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O QUE UNE DIREITA E EXTREMA-DIREITA

Renato Janine Ribeiro (*)

Faz tempo que defendo a existência de uma direita democrática, diferente da extrema-direita que cresce mundo afora, esp. no Brasil.

Mas, pensando bem, cheguei a uma hipótese sobre as razões que levam a direita a aderir à extrema-direita, ou pelo menos a não repudiá-la com a veemência que, p ex, na França ela sempre teve.

Segue meu texto a respeito:

O QUE UNE DIREITA E EXTREMA-DIREITA

É importante distinguir a direita da extrema-direita. A extrema-direita recusa valores democráticos básicos, tanto os procedimentais — como o respeito ao resultado das eleições — quanto os de conteúdo, como a igualdade das pessoas, a igualdade de direitos e a justiça social.

A direita também não é fã da justiça social, o que já aproxima as duas. Mas o ponto central da vinculação pode estar no seguinte: a direita defende uma economia neoliberal e, por isso, quer e necessita de um mercado de trabalho com relativamente poucos direitos. Isso se obtém em países como o nosso com a reforma trabalhista e, em países de forte mão de obra imigrante, pela regulação aparentemente informal, mas efetiva, da importação de mão de obra.

Assim, na Europa em geral, os imigrantes funcionam como exército de reserva do mercado de trabalho, desprovido de direitos — tanto cívicos, porque não são nacionais, quanto trabalhistas, porque muitas vezes não são registrados. Essa mão de obra funciona de forma visível: qualquer pessoa que vá a um restaurante que não seja de primeira linha em Paris, ou quem veja quem está colhendo outros produtos agrícolas por toda a União Europeia, percebe isso.

Conforme os sobressaltos do mercado, essa mão de obra se torna indispensável ou desnecessária. É justamente ela que pode ser regulada pela falta de direitos. Se fossem nativos do país, teriam todos os direitos; não apenas o seguro desemprego, mas acesso à saúde, educação, etc. Isso tornaria o custo desse trabalho mais elevado, o que preocupa a direita.

Vamos à situação geral. A manutenção de um estado minimamente preocupado com os custos sociais custa cada vez mais caro: necessita de melhor educação, melhor saúde. As pessoas vivem mais tempo — o que é positivo economicamente, pois o investimento na qualificação dura mais —, mas também utilizam os bens comuns por mais tempo, inclusive com mais acesso a esporte e atividades físicas. À medida que envelhecem e se aposentam, isso sai caro. Para pagar, é preciso tributar, o que a direita não quer.

Por isso, acontece uma precarização geral do trabalho: todos perdem direitos trabalhistas, sociais e humanos. A indignação com isso, sobretudo dos mais pobres, cresce. Mas os partidos progressistas ou liberais não apresentam um projeto claro para melhorar a vida deles, ou pelo menos manter o patamar atual. Os partidos liberais não querem isso; os partidos mais à esquerda não conseguem elaborá-los ou implementá-los por falta de maioria parlamentar.

Diante dessa degradação do nível de vida da classe trabalhadora, os trabalhadores descontentes não têm mais a explicação ou o diagnóstico oferecido antes pela visão marxista — simples, porém extremamente correta — da disputa entre trabalho e capital. Como essa disputa foi ideologicamente marginalizada, o resultado é que eles acabem caindo no canto de sereia de que quem está tirando seus benefícios são os trabalhadores imigrantes. Isso produz uma divisão no mercado de trabalho entre trabalhadores precarizados cidadãos e trabalhadores descartáveis (imigrantes), que podem então ser alvos de expulsão, acusação pública, vingança e até violência — que é o que os partidos de extrema-direita na Europa fomentam.

Como a direita não quer manter os direitos sociais dos trabalhadores cidadãos nem direitos mínimos para os trabalhadores estrangeiros — muitas vezes ilegais, porque não há interesse em legalizá-los, justamente para manter essa instabilidade que os conserva como exército de reserva —, o sistema funciona numa gangorra muito precária. Nessa gangorra, a extrema-direita faz um trabalho que serve à direita e acaba havendo vasos comunicantes entre as duas.

Está diminuindo o número de líderes de direita que apelam a uma barreira radical contra a extrema-direita. Essa barreira radical na França chamava-se front républicain e significava que, no segundo turno, o apoio ao candidato não extremista era automático, sem negociação. Hoje isso praticamente sumiu. Na última eleição parlamentar francesa, em junho de 2024, a direita simplesmente não fez isso, enquanto a esquerda o fez, o que mostra essa aproximação entre direita e extrema-direita. É lastimável, mas real.

Finalmente, aqueles entre nós — como eu e muitos outros — que apelamos ao ressurgimento de uma direita democrática encontramos nessa comunicação próxima entre as duas um grande obstáculo. O que resta? Restam pessoas como Angela Merkel, que já deixou o poder na Alemanha, e Emmanuel Macron, que deixará a presidência no ano que vem, aparentemente sem saudades. Os dois já estão fora do jogo. Não vejo novos líderes conservadores, mas que repudiem a extrema-direita. E por isso mesmo, concluindo, não estão errados os que falam numa ponte entre neoliberalismo e extrema-direita.

(*) Filósofo, Cientista Político, ex-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e ex-Ministro da Educação.

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