Doutor Evaldo

Marcos Antônio de Paula

Peço sinceras desculpas, Dr Evaldo. Sei que o nosso cãozinho tem incomodado demais. É que nos mudamos de pouco e o bichinho ainda estranha a casa nova.

Não, os latidos do animalzinho não incomodavam o médico. Aliás, poucos barulhos poderiam fazê-lo. Chegava sempre tarde, exausto e dormia feito pedra até a manhã seguinte, quando recomeçava a rotina de trabalho, casa, trabalho.

Levava uma vida quase espartana, de poucos amigos. Alguns, apressadamente, poderiam ver amor desmedido pela profissão. A introspecção e o comportamento meio obsessivo, entretanto, eram características que o perseguiam desde cedo. Fosse outra a escolha da carreira, o veríamos agindo de maneira igual.

Encontrá-lo pelo condomínio foi apenas um raríssimo acaso.

Não há porque se desculpar, como o senhor mesmo disse, é temporário.

Chamou a atenção do médico, não o vizinho ou sua mascote, mas a jovem que os acompanhava.

Ficou sabendo, mais tarde, que era a filha mais nova do casal, que teria vindo ajudar a mãe com a mudança. Buscavam uma casa menor, pois os filhos já tinham, cada um, sua própria vida. O condomínio, de poucas unidades, caiu como uma luva.

Procurou esticar um pouco mais a conversa. A moça, talvez um pouco na obrigação de ser simpática ao vizinho, alongou-se nas eventuais respostas e explicações que costumam permear esses encontros quase protocolares. Na verdade, seu compromisso com a mãe já havia terminado e precisava retomar seus próprios afazeres de professora, do outro lado da cidade.

A beleza da moça não era fato incontroverso. O porte atlético poderia chamar a atenção, mas o traço definitivo era a vivacidade, possivelmente talhado pelo trato diário com uma miríade de alunos do pré-escolar.

Não era segredo que não perdia uma boa briga. Sua presença nas reuniões do sindicato era sempre um acontecimento. O problema é que a gente passa a maior parte da vida tentando saber quais brigas valem realmente a pena. Ela ainda fazia o sentido inverso, de brigar primeiro e avaliar depois.

Defeito ou qualidade, a depender do ponto de vista: para alguns, possuía uma beleza exótica e um espírito forte; para outros, feia e voluntariosa.

Dr. Evaldo, por sua vez, não despertou qualquer interesse na jovem. O médico vestia-se corretamente e mantinha o asseio esperado, coroado por um bom corte de cabelo e barba bem feita. Mas aparentava muito mais idade que o real e a tecnicidade do discurso tornava muito difícil uma conversa descompromissada. Um mala, peixe fora d’água, quando não estava no trabalho. Não por acaso, seu sucesso com as mulheres nunca foi digno de vanglória.

Não fosse o pobre cachorrinho, dificilmente a conversa prosperaria.

O doutor, contra as probabilidades, decidiu investir no relacionamento. A vizinhança com os pais idosos ajudou no início, embora sua personalidade obsessiva quase tenha estragado tudo.

Com o tempo, ele perdeu a pressa e começou a olhar mais ao seu redor. Ficou mais leve no trato com os colegas de ofício e entendeu, finalmente, que o trabalho não pode ser um fim em si mesmo, nem a sua visão de mundo um ideal de perfeição.

A professora amadureceu o ímpeto de brigar com o mundo. Percebeu de pronto as intenções do médico meio esquisito e demorou a ver nele uma pessoa de índole boa.

Lá se vão os anos e ninguém duvida que tornaram, um ao outro, pessoas melhores, leais nas vitórias e derrotas dessa nossa existência.

O namoro, de fato, só veio depois de muita insistência de Dr. Evaldo e não durou mais que alguns poucos meses. Descobriram-se amigos tão somente.

Hoje têm cada um sua família e apenas lamentam que a vida tenha voltado a correr muito rapidamente.

(*) Ciências Contábeis/UFF.

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