Obrigado, professora!

Marcos Antônio de Paula (*)

Ganhei um livro da minha professora no primário. Está comigo até hoje. Seria exagero dizer que isso me despertou o gosto pela leitura. Formar no aluno o hábito e o amor pelos livros é trabalho de longo prazo. Tarefa cada vez mais inglória nesta nossa escola pública deixada à própria sorte.

Na ocasião, minha alegria foi pelo presente. Do livro, entendi pouco. A literatura, como disse, iria demorar para chegar.

Era “Mowgli, o menino lobo”. Do prêmio Nobel de literatura de 1907, Rudyard Kipling. Curioso que houve um fato real. Dina Sanichar, descoberto na selva indiana no século XIX, jamais conseguiu se adaptar à vida com os humanos. Sua história volta e meia reaparece em livros de sociologia ou antropologia. Prova de que muitos de nossos alegados valores individuais são apenas herança do convívio em sociedade.

Naquela época, era outro o meu herói da selva: Tarzan. O dos quadrinhos, e, principalmente, o da televisão, encarnado pelo ator Ron Ely.

O Tarzan de Ron Ely era filmado no México, a chimpanzé Chita era macho e o grito, fake, reaproveitado do original de Johnny Weissmuller, um dos primeiros a viver o rei das selvas no cinema.

Dizem os puristas que Weissmuller foi o melhor. Pode ser, mas é o do seriado da televisão que frequenta minha memória afetiva.

O Tarzan da tv lutava com crocodilos e leões. Aliás, chama-se hadaka jime, no judô, o famoso mata-leão, eternizado entre os lutadores do Jiu Jitsu brasileiro. Viva Ron Ely, que mesmo do alto de seus 1,90m, jamais conseguiria aplicar uma gravata num leão selvagem. Mas quem ligava?

Edgar Rice Burroughs, o autor, que não era bobo, vendo o potencial da sua criação, tratou de maximizar seus ganhos. Foram muitos livros, quadrinhos, filmes. O rei da selva também foi o rei da mídia. Meu Tarzan televisivo foi apenas um dos muitos, começando em 1912 e cujo último, salvo engano, foi de 2016.

Burroughs jamais pisou na África, os símios, pais adotivos de Tarzan, nunca existiram. Pertenciam a uma espécie fictícia, inventada pelo autor. De real, somente a assumida inspiração na história do menino indiano criado por lobos, Mowgli.

Tarzan, o lorde inglês, visto por olhos mais atuais, teria um ranço de supremacismo muito desconfortável. Nascido indefeso, criado por macacos, se torna o rei da selva. Dá porrada na bicharada, trata os nativos como selvagens e socorre os estrangeiros, mal disfarçados conquistadores. Queria ser o “bon sauvage “, mas não teria unanimidade nos dias de hoje.

Mowgli é um pouco mais trágico, Pouco tolerado no jângal, não teve sossego entre os humanos. Um livro infanto-juvenil talhado por um nobel.

Kipling nasceu em Bombaim, mais próximo da realidade de seus personagens. Não chegou a criticar, mas conhecia as contradições do Império Inglês.

O menino indiano jamais conseguiu suplantar a minha preferência pelo rei da selva. Mesmo hoje os antigos filmes do Tarzan têm seu encanto.

Obrigado, professora, porque nada garante que o livro presenteado, em algum momento, não tenha me levado a desconfiar das intenções do rei da selva. Nem a me perguntar o que mais o menino lobo teria a dizer.

(*) Ciências Contábeis/UFF.

Compartilhe:
Instagram
0Shares

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *