DEIXARAM SÓ O TOCO DO ALGODÃO DA PRAIA.

A Avenida Nilo Peçanha foi despojada, pela Comsercaf, de mais um “algodão da praia”, árvore que dava sombra deliciosa e que não tinha doença. Logo ali, na esquina de Nilo Peçanha com Rua Jorge Lóssio, em frente a uma “modernosa” casa de massas e uma imobiliária. Estava atrapalhando o visual? A coordenadoria de meio ambiente foi consultada e aprovou? A árvore cortada praticamente na frente do Corpo de Bombeiros teve autorização? Com base em que?

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PRÓXIMOS PASSOS DA CULTURA CABOFRIENSE

Um aparato de 20 policiais com uma ordem judicial que criminalizava 4 artistas cabofrienses interrompeu a 10° Assembleia do 10° dia de ocupação do Ocupa Charitas,iniciativa da SAL – Sociedade de Artistas Livres. A entidade surgiu como desdobramento direto da péssima condução na exoneração da memorialista Meri Damaceno da Secretaria de Cultura e da interrupção do mais radical experimento de gestão participativa e democrática na história dessa pasta, capitaneado por Meri Damaceno e sua equipe, que teve como espinha dorsal a reativação e fortalecimento das Câmaras Setoriais de cada segmento artístico e a realização de mais de 120 reuniões envolvendo representantes do poder público e sociedade civil em menos de 1 ano de gestão.

Como já comentei nesse mesmo espaço no artigo A PARTICIPAÇÃO POPULAR COMO LEGADO, esse experimento de gestão democrática não foi desprovido de erros, nem tampouco teve um caminho fácil. Mas entre erros e acertos, conseguimos criar um ambiente de valorização do diálogo na construção e no encaminhamento das políticas públicas e de ampla participação da sociedade civil nesse processo. Nesse sentido, a saída de Meri Damaceno e sua equipe, foi considerada uma interrupção de um processo democrático de gestão pública por muitas lideranças artísticas diretamente envolvidas na criação da SAL e no planejamento da Ocupação no Charitas. A enorme rejeição histórica ao nome de Milton Alencar foi o tempero de faltava para que a Ocupação acontecesse com a rapidez demonstrada.  

Nos seus 10 dias de Ocupação, o Ocupa Charitas levou uma média de 60 pessoas por dia ao Charitas envolvendo atividades artísticas que iam de oficinas a palestras, além de contar com uma média de 40 artistas dos mais diversos segmentos participando das Assembleias diárias de avaliação do movimento. Cabe registrar que a Ocupação não interferiu nas atividades artísticas previamente agendadas no espaço e ,inclusive, participou de inúmeras delas. A Ocupação também produziu um documento com mais de 900 assinaturas pedindo, entre outras coisas, uma Audiência Pública com o Prefeito. Um pedido completamente ignorado pelo seu gabinete.

A ação do aparato policial, pedido pelo novo Secretário de Cultura Milton Alencar, teve toques de teatralidade e chegou a interromper o trânsito na Av Assunção, uma das principais vias da cidade. Realmente, dezenas de artistas se reunindo em assembléia, deve ser algo de extremo perigo para quem não tem vocação para caminhos democráticos.

A resolução policialesca desse capítulo aprofundou o abismo na formação do diálogo entre o poder público e um amplo segmento artístico da sociedade civil. Se a Ocupação surgiu como medida extrema para retomada de diálogo com o poder público, a criminalização de parte de suas lideranças no processo de desocupação reforça a imagem de um governo que cada vez mais abre mão do diálogo com a sociedade na resolução de conflitos criados pelo próprio governo.

A tendência é que a resolução desses conflitos esteja cada vez mais carregada de tintas autoritárias e que o governo recorra a articulações de bastidores que promovam a entrada de grupos políticos diretamente envolvidos na criação da crise que hoje a cidade está mergulhada, deixando de conversar com as bases e com outros setores da sociedade. É o governo que pensa apenas no próprio governo enquanto se esquece dos problemas concretos da cidade.

A chegada de Milton Alencar já é sintoma disso e hoje ele se coloca no centro de resoluções de caminhos importantes nas políticas públicas culturais de Cabo Frio. A forma como chegou ao cargo (ler artigo A PARTICIPAÇÃO POPULAR COMO LEGADO) e o enorme aparato policial pedido por ele para encerrar a Ocupação colocam em dúvida a sua disposição para caminhos mais democráticos e transparentes na definição de políticas públicas para a Cultura e sua legitimidade para capitanear esse tipo de caminho.

Passado 1 mês de sua conturbada ascensão, sabe-se pouco do que pretende. Não se sabe que caminhos apontados pela gestão Meri Damaceno ele pretende seguir e quais ele pretende romper. No seu primeiro dia foi-lhe entregue um Dossiê da gestão Meri Damaceno com todas as ações realizadas e todos os processos em curso. Não se sabe o que ele pensa desse dossiê ou mesmo se o leu. Há processos importantes iniciados envolvendo o PROEDI (único edital de fomento direto para criação artística de nossa cidade), o edital ARTE NA RUA (que prevê apresentações artísticas remuneradas em dezenas de praças da cidade), o edital do GRAFITE (que prevê a criação de painéis para o Teatro Municipal de Cabo Frio) elaborados na gestão Meri Damaceno para serem disponibilizados de forma mais democrática e transparente possível para a classe artística da cidade. A reforma de adequação do Teatro Municipal às normas de segurança está em suspensão desde o corte de energia do Teatro por falta de pagamento em meados de maio desse ano. De certa forma, nesse início de trabalho, ele será pautado pela forma nebulosa com que chegou ao cargo e pelas ações iniciadas na gestão Meri Damaceno. 

Sabe-se apenas que ele terá o apoio precioso que foi negado a Meri Damaceno nos últimos meses de sua gestão. Miguel Alencar, seu filho, e Secretário de Governo não poupará esforços para agilizar projetos e processos que envolvem o seu grupo político e o próprio projeto de reeleição. Parecem reproduzir na restinga a lógica que domina o governo federal onde um presidente não tem pudor em admitir favorecimento do próprio filho em decisões estratégicas da nação. Para muitos do segmento cultural, a ratificação dessa decisão fortalece a triste sensação que a Secretaria de Cultura, hoje, é um negócio de família que passa de Pai para Filho e, hoje,o Filho devolve ao Pai. A recusa do Prefeito em realizar uma Audiência Pública para ouvir as pautas e demandas do segmento só agrava a sensação de uma guinada antidemocrática em um governo que surgiu como esperança de novos tempos e que hoje, repete o que ontem criticava, resgatando inclusive os mesmos personagens envolvidos em práticas duvidosas em outras gestões.

A  SAL – Sociedade de Artistas Livres nasce dessa ruptura. Ela não surgiu da simples troca de comando de uma pasta como querem acreditar os simplistas. Ela surge da interrupção de um projeto radicalmente democrático e, não por acaso, é fácil encontrar em seus membros, artistas com farta experiência em colegiados, fóruns, conferências e associações que entendem assembleias como o debate necessário para a definição do bem comum, como preferem os que gostam da parte mais transparente da política. Ainda há um vasto caminho para se afirmar e algumas contradições internas para corrigir, mas ela nasce com a força de uma experiência comum marcante que já se tornou parte da história cultural da cidade. A estratégia da Ocupação, sempre que é tomada por um grupo, é um ato extremo para a defesa de um bem comum. Um grito quando todos os outros recursos não surtiram efeito. Participar de uma Ocupação pressupõe abnegação, sacrifício e espírito consciente e crítico. Que a estratégia que poderia ser a última tenha sido escolhida como a primeira já dá idéia da imensa rejeição ao nome de Milton Alencar e da oposição que ele terá que lidar. Ou seja, tudo leva a crer que a SAL participará ativamente dos desdobramentos que envolvem a continuidade da gestão de Milton Alencar na condução da pasta da Cultura.

Os próximos passos seguem nebulosos e só uma determinação mais clara de Milton Alencar em relação ao lançamento do PROEDI, do edital ARTE NA RUA e a reabertura do Teatro Municipal de Cabo Frio poderão diminuir a temperatura da fervura. E mesmo nessas ações ele deverá mostrar uma transparência nas ações que não combinam muito com o seu histórico em outras gestões.

Haverá muitos olhos atentos na condução desses passos.

Para nós que participamos da gestão Meri Damaceno resta a consciência limpa nas ações efetuadas, o aprendizado com os erros e a frustração pelo não fechamento de um ciclo de tamanho potencial no quesito participação popular na construção das políticas públicas. Mas o que foi iniciado pode ser retomado em um governo com maior vocação para o diálogo com as bases e essa semente foi muito bem plantada.  

BRUNO PEIXOTO CORDEIRO

Documentarista Teatral

Coordenador da En La Barca Jornadas Teatrais

Corpo Gestor do Teatro Municipal de Cabo Frio na gestão Meri Damaceno

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AQUI DIREI – Manoel Justino.

Aqui direi
que teus traços
não às remetem,
escolha ou sorte
mas vem de longe ancestres,
do povo, do outro lado, Atlântico.
essência, de vento e mato,
e deles,
metamorfose de dor, em encanto.

Traquejos na pele
revestiram de lá e,
trouxeram, nos seios de vidas,
que assim, em teu ser transcendem

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O FIM DA CRISE SÓ VIRÁ COM OS SALÁRIOS EM DIA!

Quer o fim da crise? Paga em dia!

Assembleia do Sepe Lagos encerrou a greve dos professores da rede pública, mas manteve o estado de greve: caso o pagamento não seja depositado até o quinto dia útil, novas paralisações acontecerão. Para bom entendedor, sem salários em dia o governo não vai ter sossego.

Clésio vai “descascar o abacaxi”

Tudo leva a crer que o fim do “reinado de incompetência” de Antônio Carlos Vieira, na secretaria de fazenda, realmente chegou ao fim. Caberá ao técnico Clésio Guimarães Faria, que conhece finanças públicas, “descascar o abacaxi” deixado pelo protegido do prefeito Adriano Moreno.

Firme e Forte!

O secretário de esportes, Flávio Rebel, membro da República do Edifício das Professoras, está mais firme que nunca no cargo: a turma da Associação Desportiva Cabofriense (ADC), agradece. Ainda existe o convênio com o Cruzeiro (MG)?

O precipício está logo ali…

O comércio chegou ao fim do verão no vermelho e sem perspectiva de melhora: o número de lojas fechadas é imenso e nenhuma política pública de desenvolvimento e investimento. Faltam cinco meses para o próximo verão, isto é, a alta temporada e a cidade está abarrotada de más notícias.

Maria Joaquina

Em meio à grande crise econômica e fiscal o prefeito Adriano Moreno desistiu de manter em território cabofriense o bairro de Maria Joaquina. São grandes, profundas e duradouras as conseqüências desse gesto para a população cabofriense.

E ainda diz que ama.

As seguidas entrevistas dadas pelo prefeito Adriano Moreno revelam uma nova face daquele que dizia não entender nada de política. Até no linguajar se aproxima muito de Ivo Saldanha, que a todos chamava de “irmãozinho”. Adriano também chama de “irmão e irmã” e ainda diz que “ama”.

“Cara de pau”

Cabo Frio realmente não é para amadores. O velho morubixaba era aclamado no Baile das Professoras como “lindo, bonito e gostosão”. Marquinhos Mendes distribuía, sob os olhares embevecidos das mocinhas o seu “beijo no coração”. É necessária muita paciência para comentar a imensa “cara de pau” dos políticos cabofrienses.

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UMA JANELA PARA O ABISMO – Flavio Pettinichi.

O homem olha para o abismo da sua existência, seu olhar está vazio sem um ponto direcionado.
O homem, que iremos chamar de Ricardo, que até a 6 meses era chamado de empresário hoje observa as ruas vazias, desde ao seu olhar vazio, observa o seu estabelecimento vazio, seu produtos poucos e decadentes na estufa desligada são a mostra do seu destino.
Cumprimento o senhor Ricardo e peço um café, como o faço há mais de 2 anos, o homem, que agora já não tem sorriso, me serve, no balcão sujo e poeirento que dá para a avenida vazia, um café frio, ralo e vazio de sabor, na realidade nunca foi diferente, só que agora é pior.
Ricardo volta a ficar perto da janela por onde atende as pessoas e desde a moldura desta volta a observar, com o seu olhar cego, a avenida vazia, as poucas pessoas que passam pela calçada da frente, observam os ônibus, também, quase vazios e olha, agora para o precipício da sua existência.
Eu, tentando ser cordial pergunto como vai o trabalho e Ricardo me responde de maneira certeira, Vai mal, vai muito mal.
Observo para este homem de olhar vazio, quase cego, observo eu também a avenida vazia, as pessoas apressadas fugindo deste inverno existencial e respondo. 
 “- realmente está mal sim, não há dinheiro na rua, a indústria está parada, não há planos de crescimento e as pessoas estão perdidas.”
Então, ele Ricardo, o empresário, o cego responde: 
“Está mal sim, mais vai melhorar…” comentário este que me faz refletir por um instante e me dirá a resposta que eu ia dar para ele, então desde a minha serenidade respondo:
“não Ricardo, não se engane, não vai melhorar pra você, você vai falir em questão de dias, você vai ser mais um dos que vão ir aos postos de saúde e não vai achar médicos, vai levar teu filho na escola e não vai ter livros didáticos nem xis, você vai ser mais um dos que andam catando latinhas nas ruas para sobreviver… você vai falir Ricardo e já é tarde pra você”
Então o homem, que continua na janela que dá para o abismo, que já não o mostra como o empresário, me olha, com o seu olhar cego e sem destino e num murmúrio diz :
“ é complicado…”
Deixei as moedas que pagam o café, sendo que talvez fossem as únicas moedas que, Ricardo, tenha ganhado nessa manhã de um inverno existencial, cego e abissal .
Acendi um cigarro e saí cantando uma canção de amor, o sol estava do lado da minha calçada.

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CLÉSIO, ENTRE O CORAÇÃO E A RAZÃO.

Clésio: entre o coração e a razão!

Conversando com amigos o professor e empresário Clésio Guimarães Faria disse que está dividido entre o coração e a razão, em relação a assumir ou não a secretaria municipal de fazenda. Dia 1º de agosto, certamente virá à definição, mas pelo que deixou a entender, deve aceitar a função.

A missão!

Em função da falta de tempo e dos aborrecimentos que virão, a família se coloca contra Clésio Guimarães assumir, mas o atual tesoureiro da prefeitura considera que, assumir a secretaria de fazenda é também uma missão dele com o município. Que fim terá o imbróglio.

Sem medo da justiça.

O professor Clésio garante que não teme sofrer nenhum prejuízo legal em função de assumir a secretaria de fazenda. Segundo ele, têm acompanhado como tesoureiro, todo o funcionamento administrativo/burocrático da secretaria e que a situação é absolutamente regular.

Retaguarda política.

A negociação das dívidas da prefeitura com fornecedores, prestadores de serviços e sindicatos parece ser a parte mais onerosa e complicada do futuro secretário para os próximos meses. Quem assumir a secretaria de fazenda vai precisar de uma boa retaguarda política.

“Cecé de Jairinho”, no “Café per Tutti”.

O ex-deputado federal Paulo César Guia desembarcou mais uma vez, na tarde de ontem, no Café per Tutti, na Praça Porto Rocha. “Cecé de Jairinho”, também conhecido como “mão que salva”, fez uma rápida análise da crise e seus desdobramentos, na secretaria municipal de cultura. Paulo César estava preocupado com a sua amiga pessoal, a ex-secretária Meri Damaceno.

Corte do ponto dos faltosos.

À tarde de ontem esteve movimentada no “Café per Tutti”: Kiko de Timinho, Paulo César Guia, Juninho Caju, Cláudio Leitão, Flávio Rosa, Wilmar e Eduardo Monteiro, com direito a rápida passagem de Rodrigo Cabral, leia-se “Folha dos Lagos”. Entre os faltosos o professor José Américo Trindade, o Babade, o cineasta José Sette de Barros e o “mecenas” Luiz Carlos de Barros, cujos pontos serão cortados.

“Estou em paz”

Casal de amigos do colunista de “Pequenas Doses” passava, a caminho do “Luso”, na Avenida Nilo Peçanha, na lateral do prédio do Charitas, quando encontrou o cineasta e secretário de cultura, Milton Alencar Júnior. O secretário, que estava ao celular se aproximou e rapidamente sussurrou: “estou em paz”. E mais não disse e nem lhe foi perguntado.

Qual a posição do PC do B?

O PC do B do vice-prefeito Felipe Monteiro, sempre se caracterizou pela defesa dos interesses dos trabalhadores, artistas e da cultura brasileira, em geral. O partido ainda não se pronunciou oficialmente em relação ao “Ocupa Charitas” e muito menos sobre a reintegração de posse realizada pela prefeitura com o auxílio de 20 policiais.

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ESPERANDO SÃO FRANCISCO DE ASSIS.

Ao fim da manhã de ontem, atentos e respeitosos os dois cães, em frente à entrada principal da Matriz Histórica de Nossa Senhora da Assunção, pareciam esperar seu amado protetor e padroeiro, São Francisco de Assis. Muita gente parou para se encantar com a cena. Foto: Valéria Nogueira.

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AS CRIANÇAS QUE MATAM. João do Rio

É assombrosa a proporção do crime nesta cidade, e principalmente do crime praticado por crianças! Estamos a precisar de uma liga para a proteção das crianças, como a imaginava o velho Júlio Vallés…

– Que houve de mais? – indagou Sertório de Azambuja, estirando-se no largo divã forrado de brocado cor de ouro velho.

– Vê o jornal. Na Saúde, um bandido de treze anos acaba de assassinar um garotinho de nove. É horrível!

O meu amigo teve um gesto displicente.

– Crime sem interesse… A menos que não se dê um caso de genialidade, um homem só pode cometer um belo crime, um assassinato digno, depois dos dezesseis anos. Uma criança está sempre sujeita aos desatinos da idade. Ora, o assassinato só se torna admirável quando o assassino fica impune e realiza integralmente a sua obra. Desde Caim nós temos na pele o gosto apavorador do assassinato. Não estejas a olhar para mim assim assustado. As mais frágeis criaturas procuram nos jornais a notícia das cenas de sangue. Não há homem que, durante um segundo ao menos, não pense em matar sem ser preso. E o assassínio é de tal forma a inutilidade necessária ao prazer imaginativo da humanidade, que ninguém se abala para ver um homem morto de morte natural, mas toda gente corre ao necrotério ou ao local do crime para admirar a cabeça degolada ou a prova inicial do crime. Dado o grau de civilização atual, civilização que tem em germe todas as decadências, o crime tende a aumentar, como aumentam os orçamentos das grandes potências, e com uma percentagem cada vez maior de impunidade. Lembra-te das reflexões de Thomas de Quincey na sua pedagogia do crime. É dele esta frase profunda: “O público que lê jornais contenta-se com qualquer coisa sangrenta; os espíritos superiores exigem alguma coisa mais…”

Humilhadamente, dobrei o jornal:

– Então só os espíritos superiores?…

– Podem realizar um crime brilhante. Esse caso da Saúde não tem importância alguma. É antes um exemplo comum da influência do bairro, desse bairro rubro, cuja história sombria passa através dos anos encharcada de sangue. Nunca foste ao bairro rubro? Queres lá ir agora? São oito horas. Vamos? Vem daí…

Descemos. Estava uma noite ameaçadora. No céu escuro, carregado de nuvens, relâmpagos acendiam clarões fugazes. A atmosfera abafava. Uma agonia vaga pairava na luz dos combustores.

Sertário de Azambuja ia de chapéu mole, com um lenço de seda à guisa de gravata. Ao chegar ao Largo do Machado, chamou um carro, mandou tocar para o começo da Rua da Imperatriz.

– Que te parece o nosso passeio? Estamos como Dorian Gray, partindo para o vício inconfessável. Lord Henry dizia: “Curar os sentidos por meio da alma e a alma por meio dos sentidos”. Vamos entrar no outro mundo..

Eu atirara-me para o fundo da vitória de praça e via vaga-mente a iluminação das casas, os grandes panos de sombra das ruas pouco iluminadas, a multidão, na escuridão às vezes, às vezes queimada na fulguração de uma luz intensa, os risos, os gritos, o barulho de uma cidade que se atravessa. Na Rua Marechal Floriano, Sertório pagou ao cocheiro, dizendo:

– Saltaremos em movimento.

E para mim:

– Não vale dar na vista…

Um instante depois saltou. Acompanhei-o. O carro continuou a rodar. O bairro rubro não é um distrito, uma freguesia: é uma reunião de ruas pertencentes a diversos distritos, mas que misteriosamente, para além das forças humanas, conseguiu criar a rede tenebrosa, o encadeamento lúgubre da miséria e do crime, insaciáveis. A Rua da Imperatriz é um dos corredores de entrada.

O bairro onde o assassinato é natural abraça a Rua da Saúde, com todos os becos, vielas e pequenos cais que dela partem, a Rua da Harmonia, a do Propósito, a do Conselheiro Zacarias, que são paralelas à da Gamboa, a do Santo Cristo, a do Livramento e a atual Rua do Acre. Naturalmente as ruas que as limitam ou que nelas terminam – São Jorge, Conceição, Costa, Senador Pompeu, América, Vidal de Negreiros e a Praia do Saco – participam do estado de alma dominante.

Toda essa parte da cidade, uma das mais antigas, ainda cheia de recordações coloniais, tem, a cada passo, um traço de história lúgubre. A Rua da Gamboa é escura, cheia de pó, com um cemitério entre a casaria; a da Harmonia já se chamou do Cemitério, por ter aí existido a necrópole dos escravos vindos da costa da África; a da Saúde, cheia de trapiches, irradiando ruelas e becos, trepando morro acima os seus tentáculos, é o caminho do desespero; a da Prainha, mesmo hoje aberta, com prédios novos, causa, à noite, uma impressão de susto.

Como dizia o meu guia, estávamos num novo mundo…

A Rua da Imperatriz, às oito e meia, com uma porção de casas comerciais velhas e tão juntas, tão trepadas na calçada, que parecem despejadas na rua, estava em plena febre. Os botequins reles, as barbearias sujas, as tascas imundas gargulejavam gente, e essa gente era curiosa – trabalhadores em mangas de camisa, carroceiros, carregadores, fumando mata-ratos infectos, cuspinhando cachaça em altos berros, num calão de imprevisto, e rapazes mulatos, brancos, de grandes calças a balão, chapéu ao alto, a se arrastarem bamboleando o passo, ou em tabernas barulhentas. A nossa passagem era acompanhada com um olhar de ironia, e bastava parar dois segundos defronte de uma taberna, para que dentro todos os olhos se cravassem em nós.

Eu sentia acentuar-se um mal-estar bizarro. Sertório ria.

– A vulgaridade da populaça! Há por aqui, entre esses marçanos fortes, gente boa. Há também ruim. Estão fatalmente destinados ou a apanhar ou a dar, desde crianças. É a vida. Alguns são perversos: provocam, matam. Vais ver. Nasceram aqui, de pais trabalhadores…

Tínhamos chegado à Rua Camerino, esquina da da Saúde. Há aí uma venda com um pequeno terraço de entrada. O prédio desfaz-se, mas dentro redemoinha uma turba estranha: negralhões às guinadas, inteiramente bêbedos, adolescentes ricos de músculos, embarcadiços, foguistas.

Fala-se uma língua babélica, com termos da África, expressões portuguesas, frases inglesas. Uns cantam, outros rouquejam insultos. Sertório aproxima-se de um grupo. Há um mulato de tamancos, que parece um arenque ensalmonado, no meio da roda. O mulato cuspinha:

– Go on, go on… yeah. farewell! yeah!

É brasileiro. Está aprendendo todas essas línguas estrangeiras com os práticos ingleses.

Há um venerável ancião, da Colônia do Cabo, tão alcoolizado que não consegue senão fazer um gesto de enjôo; há um copta, apanhado por um navio de carga no Mar Vermelho; há dois negrinhos retintos, com os dentes de uma alvura estranha, que bradam:

– Eh oui, petit monsieur, nous sommes du Congo. Étudiés avec pères blancs…

Todos incondicionalmente abominam o Rio: querem partir.

Sertório paga maduros; eles fazem roda. O mulato brasileiro está delicado.

– Hip! Hip! Cambada! Para mostrar a vocês que cá na terra há gente para embrulhar língua direito! Agüente, negrada!
– Sai burrique! – grunhe o ancião.

Dando guinadas com os copos a escorrer o líquido sujo do maduro, essa tropa parecia toda vacilar com a casa, com as luzes, com os caixeiros. Saí antes, meio tonto. Sertório livrava-se da matilha distribuindo níqueis.

Quando conseguiu não ser acompanhado, meteu-se pelo beco. Segui-o e, de repente, nós demos nos trechos silenciosos e lúgubres. Nas ruas, a escuridão era quase completa. Um transeunte ao longe anunciava-se pelo ruído dos passos.

De vez em quando uma rótula aberta e dentro uma sombra. Que lugares eram aqueles? O outro mundo! A outra cidade! A atmosfera era aquecida pelo cheiro penetrante e pesado dos grandes trapiches. Em alguns trechos, a treva era total. Na passagem da estrada de ferro, a luz elétrica, muito fraca, espalhava-se como um sudário de angústias.

Foi então que começamos a encontrar em cada esquina, ou sentados nas soleiras das portas, ou em plena calçada, uns rapazes, alguns crescidos, outros pequenos. À nossa passagem calavam-se, riam. Mas nós íamos seguindo, cada vez mais curiosos.

Afinal, demos no Largo da Harmonia, deserto e lamentável. À porta da igreja uma outra roda, maior que as outras, confabulava. Aproximamo-nos.

– Boa noite!

– Boa noite! – respondeu um pretalhão, erguendo-se com os tamancos na mão.

Os outros ficaram hesitantes, desconfiando da amabilidade.

– Que fazem vocês aí?

– Nós? – indagou um rapazola já de buço, gingando o corpo – Contamos histórias: ora aí tem! Interessa-lhe muito?

– Histórias! Mas eu gosto de histórias. Quem as conta?

– Isso é costume cá no bairro. Há rapazes que sabem contar que até dá gosto. Aqui quem estava contando era o José, este caturrita…

Era um pequeno franzino, magro, com uma estranha luz nos olhos.

Talvez matasse amanha, talvez roubasse! Estava ingenuamente contando histórias…

Sertório insistia, entretanto, para ouvi-lo. Ele não se fez de rogado. Tossiu, pôs as mãos nos joelhos…

– Era uma vez uma princesa, que tinha uma estrela de briIhantes na testa.

A roda caíra de novo num silêncio atento. A escuridão parecia aumentar, e, involuntariamente, ou e o meu amigo sentimos na alma a emoção inenarrável que a bondade do que julgamos mau sempre nos causa…

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QUE MISTÉRIO RONDA A SECRETARIA DE FAZENDA?

Tranqüilidade passageira.

Apesar de paralisações freqüentes o governo de Adriano Moreno vive período de relativa tranqüilidade, embora a previsão seja de raios, trovoadas e chuvas pesadas: afinal, prefeitura sem salários em dia, não tem períodos muito longos de sossego.

Por água abaixo!

Todo o esforço no sentido de construir maioria na câmara de vereadores pode ir “por água baixo”. Caso a prefeitura não conseguir colocar os salários do funcionalismo em dia e ao mesmo tempo melhorar as relações com os sindicatos, a situação tende a se agravar.

O “abacaxi” é a secretaria de fazenda.

O governo, apesar da aparente tranqüilidade, tem grande dificuldade para se estabilizar e as dificuldades parecem ter endereço, na Rua Major Bellegard, isto é, secretaria de fazenda. Ninguém parece querer pegar o “abacaxi” e por enquanto o secretário Antônio Carlos Vieira vai ficando por lá.

Ninguém quer assumir o “abacaxi”

A idéia do governo é blindar Antônio Carlos Vieira transferindo-o para a secretaria de assuntos institucionais, mas o grupo original de Adriano Moreno não tem conseguido encontrar um nome para substituí-lo. Até o momento o professor e empresário Clésio Guimarães Faria ainda não aceitou oficialmente o cargo.

Qual o mistério?

Existe ainda a possibilidade de Clésio aceitar assumir a secretaria de fazenda a partir de 1º de agosto, mas nada concretamente definido. Outros nomes foram sondados e não aceitaram o cargo. Que mistério ronda a secretaria, que ninguém quer assumir posto tão importante?

Dificuldades para resgatar compromissos.

Mesmo a câmara, que tem tentado mediar à crise do governo Adriano Moreno está preocupada. O recesso não para as articulações políticas e elas deixam claro as imensas dificuldades, que o governo está tendo para cumprir seu calendário de compromissos.

Febeapá Buziano – 1.

O “Samba do crioulo doido”, de Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo do grande jornalista e escritor, Sérgio Porto, seria “fichinha” diante da confusão e balbúrdia que o Judiciário acabou por estabelecer em Búzios, prejudicando seriamente a população.

Febeapá Buziano – 2.

Nunca se sabe exatamente quem é o prefeito, se Henrique Gomes ou André Granado e no meio da confusão é o povo que apanha. Stanislaw Ponte Preta bem que poderia, entre um e outro whisky, psicografar os seus Febeapás: ao menos iríamos rir muito da cara dos juízes e políticos.

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A PREFEITURA CONSEGUE A REINTEGRAÇÃO DE POSSE DO CHARITAS. – O protesto dos artistas.

A crise na secretaria municipal de cultura com a exoneração da memorialista Meri Damaceno e a nomeação do cineasta Milton Alencar Jr. ganhou mais um capitulo. A prefeitura de Cabo Frio conseguiu, através de medida judicial, a reintegração de posse do Charitas, realizada ontem por cerca de vinte homens da Polícia Militar, sob protesto dos artistas. Os artistas, entre outros atos, abraçaram o histórico prédio.

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