Turistando

Marcos Antônio de Paula

Minha esposa acha engraçado que sou um dos poucos moradores da cidade a curtir esse tumulto de alta temporada. E sem ganhar um níquel de vantagem. Não retiro meu sustento de qualquer atividade ligada direta ou indiretamente ao turismo.

Vou, ali e acolá, abnegado, sabendo que terei de disputar cada milímetro da areia, cada pãozinho, cada lata de cerveja quase fresca.

A cidade que cresce e encolhe ao ritmo das estações sempre despertou minha curiosidade.

A alta temporada era um evento cíclico, com os intervalos certinhos, réveillon, primeira quinzena, segunda quinzena, carnaval, semana-santa. Depois, temporada de inverno, mais curta. Chegava o fim do ano, começava tudo de novo. Entre um tempo e outro, a cidade só nossa, interiorana, quase um rincão.

Isso! A regularidade! Não somos uma cidade com tradição rural. Não temos festa da colheita. Nem da antiga extração de sal. Tampouco uma tradição efusiva de festas religiosas. O ir e vir dos turistas, tão cadenciado, era a garantia de que todas as coisas se sucederiam normalmente. O nosso calendário natural, cultural e, claro, econômico. A segurança da imutabilidade.

Hoje nem tanto. Aos poucos, tudo muda. É inútil o choro.

Já não dá para confiar mais nem nos ventos de agosto, outrora antiga certeza de que tudo aconteceria sempre no seu tempo certo.

Menos ainda na regularidade de nossos visitantes.

Alguns acham que é porque eu gosto de rever os conterrâneos. Sou mineiro. O sotaque da terrinha tem seu valor!

Curioso. Mesmo a maioria dos moradores das Gerais não observa que são vários sotaques. Coisa fácil de notar se, num mesmo dia, você se deparar com um visitante de Mantena, outro de Araguari e mais um, lá de Janaúba. Em Cabo Frio, com atenção, é possível entender muito de Minas…

O namoro com a terra do pão de queijo, parece, está se acabando. Nosso turista está mudando a cara. Deixo aos turismólogos, empresários e afins decifrar essa charada.

Ainda me basta assistir ao ritmo frenético do vai e volta à praia, tentando tirar algum significado das levas ora sorridentes, ora apenas apressadas desse mundaréu de gente que não para de chegar. Aliás, ouço vez e outra a ladainha de que é necessário mudar o perfil de nossos visitantes. Dar um salto qualitativo. Menos é mais. Voltar à golden age.

Não é o que eu vejo acontecendo e os grandes estacionamentos para ônibus de turismo, a profusão de barraquinhas e food trucks, a explosão das ofertas dos sites de aluguel por temporada e as novas edições do tal Cabofolia são a prova cabal de que as ações apontam para o caminho oposto.

Como dizem alguns “coachs” de marketing, é mais fácil vender o que o freguês deseja, de antemão, comprar.

Talvez seja isso.

(*) Ciências Contábeis/UFF.

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