Lógica do absurdo

O calor era tão forte que empurrava as coisas umas contra as outras. As paredes andavam e diminuíam as casas. E isso causava constrangimentos gaguejantes nos agentes imobiliários. Um deles, ainda jovem e inexperiente não somente no ramo como também nos poderes fantásticos do calor absurdo daqueles tempos, jamais se recuperou do baque sofrido em uma segunda-feira. Agendou a visita com um cliente a quem deu as medidas e o número de cômodos do apartamento. Empolgado pela iminência de fechar seu primeiro contrato de aluguel adjetivou o espaço com as qualidades do amplo e do agradável.

Ao chegarem ao local foram surpreendidos pelo lado de fora. A porta era tão estreita que precisaram atravessá-la de lado, após abri-la. E assim seguiram pelo curto corredor. Ao fim desaguaram em uma sala pouco maior que um banheiro muito pequeno. E dela perceberam as portas que anunciavam a cozinha e os quartos, ambos tão pequenos que sugeriam a esquizofrenia de uma visão alucinada.

O silencio era o maior sintoma da incredulidade. Mas ele foi quebrado assim que abriram o retângulo de madeira de cerca de um palmo de largura designado como porta do banheiro. O local era tão estreito que não comportava uma única pessoa em seu interior.

A situação era tão absurda que o jovem agente imobiliário sugeriu que olhassem a varanda lá da rua. Os dois desceram. O calor era tão grande e pesado que todo o resto do mundo obedecia às suas ordens. Lá de baixo a varanda, que mais lembrava uma minúscula janela, tremia com o mormaço.

Só havia espaço para o absurdo. Por isso o interessado anunciou que assinaria o contrato absurdo. E moraria no apartamento absurdo. E teria uma vida absurda. Porque também a lógica, às vezes, vem do absurdo.

Rafael Alvarenga

Cabo Frio, 08 de setembro de 2021.

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