pequeno empresário aperta os cintos, mas o templo navega na imunidade tributária como cruzeiro em mar calmo.
As Assembleias de Deus chegaram ao Brasil em 1910 como missão pentecostal, fincando os pés nas camadas mais pobres e crescendo vertiginosamente ao longo do século XX até se tornarem o principal segmento evangélico do país.
Eram culto simples, Bíblia aberta e consolo para quem só tinha fé e esperança. Hoje, parte dessa herança parece capturada por meganhas de paletó que descobriram na política uma extensão natural do púlpito — não basta o poder do céu, querem também o poder dos homens.
E a nova etapa dessa “obra” começou em grande estilo: as reuniões foram inauguradas no luxuoso Hotel Paradiso Corporate. Paradiso, de paraíso mesmo, só para os ricos e abastados da cidade. Porque os pobres fiéis — aqueles que sustentam a engrenagem com dízimos pingados no meio da dor cotidiana — raramente atravessam as portas giratórias do luxo.
O evangelho que nasceu nas periferias agora estreia sob lustres e ar-condicionado central.
Inventou-se até uma teologia sob medida para o caixa: a “prosperidade”, onde fé vira investimento e Deus assume o papel de sócio do sucesso financeiro.
Uma narrativa que transforma miséria em falta de fé e riqueza em certificado divino — uma afronta direta ao projeto de Jesus de Nazaré, que caminhava entre pobres, párias e desassistidos, não entre suítes executivas e auditórios climatizados.
Pelo andar da carruagem e pelo histórico do líder falastrão, o novo “templo” soa menos como casa de oração e mais como comitê político em temporada eleitoral.
Entre um culto e outro, palanque. Entre um louvor e outro, articulação.
O objetivo já não parece apenas inaugurar o reino dos céus, mas consolidar influência aqui embaixo.
Se há um deus preferido nesse projeto, atende pelo nome de Mamom.
Como ironizou Voltaire, o príncipe deve parecer devoto — porque um povo que teme a Deus hesita antes de tocar no ungido. No Brasil de hoje, há quem tenha entendido perfeitamente a lição: mistura-se altar e palanque, invoca-se o céu e negocia-se a terra.
Em Cabo Frio, onde falta saneamento, sobra templo. Onde falta política pública, sobra retórica ungida. E o céu — convenientemente — virou o investimento imobiliário mais lucrativo da cidade.
(*) Advogado