O INTERVENTOR DE CABO FRIO EM 1930 ERA DE ESQUERDA 

José Correia Baptista 

Um livro precioso para a nossa história política e social é Minha peregrinação sobre a Terra (2. ed. Brasília: Thesaurus, 2003) de Mario Ribeiro Cantarino (1890-1971) – tomei conhecimento do livro por uma referência dada pelo professor José Francisco Moura em seu Blog e o adquiri na Estante Virtual. Cantarino dedica a Cabo Frio um capítulo de suas memórias sobre o período em que foi nomeado Interventor e exerceu o cargo executivo e legislativo de dezembro de 1930 até abril de 1934, sobrevivendo a muitas mudanças de comando no instável governo federal e a variados desgastes provocados por disputas políticas locais.

Mario Ribeiro Cantarino nasceu em Niterói – então capital do Estado do Rio de Janeiro -, mas tinha fortes laços familiares em São Pedro da Aldeia, casando-se com uma filha da família Jotta. Antes de ser nomeado Interventor de Cabo Frio em 1930, Cantarino exercia função na Secretaria estadual do Interior e Justiça. Ao passar férias em São Pedro da Aldeia pode ver a tradição política do bico-de-pena comandando localmente uma eleição estadual, em que cabos eleitorais ou chefes políticos em encontros com os eleitores promoviam churrascos e manipulavam no final do dia a ata com o resultado eleitoral. Politicamente, Cantarino estava do lado do golpe chamado de revolucionário de Getúlio Vargas em 1930 contra o adversário Júlio Prestes, considerado o candidato que representava a velha política brasileira.

Mario Cantarino era um Interventor de esquerda. Em 1932, com a reconstitucionalização, filiou-se ao Partido Socialista. Em Cabo Frio, os socialistas se dividiram entre o Partido Socialista e o Radical. Os comunistas se abrigaram na legenda Bloco Operário Camponês. Para todos, poucos votos. Mais tarde, Cantarino atuou na Aliança Nacional Libertadora que combatia a extrema direita dos emergentes integralistas.

Cantarino sabia que o controle político da Prefeitura de Cabo Frio não estava nas mãos nem dos getulistas cabo-frienses na figura de Mario Quintanilha, nem dos prestistas representados pelo coletor federal Domingos Marques de Gouvêa. “Um grupo, justamente o da política deposta, recebeu-me bem; é que a Prefeitura não coube ao grupo adversário, aliás ambos não eram revolucionários”, avaliava o Interventor. A opinião de Cantarino era que “politicamente, o Estado do Rio era um saco de gatos.” E em Cabo Frio, os grupos políticos, tanto da situação como da oposição, eram comandados por chefes políticos estaduais que apoiavam na verdade o governo federal deposto em 1930.

Consultei jornais da época e a entrevista que Mario Cantarino deu ao jornal cabo-friense A Razão assim que assumiu o cargo de Interventor em Cabo Frio foi o verdadeiro programa que cumpriu até o final de sua gestão: “procurarei num congraçamento geral harmonizar a vida da cidade.” O lituano Samuel Angenor que dirigia e imprimia em sua gráfica o jornal A Razão – ele veio para o Brasil fugindo da Revolução Russa – foi aliado de Cantarino e chegou a publicar material gráfico para o Interventor com sua tipologia “secreta” – guardada e não usada comercialmente para que a gráfica não viesse a ser identificada.

Já Pedro Guedes Alcoforado com seu jornal O Arauto não caiu nas graças de Cantarino. Ele acusava o jornalista de atiçar os ânimos e de promover a agitação com o seu jornal. Alcoforado se juntava a um grupo cabo-friense que reunia nomes como os de Mario Quintanilha, Antonio Miguel de Azevedo Silva, Joaquim Nogueira da Silva, Antonio Anastácio Novellino e Major Ascendino José Jorge, que acusava o ministro da Justiça, César Tinoco – irmão do prefeito deposto de Cabo Frio, César Tinoco, aliado de Domingos Gouvêa -, de estar nomeando para os cargos públicos pessoas que eram adversárias do novo governo. A denúncia foi parar nos jornais da capital. O alvo principal do grupo cabo-friense passou então a ser o coletor federal Domingos Gouvêa acusado publicamente de “estar praticando assalto aos cofres da Nação.” Domingos Marques Gouvêa se defendeu na imprensa do Rio de Janeiro mostrando a contabilidade da coletoria. Chegou a perder o cargo que comandava desde 1907, retornando meses depois, pouco antes de sua morte em 1935.

Era um período de crise. Cantarino sabia que sua cabeça estava a prêmio. Mas se sustentava por meio das muitas amizades que partilhava no primeiro escalão do governo, mesmo se alternando até 1934, quando foi transferido para Angra dos Reis. Na política interna de Cabo Frio talvez lhe ajudasse a postura adotada em sua gestão: não fechar politicamente com nenhum dos grupos rivais, embora os getulistas cabo-frienses não lhe dessem trégua. Ele se surpreendia como se brigava por uma “Prefeitura tão mambembe”, como afirmou. Mas compreendia que o perfil da cidade era o da “política efervescente”, e que exigia dele calma e paciência.

Continuo na próxima semana.

(*) José Correia Baptista é formado em Ciências Sociais e em Letras pela UFF.

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