INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Marcos Antônio de Paula (*)

No romance de sci-fi Duna, há uma casta chamada Mentat. Pessoas geneticamente selecionadas para desenvolverem um raciocínio privilegiado e substituírem os computadores.

Tudo isso porque a história narrada se passa numa época após a superação de uma guerra contra inteligências artificiais. As civilizações sobreviventes teriam decidido que computadores não eram confiáveis.

Quem quiser saber como uma civilização avançada o suficiente para promover viagens espaciais consegue fazê-lo sem o uso de computadores, terá que ler os livros. Aliás, os recomendo mesmo a quem não curte ficção científica.

Computadores e máquinas inteligentes em geral que se voltam contra seus criadores são tema frequente em filmes e livros de ficção científica.

Do que me lembro, a primeira foi a sonda Nomad, de Star Trek. Depois veio Hal , célebre em 2001 Uma Odisseia no Espaço. Tivemos o andróide Arnold Swarznenegger T800 em O Exterminador do Futuro, que mistura este tema com outro igualmente comum, as viagens no tempo. Finalmente Matrix, que deveria ter ficado apenas no primeiro filme. Isso para ficar nos mais conhecidos.

A desconfiança em relação a máquinas e sistemas informatizados também frequenta o mundo real.

Quem acha que é bobagem, pode perguntar aos metalúrgicos e aos bancários que continuam perdendo a concorrência para robôs e algoritmos cada vez mais baratos e rápidos. Operadores de call-centers, nem se fala. A lista só aumenta e já chegou nas atividades agrícolas, que tradicionalmente empregavam farta mão-de-obra humana.

E, por favor, sem cair na falácia de que novos empregos qualificados serão criados para cada operário demitido por uma máquina.

Quem não estiver lendo essas linhas em papel de verdade, pode ter a certeza de que passou por algum algoritmo que buscou incansavelmente saber quem você é, o que pensa, o que gosta, onde vai, com quem fala, para onde olhou, o que comprou, o que disse…

Se estiver apenas caminhando, fique esperto porque as modernas gerações de câmeras (sorria, você está sendo filmado) tornaram as teletelas de 1984 coisas do passado. Nossos cobiçados smartphones já fazem um trabalho de vigilância do cidadão muito superior a qualquer teletela imaginada por George Orwell.

Se decidiu comprar alguma coisinha e passou no cartão, posso lhe dizer que as operadoras de cartão sabem mais de seus gostos e hábitos do que qualquer consumidor desejaria saber de si mesmo.

Aliás, cabe aqui a recomendação do ótimo filme de ação “O inimigo do Estado”, com Will Smith. De 1998, já dava um gostinho do quanto a nossa privacidade vem sendo rifada. O filme de Smith é inspirado em “A Conversação”, de 1974, com Gene Hackman. Vale conferir. (Hackman é sempre garantia de que você não vai perder seu tempo).

Toda essa tecnologia que inunda nosso dia a dia mal chegou aos 50 anos. Uma fração mínima da nossa história.

Hoje há clara vontade humana sobre o que realizam as máquinas e códigos computacionais. A tecnologia é apenas um amplificador. O que já é o suficiente para influenciar o que fazemos, compramos, dizemos, o candidato que elegemos.

Os robôs da vida real não servem a imperadores ou governos distópicos, como em muitos livros e filmes. Se dobram apenas ao grande deus mercado. E este servirá, alegremente, ao melhor pagador.

Quem saberá o que o amanhã cibernético nos reserva.

O desenvolvimento de inteligência artificial é tema tão relevante que até o Vaticano já se manifestou a respeito. “The Call for AI Ethics” (www.romecall.org) pede uma abordagem ética no uso de algoritmos. “A humanidade usa a tecnologia e não vice-versa, para que não se torne uma “ditadura do algoritmo “”.

Tenho certeza que nem o papa nem seus cardeais mais próximos se impressionam com literatura de ficção científica. Nenhum deles deve saber o que é um Mentat.

Um pouco além das questões religiosas, talvez fosse prudente compartilharmos esse mesmo olhar desconfiado sobre as facilidades tecnológicas a que docilmente nos entregamos

(*) Marcos Antônio de Paula – Ciências Contábeis/UFF.

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