A linha

Marcos Antônio de Paula

Não era um lance realmente perigoso. Apenas uma bola bem recebida já chegando na grande área. Felipe (Inho) me desarmou com a categoria de quem carrega e descarrega material de construção a semana toda, no bazar perto lá de casa.

Aterrissei passando sobre o ombro do zagueirão na velocidade da luz. Inho, uma força da natureza. Desnecessário, desmoralizante, mas um pênalti não(!), com toda certeza.

O que não me impediu de levantar, já com o pé na linha, exigindo a penalidade máxima.

O bandeirinha, Nem, figura simbólica, ainda chegando no meio do campo esbaforido, não era testemunho de nada. Enxerguei lá, no fundo do olho do juiz, a dúvida. Pronto, pênalti! Desde o começo dos tempos. Pênalti.

Descobri tarde demais o talento para o futebol. O que me permitiu apenas esses jogos do final de semana. Uns dez anos de antecedência, minha vida seria outra.

Nunca tinha me importado muito com isso. Cruzamos todos os dias com pessoas dotadas de capacidades incríveis completamente desconhecidas delas próprias. Einsteins, Da Vincis, Pelés. Como nas revistas em quadrinhos, temos todos um super poder oculto do qual a maioria jamais se dará conta.

Ou, pior ainda, alguns se descobrirão muito além do seu tempo, outros, perdidos num passado ideal. Muitos, como no meu caso, apenas velhos demais para a vocação.

O que tem me incomodado é perceber o quanto essa hora de jogo no domingo já me faz falta. Tenho precisado muito desses campinhos poeirentos, de grama quase nenhuma.

Vendedor não tem passado e é isso que faço, representante comercial. O produto vendido só vale o do dia. Aquele do mês que se foi só presta para quem comprou.

Já vai para a quarta semana ruim e meu supervisor quer conversar comigo amanhã. Por infelicidade, não tenho boas expectativas no horizonte nem uma bala de prata para me tirar da mira daquele sujeito desprezível.

Exagero meu: Gente boa não é, mas, no meu caso, só está cumprindo a obrigação.

Aceito, brasileiramente, a regra sobre os altos e baixos da existência. Um pouco cansado, não acho pedir muito que os meus altos, vez ou outra, extrapolem as quatro linhas do campinho. Seria bom demais me ver quite com esse credor exigente que é a vida, uma vezinha só, ao menos.

Mas passa um frio pela espinha. Ora, como se tentar ganhar no grito já não seriam os baixos, derrotas e pequenos fracassos, aos poucos, invadindo o reino onde ainda valem os meus superpoderes.

Aqui exorcizo o medíocre do cotidiano. Essa linha há de me salvar de acordar já derrotado na segunda-feira.

Final do segundo tempo, é bom garantir. Melhor seria arrancar o gol na moral. Vá lá, catimba também é jogo.

Posso pensar outra hora tudo que o tempo, na surdina, vai me tomando.

(*) Ciências Contábeis/UFF.

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