Categorias
Artigo

A LINGUAGEM DO IMPÉRIO

Mauro Porto (*)

A cobertura da mídia corporativa sobre Gaza não é jornalismo: é liturgia imperial. Cada bomba vira “resposta”, cada massacre é “operação”, cada criança morta aparece como “dano colateral”. Já o povo palestino, esse nunca tem rosto, só rótulo: “ameaça”, “terror”, “problema de segurança”. A barbárie de Netanyahu entra limpa, higienizada, como se fosse defesa legítima — a dor palestina, quando aparece, vem sempre sob suspeita.

Domenico Losurdo explicou isso com precisão cirúrgica: o império não domina só com armas, mas com palavras. A “linguagem do império” transforma agressão em ordem, invasão em estabilidade, genocídio em necessidade histórica. É exatamente esse vocabulário que a grande mídia repete, obediente, como quem sabe de qual lado está o poder e de onde vem o patrocínio.

Althusser já tinha avisado: a mídia é um dos principais aparelhos ideológicos de dominação. Ela não precisa mentir o tempo todo; basta enquadrar, selecionar, silenciar. Mostra foguetes sem contexto, esconde décadas de ocupação. Chora por uns mortos, relativiza outros. Ensina o público a sentir empatia com quem tem tanques e desconfiança de quem tem apenas o próprio corpo como escudo.

No fim, o roteiro é sempre o mesmo: o opressor ganha o microfone, o oprimido ganha a culpa. E a mídia corporativa, de joelhos, chama isso de “imparcialidade”. Não é ignorância — é método. Não é erro — é escolha.

Mauro Porto é advogado.

Compartilhe este Post com seus amigos:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *