Ganância

Se a ganância não fosse um pecado desprezível, Dante não a teria colocado nas Colinas da Rocha, o quarto círculo do seu inferno. Lembro imediatamente do Paraíso Perdido de Milton, em especial daquela frase “reinar é o alvo da ambição mais nobre, ainda que seja no profundo inferno”. Se formos pensar bem, muitos dos nossos problemas atuais tem na ganância o seu início, meio e fim.

Discordando um pouco de Milton acho que a ganância pode ser diferente da ambição. A ambição mobiliza, a ganância distorce. Muitos almejam o poder por ambições saudáveis: Desejam se articular mais, empreender, ajustar, atrair parcerias importantes que possam construir uma vida melhor para as pessoas. Já outros desejam fama, posição, emaranham-se em malfeitos que possam não só alimentar o efêmero e sedutor poder, mas também trazer os prazeres materiais e as vantagens que o povo comum não pode usufruir. Grupos políticos geralmente são dessa segunda estirpe. O que o une é a ganância de todos os tamanhos, satisfazendo conforme se pese o valor de cada um. Valor esse definido pelo que cada um pode dar de retorno à manutenção de um ganancioso maior.

Gananciosos são miseráveis com recursos. Ao seu redor, nada é verdadeiro, nada é tão sólido que não se desmanche no ar. Há quem ache vantajoso e se vanglorie do produto da ganância. Mas são só isso. O poder e a inteligência nem sempre caminham juntos, o mesmo para a empatia e o senso de dever. Entre os dois, acho a inteligência mais vantajosa. Lembro-me de que li algo sobre em Dostoiévsky, um príncipe russo recém-saído de um sanatório que, ao retornar ao convívio social, cultiva a pureza, a bondade e a honestidade. Foi taxado de idiota. Nome da obra aliás. Pessoas que ambicionam o melhor de si e dos outros são consideradas idiotas pelos gananciosos.

Melhor assim. O mundo da ganância é uma serpente devorando a própria cauda. Poderes vem e vão. A história é plena de efemeridades, irrelevâncias, redundâncias e, ouso dizer, algumas tristes repetições. Gananciosos passarão. Sempre passam. Que os que ambicionam o melhor estejam atentos aos chamados da reconstrução.

(*) Professor, historiador e Consultor Educacional.

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