Una lástima

Marcos Antônio de Paula

Era o bordão com que terminava suas frases, partindo para um gole de chope, vez ou outra batizado com uma dose de Steinhaeger.

Retornei a Búzios depois de décadas. Havia, sim, falta de tempo por conta do trabalho, sempre voraz em tomar de nós bem mais do que dá em troca. E uma certa preguiça de viajar para longe. Gostava das descobertas na minha cidade e do bate-e-volta nos vilarejos pertinho, ali na vista do Itacolomi. Vivia do turismo, viajar, porém, não era tanto do meu gosto.

Costumávamos nos esbarrar em um ou outro bar nas redondezas da praça Santos Dumont, nas vezes em que me dava ao desfrute de um Happy Hour, nome pomposo para a cervejinha depois do expediente. Coisa rápida antes de encarar o Salineira de volta para as terras cabo-frienses.

Como é comum nas conversas de boteco, tinha opinião sobre tudo e baixava o nível quando era futebol, quando nos víamos num bate boca interminável e seu portunhol ia avançando a níveis cada vez mais ininteligíveis. Com um (des) tempero irônico e pessimista, pontuava e acabava por monopolizar qualquer assunto, inclusive aqueles em que não fora convidado.

Eram muitos boatos, que nascera em Córdoba, que perdera a fortuna da família. Ganhava a vida como guia turístico, freelancer. Se chegávamos mais cedo, parecia que ele já estava no bar a horas, e permanecia por lá, quando a fada madrinha vinha nos avisar que chegara o tempo de pegar a carruagem rumo ao descanso do lar.

Éramos muito jovens, balconistas, chapeiros, manobristas, garçons, copeiros, auxiliares, arrumadeiras, sem muito o que fazer naquele ir e vir da estradinha, desprovidos das alienações que os modernos smartphones, hoje em dia, colocam na mão de todo mundo. Demorou pouco para adotarmos sem qualquer freio a tal expressão, una lástima!

Divididos entre os hotéis, restaurantes e pousadas glamourosas, tudo produzido para encantar os turistas e a realidade bem mais espartana da vida cotidiana, o ônibus era o ponto certo de encontro da rapaziada. Sempre chegava a hora de encarar a estradinha de terra, às vezes um lamaçal interminável que hoje, felizmente, pouca gente se recorda.

Ninguém falava espanhol e poucos já estavam iniciados no portunhol corrente na península. Una lástima cabia em qualquer frase, sem problemas. Virou a nossa marca. Nos identificava e gerava até uma certa solidariedade.

Nosso improvável companheiro de cerveja sumiu, por meses. Mesmo não fazendo parte do nosso grupo, era difícil não sentir a sua ausência. Perguntamos.

O gaúcho? Some assim, de vez em quando. Sempre que tem alguma notícia nova sobre o paradeiro da Rosário, sai para conferir. Acaba retornando, fica intratável por um tempo, depois volta a ser esse que vocês conhecem. Então ouve um novo boato e some de novo.

Soubemos, então: Era de Uruguaiana. Chegou em Búzios com uma argentina belíssima. Ela, de fato, nascida em Córdoba. Apaixonadíssimos, brigavam o tempo todo, por conta do ciúme excessivo de um e de outro. Quase um tema de tango.

Por fim, a derradeira discussão, ela disse que sumiria no mundo. E o fez..

Deixei tudo, ele teria dito, por conta de Rosário. Minha família não a queria, a dela me detestava. Agora que ela se foi, se abandono suas palavras, ficarei absolutamente sem nada.

Quando estava no calor dos debates nos bares e esquinas, recordava, na sua voz, a maneira como conversavam. Não era português, espanhol, ou qualquer outra língua que não aquela toda própria dele e de Rosário. Se reconhecia num tempo feliz.

Do qual fizemos parte, embora não tivéssemos a menor ideia.

(*) Ciências Contábeis/UFF.

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