D. PEDRO II E SEU SUICÍDIO 

José Correia Baptista 

Um livro proveitoso de se ler é D. Pedro II de José Murilo de Carvalho (São Paulo: Companhia das Letras, 2007), da coleção “Perfis brasileiros” (desta coleção, comentei aqui na semana passada o livro D. Pedro I de Isabel Lustosa). Foram quase 50 anos de reinado de um monarca com hábitos republicanos. Por isso mesmo, a vida da corte não tinha pompa nem circunstância. O imperador se vestia modestamente e evitava a exibição pública. Preferia a solidão entre a leitura e a escrita. Chegou a dizer à condessa de Barral – sua paixão fora do casamento, até o final da vida – que lia 10 horas por dia. Não só livros, relatórios, como jornais e revistas. D. Pedro II defendia a liberdade de imprensa e dizia que os jornais – também lia os jornais regionais – davam a ele a noção de país.

Naqueles anos do século XIX, os artigos anônimos eram comuns. Muitas vezes a família imperial foi atacada duramente e grosseiramente por jornais, mas o imperador parecia adotar a filosofia de Lincoln de que a imprensa, com todos os seus defeitos, era imprescindível. D. Pedro II afirmava mesmo que “o corretivo da imprensa está nela mesma.” Quando foi deposto e partiu para o exílio, D. Pedro II “levava jornais e revistas debaixo do braço”, como escreve Visconde de Taunay em seu livro Homens e cousas do Império (minha edição é da editora Melhoramentos, 1924), reproduzindo a narrativa que o barão de Jaceguay lhe deu daquela madrugada de partida da família imperial do Brasil.

D. Pedro II deixou um legado que honra seu longo governo: fim do tráfico negreiro, a lei do ventre livre, a lei do sexagenário, o fim da escravidão – devemos dimensionar o contexto histórico -, a liberdade de imprensa, as bases de um sistema representativo, a unidade do país, a valorização que dava ao talento e à inteligência, e as dificuldades que colocava para impedir a instalação de uma corte corrupta atrelada ao poder. D. Pedro II foi aquele tipo de poderoso incapaz de dar carteirada. Pessoalmente visitava escolas, hospitais, repartições, com o intuito de fiscalizar para saber como ia a administração pública. Os ministros, incomodados, se vingavam apelidando D. Pedro II de o “gênio das bagatelas”. Mas conhecer os detalhes era uma das estratégias de D. Pedro II para poder avaliar criticamente seu governo, cada ministro, e estar pronto para, a qualquer momento, montar o ministério que lhe conviesse.

D. Pedro II viajou por este Brasil e, ainda rapaz, com 21 anos de idade, passou dois dias aqui em Cabo Frio, já revelando sua curiosidade pela história, ciência e economia. Foi ver de perto o Forte São Matheus, conheceu Arraial do Cabo, onde almoçou, e visitou a fábrica de sal de Luiz Lindenberg. Participou também de um baile oficial na Câmara de Cabo Frio, além de visitar o convento e a igreja matriz de Cabo Frio e a igreja de Arraial. Mas é provável que já achasse, como sempre disse do protocolo oficial, “uma maçada”.

Na história de D. Pedro II, surpreende-me a gana com que estava motivado em fazer de Solano López prisioneiro do Brasil. D. Pedro II esteve na frente de batalha e a Guerra do Paraguai só foi prolongada por mais um ano em virtude dele ter imposto ao exército, como uma questão de honra para o Brasil, a caça ao líder paraguaio.

D. Pedro II se considerava e era um patriota. Como monarca, não tinha projeto de poder, “uma cruz que carrego por dever”, como certa vez afirmou. Desempenhava com dedicação o papel de imperador como desempenharia com dedicação o papel de professor, o que ele gostaria de ser na vida. Não esboçou nenhuma reação ao golpe militar em 15 de novembro de 1889, que implantou a República, a não ser a afirmação de que estavam todos malucos. Acreditava que as monarquias tinham os dias contados. Para D. Pedro II, a república seria a evolução moral de um povo. Recusou uma pensão do novo governo. O exílio mostrou que D. Pedro II, depois de governar o Brasil por quase 50 anos, não enriqueceu no trono. Ao morrer em 1891, ocupava modestos aposentos em um hotel em Paris, depois de ter sido acolhido em residências de amigos em outros lugares. Amigos próximos tomaram empréstimos para sustentar a família imperial.

Minha tese é que D. Pedro II cometeu suicídio. As mortes da imperatriz Teresa Cristina em dezembro de 1889, praticamente um mês depois da queda do império, e da condessa de Barral em janeiro de 1891, abalaram profundamente D. Pedro II. Expulso do Brasil e sem o calor e o carinho da imperatriz e da condessa, seu sentimento de deslocamento do mundo foi se agravando. Até que no dia 24 de novembro, D. Pedro II programou um longo passeio pelo Sena – diria, o passeio de despedida – sob neblina, em carro aberto, e desprotegido para a baixa temperatura. Ele sabia o que estava fazendo. O resultado foi que no dia seguinte começou a tossir manifestando-se uma pneumonia que rapidamente se agravou e causou sua morte na madrugada do dia 5 de dezembro.

Visconde de Taunay, ao fazer uma visita sentimental à biblioteca de D. Pedro II em São Cristovão, chegou à seguinte reflexão em seu livro Homens e cousas do Império: “melhor não lhe teriam servido, ao moderno Marco Aurélio, em vez daqueles 60.000 volumes, de que se rodeou, 6.000 baionetas, comandadas por um general sincero e fiel?”

No exílio, D. Pedro II desautorizava qualquer movimento monarquista que envolvesse seu nome no projeto de restauração. Indagado por que não resistira à rebelião militar que instaurou a república, respondeu: “Resistir, para quê? O Brasil há de saber governar-se; não precisa de tutor.”

(*) José Correia Baptista é formado em Ciências Sociais e em Letras pela UFF.

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