MARX E ENGELS: UMA AMIZADE QUE SUPEROU A CLASSE SOCIAL 

José Correia Baptista 

É um fato que a diferença social determinada pelo padrão de renda ou herdado, é quase que um destino, embora a questão econômica como distanciadora ou aproximadora seja uma das muitas explicações que poderíamos dar para a convivência. Este tema me leva a lembrar o que foi na história do pensamento do século XIX uma das grandes amizades, aquela que admiro, aquela que venceu todas as diferenças, principalmente a de renda: a amizade fiel e construtiva entre Karl Marx e Friedrich Engels.

Quando se conheceram na França, Marx, então refugiado político, estava com 26 anos de idade, acabara de escrever os Manuscritos econômico-filosóficos (publicado quase um século depois, em 1932; minha edição é portuguesa, da Brasília Editora Porto) e Engels, com 24 anos, estava escrevendo A situação da classe trabalhadora em Inglaterra (Porto: Edições Afrontamento, 1975). Engels descrevia o sofrimento do proletariado na Inglaterra e via uma revolução iminente. Marx já apontava o capitalismo como a economia que desumanizava o homem e anunciava o comunismo como a solução para o enigma da história (quem não se lembra do pensamento idílico na Ideologia alemã (Grijalbo, 1974): “[a] sociedade comunista possibilita-me fazer uma coisa hoje e outra amanhã, caçar pela manhã, pescar à tarde, criar rebanhos ao escurecer, fazer crítica após o jantar, como eu quiser, sem jamais tornar-me caçador, pescador, pastor ou crítico”). Marx e Engels concordavam no campo teórico – naquilo que se chamou dos elementos constitutivos do pensamento marxista, a filosofia idealista alemã, o socialismo francês e a doutrina econômica inglesa – e iniciaram uma amizade pessoal e intelectual que se sustentaria até a morte deles (Marx, morto em 1883, aos 64 anos de idade, e Engels em 1895, aos 74 anos de idade).

Engels era filho de um rico industrial alemão e conheceu a vida do proletariado inglês por ter sido enviado a Manchester para dirigir a sucursal de negócio de algodão da empresa de que sua família era sócia. Engels era mais prático que Marx. Marx, que dominava a filosofia hegeliana, conceituava o mundo. Engels chegou a dizer que Marx era um gênio, era o que via mais longe. Engels especulava que ele, no máximo, ao lado de Marx, possuía apenas talento.

Marx, como se sabe, levou uma vida dura na Inglaterra (perdeu três filhos prematuramente em virtude das condições adversas). Embora fizesse o que queria (estudava e pesquisava na biblioteca do Museu Britânico das 9h às 19h), ele e sua família experimentaram a extrema pobreza. Mas o amigo Engels estava lá para socorrer. E com o crescimento da fortuna de Engels, a vida do amigo Marx (incapaz para o trabalho regular) melhorou também. Engels levava uma vida social ativa, ia a concertos, foi membro de dois clubes frequentados pela burguesia inglesa, possuía cavalo e participava de um clube de caça, mantinha duas casas e em uma delas residia com uma jovem proletária irlandesa. Engels era mulherengo e chegou a segurar a onda de Marx quando o amigo teve um filho com a empregada Helene Demuth (ela, que acompanhou a família no exílio e servira na casa da família de Jenny von Westphalen, mulher de Marx, desde os 11 anos de idade). Engels assumiu a paternidade e só no leito da morte disse para o rapaz que o pai dele era Marx (há muitos e bons livros sobre a vida e o pensamento de Marx; recomendo os estudiosos David McLellan e George Lichtheim).

Marx e Engels foram revolucionários sem revolução, ao contrário de Lenin e Trotski. Mas a admiração mútua e a solidariedade que uniam Marx e Engels era por algo maior: demonstrar, revelar, que o comunismo era um fenômeno histórico. Uma amizade que superou as diferenças de classe social.

(*) José Correia Baptista é formado em Ciências Sociais e em Letras pela UFF.

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