A VOZ DAS RUAS!

O tsunami do bolsonarismo começou a regredir e vai desembocar naquela minoria exacerbada, de extrema direita, que voltará ao seu devido lugar, o lixo da história. Mesmo numa cidade, que vive profunda crise de identidade como Cabo Frio.

Quem esperava surfar na onda reacionária perceberá que gradativamente, vai se transformando em marola chinfrim. O ‘outsider’ da vez, o deputado Sérgio L. Azevedo e seu grupo estão experimentando na pele esse recuo político.

Cabo Frio e sua população precisam parar de sofrer. O município precisa de ordem e competência e uma agenda que reflita, em seu conjunto os anseios básicos da sociedade.

A voz das ruas, cansadas da manipulação de gente sem o menor compromisso com a democracia, se fez ouvir e elegeu José Bonifácio com 11 mil votos de frente.

E sempre em meio a muita liberdade e democracia.

O SECRETARIADO!

O secretariado

O presidente eleito José Bonifácio começa a anunciar amanhã os nomes do secretariado. Tudo leva a crer que um dos pontos chaves, a secretaria de governo, que estabelece as relações políticas e com o legislativo, vai cair no colo do ex-presidente da câmara, Aquiles Barreto.

A aliança com Aquiles

Segundo fontes da equipe do prefeito eleito a aliança com o grupo de Aquiles Barreto foi fundamental na estruturação da coligação. Aquiles, inclusive, foi o coordenador da campanha, posto que seria de Rafael Peçanha e que parece não ter assumido por questões de saúde.

Mudança na estrutura

As paredes murmurantes do Palácio Tiradentes e do histórico prédio da câmara registram que a própria estrutura administrativa da prefeitura vai ser modificada por José Bonifácio. O organograma deve passar por um processo de emagrecimento: vai perder algumas arrobas.

Qual o futuro?

No meio político, muita gente pergunta sobre o futuro do ex-deputado federal Paulo César Guia. Apoiou o candidato derrotado Sérgio L. Azevedo e não conseguiu se eleger vereador, na tentativa de retomar sua carreira. Foram duas derrotas aliado a um candidato do bolsonarismo.

Fragilidade política

Certos candidatos disputaram o mandato de prefeito na tentativa de criar uma negociação política, gerando prestígio para assumir algum cargo comissionado no novo governo. Como a eleição polarizou, a votação desses candidatos foi muito pequena, deixando-os em demasiada fragilidade política.

O barulho diminuiu

O barulho dos “sem votos” se não cessou, ao menos baixou o tom, está mais suave. A fala do ministro Barroso, presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) deve ter jogado um balde de água fria no ânimo do pessoal. Quem sabe os dois mosqueteiros Cláudio Mansur e Dirlei Pereira encontram uma nova sacada jurídica?

Reeleição difícil

A própria reeleição Sérgio L. Azevedo está em jogo. Eleito deputado, em 2018, na tsunami bolsonarista, tomou uma coça eleitoral, da ordem de 11 mil votos, dois anos depois, em Cabo Frio. Caso a maré bolsonarista continuar em refluxo e o deputado não se abrigar no Centrão, vai ter muita dificuldade para se reeleger.

Sem reeleição!

O Centrão depois de idas e vindas é a base política de Bolsonaro. Os radicais de extrema direita, contavam com a expansão política, mas não ganharam praticamente nada nessa eleição, inclusive aqui em Cabo Frio. Muitos defensores do “escola sem partido” e de massacre contra a escola pública não conseguiram a reeleição.

SOBRE RACISMO ESTRUTURAL

Ângela Maria Sampaio de Souza (*)

Atualmente estamos ouvindo muito falar em “racismo estrutural”, mas o que podemos falar sobre o significado desse termo? Ele é usado para reforçar o fato de que existe sociedades estruturadas na discriminação que privilegia algumas raças em detrimento das outras.

E no nosso país existe? Sim, e cada vez mais se acentua essa discriminação.

Apesar de leis que garantem a igualdade entre os povos, o racismo é um processo histórico da sociedade até hoje.

Apesar de todos os esforços feitos, a segregação e o preconceito raciais estão bastante presentes em nossa sociedade.

No nosso país a maior parte da população é negra.

Mesmo existindo leis, é preciso transformar nossa mentalidade. Fazemos parte de um sistema racista e o silêncio nos torna responsáveis por sua manutenção.

Há um passo decisivo que nós brasileiros ainda não demos: assumir que somos sim, racistas, seja como indivíduo, seja como sociedade.

Nossa história prova que esse racismo estrutural vem nos acompanhando desde a época em que os negros eram escravizados.

Tem um texto da Pastoral da Juventude que diz: “somos descendentes de gente que chicoteava negros e índios com uma mão e com a outra segurava um terço“.

As leis não são suficientes para resolver esse problema.

Em nossa sociedade o racismo determina a forma como pensamos, assim a cor da pele significa muito mais do que um traço do que somos.

Ainda temos uma agravante de um governo negacionista, hoje criticado pelo mundo que nega esse racismo em nosso país. Vemos claramente o favorecimento dos brancos e o desfavorecimento dos negros.

Não existe diferença de raças, pois somos todos da raça humana.

Vemos a população negra marginalizada, sofrendo violências constantes, muitas vezes com falta de direitos e de cidadania.

Precisamos ter ações antirracistas de fato, senão o negro continuará oprimido. Precisamos submergir nessa violência racista para emergir numa vida coletiva melhor.

Todo mundo sabe que existe, mas ninguém acha que é racista!

Cruel realidade!!

(*) Ângela Maria Sampaio de Souza é Professora.

A ARTE DO SABER

José Sette de Barros (*)

A ARTE DO SABER- 1ª Parte

Vivo em dúvidas sobre questões que me tocam profundamente o pensamento quando quero entender as nuances culturais da nossa contemporaneidade. Essas dúvidas surgiram agora, 50 anos depois de eu ter descoberto o poder da arte na convivência dos meus interesses literários.

Descortinei durante esse meio século de existência os valores agregados à arte do saber, seus significados, suas ramificações e intenções históricas. Seus significantes em todos os processos criativos, suas interações no meio social e depois de tantas realizações, sinto-me, a cada investida nos parâmetros onde se delineiam o resultado de tantos anos de trabalho, mais perdido e mais ignorante.

Por mais tempo que eu passo refletindo sobre tudo isso, escrevendo e lendo, realizando arte no contraponto do exercício político e libertário, muitas respostas surgem e se desfazem em curtas leituras do pensamento escrito, desmanchando o que está estabelecido e não me deixando conseguir aprofundar em reflexões mais demoradas, fazendo assim surgir uma infinidade de respostas, às vezes vazias, outras vezes loucas, outras ortodoxas e acadêmicas, longas e curtas dicotomias, uma brigando com a outra, explodindo-me em paradoxos indecifráveis, sem conseguir, na minha cabeça, fechar o ciclo de tantas inquietações.

Assim pensando resolvi estabelecer, como o auxílio e a coordenação do raciocínio lógico de uns e com a metodologia de aprendizado de outros, algumas perguntas, moldadas em parâmetros estabelecidos por mim mesmo, para sentir quantas respostas poderiam ser dadas a elas.

Quero saber, com esse questionamento aos artistas, qual seria a resposta mais representativa de todas as verdades contida no longo percurso da arte e da criação, no seu curto espaço do tempo universal, ou melhor: qual seria a mentira que mais me aproximaria de todas as artes que coexistem no caos do saber desse mundo atual repleto de vazios e solidão.

Assim surgiram as sete perguntas capitais para meus amigos responderem. Perguntas estas onde espero encontrar nos artistas algumas respostas que ultimamente necessito saber. Neste primeiro momento consegui reunir quatro grandes nomes da arte brasileira para responderem… Um dramaturgo – José Facury; Um escritor – Pedro Maciel; Um cineasta – Leonardo Esteves; Um poeta anárquico – Paulo Duarte.

José Sette

Meus queridos amigos, vocês acham que o trabalho artístico que hoje se realiza em todo mundo tem algum valor?

Jose Facury  

A arte, sempre teve grande valor no mundo, seja para mudar os paradigmas, indispor-se e rebelar-se contra os autoritarismos revelando-os à luz das consciências, seja direta ou metaforicamente.

Pedro Maciel

A função da arte é dizer o indizível ou como muito bem diz Paul Klee, “a arte torna visível o invisível”. A arte tem sempre algum valor para quem a admira. A arte tem seu valor, seja em tempos de guerras ou de paz.

Leonardo Esteves –

Sim! Acho que todo trabalho tem algum valor. E toda arte tem também um valor. Mas há uma diferença entre esses valores. É preciso também entender que esses valores combinam em muitas instâncias. A arte necessita de um valor supérfluo, imediato, que está relacionado com custos e aquisições (e que é indispensável, vindo em escalas variadas), como todo trabalho. No entanto, a arte abraça a posteriori outro valor, esse sim um valor imensurável e nada ordinário, completamente dependente da história e do tempo. Logo, sempre vai haver valor no trabalho artístico. Em algumas épocas pode-se sobressair o valor supérfluo, em outras, impera-se o valor, digamos, simbólico/ icônico. Ou seja, faz-se muito com pouco e também se faz pouco com muito.

Paulo Duarte

99,99% dos trabalhos precisam ficar muito bons para ser um lixo, apesar de 100% dos trabalhos terem algo a dizer. Os 99,99% nada mais são do que o reflexo da humanidade burra. Há séculos a arte é utilizada como meio, ferramenta de comunicação, dominação cultural, poder…, hoje as democracias do capital são onde opera a indústria do comércio da morte, ou melhor, do entretenimento, ou melhor, da arte de modo absurdamente generalizado…

A ARTE DO SABER – 2ª Parte

José Sette – Você crê ser possível mudar o mundo para melhor através da arte?

Jose Facury

Sem dúvida nenhuma, mesmo que a arte se evolua na contra mão da educação formal, pelo seu caráter instigador e sensitivo, até educar é melhor através da arte e seus processos criativos do que através do cartesianismo que distingue a relação ensino e aprendizagem.

Pedro Maciel

A arte não muda o mundo, mas muda quem faz ou quem a consome. O artista não pretende modificar a realidade ou o mundo, mas propor outra realidade ou um novo mundo. Gosto de citar John Cage, um dos pais da música minimalista que diz o seguinte: “Não tente melhorar o mundo, você só vai piorá-lo”.

Leonardo Esteves

Não. Não creio. Acho a palavra mudança uma coisa muito forte e pouco precisam. Acho que as coisas tendem a se equalizar em geral, não mudar. O homem evolui isso é fato. A arte é um reflexo dessa evolução. Talvez o reflexo mais fiel, pois extremamente pessoal e não generalista (como pesquisas de opinião, a atuação da imprensa ou relatos históricos e sua subjetividade impositiva). Acho muito mais expressivo e fidedigno uma obra como Les Demoiselles d´Avignon, que representa entre tantas coisas a passagem estilística para uma tendência cubista, inspirada na visita do Picasso a uma exposição de arte africana do que os relatos da construção da obra. Você vê ali no meio da tela a emergência dessa passagem. Agora, o que parece mais preci(o)so: ler em um livro que o Picasso ficou entusiasmado com a arte africana em uma exposição e iniciou o cubismo ou constatar essa explosão criativa em sua gênese inicial exposto na tela? Picasso talvez tenha mudado individualmente, mas o mundo não mudou, ele se equalizou e cooptou a mudança orquestrada dentro do Picasso através do quadro. Resumindo: pra mim, a arte não muda o mundo. A mudança só ocorre individualmente e operando na base da inconsciência Se você observa algo e o classifica como uma mudança, não mudou nada. Já o que você não se dá conta e logo não classifica… A (convencional) relevância da mudança solitária é a coletivização da descoberta, que está obviamente fora do alcance individual – o criador não tem controle sobre a obra ou do que vão fazer dela.

Paulo Duarte

Sim, a arte é o único viés possível para se falar com sinceridade sobre política hoje em dia, a história da humanidade de dominações, guerras, chacinas, através das artes. Fazer denuncia e cobrar que a lei seja cumprida para todos, inclusive alterando o estatuto da opressão, aparelhar o trabalho usando-o como bandeira política e outros absurdos devastadores. Por outro lado a internet propiciou de 20 anos para agora uma articulação de comunicação fenomenal, possibilitando que ações antes pequenas e isoladas tomem novas proporções, vide Fome de Educação 1998 (Brasil), Voina 2008 (Rússia), Anonymous 2006 (mundo). José Sette: – Existe um conflito entre a arte tradicional e as novas ferramentas de criação que a tecnologia digital apresenta? José Facury – O conflito é saudável porque é em prol das possíveis releituras e desdobramentos que se pode fazer das artes mais tradicionais. Uma tem servido a outra com distinção. Ainda este ano fiz uma leitura dramática do Santo Inquérito de Dias Gomes e a tecnologia digital foi inserida na forma tradicional da leitura, pontuando os climas dramáticos.

Pedro Maciel

Creio que a tecnologia digital só veio para facilitar. O momento atual da literatura brasileira é fascinante, já que vivemos numa época de alta tecnologia. Pode-se dizer que a internet está para os nossos dias como a invenção da prensa está para os tempos medievais. Os blogs, sites de relacionamentos, twitter, entre outros canais de comunicação da internet, já estão influenciando as novas gerações de escritores. Enganam-se os críticos que afirmam que a nova geração não está lendo ou escrevendo. Eles estão lendo e escrevendo mais do que as gerações passadas e também estão revolucionando a língua. Leonardo Esteves – Sim. Há uma característica sempre renovada da novidade no mundo digital. É preciso inovar intensamente, ainda que essa inovação seja feita previsivelmente dentro de uma escala fechada. O pior comentário (vindo tanto de fabricante de equipamento como de realizadores e produtores) é: “Tal câmera nova é excelente. Filmei tal coisa, não sei dizer a diferença entre aquilo e película”. Oras… é preciso entender que se a finalidade dessas inovações anuais incessantes é no final das contas se equiparar a película, invenção tradicional, centenária… é um retrocesso tamanho! É inovar, inovar, inovar, para no final querer parecer com aquele velho suporte que regeu as cinematografias por um século. Ou seja, recalque puro! Parece aquele cara que fala mal a vida toda de determinado sujeito porque no final das contas queria ser como ele. O filho que cresceu querendo se dissociar de seus pais para no final ser exatamente como eles e se acomodar nisso. Isso pra não dizer outro argumento sofrível que é: “Tinha determinado dinheiro e ia filmar tal coisa em película. Daí vi que ia ser muito mais barato filmar em digital”. Mas determinado projeto pedia que tipo de imagem? Tem coisa que não dá pra ser feita em digital. Tem coisa que não cabe de jeito nenhum em película… Só vejo o pessoal dizendo que filmar em digital é preciso pois filmar em película é muito caro… É um argumento recorrente. O que leva a um certo processo de exclusão (do próprio digital, se impondo como a alternativa mais fácil). Pra mim cinema nunca foi fácil. Pelo contrário, é o encontro imprevisível com o impossível. Não é pra ser fácil. Eu penso que o digital não veio substituir nada, veio somar outra forma de expressão. Sempre vai haver a película e sempre vai haver o digital. O que me parece enfraquecer a produção digital é essa recorrente mudança de tecnologia e os argumentos que a caracteriza. Quem melhor trabalhou esse embate a meu ver foi Godard, já há tempos e desde o Super VHS. Logo, só acredito no digital como ferramenta estética, não como recurso barateador. Assim como acredito também na película. Paulo Duarte – Estar em contato ou não com novas tecnologias não interfere em nada no resultado final do trabalho em si, quem tem o que dizer faz filme até com caixa de papelão e assiste sozinho, e talvez nunca ninguém nunca veja. Se for arte para ser vista, então interfere talvez 0,35% no resultado final. A arte tradicional são os galeristas, as galerias, os colecionadores, produtores e os artistas prostituídos junto com os lobistas.

A ARTE DO SABER – 3ª Parte

José Sette: Como romper as barreiras entre a arte do entretenimento e a arte do pensamento?

Jose Facury

Como fazedor artístico, não sou muito afeto à arte do entretenimento prefiro-a como espectador. Portanto, acho que quanto mais se consegue equilibrar os efeitos comunicativos entre o pensar e o entreter, melhor será a obra. É isso que eu persigo. Às vezes é bom sacrificar o pensamento intelectual pelo entretenimento, mas nunca descartá-lo.

Pedro Maciel

Outro dia disse a um publicitário, autor de livros, que gostaria de vender a mesma tiragem dele. Ele me disse que eu faço literatura e ele faz entretenimento. Eu gostaria muito de jogar pérolas aos porcos, mas sei que vivo num país em que quase ninguém lê. Creio que é muito saudável termos a arte de entretenimento e a arte do pensamento. Gosto de ouvir música pop e, ao mesmo tempo, admiro reler Homero ou Dante.

Leonardo Esteves

Descobrindo num processo involuntário, sem metas fixas e claramente definidas. Sem risco, não tem gozo. E é possível gozar no fracasso também.

Paulo Duarte

O entretenimento, a retomada do cinema brasileiro, as artes prostituídas que me fazem dormir são importantíssimas! O que seria da civilização moderna sem música de consultório de dentista ou sessão da tarde? por exemplo depois do almoço ver aquele filme que nunca vi até o final, só fleches… Poucos escolhem o caminho do incerto, do risco, das profundidades abissais, viscerais, complexas e indizíveis, esses fazem artesania, não artesanato, fazem filmes para sonhar, não para dormir ou pior, para ir embora. O Mercado prostituído tende a absorver produtos comercializáveis, normal para o sistema em que vivemos, os artistas estão satisfeitos, nunca reclamaram. A arte em geral é tida para adornar, decorar, compor, ilustrar algum discurso falido e decadente, no mínimo. A censura é a falta de acesso.

José Sette: Existe arte popular de vanguarda?

Jose Facury

A arte popular tem que estar onde o povo está e ela será de vanguarda quando ela transformar o pensar desse próprio povo. A arte de vanguarda que não pensa assim, nunca será popular.

Pedro Maciel

Há muitos exemplos de artistas populares que são de vanguarda. Shakespeare era extremamente popular. Escrevia para o povo de seu tempo e mudava as peças conforme a reação do público. Ele controlava a bilheteria do seu teatro erguido em Londres.

Leonardo Esteves

Sim. Não vejo porque essa bifurcação seja necessária. Não acho que um exclua o outro. E existem apropriações variadas dos dois elementos, é preciso ver isso também. E essa questão da vanguarda também é oscilante, enquanto o popular já é algo mais fechado e unívoco

Paulo Duarte

Se vanguarda for algo “novo”, uma linguagem inédita, acredito que o povo de rua seja a vanguarda existente atualmente, os pichadores de São Paulo capital também, artistas inacessíveis e extremamente complexos em seus construtos trabalhados. Fazem a ligação entre os polos, por isso marginal. A margem está dentro do rio e na terra ao mesmo tempo. A arte de ponta, em minha opinião, é aquele momento da vida da pessoa onde o cotidiano é o trabalho, e dai o resultado disso no que ela produz, mesmo que sua produção seja apenas a sua existência, que na realidade é tudo. O impossível mora no impossível, nos lugares improváveis, a arte de “vanguarda” está entre lugares, no não dito, no mal dito… no não institucionalizado, nunca numa aula de artes, pelo menos as que existem hoje.

José Sette: Como fazer um trabalhador, um operário, entender e admirar a arte do pensamento, dos sentimentos abstratos, da experimentação e da invenção, que ultrapassa, em muitas manifestações, o entendimento clássico dos eruditos?

Jose Facury

A pessoa sem formação inclinada à erudição não faz a aderência imediata aos clássicos porque esse tipo de obra não fez parte da sua cultura. Aos poucos, na continuidade da sua leitura, aderirá. É exatamente a mesma coisa quando os de formação estão assimilando o erudito, têm uma tendência a descartar a sua cultura de raiz. Só depois da vida acadêmica é que descobrem que um desafio de toadas do auto do bumba meu boi pode ser uma opereta tão interessante quanto uma área clássica.

Pedro Maciel

Só a educação, quero dizer, uma boa educação, pode informar e formar. Operários também podem admirar as suítes de Bach ou os móbiles de Calder. Eles não admiram a alta arte porque não têm acesso. Acho um absurdo quando leio nas entrelinhas de uma crítica que determinada obra de arte é apenas para a elite.

Leonardo Esteves

Bicho, primeiro você tem que perguntar, ele quer isso? E ainda que ele se disponha a “entender e admirar a arte do pensamento, dos sentimentos abstratos, da experimentação e da invenção”, no final das contas, ele vai chegar a mesma fruição que você e aplicação dessa fruição em seu entendimento geral, como você almeja? Essa é uma boa questão e ninguém me parece ter ido mais fundo do que Bordieu em sua “Distinção”. Esse livro especialmente me fascina e me parece um dos livros fundamentais para quem faz e quer.

Paulo Duarte

A arte popular é transcendental, o folclore, o artesanato, é a energia psíquica do social, pulsão de vida e morte. É lindo, vivo e tudo de bom, assim como outras facetas que a arte expõe de outras formas, mesmo sem sabermos que é arte, pelo menos em 2011. Difícil fazer com que o outro goste de arte, e na realidade seria primal definir o que é arte. Mas se começarmos modificando a organização social do Estado já é o começo. Não existe futuro sem transformação na organização social, pois representativamente todos os temas serão distorcidos em alguma instancia representativa. Os eruditos de hoje são os alunos de ontem. Pra mim o maior erudito se chama João Paixão, morador de rua, 80 anos de idade, entidade personificada, professor. Para termos arte das camadas mais desfavorecidas, carentes da presença do Estado, é preciso dar livre acesso a todos as pessoas do planeta, acesso ao conhecimento.

José Sette: Vocês podem me citar três compositores, três escritores, três dramaturgos, três poetas, três cineastas, três artistas plásticos, vivos, revolucionários, que merecem ser citados?

Jose Facury

Chico Buarque de Holanda, Caetano Veloso e João Bosco, João Ubaldo, José Louzeiro e Eduardo Galeano, Ariano Suassuna, Jô Bilac, Fernando Arrabal, Nauro Machado, Mano Melo e Chacal.

Pedro Maciel

Compositor: Filipe Glass – Escritor: Gonçalo M. Tavares – Cineasta: Cao Guimarães – Poeta: Augusto de Campos – Artista plástico: Cildo Meirelles

Leonardo Esteves

A ideia de revolucionário me parece estar ficando tão deslocada quanto o conceito de nostalgia. São coisas que me parecem estar perdendo suas “definições mais apropriadas”. E por isso, eu pergunto pra você, José Sette, uma única e breve pergunta: o que é um revolucionário nos dias de hoje? Resposta: – Você e o seu cinema transgressor é obra de um ser que não te vê, mas tem a sua visão, pois o seu filme rompe com a estética do que de pior foi estabelecido por um sistema careta, ortodoxo e convencional. Isto visto hoje é uma revolução artística, isto é elevação da linguagem cinematográfica, isto é querer está a frente do seu tempo, isto, para mim, é ser um revolucionário.

Paulo Duarte

Compositores – eu não sei! Escritores muito menos. Poetas vivos, eu não conheço nenhum. Poetisas – Elisa Lucinda, Flor Bela Espanca em memória. Cineastas – Jose Sette, Nilson Primitivo, Andre Sampaio. Artistas plásticos – João Paixão, Pichadores de São Paulo Capital.

FIM

(*) José Sette de Barros é Cineasta e Artista Plástico.