FANTASMAS RONDAM A NOITE COVIDEANA 

José Correia Baptista

1 – 23 de abril, dia de São Jorge. Casualmente e há muito tempo, fui saber que ele fazia parte de minha vida. Pouco ligava para os santos. Até que percebi que eles surgem assim inesperadamente em sua vida, sem muita explicação, como me preenchem Nossa Senhora de Nazareth e Nosso Senhor dos Passos. Da mesma forma aconteceu com São Jorge. A primeira consciência que tive de sua presença foi quando lancei o meu primeiro livro Os dentes do cão Cabo Frio morto, um livro de crônicas, que resolvi escolher ao acaso a data 23 de abril de 2002. E deu tudo certo. Até um estimado grupo musical de chorinho apareceu ao lançamento e tocou sem eu esperar. Meu amigo Dr. Leonardo Machado – devoto de São Jorge -, na noite de autógrafos na Adega Galiotto, de repente empurrou-me um santinho, que guardo até hoje em minha carteira. Achava que era mais um lance imprevisível mas carregado de sentidos do nosso Pajé. Devo ter feito uma cara idiota. “É dia de São Jorge, porra!” Era um tipo de frase em voz grossa recuada curta e direta do amigo Leo restabelecer a realidade.

Registrei uma outra referência curiosa. Ao andar pela rua fico atento por que gosto de ouvir frases soltas que veem com significado. E passando a pé ali pela Rodoviária de Cabo Frio, num ponto de caminhão de mudança, ouvi quando um motorista conversava com outros companheiros de profissão soltar o seguinte argumento: “Enquanto houver cavalo, São Jorge não fica a pé.” Salve São Jorge e os cavalos.

2 – A nota oficial do Sepe Lagos caracterizando o secretário de Educação de Cabo Frio de “capitão do mato” ainda repercute e merece algumas considerações. Inicialmente quero deixar claro que defendo que para os professores e profissionais da educação voltarem à escola só vacinados. Quanto à declaração oficial do Sepe Lagos penso em seus termos conceituais.

O papel do sindicato é claro e universal: defender e promover o direito de sua classe profissional usando as armas legais, que vão do diálogo aos recursos judiciais até à greve. O que legitima a relação entre o sindicato e o patronato é que ambos se reconhecem como protagonistas de interesses mútuos e conflitantes. É tradicional que o embate se dê naquele campo institucional.

Agora, quando o sindicato dos professores personaliza e alcunha o prefeito de “senhor da casa grande e senzala” e seu secretário de Educação de “capitão do mato” em que campo a luta se instaura? Certamente não é o da história do sindicalismo. Ela se projeta na tradução das cargas simbólicas da história colonial. Ao estigmatizar o secretário de “capitão do mato”, o Sepe retoma o papel do caçador de negros escravos fugidos. Àquele negro subserviente que não se identifica com sua gente, mas com o branco dominador e que representa a ordem colonial. O prefeito é o branco que governa sua escravaria e a ela impõe com violência a sua vontade exploradora. O sentido é esse.

Se a nota do Sepe está deslocada da realidade, da luta institucional que um sindicato deve representar na atualidade, por outro lado revela uma ideologia ao colocar a questão nestes termos. Que entendo ter ultrapassado a relação institucional que se espera de um sindicato. E por que usar deste expediente fora da racionalidade? Com esta nota destemperada, a que resultados positivos para a classe espera o Sepe alcançar? A sociedade e suas instituições funcionam por meio de limites e do reconhecimento do lugar que cada um ocupa em um estado democrático e de direito. Penso que o Sepe Lagos optou pela ideologia da extrema direita para combater de um modo irracional os representantes das instituições republicanas.

Depois do Sepe dar a alcunha de “capitão do mato” ao secretário de Educação e de “senhor da casa grande e senzala” ao prefeito, creio que uma saída honrosa para a direção do sindicato seria situar seu lugar nessa sociedade colonial proclamada. Por que com essa nota oficial, caracterizando os dirigentes públicos de hoje como figuras reprodutivas da peçonha do período colonial brasileiro – uma deturpação da realidade de nossos dias, mas que ideologicamente demarcou o terreno -, como esses dirigentes serão agora capazes de pactuar à mesma mesa com os nomeados “capitão do mato” e “senhor latifundiário”?

3 – Stalin não era só “a mais eminente mediocridade do nosso partido”, como o chamou Trotsky. Alguns historiadores defendem que Stalin apreciava Chekhov, Pushkin, até ópera e ballet. Fazia críticas no Pravda. Em 1936, no início do Grande Expurgo, Stalin tachou a ópera Lady Macbeth de Shostakovich de primitiva e vulgar. Com uma crítica dessa natureza, de um crítico que tinha mais que a pena da opinião no jornal do partido, Shostakovich abandonou seus planos operísticos e esperou a morte. O que os críticos apontam como ironia do drama de Shostakovich foi que a partir da crítica de Stalin, ele encontrou seu verdadeiro tema, a história trágica da tirania. Inédito em Stalin: o tirano salvou o artista.

(*) José Correia Baptista é formado em Ciências Sociais e em Letras pela UFF.

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Um comentário em “”

  1. Caro José Correia, vivi muitos anos nesta cidade militando no Sepe , no PT, na Associação de Moradores que ajudei a fundar no bairro onde morava, no Conselho Comunitário de Saúde, na Comissão de Meio Ambiente da Região dos Lagos e como professor do Colégio Municipal Rui Barbosa , única atividade remunerada destas que citei…Sempre tendo como premissa uma ideologia de organização dos movimentos sociais para garantia de direitos básicos da cidadania. Esse episódio ocorrido com a atual direção do Sepe-Lagos só fez reforçar em mim a constatação de que nesta cidade você não pode contestar o poder dominante. Ou serve a um grupo ou serve ao outro grupo controlado por um dos caciques filhos da terra. Ivo tentou furar esse bloqueio e foi logo logo eliminado. Enfrentamos o governo dele também. Mas veja só, voltando ao episódio do Sepe com o Secretário da Educação que cumpriu uma ordem do prefeito e descontou a maior parte do salários de vários servidores em greve pela vida durante uma pandemia. Eu o descreveria com a seguinte metáfora: Uma pessoa leva um tiro na rua na frente de algumas testemunhas, o tiro não a mata mas deixa um ferimento grave. Ao levar o tiro ela chama o atirador de FDP. Muitas pessoas veem o atirador e sabem que ele é uma figura socialmente importante na cidade. Algumas oferecem ajuda mas outras dizem que não podem ajudá-la porque ela chamou o atirador de FDP e que isso não se faz. Ou seja, vi poucas pessoas solidárias ao sindicato em defesa dos seus filiados covardemente agredidos pelo governo do Sr. José Bonifácio. A maioria optou em defender o agressor porque foi chamado de “Capitão do Mato” e com isso mais uma vez se omitiram no enfrentamento ao poder dominante. Essa é a história política desta cidade que vem se repetindo há muitos anos..Muitos , como eu, acabaram tendo que optar pela busca de outros caminhos já que em Cabo Frio só existe espaço para a complacência com quem está no poder. Ou serve aos Liras ou serve aos Jagunços.

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