
César Benjamin (*)
Parece que Estados Unidos e Israel atacarão o Irã muito brevemente, desta vez sem a necessidade de pretextos. Não está afastado o uso de armas nucleares. Será o acontecimento decisivo da atual conjuntura. Os Estados Unidos já estão travando uma guerra mundial, passo a passo, sem declaração formal. Como a ignorância sobre a realidade iraniana é regra geral, republico um post recente.
O Irã está na ordem do dia. As pessoas gritam e acusam, ou usam a ironia, para intimidar interlocutores divergentes, reais ou imaginários. Repetem chavões: ali, dizem, está instalada uma teocracia assassina, que “enforca mulheres em praça pública”, “empurra homossexuais do alto de prédios” e massacra um povo oprimido.
Desculpem confrontá-los, mas isso é um delírio.
Não há “teocracia assassina”. O sistema político iraniano combina múltiplas instâncias, leigas e religiosas, eleitas pelo voto direto e indicadas pelo clero xiita. A política depende de um permanente equilíbrio entre instituições diferentes.
A Presidência da República é eleita pelo voto direto, com mandatos de quatro anos, com a possibilidade de uma reeleição. Há alternância de poder. Em cada eleição, o leque de alternativas oferecido ao eleitorado iraniano é muito maior do que os dois eternos candidatos – o democrata e o republicano – que se se apresentam monotonamente aos eleitores americanos.
Funcionam dezenas de associações políticas, mas as eleições costumam ser disputadas por candidatos individualmente, o que me parece muito melhor. O atual presidente é um cirurgião cardíaco, proeminente integrante da comunidade científica do país. Não é político profissional e nem era o candidato preferido do estamento religioso.
O Parlamento iraniano também é eleito pelo voto direto. São 290 deputados com mandatos de quatro anos. A presença feminina é significativa. Armênios cristãos, assírios, caldeus, judeus e zorotastrinianos têm cadeiras reservadas.
O clero xiita intervém no sistema político a jusante e a montante desses órgãos, como poder regulador.
O líder supremo, vitalício, é escolhido pelo estamento religioso. O presidente da República cuida dos assuntos de governo e o Parlamento elabora leis, enquanto o líder supremo cuida dos assuntos de Estado, que incluem a política externa e o controle da principal força armada do país, a Guarda Revolucionária. É a última instância, no sentido de Carl Schmitt. Assume pleno poder em situações de crise.
Todos os candidatos a cargos eletivos devem ser aprovados pelo chamado “conselho de guardiães”, formado por seis clérigos islâmicos (indicados pelo líder supremo) e seis juristas leigos (indicados pelo Parlamento). O conselho pode vetar candidatos. Sua atuação é pública e permite recursos.
Nos Estados Unidos, esse papel cabe ao grande capital, aos donos dos meios de comunicação e ao lobby sionista, que no fundo são a mesma coisa. Sua atuação é invisível e, portanto, irrecorrível. Cinco grupos empresariais controlam 95% dos que os americanos podem ver e ouvir. A abstenção é a regra nas eleições.
Nenhum cargo no Irã é decorativo. A política se faz pela busca de um permanente compromisso entre todas as instâncias. Há uma sociedade civil forte e atuante.
As mulheres não são “enforcadas em praça pública”. São maioria nas universidades, inclusive nas chamadas “ciências duras”, como matemática, física e engenharia. O uso da burka é residual e o do lenço é optativo. As cidades iranianas estão cheias de mulheres de cabelos soltos.
Comumente, homens e mulheres jovens moram juntos por períodos longos antes de decidir se querem se casar.
Também nas democracias ocidentais, instâncias não eleitas, como as cortes supremas, intervêm na ação dos governos, em defesa de um pacto considerado permanente, chamado Constituição, que teve origem mais ou menos longínqua na delegação popular.
No Irã, o pacto considerado permanente, a ser defendido, é o Islã, uma religião sem sacramentos, sem sacerdócio, sem altares, que aspira a ser uma atitude vital que tudo abarca, fundindo religião, moralidade, costumes, cultura e política. A confissão de fé, a oração ritual, a caridade, o mês de jejum e a peregrinação são os seus cinco fundamentos. Não há música solene, cantos, velas, procissão, imagens ou dramas sacros. Todos participam de maneira ativa da oração comunitária. Um leigo respeitado pode dirigir a oração. O direito é consuetudinário, como na Inglaterra.
Cada jeito corresponde à história e à cultura de cada país. A minha preferência pelo pacto constitucional, que corresponde à nossa história e à nossa tradição, não me leva a odiar e demonizar os iranianos.
É preciso ser um débil mental para acreditar que o povo persa, com seus 5.000 anos de história, deseja que Estados Unidos e Israel bombardeiem seu país e destruam suas instituições.
Quando olhado de perto, o funcionamento do sistema político iraniano provavelmente apresenta muitas falhas. Depois de muitos anos de duríssimas sanções econômicas, há um cansaço e uma insatisfação difusa na sociedade.
E nos Estados Unidos, isso não acontece? E no Brasil? Com quanto cansaço, quanta insatisfação, convivemos? Quanto tempo aguentaremos se uma grande potência decidir nos desestabilizar?
Vamos ao grão. A economia americana não poderá funcionar, tal como existe , sem hegemonia político-militar sobre o mundo. Enfrentará um empobrecimento que levará o país à guerra civil.
Mas o mundo em que um só país controla a moeda, a energia e o poder militar está terminando. O Irã é o hub de um megaespaço asiático de energia, nascente, completamente desdolarizado. Se ele se consolidar, a espiral de endividamento que sustenta a economia americana deixará de funcionar, pois o dólar perderá os seus privilégios. Será o fim de uma era.
A elite americana sabe bem disso. Tornou-se uma poderosa força anticivilizatória. Cada vez mais, sua política externa usa o terrorismo, o jihadismo, o neonazismo, o paramilitarismo e grupos afins como peões, sem limites. Cada vez mais, multiplica guerras, instabilidades e tensões, enquanto se apresenta, no mundo encantado dos meios de comunicação, como bastião da democracia e das liberdades. É o reino da mentira e do crime. Se essa elite não for contida, produzirá a Terceira Guerra Mundial.
Ao defenderem a desestabilização e, agora, o bombardeio do Irã, vocês estão defendendo um império cujo tempo passou.

(*) César Benjamin – Cientista Político.