Primo

Marcos Antônio de Paula

Perdoa, afinal ele é seu primo!

Na realidade, era enteado do meu tio, que minha mãe cismava de querer socializar com o resto da família.

Meu tio Cesinha era gente boníssima. Mas desconfio que, mesmo ele, só aturava o moleque por obrigação.

A gente se desentendia sempre naqueles encontros familiares. É necessário dizer que a molecada desconhece essa palavra. Era porrada mesmo, com o placar sempre desfavorável, afinal as mães precisavam mostrar que tinham o controle da situação.

Se havia algum motivo, não me lembro mais. Um dia acabou. Ficamos amigos, inseparáveis.

O que foi péssimo negócio para as mães. Ninguém era mais criança e um acobertava as armações do outro.

Até que apareceu Lurdes.

Por esperteza, maldade, sabe-se lá outro motivo, ficava com um e outro e com nenhum dos dois. Nossa cumplicidade não fazia páreo com Lurdes. Não brigamos, apenas nos afastamos.

Tio Cezinha virou deputado e arrumou uma assessoria para o enteado lá em Brasília. O menino era esperto, arrumou uma rede de amigos, não se sabe o que faz, nunca mais voltou.

Dia desses nos reencontramos no centro do Rio. Ele ia na ALERJ fazer qualquer coisa. Eu, em bando, estava lá protestando, sem muita convicção.

Não havia inimizade. Entabulamos uma conversa solta, como se tivéssemos nos visto no dia anterior. Eu tinha pouco que falar da nossa cidadezinha, ele, prudentemente, pouco falava das andanças na capital do país.

Era inevitável.

E Lurdes?

Afinal nunca levou a sério a paixão dos primos. Mas sentiu, sinceramente, por lhes ter abalado a amizade.

O que não lhe ofuscou o propósito. Tio Cesinha já tinha certa idade, então mudou seu interesse para um jovem político com carreira ascendente.

Se tudo der certo, será primeira dama em nossa cidade no ano que vem.

(*) Ciências Contábeis/UFF.

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