A pia

A louça suja cresce no fundo da pia. Os pratos e os pratinhos são como discos voadores abandonados pela pane da fome saciada. As facas, não há dúvidas, são os mastros quebrados de alguns navios naufragados. Há ainda as panelas, absorvidas pela tarefa de guardar uma água suja desde ontem. Mais ascéticos são os escorredores de macarrão por cujos buracos vaza todo caldo gorduroso.

Ainda assim ninguém amarga desprezo maior que o copo usado pela vitamina de abacate. A ele não ofereceram sequer o resguardo de se esconder no fundo da pia. Por isso está ali, na beirada do mármore, largado às moscas.

À tábua de carne restou o cheiro da cebola. Já a colher de pau, se pudesse remar, levaria a si mesma em direção à bucha. A situação é trágica! Temo que a mísera necessidade de lavar um ralador de cenouras faça o nível da água subir e que assim uma xícara suma para sempre sob a imundície daquilo que foi usado.

Mas há desafios maiores nesse fundo de pia pantanoso! Pois a fome, sempre ela!, causou a presença de uma panela de pressão encrespada pelos restos do feijão cozido ontem. E que ser humano destemido tem coragem de afundar uma única mão nessa apavorante caverna de alumínio?

Não há outra saída. A pia precisa ser encarada até suas camadas mais místicas, onde os potes de plástico matam a saudade do petróleo que um dia foram.

Tanta ciência nesse século XXI (só os negacionistas não enxergam!) e nós aqui, descamisados e armados apenas com uma bucha minguada para encarar a ferocidade da pia diária.

Rafael Alvarenga

Cabo Frio, 13 de outubro de 2021.

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