
“Você não gosta de mim, mas sua filha gosta”. Vítima de censura sistemática, Chico Buarque teria feito a letra da música “Jorge Maravilha”, em 1974, com o pseudônimo de Julinho da Adelaide, para sacanear o germanófilo General Ernesto Geisel, presidente da república. A referência acontecia em função de Amália Lucy, filha de Geisel, ter declarado ser encantada pela obra de Chico, que fazia duras críticas a ditadura e seus generais de plantão. Anos depois, o próprio compositor desmentiu essa versão sobre a canção, mas a anterior é muito mais gostosa que qualquer outra. Afinal, sacanear o ditador sentado na cadeira de presidente, era tudo de bom.
O trecho da letra me veio à cabeça depois que percebi que a mulher de um amigão, tido pelo grupo de amigos como o único cineasta sem sofá do país, não gostava de mim e demonstrava diariamente. Mal me cumprimentava. Levantava da mesa quando eu sentava e não aceitava nem um cafezinho. Não sei por que dessa rejeição, mas não era privilégio dela.
Antes de se transmudar em Nosferato, nas longas caminhadas pelas madrugadas, um velho candomblecista disse em tom imperativo e provocador: “às suas costas são largas e apanha mesmo quando não tem culpa no cartório”. disse, cheio de autoridade: “Fizeram trabalho pra você. Imaginei que ele pudesse ter razão. Recebi da mulher do próprio aprendiz de vampiro o livreto ‘Guia dos Cornudos’, do francês Charles Fourier (1772-1837), no qual o autor elenca 76 tipos de cornos. É muito galho para uma cabeça só. Nem me animei a perguntar a razão de tal presente. Não valia a pena!
Mas vamos ao Chico, caso contrário essa crônica não termina nunca. Em represália, ousei e mudei sorrateiramente a letra do grande poeta: “você não gosta de mim, mas seu marido gosta”.
E cantei pra ela!
- Manoel Lopes da Guia Neto