A VIDA!

Ângela Maria Sampaio de Souza

Faz alguns dias em que eu pensava sobre a vida. A nossa, da família, dos amigos e dos desconhecidos e acabei refletindo que: quem classificamos como “bonzinho”, não é bom …

Um dia vamos perceber que a pessoa que nunca liga é a que mais pensa em você… vamos perceber que somos muito importante para alguém, mas não damos valor a isso …

A verdadeira amizade é como saúde: o seu valor só é reconhecido quando perdemos.

A vida é uma sequência de escolhas, algumas quase sem importância no rumo do futuro e outras irão mudar sua vida para sempre.

Difícil é saber qual é a escolha certa, mas é possível saber qual escolha não queremos para nós.

A vida é muito curta para nos preocuparmos com coisas pequenas e sem importância.

Ser feliz é uma escolha, não uma dádiva, por isso escolha ser feliz, escolha se amar e escolha ser otimista.

Mantenha sua mente positiva e ela atrairá boas pessoas e boas coisas.

A vida é curta muitas vezes e temos muitas coisas para fazer.

Faça o que é importante para você e não para os outros.

Aproveite da melhor maneira possível e sadia o que Deus deu a você de graça: a VIDA!

Ria, abrace, beije, converse com pessoas amigas ou não.

Também podemos errar, mas são com os erros que aprendemos.

Nossa vida é uma viagem e deve ser desfrutada plenamente, aproveite essa viagem para momentos felizes, não permita que a tristeza acompanhe você.

Podemos dizer que a vida é um recomeço e se algum dia não nos sentirmos confortáveis, recomecemos tudo de novo.

Não podemos perder tempo porque um dia vamos perceber como aquele amigo faz falta, mas aí já será tarde!

Esperar o futuro apenas é para aqueles que não sabem viver o presente. A vida passa em um instante, por isso faça esse instante valer a pena!

Vamos comemorar a vitória da VIDA!

(*) Ângela Maria Sampaio de Souza é Professora.

BREVE REFLEXÃO SOBRE O ENVELHECIMENTO NO BRASIL

Cláudio Leitão (*)

O planeta já conta com uma população que supera 7 bilhões de pessoas, e o envelhecimento, antes considerado um fenômeno, hoje, faz parte da realidade da maioria das sociedades. O mundo está envelhecendo e o Brasil não foge a esta regra.

Segundo dados do IBGE relativos ao ano de 2019, cerca de 14% da população brasileira é composta por idosos, o que significa cerca de 35 milhões de pessoas.

Apesar do envelhecimento ser considerado um processo natural, os avanços tecnológicos da medicina, além da prática de hábitos de vida mais saudáveis, estão permitindo aumentar a expectativa de vida da população idosa, demandando novas necessidades em várias áreas.

Isto se constitui num grande desafio para a sociedade, mas principalmente para o Estado, que se vê obrigado a aumentar e tornar mais eficiente um conjunto de políticas públicas para garantir a qualidade de vida desta faixa populacional. O próprio Estatuto do Idoso, criado através de Projeto de Lei em 1997, dá garantias constitucionais de proteção do Estado.

Apesar de todos estes benefícios e medidas, a situação do idoso, hoje no país, apresenta vários problemas. A própria desigualdade social presente projeta inúmeras dificuldades socioeconômicas, particularmente, com relação aos proventos da Previdência Social, que durante os últimos anos passou por várias reformas neoliberais, que surrupiaram direitos dos aposentados e reduziram consideravelmente seus rendimentos. Esta última agora, aprovada no “desgoverno” Bolsonaro aumentou ainda mais o quadro de incerteza, representando uma ameaça real a qualidade de vida da pessoa idosa.

Nesta questão também há um “corte de classe”, já que a grande maioria dos aposentados se situa no segmento de menor renda, o que leva muitas vezes este idoso a continuar no mercado de trabalho, inclusive, na atividade informal.A atual pandemia do Covid-19 também mostrou isso, já que as estatísticas revelam a predominância dos idosos no grupo de maior número de óbitos.

É notório também o quadro do aumento da violência contra a pessoa idosa, fato este, largamente divulgado pela grande mídia do país e também pelas redes sociais. É uma violência de caráter estrutural, que passa pela violência física, sexual, psicológica, econômica e patrimonial, provocada por parentes próximos (intrafamiliar), por terceiros ou pela própria omissão do Estado.

O acesso à saúde também é outra questão fundamental, pois quando o idoso não tem condições de recorrer aos planos de saúde privados, encontra enormes dificuldades de atendimento na Saúde Pública, justamente, num período da vida, onde aumentam muito os casos de doenças, principalmente, aquelas de natureza crônica, como as cardiovasculares, diabetes, psiquiátricas e do sistema ósseo. As despesas com medicamentos consomem parcela significativa do orçamento da pessoa idosa, agravando a questão da subsistência econômica. A dependência funcional e a falta de amparo familiar ajudam a piorar este quadro.

Vivemos numa sociedade onde impera a cultura do prazer, do consumo e da competitividade, logo, é difícil fazer germinar a solidariedade, uma questão central para o respeito e valorização da pessoa idosa. Um modo de vida capitalista, globalizante e sob a ótica neoliberal, que idolatra o “novo” e tende a desprezar o que é “velho”, sinaliza para a sociedade que o abandono do idoso é um fato natural e que o envelhecimento é uma situação de decadência, em função de seu afastamento do “aparelho produtivo”.

Para reverter este quadro é preciso dinamizar a participação das pessoas idosas na vida familiar, social, cultural, econômica e política. É necessário fazer ver ao idoso que a sua vida não está esgotada e que ele tem ainda um papel a desempenhar que pode contribuir de forma importante com a coletividade. Esta prática de uma cidadania mais ativa por parte dos idosos requer a participação de toda a sociedade, das famílias, das instituições privadas e também do Estado. É preciso um esforço conjunto para resgatar esta identidade perdida.

Sob o ponto de vista municipal é preciso também que tanto o executivo quanto a Câmara dos Vereadores criem projetos de lei que possam garantir direitos, proteção, atividades de lazer e bem-estar social, além de ações que promovam maior integração em suas comunidades específicas.

A atual pandemia agravou ainda mais este quadro, pois os idosos foram os que mais sofreram seus efeitos. Quando ela passar a dívida social com os mais velhos será muito maior.

É obrigação do Estado, garantir à pessoa idosa a proteção à vida e à saúde, mediante efetivação de políticas sociais públicas que permitam um envelhecimento saudável e em condições de dignidade. (Estatuto do Idoso – artigo 9º)

(*) Claudio Leitão é economista e professor de história.

JOGO DO BICHO

Machado de Assis

Camilo, — ou Camilinho, como lhe chamavam alguns por amizade, — ocupava em um dos arsenais do Rio de Janeiro (marinha ou guerra) um emprego de escrita. Ganhava duzentos mil-réis por mês, sujeitos ao desconto de taxa e montepio. Era solteiro, mas um dia, pelas férias, foi passar a noite de Natal com um amigo no subúrbio do Rocha; lá viu uma criaturinha modesta, vestido azul, olhos pedintes. Três meses depois estavam casados.

Nenhum tinha nada; ele, apenas o emprego, ela as mãos e as pernas para cuidar da casa toda, que era pequena, e ajudar a preta velha que a criou e a acompanhou sem ordenado. Foi esta preta que os fez casar mais depressa. Não que lhes desse tal conselho; a rigor, parecia-lhe melhor que ela ficasse com a tia viúva, sem obrigações, nem filhos. Mas ninguém lhe pediu opinião. Como, porém, dissesse um dia que, se sua filha de criação casasse, iria servi-la de graça, esta frase foi contada a Camilo, e Camilo resolveu casar dois meses depois. Se pensasse um pouco, talvez não casasse logo; a preta era velha, eles eram moços, etc. A idéia de que a preta os servia de graça, entrou por uma verba eterna no orçamento.

Germana, a preta, cumpriu a palavra dada.

— Um caco de gente sempre pode fazer uma panela de comida, disse ela.

Um ano depois o casal tinha um filho, e a alegria que trouxe compensou os ônus que traria. Joaninha, a esposa, dispensou ama, tanto era o leite, e tamanha a robustez, sem contar a falta de dinheiro; também é certo que nem pensaram nisto.

Tudo eram alegrias para o jovem empregado, tudo esperanças. Ia haver uma reforma no arsenal, e ele seria promovido. Enquanto não vinha a reforma, houve uma vaga por morte, e ele acompanhou o enterro do colega, quase a rir. Em casa não se conteve e riu. Expôs à mulher tudo o que se ia dar, os nomes dos promovidos, dois, um tal Botelho, protegido pelo general*** e ele. A promoção veio e apanhou Botelho e outro. Camilo chorou desesperadamente, deu murros na cama, na mesa e em si.

— Tem paciência, dizia-lhe Joaninha.

— Que paciência? Há cinco anos que marco passo…

Interrompeu-se. Aquela palavra, da técnica militar, aplicada por um empregado do arsenal, foi como água na fervura; consolou-o. Camilo gostou de si mesmo. Chegou a repeti-la aos companheiros íntimos. Daí a tempos, falando-se outra vez em reforma, Camilo foi ter com o ministro e disse:

— Veja V. Exª. que há mais de cinco anos vivo marcando passo.

O grifo é para exprimir a acentuação que ele deu ao final da frase. Pareceu-lhe que fazia boa impressão ao ministro, conquanto todas as classes usassem da mesma figura, funcionários, comerciantes, magistrados, industriais, etc., etc.

Não houve reforma; Camilo acomodou-se e foi vivendo. Já então tinha algumas dívidas, descontava os ordenados, buscava trabalhos particulares, às escondidas. Como eram moços e se amavam, o mau tempo trazia idéia de um céu perpetuamente azul.

Apesar desta explicação, houve uma semana em que a alegria de Camilo foi extraordinária. Ides ver. Que a posteridade me ouça. Camilo, pela primeira vez, jogou no bicho. Jogar no bicho não é um eufemismo como matar o bicho. O jogador escolhe um número, que convencionalmente representa um bicho, e se tal número acerta de ser o final da sorte grande, todos os que arriscaram nele os seus vinténs ganham, e todos os que fiaram dos outros perdem. Começou a vinténs e dizem que está em contos de réis; mas, vamos ao nosso caso.

Pela primeira vez Camilo jogou no bicho, escolheu o macaco, e, entrando com cinco tostões, ganhou não sei quantas vezes mais. Achou nisto tal despropósito que não quis crer, mas afinal foi obrigado a crer, ver e receber o dinheiro. Naturalmente tornou ao macaco, duas, três, quatro vezes, mas o animal, meio-homem, falhou às esperanças do primeiro dia. Camilo recorreu a outros bichos, sem melhor fortuna, e o lucro inteiro tornou à gaveta do bicheiro. Entendeu que era melhor descansar algum tempo; mas não há descanso eterno, nem ainda o das sepulturas. Um dia lá vem a mão do arqueólogo a pesquisar os ossos e as idades.

Camilo tinha fé. A fé abala as montanhas. Tentou o gato, depois o cão, depois o avestruz; não havendo jogado neles, podia ser que… Não pôde ser; a fortuna igualou os três animais em não lhes fazer dar nada. Não queria ir pelos palpites dos jornais, como faziam alguns amigos. Camilo perguntava como é que meia dúzia de pessoas, escrevendo notícias, podiam adivinhar os números da sorte grande. De uma feita, para provar o erro, concordou em aceitar um palpite, comprou no gato, e ganhou.

— Então? perguntaram-lhe os amigos.

— Nem sempre se há de perder, disse este.

— Acaba-se ganhando sempre, acudiu um; a questão é tenacidade, não afrouxar nunca.

Apesar disso, Camilo deixou-se ir com os seus cálculos. Quando muito, cedia a certas indicações que pareciam vir do céu, como um dito de criança de rua: “Mamãe, por que é que a senhora não joga hoje na cobra?” Ia-se à cobra e perdia; perdendo, explicava a si mesmo o fato com os melhores raciocínios deste mundo, e a razão fortalecia a fé.

Em vez de reforma da repartição veio um aumento de vencimentos, cerca de sessenta mil-réis mensais. Camilo resolveu batizar o filho, e escolheu para padrinho nada menos que o próprio sujeito que lhe vendia os bichos, o banqueiro certo. Não havia entre eles relações de família; parece até que o homem era um solteirão sem parentes. O convite era tão inopinado, que quase o fez rir, mas viu a sinceridade do moço, e achou tão honrosa a escolha que aceitou com prazer.

— Não é negócio de casaca?

— Qual, casaca! Coisa modesta.

— Nem carro?

— Carro…

— Para que carro?

— Sim, basta ir a pé. A igreja é perto, na outra rua.

— Pois a pé.

Qualquer pessoa atilada descobriu já que a idéia de Camilo é que o batizado fosse de carro. Também descobriu, à vista da hesitação e do modo, que entrava naquela idéia a de deixar que o carro fosse pago pelo padrinho; não pagando o padrinho, não pagaria ninguém. Fez-se o batizado, o padrinho deixou uma lembrança ao afilhado, e prometeu, rindo, que lhe daria um prêmio na águia.

Esta graçola explica a escolha do pai. Era desconfiança dele que o bicheiro entrava na boa fortuna dos bichos, e quis ligar-se-lhe por um laço espiritual. Não jogou logo na águia “para não espantar”, disse consigo, mas não esqueceu a promessa, e um dia, com ar de riso, lembrou ao bicheiro:

— Compadre, quando for a águia, diga.

— A águia?

Camilo recordou-lhe o dito; o bicheiro soltou uma gargalhada.

— Não, compadre; eu não posso adivinhar. Aquilo foi pura brincadeira. Oxalá que eu lhe pudesse dar um prêmio. A águia dá; não é comum, mas dá.

— Mas porque é que eu ainda não acertei com ela?

— Isso não sei; eu não posso dar conselhos, mas quero crer que você, compadre, não tem paciência no mesmo bicho, não joga com certa constância. Troca muito. É por isso que poucas vezes tem acertado. Diga-me cá: quantas vezes tem acertado?

— De cor, não posso dizer, mas trago tudo muito bem escrito no meu caderno.

— Pois veja, e há de descobrir que todo o seu mal está em não teimar algum tempo no mesmo bicho. Olhe, um preto, que há três meses joga na borboleta ganhou hoje e levou uma bolada…

Camilo escrevia efetivamente a despesa e a receita, mas não as comparava para não conhecer a diferença. Não queria saber do deficit. Posto que metódico, tinha o instinto de fechar os olhos à verdade, para não a ver e aborrecer. Entretanto, a sugestão do compadre era aceitável; talvez a inquietação, a impaciência, a falta de fixidez nos mesmos bichos fosse a causa de não tirar nunca nada.

Ao chegar à casa achou a mulher dividida entre a cozinha e a costura. Germana adoecera e ela fazia o jantar, ao mesmo tempo que acabava o vestido de uma freguesa. Cosia para fora, a fim de ajudar as despesas da casa e comprar algum vestido para si. O marido não ocultou o desgosto da situação. Correu a ver a preta; já a achou melhor da febre com o quinino que a mulher tinha em casa e lhe dera “por sua imaginação”; e a preta acrescentou sorrindo:

— Imaginação de nhã Joaninha é boa.

Jantou triste, por ver a mulher tão carregada de trabalho, mas a alegria dela era tal, apesar de tudo, que o fez alegre também. Depois do café, foi ao caderno que trazia fechado na gaveta e fez os seus cálculos. Somou as vezes e os bichos, tantas na cobra, tantas no galo, tantas no cão e no resto, uma fauna inteira, mas tão sem persistência, que era fácil desacertar. Não queria somar a despesa e a receita para não receber de cara um grande golpe, e fechou o caderno. Afinal não pôde, e somou lentamente, com cuidado para não errar; tinha gasto setecentos e sete mil-réis, e tinha ganho oitenta e quatro mil-réis, um deficit de seiscentos e vinte e três mil-réis. Ficou assombrado.

— Não é possível!

Contou outra vez, ainda mais lento, e chegou a uma diferença de cinco mil-réis para menos. Teve esperanças e novamente somou as quantias gastas, e achou o primitivo deficit de seiscentos e vinte e três mil-réis. Trancou o caderno na gaveta; Joaninha, que o vira jantar alegre, estranhou a mudança e perguntou o que é que tinha.

— Nada.

— Você tem alguma coisa; foi alguma lembrança…

— Não foi nada.

Como a mulher teimasse em saber, engendrou uma mentira, — uma turra com o chefe da seção, — coisa de nada.

— Mas você estava alegre…

— Prova de que não vale nada. Agora lembrou-me… e estava pensando no caso, mas não é nada. Vamos à bisca.

A bisca era o espetáculo deles, a Ópera, a Rua do Ouvidor, Petrópolis, Tijuca, tudo o que podia exprimir um recreio, um passeio, um repouso. A alegria da esposa voltou ao que era. Quanto ao marido, se não ficou tão expansivo como de costume, achou algum prazer e muita esperança nos números das cartas. Jogou a bisca fazendo cálculos, conforme a primeira carta que saísse, depois a segunda, depois a terceira; esperou a última; adotou outras combinações, a ver os bichos que correspondiam a elas, e viu muito deles, mas principalmente o macaco e a cobra; firmou-se nestes.

— O meu plano está feito, saiu pensando no dia seguinte, vou até aos setecentos mil-réis. Se não tirar quantia grossa que anime, não compro mais.

Firmou-se na cobra, por causa da astúcia, e caminhou para a casa do compadre. Confessou-lhe que aceitara o seu conselho, e começava a teimar na cobra.

— A cobra é boa, disse o compadre.

Camilo jogou uma semana inteira na cobra, sem tirar nada. Ao sétimo dia, lembrou-se de fixar mentalmente uma preferência, e escolheu a cobra-coral, perdeu; no dia seguinte, chamou-lhe cascavel, perdeu também; veio à surucucu, à jibóia, à jararaca, e nenhuma variedade saiu da mesma tristíssima fortuna. Mudou de rumo. Mudaria sem razão, apesar da promessa feita; mas o que propriamente o determinou a isto foi o encontro de um carro que ia matando um pobre menino. Correu gente, correu polícia, o menino foi levado à farmácia, o cocheiro ao posto da guarda. Camilo só reparou bem no número do carro, cuja terminação correspondia ao carneiro; adotou o carneiro. O carneiro não foi mais feliz que a cobra.

Não obstante, Camilo apoderou-se daquele processo de adotar um bicho, e jogar nele até estafá-lo: era ir pelos números adventícios. Por exemplo, entrava por uma rua com os olhos no chão, dava quarenta, sessenta, oitenta passos, erguia repentinamente os olhos e fitava a primeira casa à direita ou à esquerda, tomava o número e ia dali ao bicho correspondente. Tinha já gasto o processo de números escritos e postos dentro do chapéu, o de um bilhete do Tesouro, — coisa rara, — e cem outras formas, que se repetiam ou se completavam. Em todo caso, ia descambando na impaciência e variava muito. Um dia resolveu fixar-se no leão; o compadre, quando reconheceu que efetivamente não saía do rei dos animais, deu graças a Deus.

— Ora, graças a Deus que o vejo capaz de dar o grande bote. O leão tem andado esquivo, é provável que derrube tudo, mais hoje, mais amanhã.

— Esquivo? Mas então não quererá dizer…?

— Ao contrário.

Dizer quê? Ao contrário, quê? Palavras escuras, mas para quem tem fé e lida com números, nada mais claro. Camilo elevou ainda mais a soma da aposta. Faltava pouco para os setecentos mil-réis; ou vencia ou morria.

A jovem consorte mantinha a alegria da casa, por mais dura que fosse a vida, grossos os trabalhos, crescentes as dívidas e os empréstimos, e até não raras as fomes. Não lhe cabia culpa, mas tinha paciência. Ele, em chegando aos setecentos mil-réis, trancaria a porta. O leão não queria dar. Camilo pensou em trocá-lo por outro bicho, mas o compadre afligia-se tanto com essa frouxidão, que ele acabaria entre os braços da realeza. Faltava já pouco; enfim, pouquíssimo.

— Hoje respiro, disse Camilo à esposa. Aqui está a nota última.

Cerca das duas horas, estando à mesa da repartição, a copiar um grave documento, Camilo ia calculando os números e descrendo da sorte. O documento tinha algarismos; ele errou-os muita vez, por causa do atropelo em que uns e outros lhe andavam no cérebro. A troca era fácil; os seus vinham mais vezes ao papel que os do documento original. E o pior é que ele não dava por isso, escrevia o leão em vez de transcrever a soma exata das toneladas de pólvora…

De repente, entra na sala um contínuo, chega-se-lhe ao ouvido, e diz que o leão dera. Camilo deixou cair a pena, e a tinta inutilizou a cópia quase acabada. Se a ocasião fosse outra, era caso de dar um murro no papel e quebrar a pena, mas a ocasião era esta, e o papel e a pena escaparam às violências mais justas deste mundo; o leão dera. Mas, como a dúvida não morre:

— Quem é que disse que o leão deu? perguntou Camilo baixinho.

— O moço que me vendeu na cobra.

— Então foi a cobra que deu.

— Não, senhor; ele é que se enganou e veio trazer a notícia pensando que eu tinha comprado no leão, mas foi na cobra.

— Você está certo?

— Certíssimo.

Camilo quis deitar a correr, mas o papel borrado de tinta acenou-lhe que não. Foi ao chefe, contou-lhe o desastre e pediu para fazer a cópia no dia seguinte; viria mais cedo, ou levaria o original para casa…

— Que está dizendo? A cópia há de ficar pronta hoje.

— Mas são quase três horas.

— Prorrogo o expediente.

Camilo teve vontade de prorrogar o chefe até ao mar, se lhe era lícito dar tal uso ao verbo e ao regulamento. Voltou à mesa, pegou de uma folha de papel e começou a escrever o requerimento de demissão. O leão dera; podia mandar embora aquele inferno. Tudo isto em segundos rápidos, apenas um minuto e meio. Não tendo remédio, entrou a recopiar o documento, e antes das quatro horas estava acabado. A letra saiu tremida, desigual, raivosa, agora melancólica, pouco a pouco alegre, à medida que o leão dizia ao ouvido do amanuense, adoçando a voz: Eu dei! eu dei!

— Ora, chegue-se, dê cá um abraço, disse-lhe o compadre, quando ele ali apareceu. Afinal a sorte começa a protegê-lo.

— Quanto?

— Cento e cinco mil-réis.

Camilo pegou em si e nos cento e cinco mil-réis, e só na rua advertiu que não agradecera ao compadre; parou, hesitou, continuou. Cento e cinco mil-réis! Tinha ânsia de levar à mulher aquela notícia; mas, assim… só…?

— Sim, é preciso festejar esse acontecimento. Um dia não são dias. Devo agradecer ao céu a fortuna que me deu. Um pratinho melhor à mesa…

Viu perto uma confeitaria; entrou por ela e espraiou os olhos, sem escolher nada. O confeiteiro veio ajudá-lo, e, notando a incerteza de Camilo entre mesa e sobremesa, resolveu vender-lhe ambas as coisas. Começou por um pastelão, “um rico pastelão, que enchia os olhos, antes de encher a boca e o estômago”. A sobremesa foi “um rico pudim”, em que havia escrito, com letras de massa branca este viva eterno: “Viva a esperança!”. A alegria de Camilo foi tanta e tão estrepitosa que o homem não teve remédio senão oferecer-lhe vinho também, uma ou duas garrafas. Duas.

— Isto não vai sem Porto; eu lhe mando tudo por um menino. Não é longe?

Camilo aceitou e pagou. Entendeu-se com o menino acerca da casa e do que faria. Que lhe não batesse à porta; chegasse e esperasse por ele; podia ser que ainda não estivesse em casa; se estivesse, viria à janela, de quando em quando. Pagou dezesseis mil-réis e saiu.

Estava tão contente com o jantar que levava e o espanto da mulher, nem se lembrou de presentear Joaninha com alguma jóia. Esta idéia só o assaltou no bonde, andando; desceu e voltou a pé, a buscar um mimo de ouro, um broche que fosse, com uma pedra preciosa. Achou um broche nestas condições, tão modesto no preço, cinqüenta mil-réis — que ficou admirado; mas comprou-o assim mesmo, e voou para casa.

Ao chegar, estava à porta o menino, com cara de o haver já descomposto e mandado ao diabo. Tirou-lhe os embrulhos e ofereceu-lhe uma gorjeta.

— Não, senhor, o patrão não quer.

— Pois não diga ao patrão; pegue lá dez tostões; servem para comprar na cobra, compre na cobra.

Isto de lhe indicar o bicho que não dera, em vez do leão, que dera, não foi cálculo nem perversidade; foi talvez confusão. O menino recebeu os dez tostões, ele entrou para casa com os embrulhos e a alma nas mãos e trinta e oito mil-réis na algibeira.

LIDO: PROBLEMA RECORRENTE

Imagem antiga.

O problema do ponto de lixo na área do antigo Hotel Lido, na Praia do Forte é recorrente e dura há muitos anos. Não é por ser antigo, que não possa ser resolvido, porque a Praia do Forte é o principal cartão postal de Cabo Frio e não pode continuar a ser tratada como atração de quinta categoria onde impera o desleixo.

Esforço conjunto

Quem sabe um esforço conjunto das secretarias resolve o problema: obras e serviços públicos (Tita Calvet), Meio ambiente (Juarez Lopes) e Comsercaf (Heitor Fonseca)? Reurbanizar toda a área daquela comunidade do Lido é essencial para que o local seja valorizado, beneficiando os moradores e os turistas.

Velho esquema 1

Existe no Brasil aquele velho esquema de deteriorar determinadas áreas para justificar a privatização e a ocupação por investimentos imobiliários privados. Assim foi na área que hoje é o shopping, transformada em depósito de lixo até que a população foi “convencida” que o melhor seria perder uma área de grande interesse turístico, mas degradada, e ganhar um centro comercial privado.

Velho esquema 2

Na época, com o forte apoio da mídia cabofriense e das autoridades municipais, leia-se o prefeito Marquinhos Mendes. Cabo Frio ganhou uma “novidade internacional”, um shopping. Quantos turistas do mundo inteiro virão ao município para conhecer o shopping da cidade? Quantos teriam vindo para desfrutar daquela orla belíssima onde se pensava implantar um museu das salinas cabofrienses?

Privatizar, não!

O que se espera do governo de José Bonifácio (PDT) é que a área do antigo Hotel Lido, que pertencia a Flumitur, seja transformada em um pólo de excelência no atendimento turístico, beneficiando toda a comunidade. Privatizar trechos da orla da Praia do Forte seria inadmissível.