Naturalizar

Marcos Antônio de Paula (*)

Gattaca (1997) é um colírio. Um refresco para quem gosta de filmes de ficção científica. Sem explosões a esmo, tiros gratuitos, efeitos especiais inócuos. Apenas uma história bem contada no tempo certo.

O filme se encaixa num nicho em que a maior referência é “Admirável Mundo Novo”, livro de Aldous Huxley. A criação de uma sociedade ideal por meio de alterações genéticas e ação massiva de um estado controlador.

Gattaca é assim, um filme sobre uma sociedade no futuro em que as pessoas foram geneticamente melhoradas artificialmente. Novidade nenhuma. Exceto que é ótimo.

A grande diferença que se nota entre Gattaca e a obra de Huxley é o papel do Estado.

Mais à moda do nosso século XXI, em Gattaca, são as grandes corporações, não o Estado, que exercem pressão sobre os indivíduos.

Aqui há um pequeno parêntese. Decorridos mais de 100 anos, Lênin e seu “Imperialismo, estágio superior do capitalismo” continuam mandando bem: Sim, os grandes monopólios deram lugar à livre concorrência e, sim, as grandes corporações já rivalizam em poder com os estados nacionais. Ninguém precisa esperar o futuro chegar para conferir.

Esse futuro de que trata o filme, eugenista, busca a perfeição dos seus membros por manipulação genética. Não que as pessoas não possam ter seus filhos “naturalmente “. Ninguém o faz, todavia. Porque significaria relegá-los à margem da sociedade.

Não há oportunidades para esses “não-válidos”. Não há empregos. As seguradoras não lhes emitem apólices, os bancos não os querem como clientes.

Para os “filhos do amor”, sobram apenas as funções subalternas. O que há de melhor na sociedade somente está disponível para os “Válidos”.

O sectarismo, o preconceito e a divisão em castas são naturalmente aceitos e causam desconforto apenas nos “não-válidos”, alijados das benesses da nova ordem mundial. Mas a estes nada resta a fazer, pois suas características estão permanentemente definidas desde o nascimento. É o paraíso de quem rejeita a luta de classes.

Numa sociedade na qual o destino das pessoas é definido no seu nascimento, a única possibilidade de ascensão é trapacear o sistema.

Ora, os mais atentos dirão que o mundo é assim desde sempre. Não exatamente. Há pessoas genuinamente trabalhando por oportunidades mais igualitárias para todos. E o determinismo genético ainda atende por nomes como racismo, xenofobia, misoginia dentre outros mimos.

Além da qualidade estética, bons atores e da crítica social proposta, há um detalhe que torna esta obra bastante inquietante. A sua plausibilidade.

De fato, desde os avanços científicos em genética até os fundamentos econômicos graciosamente lembrados pelo camarada Vladimir Ilyich Ulyanov, o Lenine, estão todos presentes e disponíveis aqui e agora. A precisão científica do filme é objeto de comentários desde o seu lançamento e até a NASA já se manifestou a esse respeito.

O que separa o nosso mundo daquele visto nas telas é apenas a naturalização de certas crenças:

Alguns nascem melhores que os outros. Devemos nos conformar com o nosso destino. O berço determina o sucesso. Nem todos são capazes. A empatia é desnecessária. Quem não pensa igual a mim é meu adversário. As pessoas devem saber qual o seu lugar. Se estou ocupando uma posição privilegiada é porque eu sou o melhor. E, principalmente, Não há nada que possamos fazer para mudar o que está ao nosso redor.

A esses preconceitos e tantas outras intolerâncias que corremos o risco de carregar para o nosso futuro, a melhor resposta o próprio filme entrega, já no seu subtítulo:

Não existe gene para o espírito humano.

(*) Ciências Contábeis/UFF

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