
Luciana G. Rugani (*)
Alguns acontecimentos dos últimos dias deixaram muito material sobre o qual a sociedade precisa se debruçar e pensar, cada um se autoanalisar e refletir sobre as tantas mudanças sociais pelas quais já passamos e sobre a necessidade de seguir pra frente, deixando pra trás aquilo que não cabe mais e que representa o atraso e o preconceito.
Frequentemente, acontecem tragédias em que homens, covardemente, por meio de violência contra a mulher ou contra os filhos, destroem a própria família. Dias atrás, um tribunal absolveu um homem que mantinha relação marital com uma criança de 12 anos (a enorme repercussão contrária acabou levando à revisão da sentença). No carnaval, houve o desfile de uma escola de samba que buscou promover um importante debate crítico por meio de uma de suas alas.
E o que teriam em comum tantos fatos diferentes?
Na base de todos encontra-se um conflito social que precisamos reconhecer e sobre o qual é preciso refletir: a hipocrisia, o distanciamento entre os rótulos e as atitudes, hipocrisia essa que, às vezes, costuma enganar algumas pessoas a ponto de elas nem perceberem que a reforçam. Em alguns casos, essa hipocrisia tem raiz em conceitos arcaicos, impregnados culturalmente e ocultos sob enganosos entendimentos oriundos de um orgulho dominador e possessivo. Conceitos como “Deus, Pátria e Família”, por exemplo, totalmente deturpados, fora da nossa realidade atual, interpretados de maneira arcaica como uma maneira de impor um domínio cuja raíz é um orgulho eivado de arrogância e preconceito.
Não entrarei aqui no campo de nenhuma religião específica, mas, se fizermos uma reflexão básica sobre o conceito de “Deus”, considerando a ideia de um criador de todo o universo, atemporal, onisciente, sem começo e nem fim, que é a ideia básica de qualquer discussão sobre o tema, é claro que a imagem de alguém humano, imperfeito e dotado dos mesmos erros e características de qualquer ser humano é incompatível com a ideia de uma fonte criadora de todo o universo. Então por que compreendê-lo da mesma maneira humanizada que os antigos, de inteligência primária, que constituíam uma sociedade ainda primitiva e brutalizada, o compreendiam? Já não é tempo de rever, mais profundamente, os conceitos? Uma comparação básica que muito ajuda nessa reflexão: por que muitos desses que usam a máscara religiosa como algo formal, como uma capa para esconder as aberrações que executam, quase nunca falam em Jesus? Por que preferem se agarrar a passagens do Antigo Testamento e pouco se importam com as falas de Cristo? O Novo Testamento abriu uma nova era, em que, segundo o ensino pregado por Jesus, a força e a imposição de domínio sobre o outro seriam substituídos por leis de amor, pelo respeito e pelo não-julgar, portanto abraçar esse novo entendimento certamente exigiria abrir mão do orgulho pernicioso, do preconceito, da visão de superioridade e de posse sobre o outro.
E o conceito de “Pátria”, tão utilizado para transmitir uma sensação de que a sociedade deve estar sempre pronta a seguir um comando forte e ditatorial, esquecendo que pátria se defende é na defesa da soberania roubada no dia a dia, que pátria se fortalece é no combate às injustiças sociais e na defesa da democracia, pois uma sociedade mais justa e próspera para todos é que a tornará mais forte e independente.
E o que dizer então do conceito de “Família”! Esse, então, é um dos mais deturpados a todo instante. A imagem de bela família mas que, por dentro, no lar, impera a violência contra a mulher, a visão dos filhos e da mulher como propriedade, a visão preconceituosa da mulher, esquecendo que ela também é um ser livre, que, ao unir-se a um homem, não passou a ser propriedade dele. Uma imagem de bela família que contrasta com a imposição da ideia de que o homem é quem domina e que à mulher cabe “edificar” o lar, ou seja, o homem pode errar à vontade que o lar está nas mãos da mulher, e ela nunca deve errar, sob pena de pesado julgamento. Uma visão totalmente arcaica, enganosa, sem nenhum sentido de realidade, que deveria ter sido deixada lá atrás, nas dobras do tempo, nos primórdios de séculos passados. A mulher não é propriedade. A menina, criança, tem direito a estudar, a se formar, a tornar-se uma mulher e cidadã livre para, a partir daí, escolher seus caminhos e tomar suas decisões. Jamais se deve encarar como normal a relação conjugal de um homem com uma criança, nem justificá-la como comum em razão de ser costume em alguma localidade. Não, isso não é normal, foi um costume normal no passado arcaico, em que a subjugação feminina era aceita, porém há séculos isso ficou pra trás e lá deve permanecer. A sociedade evoluiu, e os conceitos também precisam evoluir. E se é para utilizar o mesmo verbo, hoje o lar é “edificado” sobre pilares como respeito, amor, companheirismo e responsabilidades compartilhadas. Fruto de uma parceria horizontal, e não de uma relação de superioridade ou de domínio, não de uma hierarquia rígida e baseada na posse.
Incrível como tantas pessoas se escondem sobre os rótulos enganosos desses conceitos e aprontam as piores aberrações! Sabemos que não há perfeição, pois somos humanos, somos imperfeitos e por isso estamos vivos, para evoluir ao menos um pouco e deixar pra trás preconceitos e conceitos arcaicos. Mas não estamos aqui para conservar hábitos, costumes e entendimentos que já não cabem mais em nossa sociedade.
Costumam usar também o termo “conservador” como se fosse algo saudável e bom. Quando que conservar entendimentos equivocados e ultrapassados é algo saudável? Basta refletir um pouco mais!
Outra coisa que tem se tornado muito comum é o uso da interpretação mais conveniente para garantir a preservação de outros interesses. Vimos isso na questão da ala da escola de samba à qual me referi no início. No desfile, o que houve foi uma crítica social a comportamentos, à hipocrisia presente nos comportamentos. Não houve nada relativo a religiões específicas, entretanto alguns políticos e líderes religiosos sem escrúpulos, que usam as máscaras e os rótulos da religião como meio de defender interesses outros, sejam econômicos ou políticos, articularam a divulgação, para seus seguidores, de uma interpretação equivocada, como se a escola estivesse se referindo aos membros de determinado nicho religioso. Com isso, buscaram atrair a indignação dos religiosos contra a escola, e aqueles que não param para analisar profundamente e se deixam levar pelos rótulos, mais uma vez entraram no jogo enganoso dos hipócritas, morderam a isca e perderam uma boa oportunidade de compreender a crítica social feita e abrir os olhos para perceber os falsos e hipócritas da atualidade.
Nos dias atuais, a hipocrisia pode ser encarada como um importante conflito social, pois sua propagação tem promovido intolerância, radicalismo e profundas dissensões. E, no âmbito religioso, a hipocrisia aliada à fé sem questionamentos, à política e impulsionada pela força da internet e das redes sociais torna-se uma venda imposta a grande parte de seguidores das mais diversas religiões, a ponto de alguns defenderem justamente aquilo que mais mal faz para a essência real dessas religiões.
(*) Luciana G. Rugani – Pensadora, escritora e poeta.