LIDO: PROBLEMA RECORRENTE

Imagem antiga.

O problema do ponto de lixo na área do antigo Hotel Lido, na Praia do Forte é recorrente e dura há muitos anos. Não é por ser antigo, que não possa ser resolvido, porque a Praia do Forte é o principal cartão postal de Cabo Frio e não pode continuar a ser tratada como atração de quinta categoria onde impera o desleixo.

Esforço conjunto

Quem sabe um esforço conjunto das secretarias resolve o problema: obras e serviços públicos (Tita Calvet), Meio ambiente (Juarez Lopes) e Comsercaf (Heitor Fonseca)? Reurbanizar toda a área daquela comunidade do Lido é essencial para que o local seja valorizado, beneficiando os moradores e os turistas.

Velho esquema 1

Existe no Brasil aquele velho esquema de deteriorar determinadas áreas para justificar a privatização e a ocupação por investimentos imobiliários privados. Assim foi na área que hoje é o shopping, transformada em depósito de lixo até que a população foi “convencida” que o melhor seria perder uma área de grande interesse turístico, mas degradada, e ganhar um centro comercial privado.

Velho esquema 2

Na época, com o forte apoio da mídia cabofriense e das autoridades municipais, leia-se o prefeito Marquinhos Mendes. Cabo Frio ganhou uma “novidade internacional”, um shopping. Quantos turistas do mundo inteiro virão ao município para conhecer o shopping da cidade? Quantos teriam vindo para desfrutar daquela orla belíssima onde se pensava implantar um museu das salinas cabofrienses?

Privatizar, não!

O que se espera do governo de José Bonifácio (PDT) é que a área do antigo Hotel Lido, que pertencia a Flumitur, seja transformada em um pólo de excelência no atendimento turístico, beneficiando toda a comunidade. Privatizar trechos da orla da Praia do Forte seria inadmissível.

A CASA AINDA ESTÁ AÍ

O pano de prato na cama. O cabide na maçaneta da porta do banheiro. As laranjas sobre o fogão. Os adesivos descolados. O espelho debaixo da pia. O secador de cabelo no quintal, sob a chuva. A cabeceira nos pés da cama. O pires em cima da xícara. O garfo no prato de sopa. As lâmpadas no chão. O aquário cheio de pó. A almofada na mesa. As cadeiras no limiar do batente da porta. O olho mágico na pilastra. O molho de chaves no congelador. O criado mudo cheio de frases dentro do banheiro. O disco de vinil transformado em forma de pizza. As cartas no porta guardanapos. As moedas na saboneteira. As dobradiças esticadas no corredor. Os novelos amarrados aos joelhos e cotovelos dos moradores. Dentro do filtro de barro velas que só funcionam se forem acesas. Pensamentos fechados dentro de antigos potes de maionese. Sandálias dentro do jarro. O relógio na segunda gaveta da cômoda de roupas íntimas. Uma cueca no bolso interno do casaco. As cortinas no armário do banheiro. Um lenço de papel no gancho da toalha de rosto.

É muito desalinho! Mas, como se pode ver, a casa ainda está aí. E seus objetos também. O que se precisa é de gente que se proponha a arrumar as coisas.

Ah, não custa nada avisar: O espanador está dentro do liquidificador. O sabão dentro do forno e a vassoura atrás da porta.

Rafael Alvarenga

Cabo Frio, 29 de abril de 2021

NENHUM CAMINHO PARA O PARAÍSO

Charles Bukowski

Eu estava sentado em um bar na avenida Western. Era perto da meia-noite e estava metido em uma das minhas habituais confusões. Quero dizer, você sabe, nada dá certo: as mulheres, os trabalhos, a falta de trabalhos, o tempo, os cães. Por fim, você simplesmente senta em uma espécie de estado de transe e espera como se estivesse no banco da parada de ônibus aguardando a morte.
Bem, estava sentado lá e então chega essa mulher com cabelo preto e longo, bom corpo, olhos castanhos e tristes. Não me virei para olhá-la. Ignorei-a, mesmo ela tendo sentado no banco ao lado do meu, quando havia uma duzia de outros lugares vagos. Na verdade, éramos os únicos no bar, exceto pelo balconista. Ela pediu um vinho seco. Depois me perguntou o que eu estava bebendo.
–  Scotch com água.
– Dê-lhe um scotch com água – ela disse ao balconista.
Bem, isso era incomum.
Abriu a bolsa, removeu uma pequena gaiola de arame e tirou algumas pessoas pequenas e as colocou no balcão. Tinham todos aproximadamente dez centimetros de altura e estavam vivos e bem vestidos. Havia quatro deles, dois homens e duas mulheres.
– Fazem desses agora – ela disse. – São muito caros. Custaram quase dois mil dolores cada um quando comprei. Agora estão chegando aos 2.400 dólares. Não sei como são feitos, mas provavelmente é coisa fora da lei.
As pessoas em miniatura estavam caminhando por cima do balcão. Repentinamente um dos pequenos homens deu um tapa na cara de uma das mulheres.
– Sua vagabunda – ele disse – , já chega!!
– Não George, você não pode – ela gritou -, eu te amo! Vou me matar! Tenho que ter você!
– Não me importo! – disse o pequeno sujeito e puxou um cigarrinho e o acendeu. – Tenho direito de viver.
– Se você não a quer – disse outro sujeitinho -, fico com ela, eu a amo.
– Mas eu não quero você, Marty. Estou apaixonada pelo George.
– Mas ele é um idiota, Anna, um idiota completo!
– Eu sei, mas o amo de qualquer forma.
O idiotinha caminhou pelo balcão e beijou a outra mulherzinha.

– Estou com um triângulo amoroso em andamento – disse a mulher que havia me pagado uma bebida. – Esses são Marty e George e Anna e Ruthie. George vai se dar mal, muito mal. Marty é meio quadrado.
– Não é triste ver tudo isso? Errr, qual o seu nome?
– Dawn. É um nome terrivel. Mas é o que as mães fazem com suas crianças às vezes.
– O meu é Hank. Mas não é triste…
– Não, não é triste observar isso tudo. Não tive muita sorte com os meus próprios amores, péssima sorte, aliás…
– Passa o mesmo com todos nós.
– Parece que sim. De qualquer forma, comprei essas pessoinhas e agora fico olhando elas. E é como ter e não ter esses problemas. Mas fico muito excitada quando começam a fazer amor. É aí que fica dificil.
– São excitantes?
– Muito, muito excitantes. Meu Deus, me deixam louca!
– Por que você não os obriga a fazer sexo? Quero dizer agora. Ficaremos olhando juntos.
– Não se pode forçá-los. Têm de fazer por conta própria.
– Com que frequencia acontece?
– Oh, eles são bem bons. Quatro ou cinco vezes por semana.
Estavam caminhando pelo balcão.
– Escute – disse Marty -, me dê uma chance. Apenas uma chance, Anna.
– Não – disse Anna. – Meu coração pertence ao George. Não pode ser de nenhuma outra maneira.
George estava beijando Ruthie, apalpando seus peitos. Ruthie estava ficando excitada.
– Ruthie está ficando excitada – Eu disse a Dawn.
–  Está, está mesmo.
Eu também estava ficando. Agarrei Dawn e a beijei.
– Escute – ela disse. – não gosto que eles façam sexo em público. Vou levá-los para casa e colocá-los para transar.
– Mas aí não poderei olhar.
– Bem, terá que vir comigo.
– Tudo bem – respondi. – Vamos lá.
Acabei minha bebida e saímos juntos. Ela carregava as criaturas em uma pequena gaiola de arame. Entramos no carro dela e colocamos o pessoal entre nós, no banco da frente. Olhei para Dawn. Era realmente jovem e bonita. Parecia ser boa também por dentro. Como podia ter fracassado com os homens? Há tantas maneiras de as coisas saírem erradas. Os quatro pequenos custaram-na oito mil. Tudo isso para se afastar de relacionamentos e na verdade não se afastar de relacionamentos.
A casa era perto dos morros, um lugar com uma aparência agradavel. descemos do carro e caminhamos até a porta. Segurei a gaiola com os pequenos enquanto ela abria a porta.
– Ouvi Randy Newman semana passada no The Troubador. – Ele não está ótimo? – perguntou.
– Sim, é ótimo.
Entramos na sala, e Dawn tirou os pequenos da gaiola e os colocou em uma mesinha. Então caminhou até a cozinha, abriu o refrigerador e pegou uma garrafa de vinho. Trouxe dois copos.
– Perdão – ela disse. – Mas você parece um pouco louco. O que você faz?
– Sou escritor.
– E irá escrever sobre isso?
– Ninguém jamais acreditará, mas vou.
– Olha – disse dawn. – George tirou as calcinhas de Ruthie. Ele está enfiando os dedos nela. Gelo?
– Sim, está fazendo isso. Não, sem gelo. Puro está ótimo.
– Não sei o que acontece – disse Dawn -, mas fico realmente excitada quando os observo. Talvez seja porque são tão pequenos. Realmente me excita.
– Entendo o que quer dizer.
– Olhe, o George está chupando ela.
– É mesmo.
– Olhe pra eles!
– Deus do céu!
Agarrei Dawn. Ficamos ali em pé nos beijando. Enquanto isso, seus olhos iam dos meus para eles e novamente para os meus.
O pequeno Marty e a pequena Anna também estavam olhando.
– Olhe – disse Marty -, eles vão trepar. Nós bem que podíamos trepar também. Até os grandes vão transar. Olhe pra eles!
– Você ouviu isso? – perguntei a Dawn. – Eles disseram que nós vamos trepar. É verdade?
– Espero que sim – disse Dawn.
Levei-a para o sofá e levantei o vestido acima da cintura. Beijei seu pescoço.
–  Eu te amo – eu disse.
– Mesmo? Ama?
– Sim, de alguma forma, sim…
– Tudo bem – disse a pequena Anna ao pequeno Marty. – Também podemos trepar, mesmo que eu não ame você.
Eles se abraçaram no meio da mesinha. Eu já tinha tirado a calcinha de Dawn. Ela gemia. Ruthie gemia. Marty se aproximava de Anna. Estava acontecendo por toda parte. Tive a idéia de que todas as pessoas do mundo estavam trepando. Então esqueci do resto do mundo. De alguma forma fomos para o quarto. Então penetrei Dawn para a longa e lenta cavalgada.

Quando ela saiu do banheiro, eu estava lendo uma história muito idiota na Playboy.
– Foi tão bom. – ela disse.
– O prazer foi meu – respondi.
Ela voltou para a cama. Pus a revista de lado.
– Acha que daremos certo juntos? perguntou
– O que quer dizer?
– Acha que vamos conseguir ficar juntos por algum tempo?
– Não sei. Coisas acontecem. O começo é sempre mais fácil.
Então ouvimos um grito vindo da sala.
– Ai, ai – ela disse.
Saltou da cama e correu para a sala. Segui logo atrás. Quando cheguei lá, ela estava segurando George nas mãos.
– Oh, meu Deus!
– O que aconteceu?
– Foi a Anna!
– O que tem a Anna?
– Cortou fora as bolas dele! George é um Eunuco!
– Uau!
– Pegue papel higiênico, rápido! Ele pode sangrar até morrer!
– Esse filho da puta – disse Anna da mesinha -, se não posso ter George, ninguém terá.
– Agora vocês duas são minhas! – disse Marty.
– Não, agora você tem que escolher uma de nós – disse Anna.
– Então, com qual vai ficar? – perguntou Ruthie.
– Amo as duas – disse Marty.
– Parou de sangrar – disse Dawn. – Ele está frio.
Ela embrulhou George em um lenço e colocou sobre a borda da lareira.
– Quero dizer – seguiu Dawn – que se você acha que não daremos certo, não vou insistir.
– Acho que amo você, Dawn.
– Olhe, – ela disse. – Marty está abraçando Ruthie!
– Vão trepar?
– Não sei. Parecem excitados.
Dawn pegou Anna e a colocou na gaiola de arame.
– Deixe-me sair daqui! Vou matar os dois! Deixe-me sair daqui!
George tremeu de dentro do lenço sobre a borda. Marty ja tirara a calcinha de Ruthie. Puxei Dawn para perto de mim. Era bonita e jovem e boa por dentro. Eu podia estar apaixonado novamente. Era possível, nos beijamos. Megulhei fundo em seus olhos. Então emergi e comecei a correr. Eu sabia onde estava. Uma barata e uma águia faziam amor. O tempo era um idiota com um banjo na mão. Continuei correndo. Seu cabelo longo caía sobre meu rosto.
– Vou matar todo mundo! gritava a pequena Anna.
Agitava-se na gaiola de arame às três horas da manhã.

(*) 1920 – 1994.



LIDO: CAMPEÃO DO LIXO!

Lido: campeão do lixo

O Lido continua sendo o “campeão do lixo”, na Praia do Forte. É um problema antigo, que atravessa governos e até hoje ninguém resolveu. A Comsercaf recolhe o lixo e no dia seguinte como em um passe de mágica está lá novamente. Foram colocadas três caçambas e os moradores insistem em colocar o lixo fora delas e até dentro da área da Duna Boa Vista (Duna Preta) como mostra a foto.

Criação de urubus

É tão grande o número de urubus de cabeça preta, que alguns turistas desavisados podem imaginar que está ocorrendo alguma criação intensiva no local. A continuar assim, a criação de galos, galinhas, ratos e urubus tende a virar atração turística, na praia mais importante de Cabo Frio.

A RESSACA ATRAVESSA A NOITE COVIDEANA 

José Correia Baptista

Na semana passada, a ressaca na Praia do Forte se tornou o espetáculo natural que atraiu muita gente para ver a recorrente fúria contida do marzão. Nas pedras ao lado do Forte São Mateus na boca da barra a proximidade era maior com o mar que crescia ali em frente e alto se alargava e avançava repetidamente em ondas em direção à Praia do Forte conduzindo em sua extremidade um baixo teto de nuvem aquosa, enquanto em primeiro plano se via a batida explosiva das ondas furiosas nas paredes rochosas do Forte São Mateus. Cada espectador apontava seu celular para gravar aquele movimento grandioso e impositivo do Oceano Atlântico. Milhares de fotografias foram tiradas.

Esta cena não passou despercebida pelo escritor Pedro Guedes Alcoforado (1892-1964) desde que aqui chegou nos anos próximos a 1920. Só que a ressaca não ficou registrada e datada em um papel fotográfico descolorido pelo tempo. O escritor imortalizou a ressaca da Praia do Forte na cena final de seu romance Culpa dos paes (c. 1929).

Já abordei aqui o que representa de vanguarda este romance no que poderíamos chamar de a história da literatura cabo-friense. Culpa dos paes e Zé-tarrafeiro (1935) de Waldemir Terra Cardoso (1912-1936), um, prosa ficcional, outro, poesia, são, para mim, o ponto mais alto de nossa produção literária. Na medida em que pela primeira vez dois escritores cabo-frienses dialogam criativamente sobre a história que lhes era contemporânea. Ainda mais, preocupados com o fazer literário. Entendo que o que percorre a narrativa literária de cada um é a questão de fundo de se é possível ser feliz em Cabo Frio. E os dois escritores chegam a uma conclusão diferente.

Culpa dos paes de Pedro Guedes Alcoforado é a crônica da solidão de seus personagens Dakir e Dalita. Da solidão e do deslocamento. Ela, filha de família de Jagunços, e ele, de Liras. Jovens, se apaixonam. Mas não só a hostilidade das correntes políticas os separava. A condição de classe social seria determinante no destino daquele enamoramento. O futuro de Dalita já havia sido traçado por seu pai, um casamento arranjado com um salineiro e a garantia de votos para se eleger presidente da Câmara de Cabo Frio. Dakir vai para o Rio de Janeiro e se casa. Um dia retorna a Cabo Frio. Reencontra Dalita. A paixão persistia. Tornam-se amantes. Mas não há lugar para eles naquela sociedade tradicional dos anos de 1920.

Ela marca então um encontro com Dakir na Praia do Forte. O mar era uma fúria solta, era o “belo horrível”, como escreve Alcoforado. Os dois estão juntos. Conversam. Ela vai em direção à arrebentação. “Está tão perigoso o mar!”, alerta Dakir, seguindo-a. “Que importa! Se for o meu túmulo…” Beijam-se. Mergulham. “Vão morrer! Estão se afogando!… Socorro!…”, gritam na praia.

Pedro Guedes Alcoforado termina o romance narrando que Dakir e Dalita nadam para diante em busca daquele horizonte, na estrada da Eternidade.

Ver a ressaca na Praia do Forte é encontrar a força do mar e da literatura.

(*) José Correia Baptista é formado em Ciências Sociais e em Letras pela UFF.