Classificados literários

Vendo caixa de ferramentas. Já está usada e abatida, mas reúne em cada canto sujo do fundo, e também da tampa, as histórias delirantes das tantas coisas que não consegui consertar. Quem comprar, levará de lambuja todo o conteúdo da mesma. Previno aos interessados que o jogo de chaves de boca está visivelmente desfalcado. Mas posso compensar tal decepção com chaves de fenda de tamanhos diferentes, embora uma delas tenha sofrido um acidente doméstico, ao ter seu punho de plástico absolutamente mordido por um cachorro que tive, cujo porte robusto se escondia atrás do nome meigo: Totó!

O interessado, ao adquirir a referida caixa, levará ainda um pesado alicate de cabo amarelo, desses que se deve tomar cuidado para que não caia sobre o dedão. Há, além disso, um rolo de fita veda rosca e outro de fita isolante. Esses que junto do lápis de carcaça esverdeada e ponta desapontada, tem serventia para as mais diversas artes, ofícios e traquinagens. Para tanto basta haver necessidade ou imaginação.

Mas a menina dos olhos da caixa de ferramentas que agora coloco a venda, é o par de luvas de couro cujo tom de cavalo baio encerado atiça uma curiosidade alegre. Quantas vezes calcei essas luvas e senti que dali a pouco poderia sair para salvar a humanidade! Entretanto, logo descobria que teria amplamente mais sucesso se descalçasse-as e pusesse logo o prego no lugar necessitado.

Existencialismos filosóficos a parte, confesso que como a caixa é objeto de profundo valor sentimental ainda não firmei preço. Afinal, nessa vida, quanto vale por um prego no lugar ou uma tomada para funcionar?

Rafael Alvarenga

Cabo Frio, 21 de outubro de 2021.

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