POR QUE FECHAR O TRÂNSITO NA PRAIA DO FORTE? 

José Correia Baptista 

Em minha avaliação é um equívoco o fechamento ao trânsito da pista da Praia do Forte no sentido da Passagem. A ideia que me parece ter determinado essa intervenção seria a de destronar o império do automóvel e dar prioridade ao pedestre. Essa filosofia urbana funciona em alguns lugares, mas esse trecho da Praia do Forte preencheria as mesmas precondições para um bom resultado dessa medida? Uma cidade inteligente se faz com levantamento de dados, pesquisas, transversalidade, a fim de se chegar a uma boa decisão que justifique uma intervenção urbana que vai mexer com sua vida normal. Talvez esse trabalho tenha sido feito. Gostaria de conhecê-lo, até para poder, quem sabe, repensar os argumentos que tenho para defender que a manutenção da via aberta ao trânsito na Praia do Forte faz a cidade funcionar melhor.

Não custa lembrar que Cabo Frio tem essa maravilhosa continuidade da orla marítima. Isso é um valor. Mas quantos assim o julgam? Para mim, o primeiro ato do Grande Equívoco foi quando um ex-prefeito resolveu interromper essa orla contínua levantando no meio da pista um monstrengo comercial ali na Praia do Forte. O segundo ato do Grande Equívoco se deu agora com a Prefeitura interrompendo o trânsito no outro pedaço contínuo que sobrou dessa maravilhosa paisagem da Praia do Forte. Pior, joga o trânsito para a República dos Churros, onde você sai da orla da praia para usufruir do cheiro de óleo queimado ao lado da Praça da Cidadania. É como se nos dissessem: queremos desviar, evitar, preservar você de entrar em contato com essa horrorosa Praia do Forte, onde à noite você pode sofrer muito vendo a lua cheia inscrevendo o mar até à beira da praia. Ao invés de contemplar esse Oceano Atlântico, por que você não para seu carro para comer um especial churro de nossa cidade? Ou, então, por que você não para seu carro e vai a pé ver a praia? Mas, senhores, onde encontrar estacionamento para isso?

Outro argumento que deve ser levado em consideração: esse trecho interrompido da Praia do Forte é fundamental para o trânsito na cidade porque constitui a malha viária do centro de Cabo Frio. Você evita o congestionamento ou o trânsito da Teixeira e Sousa porque tem como opção chegar ao centro pela orla da praia. Ela tem essa função histórica.

O carro hoje é um veículo popular. A vantagem de você passar ali na Praia do Forte de carro é que não pode estacionar. Mas está diretamente em contato com um patrimônio material e imaterial num carro em movimento contemplando uma paisagem única. Quantas pessoas levam seus filhos e sua família para dar um revigorante passeio pela orla da Praia do Forte? Quem não conhece idosos sem condições de caminhar pela orla e que ficam felizes de passar ali de carro vendo o movimento da praia, o mar e os turistas? Portanto, aquele trecho interrompido sempre beneficiou um sem número de pessoas que tem ao mesmo tempo a opção de caminhar, de correr, de praticar algum esporte e de passar de carro.

Mas agora as pessoas que por ali passam de carro nas situações mais diversas, ou em direção ao centro para trabalhar, ou para levar alguém para passear ou tão somente ver a paisagem, estão proibidas desse luxo.

Já parei para observar as vantagens proporcionadas pelo atual fechamento do trânsito na orla da Praia do Forte. Como sempre, as pessoas ainda continuam caminhando pela calçada. Os ciclistas e os atletas continuam utilizando a faixa específica. Na pista interrompida e vazia, um ou outro é que a utiliza. Mas pouquíssima gente. Ou seja, a comodidade de alguns está sendo mais prioritária que o trânsito de centenas, de milhares de pessoas que tão somente querem, por exemplo, levar a família vinda de tantos bairros da cidade para contemplar a Praia do Forte em um displicente passeio de carro pelo que resta de nossa orla. O espaço democrático da Praia do Forte, criado coletivamente ao longo de décadas, é fundamental.

(*) José Correia Baptista é formado em Ciências Sociais e em Letras pela UFF.

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