PROVA FALSA – Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta)

Quem teve a idéia foi o padrinho da caçula – ele me conta. Trouxe o cachorro de presente e logo a família inteira se apaixonou pelo bicho. Ele até que não é contra isso de se ter um animalzinho em casa, desde que seja obediente e com um mínimo de educação.

— Mas o cachorro era um chato — desabafou.

Desses cachorrinhos de raça, cheio de nhém-nhém-nhém, que comem comidinha especial, precisam de muitos cuidados, enfim, um chato de galocha. E, como se isto não bastasse, implicava com o dono da casa.

— Vivia de rabo abanando para todo mundo, mas, quando eu entrava em casa, vinha logo com aquele latido fininho e antipático de cachorro de francesa.

Ainda por cima era puxa-saco. Lembrava certos políticos da oposição, que espinafram o ministro, mas quando estão com o ministro ficam mais por baixo que tapete de porão. Quando cruzavam num corredor ou qualquer outra dependência da casa, o desgraçado rosnava ameaçador, mas quando a patroa estava perto abanava o rabinho, fingindo-se seu amigo.

— Quando eu reclamava, dizendo que o cachorro era um cínico, minha mulher brigava comigo, dizendo que nunca houve cachorro fingido e eu é que implicava com o “pobrezinho”.

Num rápido balanço poderia assinalar: o cachorro comeu oito meias suas, roeu a manga de um paletó de casimira inglesa, rasgara diversos livros, não podia ver um pé de sapato que arrastava para locais incríveis. A vida lá em sua casa estava se tornando insuportável. Estava vendo a hora em que se desquitava por causa daquele bicho cretino. Tentou mandá-lo embora umas vinte vezes e era uma choradeira das crianças e uma espinafração da mulher.

— Você é um desalmado — disse ela, uma vez.

Venceu a guerra fria com o cachorro graças à má educação do adversário. O cãozinho começou a fazer pipi onde não devia. Várias vezes exemplado, prosseguiu no feio vício. Fez diversas vezes no tapete da sala. Fez duas na boneca da filha maior. Quatro ou cinco vezes fez nos brinquedos da caçula. E tudo culminou com o pipi que fez em cima do vestido novo de sua mulher.

— Aí mandaram o cachorro embora? — perguntei.

— Mandaram. Mas eu fiz questão de dá-lo de presente a um amigo que adora cachorros. Ele está levando um vidão em sua nova residência.

— Ué… mas você não o detestava? Como é que arranjou essa sopa pra ele?

— Problema da consciência — explicou: — O pipi não era dele.

E suspirou cheio de remorso.

POESIA FEIA – Rafael Alvarenga

Poesia feia tem 41 poemas e é uma continuação do trabalho poético de Rafael Alvarenga iniciado com Poesia banguela (2017). É um livro que quer as possibilidades de um bilhete; as variações de um gosto e o pé que fica atrás. Poesia feia se interessa pelo que tem sangue na veia. E se opõe a todas as ditaduras, inclusive a da beleza.
É um livro múltiplo! Com poesias que não se igualam! Poesia feia é muitas poesias diferentes! Quer fugir do belo como um único, como padrão! Por isso abraça diferenças e singularidades. Por isso merece olhos e atenção de todos!
O livro está em momento de pré-venda online. O colaborador que der uma contribuição mínima de R$ 20,00, acessando o linque que segue abaixo, receberá como recompensa um exemplar do Poesia feia! Que será enviado pelo correio, com custos pago pelo próprio colaborador. Mas também podemos combinar local para entrega ou retirada do livro!
Todo valor arrecadado na campanha “Publicação do livro Poesia feia” será convertido na publicação do livro. Os colaboradores, receberão, via e-mail, um balanço final de todas as doações.
Além disso, serão convidados para o momento de lançamento, com data a ser definida!
https://www.kickante.com.br/campanhas/publicacao-do-livro-poesia-feia

SOBRE PAPAI NOEL.

É visível para qualquer pessoa, com o mínimo de discernimento, que a população de Cabo Frio não agüenta mais os “salvadores da pátria”, que tem respostas e soluções para tudo e qualquer coisa.

O prefeito e seus seguidores prometeram tanto, que quando da vitória de Adriano Moreno, muitos cabofrienses acreditaram, que, finalmente, estavam chegando ao paraíso na Terra. Erro de percurso, Cabo Frio está ficando cada vez mais semelhante a Paraíso, distrito de Italva.

O imaginário “salvador da pátria” migrou da Rede de Sustentabilidade, organização partidária da ética e respeitável ex-ministra Marina Silva para o Democratas, um dos partidos herdeiros da linha política e ideológica da ditadura.

Bem, é importante não esquecer que antes de buscar o “verniz”, na Rede de Sustentabilidade, o líder da “República do Edifício das Professoras” estava filiado e se elegeu como vereador do PP. A legenda tinha como líder local Alair Corrêa, no plano estadual o longevo Francisco Dornelles e em nível nacional, Paulo Maluf.

Convenhamos que na companhia de todos esses “velhos camaradas” (ou seriam companheiros?) não deveria surpreender a migração do prefeito para o Democratas.

Espantados deveriam ter ficado os progressistas, que cerraram fileiras em torno de um candidato com esse “curriculum vitae”, defendendo a tese de que o mesmo não gostava de política.

E sobre Papai Noel?

E mula sem cabeça?

PEQUENAS DOSES

  • Equilíbrio e Planejamento Gente com experiência em administração pública está preocupada com a falta de equilíbrio e planejamento do governo municipal. A situação é grave no 1º semestre quando é maior a arrecadação da prefeitura, o que vai acontecer no 2º semestre?
  • De Paulo Guedes a Tchutchuca O mercado financeiro nada mais é que especulação, na maior parte dos casos inteiramente desvinculado da produção e da produtividade, sem qualquer ligação com administração pública. Por essas e tantas outras que tem gente que entra pensando que é Paulo Guedes a acaba como Tchutchuca.
  • Beija mão Muitos comissionados que, no início do governo, compraram carros novos à prestação, estão com “dor de cabeça”, com a possibilidade de não serem readmitidos com a conclusão da reforma administrativa. É a turma do “beija mão”, na secretaria de fazenda: a fila é grande.
  • O que será? Muita gente, na secretaria de fazenda, tem saudades de Paulinho Machado, o “eterno tesoureiro” que não resistiu às manobras da dupla Adriano Moreno/Antônio Carlos Vieira. O “novo” tesoureiro é o professor e empresário Clésio Guimarães Faria, membro emérito do grupo de Marquinhos Mendes.
  • Cadê as auditorias? As famosas auditorias independentes, prometidas em “prosa e verso” durante a campanha, nunca saíram do papel. Nem mesmo a da Comsercaf, que teve o presidente preso pela Polícia Federal. O seu substituto, indicado por Marquinhos Mendes, ainda permaneceu durante longo tempo no governo de Adriano Moreno.
  • Como é que fica? A alegação sobre a não contratação de empresas independentes e de grande credibilidade para a realização de auditorias era o custo, segundo o governo, alto demais. Até mesmo parte dos progressistas, no governo e fora dele, defendeu a posição da prefeitura.
  • A voz da oposição Cabo Frio não é para amadores diria o inenarrável Vovô Bibiu. Um tarimbado observador da vida política, na cidade, cravou a Rádio Ondas neste sábado e qual foi a sua surpresa: o ex-vereador e ex-secretário de saúde de Alair Corrêa é agora a “voz da oposição”
  • Esperneando O grupo que apoiou Adriano Moreno durante a campanha era pequeno, pouco representativo e está bastante dividido. A turma insatisfeita pela perda de cargos e representatividade política dentro do governo se reúne em dois pontos da cidade: o “senadinho” e o programa de Dirlei Pereira, na Rádio Ondas.
  • É de doer o coração! Formado em sua maioria por egressos do alairzismo, castigados politicamente pelo último governo do “velho morubixaba”, o grupo foi substituído na prefeitura de Adriano Moreno pela turma de Marquinhos Mendes. É de doer o coração!
  • Educação & Ciências Ambientais A abertura, pelo Instituto Federal Fluminense, IFF, do curso de mestrado em Educação e Ciências Ambientais é um grande ganho para Cabo Frio e Região dos Lagos. O primeiro dos prédios do IFF nasceu por iniciativa da dupla José Bonifácio e Otime dos Santos, prefeito e vice-prefeito de Cabo Frio.

HOMEM-DRONE, O EXTERMINADOR – Marcelo Rubens Paiva

Existem drones e drones. Alguns têm poder de fogo. Outros apenas xeretam. Tem minúsculos inspirados em libélulas, ideais para situações com refém. E tem os bombardeiros-robô operados por geeks, com nomes sugestivos: Shadow (sombra), com 14 m de envergadura, Predador, com 17 m, e Reaper (anjo da morte, ceifeiro), com 20 m.

Atrás de cada drone, existe o homem-drone, profissional com envolvimento idealizado, não físico, com o conflito a milhares de quilômetros de distância, diante de uma tela e um teclado, como passamos a maior parte do dia. Não usa capacete. Não sente cheiro de Napalm às manhãs, como Capitão Willard (Apocalypse Now).

Atrás de cada comentário da internet, também há alguém xeretando a vida alheia e sobrevoando a exposição digital em redes sociais de conhecidos ou não. Como comandante de um avião-robô, ele ou ela se senta diante da tela, faz da sua mesa uma Situation Room e sobrevoa, Page Up, Page Down, por comentários e imagens postadas.

Na maioria das vezes, ignora o que vê. Eventualmente, faz um rasante, observa melhor, vê algo suspeito e, vum, manda um míssil com um comentário bombástico, detona uma discussão, esforço de guerra também conhecido como trolagem.

Precisa ter a sua opinião formada sobre tudo publicada. Precisa que saibam que concorda ou discorda. Faz questão de postar: “Discordo!” E, se discorda muito, se sente bem quando informa: “Unfollow”. Como se quem deixa de ser seguido por alguém que nem conhece ficasse magoado e revesse suas posições. Não faça isso, “follow me” de novo, juro que procurarei me aprimorar, não posso ficar sem você “following” meus posts, sem você sou um nada, um ninguém, um mero perfil, um avatar solitário.

Na semana passada, encontrei dois sujeitos que se declararam meus seguidores. Confessaram, irônicos, como se vangloriassem, que entraram em polêmica comigo. O primeiro pelo meu blog, o segundo pelo Twitter.

Meus “followers” pediram fotos abraçados comigo. O primeiro postou e me marcou no Face no dia seguinte com a legenda: “Eu e o cara!” O cara sublinhado.

Ambos me intrigam. Por que me agrediram digitalmente, se são meus “admiradores”? “Foi uma discussão boba”, disse o primeiro. “Não fui grosso com você, só trolei”, explicou o segundo. Só? Por quê? Muitos dos caras que me detonam na rede são meus fãs?

Pensam, como na Doutrina Obama, que seus drones são armas não letais. Não querem passar em branco na vida digital do ídolo. Querem um pouco de atenção. Estão em dia com o mal humor cibernético que se espalha como uma epidemia e contamina até a imprensa. Ou a culpa é minha? Quem mandou se expor?

*

A ficção científica não é um exercício de previsibilidade. Procura imaginar um futuro estrangulado por conflitos aparentemente sem solução do presente. Busca nos nossos tataranetos, em tese mais avançados tecnologicamente, as soluções para as encrencas em que nos metemos.

Obras de ficção científica acertam e erram nas previsões. 2001 – Uma Odisseia no Espaço acertou quando mostrou que seríamos vigiados por computadores com câmeras. Mas o filme de Stanley Kubrick, baseado na obra de Arthur Clarke, previu que estaríamos dando um rolê pelo sistema solar em 2001, e que uma estação espacial seria a escala de um voo corriqueiro da Pan Am para a Lua.

Clarke era especialista. É dele conceito de satélite geoestacionário que propôs num artigo científico em 1945 para a Wireless World. Órbita geoestacionária passou a ser conhecida como órbita Clarke em sua homenagem.

Pan Am faliu, a Lua não é visitada há mais de quatro décadas, e a duras penas conseguimos manter uma equipe na órbita Clarke.

2001 – Uma Odisseia no Espaço não se preocupa com o futuro, mas com questões metafísicas que perturbam o homem tecnológico, que cruza a fronteira espacial, leva consigo o computador mais avançado e dúvidas jamais solucionadas sobre o elo perdido, a função da razão, a existência de Deus e a mortalidade.

Blade Runner, de outro especialista, Philip Dick, filmado por Ridley Scott, situa o homem numa sociedade globalizada, caótica, dominada pela estética do urbanismo descontrolado e sob as leis da biodinâmica e robótica.

Se passa em novembro de 2019 em Los Angeles. Cuja poluição melhorou em 2013, a polícia não monitora o cidadão em carros voadores (Spinner), não temos replicantes Nexus-6, da Tyrrel Coporation com vida útil de quatro anos trabalhando no espaço, nem gueixas robóticas ocidentalizadas em crise existencial, como Rachael (Sean Young). Mas todo mundo carrega uma câmera fotográfica que, além de telefone, aproxima digitalmente objetos fotografados.

Já James Cameron retratou uma sociedade dominada por máquinas voadoras do Skynet, computador espião da rede de defesa americana, que saíram do controle. A série Exterminador do Futuro lembra o que rola hoje no Oriente Médio. Não recebemos visita de androide vindo de 2029, modelo 101 – 800 da série Terminator com a cara de Arnold Schwarzenegger, ex-governador da Califórnia. Mas uma sociedade atacada por drones inteligentes que mudam a rotina de todos é a realidade entre as ruínas do Iêmen, Somália, Afeganistão e Paquistão.

Existem drones em 87 países. Até o Hezbollah os opera. Por enquanto, só os EUA e Israel realizaram ataques com eles.

A Human Rights Watch analisou seis ações de drones americanos contra alvos iemenitas. Mataram mais civis do que militantes. Um deles fez 57 vítimas. Chegaram matar um clérigo que pregava contra a Al-Qaeda. A Anistia Internacional também divulgou que uma ofensiva de drones no Paquistão matou 18 trabalhadores, inclusive uma avó de 68 anos que colhia verduras para a neta.

Pessoas comuns como em Exterminador do Futuro não conseguem mais dormir por causa do barulho incessante das máquinas voadoras. E o homem-drone fica impune, pois não se chega a um consenso se leis de guerra se aplicam em casos que uma máquina mata.

Estava na hora do 101 – 800 da série Terminator, que prometeu “I’ll be back”, reaparecer, botar ordem na casa e dar uma enquadrada na anarquia dos drones. Reais e virtuais.

COMO GARANTIR O “FAZ-ME RIR”

Acusado de fazer cara de paisagem diante de decisões espinhosas, Adriano Moreno, ganhou fama de inerte e incapaz de liderar o processo político dentro do município.

Há quem diga pelos bares, cafés e restaurantes que o governo está mesmo nas mãos do seu “1º Ministro”, o secretário de fazenda, “engenheiro de finanças”, Antônio Carlos Vieira.

Segundo as “más e boas línguas” o secretário, que não teve sequer um voto, é quem manda “faz e acontece”, na administração pública municipal. Teria então mais poder que o próprio prefeito.

A partir da construção política da reforma administrativa, com apoio em setores do legislativo, Antônio Carlos Vieira é quem estaria selecionando os exonerados para serem reconduzidos ou não aos cargos.

A recondução ou não vai dar a exata medida de quais são os secretários do eixo central do poder e aqueles que estão na periferia e dependem da boa vontade do “1º Ministro”.

Sem apoio para se manter nos cargos e garantir o velho e bom “faz-me rir” no final do mês, muitos se retiram, pensando lá na frente, isto é, em 2020.

Enquanto isso o governo inicia uma ofensiva publicitária para dar ao prefeito a imagem de simpático homem de ação. A essa altura dos acontecimentos a tarefa será bastante árdua, mas em Cabo Frio tudo é possível.

PEQUENAS DOSES

  • Perguntado na rede social, o vice-prefeito Felipe Monteiro, disse que o PC do B está no governo Adriano Moreno, mas mantém sempre o debate dentro do partido e em todos os níveis. O que isso significa? Só entrevista mais longa poderá responder.
  • Após o imbróglio mal resolvido entre o grupo político de Adriano Moreno e o PDT, Felipe Monteiro foi convidado e aceitou ser companheiro de chapa de Adriano: o cargo de vice-prefeito literalmente acabou por cair no colo do PC do B. O partido tem o seu nicho no governo.
  • As figuras mais fanáticas da extrema direita, de alma bolsonarista, festejaram a saída da dupla Cláudio Leitão e Denize Alvarenga do governo e querem empurrar mais gente pra fora. A turma quer ampliar ainda mais o espaço que possui dentro da prefeitura.
  • A calçada em frente ao Charitas, feita de muito má vontade, no governo de Marquinhos Mendes, está se desmanchando: uma simples calçada em frente a um dos prédios históricos mais importantes da cidade e nada se faz. Bem acomodados nas janelas do Charitas os cupins se divertem.
  • Na Rua Raul Veiga, bem atrás do Charitas, um vendedor de caldo de cana, resolveu que todos têm a obrigação de desfrutar e compartilhar da sua fé: um aparelho de som, de alta potência, brinda os passantes, com hinos gospel. A cidade está uma zona!
  • O pior é que o ambulante está localizado na calçada dos fundos do Charitas, na lateral do “Ismar Gomes”, que, para boa informação ao distinto público, é uma antiga escola da rede pública estadual. Pelo menos respeito!
  • Existem lugares, no centro da cidade, que o número de ambulantes e camelôs é tão grande, que o acesso a calçada é difícil. É uma verdadeira feira a céu aberto. Isso sim é uma balbúrdia.
  • O professor José Américo Trindade, o Babade, continua resistindo a modernidade do celular, mas não abre mão do ar refrigerado. Munido de uma manta, não perde nenhum jogo das meninas do Brasil: vôlei e futebol. Com os rapazes ele não se sentiu a vontade: frustração!
  • O prefeito Adriano Moreno inicia uma ofensiva política no sentido de melhorar a imagem do governo. A área mais sensível tem sido a educação, que causou grande desgaste, com os embates entre o secretário de fazenda Antônio Carlos Vieira e o então secretário de educação, Cláudio Leitão.
  • O prefeito vai ter que correr muito atrás: segundo os rumores das paredes do Palácio Tiradentes, o PC do B está insatisfeito e o PSB acabou de deixar o governo, reclamando, entre outras coisas de falta de transparência.

O BAILE DO JUDEU – Bernardo Guimarães

Ora, um dia, lembrou-se o Judeu de dar um baile e atreveu-se a convidar a gente da terra, a modo de escárnio pela verdadeira religião de Deus Crucificado, não esquecendo, no convite, família alguma das mais importantes de toda a redondeza da vila. Só não convidou o vigário, o sacristão, nem o andador das almas, e menos ainda o Juiz de Direito; a este, por medo de se meter com a Justiça, e aqueles, pela certeza de que o mandariam pentear macacos.

Era de supor que ninguém acudisse ao convite do homem que havia pregado as bentas mãos e os pés de Nosso Senhor Jesus-Cristo numa cruz, mas, às oito horas da noite daquele famoso dia, a casa do Judeu, que fica na rua da frente, a umas dez braças, quando muito, da barranca do rio, já não podia conter o povo que lhe entrava pela porta adentro; coisa digna de admirar-se, hoje que se prendem bispos e por toda parte se desmascaram lojas maçônicas, mas muito de assombrar naqueles tempos em que havia sempre algum temor de Deus e dos mandamentos de Sua Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana.

Lá estavam, em plena judiaria, pois assim se pode chamar a casa de um malvado Judeu, o tenente-coronel Bento de Arruda, comandante da guarda nacional, o capitão Coutinho, comissário das terras, o Dr. Filgueiras, o delegado de polícia, o coletor, o agente da companhia do Amazonas; toda a gente grada, enfim, pretextando uma curiosidade desesperada de saber se, de fato, o Judeu adorava uma cabeça de cavalo mas, na realidade, movida da notícia da excelente cerveja Bass e dos sequilhos que o Isaac arranjara para aquela noite, entrava alegremente no covil de um inimigo da Igreja, com a mesma frescura com que iria visitar um bom cristão.

Era em junho, num dos anos de maior enchente do Amazonas. As águas do rio, tendo crescido muito, haviam engolido a praia e iam pela ribanceira acima, parecendo querer inundar a rua da frente e ameaçando com um abismo de vinte pés de profundidade os incautos transeuntes que se aproximavam do barranco.

O povo que não obtivera convite, isto é, a gente de pouco mais ou menos, apinhava-se em frente a casa do Judeu, brilhante de luzes, graças aos lampiões de querosene tirados da sua loja, que é bem sortida. De torcidas e óleo é que ele devia ter gasto suas patacas nessa noite, pois quantos lampiões bem lavadinhos, esfregados com cinza, hão de ter voltado para as prateleiras da bodega.

Começou o baile às oito horas, logo que chegou a orquestra composta do Chico Carapana, que tocava violão; do Pedro Rabequinha e do Raimundo Penaforte, um tocador de flauta de que o Amazonas se orgulha. Muito pode o amor ao dinheiro, pois que esses pobres homens não duvidaram tocar na festa do Judeu com os mesmos instrumentos com que acompanhavam a missa aos domingos na Matriz. Por isso dois deles já foram severamente castigados, tendo o Chico Carapana morrido afogado um ano depois do baile e o Pedro Rabequinha sofrido quatro meses de cadeia por uma descompostura que passou ao capitão Coutinho a propósito de uma questão de terras. O Penaforte, que se acautele!

Muito se dançou naquela noite e, a falar a verdade, muito se bebeu também, porque em todos os intervalos da dança lá corriam pela sala os copos da tal cerveja Bass, que fizera muita gente boa esquecer os seus deveres. O contentamento era geral e alguns tolos chegavam mesmo a dizer que na vila nunca se vira um baile igual!

A rainha do baile era, incontestavelmente, a D. Mariquinhas, a mulher do tenente-coronel Bento de Arruda, casadinha de três semanas, alta, gorda, tão rosada que parecia uma portuguesa. A D. Mariquinhas tinha uns olhos pretos que tinham transtornado a cabeça de muita gente; o que mais nela encantava era a faceirice com que sorria a todos, parecendo não conhecer maior prazer do que ser agradável a quem lhe falava. O seu casamento fora por muitos lastimado, embora o tenente-coronel não fosse propriamente um velho, pois não passava ainda dos cinquenta; diziam todos que uma moça nas condições daquela tinha onde escolher melhor e falava-se muito de um certo Lulu Valente, rapaz dado a caçoadas de bom gosto, que morrera pela moça e ficara fora de si com o casamento do tenente-coronel; mas a mãe era pobre, uma simples professora régia!

O tenente-coronel era rico, viúvo e sem filhos e tantos foram os conselhos, os rogos e agrados e, segundo outros, ameaças da velha, que D. Mariquinhas não teve outro remédio que mandar o Lulu às favas e casar com o Bento de Arruda. Mas, nem por isso, perdeu a alegria e a amabilidade e, na noite do baile do Judeu, estava deslumbrante de formosura. Com seu vestido de nobreza azul-celeste, as suas pulseiras de esmeraldas e rubis, os seus belos braços brancos e roliços de uma carnadura rija, e alegre como um passarinho em manhã de verão. Se havia, porém, nesse baile, alguém alegre e satisfeito de sua sorte, era o tenente-coronel Bento de Arruda, que, sem dançar, encostado aos umbrais de uma porta, seguia com o olhar apaixonado todos os movimentos da mulher, cujo vestido, às vezes, no rodopiar da valsa, vinha roçar-lhe as calças brancas, causando-lhe calafrios de contentamento e de amor.

Às onze horas da noite, quando mais animado ia o baile, entrou um sujeito baixo, feio, de casacão comprido e chapéu desabado, que não deixava ver o rosto, escondido também pela gola levantada do casaco. Foi direto a D. Mariquinhas, deu-lhe a mão, tirando-a para uma contradança que ia começar.

Foi muito grande a surpresa de todos, vendo aquele sujeito de chapéu na cabeça e mal-amanhado, atrever-se a tirar uma senhora para dançar, mas logo cuidaram que aquilo era uma troça e puseram-se a rir, com vontade, acercando-se do recém-chegado para ver o que faria. A própria mulher do Bento de Arruda ria-se a bandeiras despregadas e, ao começar a música, lá se pôs o sujeito a dançar, fazendo muitas macaquices, segurando a dama pela mão, pela cintura, pelas espáduas, nos quase abraços lascivos, parecendo muito entusiasmado. Toda a gente ria, inclusive o tenente-coronel, que achava uma graça imensa naquele desconhecido a dar-se ao desfrute com sua mulher, cujos encantos, no pensar dele, mais se mostravam naquelas circunstâncias.

— Já viram que tipo? Já viram que gaiatice? É mesmo muito engraçado, pois não é? Mas quem será o diacho do homem? E essa de não tirar o chapéu? Ele parece ter medo de mostrar a cara… Isto é alguma troça do Manduca Alfaiate ou do Lulu Valente! Ora, não é! Pois não se está vendo que é o imediato do vapor que chegou hoje! E um moço muito engraçado, apesar de português! Eu, outro dia, o vi fazer uma em Óbidos, que foi de fazer rir as pedras! Aguente, dona Mariquinhas, o seu par é um decidido! Toque para diante, seu Rabequinha, não deixe parar a música no melhor da história!

No meio de estas e outras exclamações semelhantes, o original cavalheiro saltava, fazia trejeitos sinistros, dava guinchos estúrdios, dançava desordenadamente, agarrando a dona Mariquinhas, que já começava a perder o fôlego e parara de rir. O Rabequinha friccionava com força o instrumento e sacudia nervosamente a cabeça. O Carapana dobrava-se sobre o violão e calejava os dedos para tirar sons mais fortes que dominassem o vozerio; o Penaforte, mal contendo o riso, perdera a embocadura e só conseguia tirar da flauta uns estrídulos sons desafinados, que aumentavam o burlesco do episódio. Os três músicos, eletrizados pelos aplausos dos circunstantes e pela originalidade do caso, faziam um supremo esforço, enchendo o ar de uma confusão de notas agudas, roucas e estridentes, que dilaceravam os ouvidos, irritavam os nervos e aumentavam a excitação cerebral de que eles mesmos e os convidados estavam possuídos.

As risadas e exclamações ruidosas dos convidados, o tropel dos novos espectadores, que chegavam em chusma do interior da casa e da rua, acotovelando-se para ver por sobre a cabeça dos outros; sonatas sinistramente burlescas do sujeito de chapéu desabado, abafavam os gemidos surdos da esposa de Bento de Arruda, que começava a desfalecer de cansaço e parecia já não experimentar prazer algum naquela dança desenfreada que alegrava tanta gente.

Farto de repetir pela sexta vez o motivo da quinta parte da quadrilha, o Rabequinha fez aos companheiros um sinal de convenção e, bruscamente, a orquestra passou, sem transição, a tocar a dança da moda.

Um bravo geral aplaudiu a melodia cadenciada e monótona da Varsoviana, a cujos primeiros compassos correspondeu um viva prolongado. Os pares que ainda dançavam retiraram-se, para melhor poder apreciar o engraçado cavalheiro de chapéu desabado que, estreitando então a dama contra o côncavo peito, rompeu numa valsa vertiginosa, num verdadeiro turbilhão, a ponto de se não distinguirem quase os dois vultos que rodopiavam entrelaçados, espalhando toda a gente e derrubando tudo quanto encontravam. A moça não sentiu mais o soalho sob os pés, milhares de luzes ofuscavam-lhe a vista, tudo rodava em torno dela; o seu rosto exprimia uma angústia suprema, em que alguns maliciosos sonharam ver um êxtase de amor.

No meio dessa estupenda valsa, o homem deixa cair o chapéu e o tenente-coronel, que o seguiu assustado, para pedir que parassem, viu, com horror, que o tal sujeito tinha a cabeça furada. Em vez de ser homem, era um boto, sim, um grande boto, ou o demônio por ele, mas um senhor boto que afetava, por um maior escárnio, uma vaga semelhança com o Lulu Valente. O monstro, arrastando a desgraçada dama pela porta fora, espavorido com o sinal da cruz feito pelo Bento de Arruda, atravessou a rua, sempre valsando ao som da Varsoviana e, chegando à ribanceira do rio, atirou-se lá de cima com a moça imprudente e com ela se atufou nas águas.

Desde essa vez, ninguém quis voltar aos bailes do Judeu.

O TEMPO É CRUEL.

Alguns notórios observadores dos movimentos políticos de Cabo Frio garantem que a reforma administrativa, com as alianças que produziu, pode dar ao governo de Adriano Moreno/Antônio Carlos Vieira o fôlego necessário para atravessar o deserto e chegar às eleições de 2020.

É uma travessia dura para um grupo inexperiente política e administrativamente, que assumiu em um “mandato tampão” e perdeu muito tempo em brigas e confusões intestinas.

Vai ter que abrigar boa parte do seu pessoal extremamente queixoso por ter sido deixado ao relento (o inverno e o vento sudoeste estão aí) e ao mesmo tempo atender a interesses de grupos políticos tradicionais agregados com a reforma administrativa.

Como exercitar todo esse malabarismo, digno de David Copperfield, com recursos, que não permitem mágica, em um estado que vive em crise permanente. Associe essa realidade à falta de tarimba e poderemos ter mais confusões, embaraçando toda a sociedade.

O tempo que era pouco é quase nenhum. Afinal, estamos em junho de 2019 e para enxergar o processo eleitoral basta dobrar a esquina, porque 2020 é logo ali.

Está na hora de correr atrás do prejuízo.

O tempo é um dos adversários a serem vencidos. Talvez o mais cruel.

PEQUENAS DOSES

  • O momento de readaptação da prefeitura de Adriano Moreno ainda não rendeu melhoria nas pesquisas. Não é por acaso que a saída do PSB do governo rendeu muitos apoios dos internautas.
  • Todos os governos municipais eleitos na onda bolsonarista estão com dificuldades para governar e enfrentam queda acentuada na aprovação popular. Cabo Frio é apenas mais um exemplo, acentuando a crise vivida pela cidade nos governos de Alair Corrêa e Marquinhos Mendes.
  • Eleitos para a Alerj a pouquíssimo tempo, Mauro Bernard e Sérgio Luiz Azevedo sofrem com a inexperiência e com a posição política de extrema direita. Absurdo! Ambos votaram em pautas voltadas para emparedar as universidades públicas.
  • A configuração político-eleitoral para 2020, caso seja mantida a proibição de coligação na proporcional, deve mudar radicalmente. Muitos partidos nanicos, em grande parte utilizados para abrigar toda sorte de manobras, podem desaparecer.
  • O PC do B leia-se Carlos Quintão e Filipe Monteiro, não se manifestou oficialmente a respeito da guinada ainda mais a direita do governo de Adriano Moreno. Como a prefeitura de Cabo Frio é agora do Democratas aguarda-se a posição da legenda comunista.
  • O grupo do PC do B, em Cabo Frio, quer muito eleger vereador comprometido política e ideologicamente com o partido. É uma aposta que exige muito trabalho e que pode explicar sua manutenção no arco de alianças, que segura o governo de Adriano Moreno.
  • O ex-deputado federal Paulo César Guia discursa para a platéia quando diz que é candidato a prefeito. Na verdade, ‘Cecé de Jairinho’, também chamado de ‘Mão que salva’ quer mesmo é voltar à câmara federal. O cabofriense se adaptou ao Plenário Ulisses Guimarães e tem muita saudade de Brasília.
  • Apesar de muitas especulações o professor Flávio Rebel continua pilotando a secretaria municipal de esporte e lazer. Ao contrário de outros secretários Rebel é membro emérito da “República do Edifício das Professoras”. Este parece ser o atributo mais importante para permanecer no secretariado.
  • O novo secretário de turismo, professor Paulo Cotias, tem especial carinho pelo projeto do ‘Turismo Histórico’, que, considera um dos pontos relevantes para alavancar o turismo de qualidade, em Cabo Frio.
  • O secretário garantiu ao Blog do Totonho, que pretende reunir a equipe e montar uma gestão compartilhada. Paulo Cotias acompanhou o prefeito Adriano Moreno na visita aos tapetes de sal, da Igreja Católica.

AMAR VOCÊ É COISA DE MINUTOS – Paulo Leminski

Amar você é coisa de minutos
A morte é menos que teu beijo
Tão bom ser teu que sou
Eu a teus pés derramado
Pouco resta do que fui
De ti depende ser bom ou ruim
Serei o que achares conveniente
Serei para ti mais que um cão
Uma sombra que te aquece
Um deus que não esquece
Um servo que não diz não
Morto teu pai serei teu irmão
Direi os versos que quiseres
Esquecerei todas as mulheres
Serei tanto e tudo e todos
Vais ter nojo de eu ser isso
E estarei a teu serviço
Enquanto durar meu corpo
Enquanto me correr nas veias
O rio vermelho que se inflama
Ao ver teu rosto feito tocha
Serei teu rei teu pão tua coisa tua rocha
Sim, eu estarei aqui

SOLIDARIEDADE & DIVERSÃO

Faça a doação de uma cesta básica e ganhe um ingresso família para o Pic Nic da Solidariedade e mais: concorra a uma festa de 40 pessoas na Casa da Árvore Park Lagos.
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Período da arrecadação: 18/06 a 21/07
Ponto de Arrecadação: Casa da Árvore Park Lagos
Data do Pic Nic: 21/07, das 09:30h às 11:30h
Ingresso família: 1 adulto e 1 criança
O sorteio da festa acontecerá no dia do Pic Nic, junto com o sorteio de 5 pacotes de 10 horas de recreação.
Valor do ingresso avulso R$ 30,00
(com 3k de alimento você paga meia entrada)
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