A ÉPOCA DO PROFESSOR DO LAR

 José Correia Baptista

No ano de 1929, as “Officinas Graphicas do O Arauto”, de propriedade do jornalista e escritor paraibano Pedro Guedes Alcoforado – cujo endereço ficava na Rua Major Bellegard número 46 -, publicavam o livro “O Professor do Lar” de Samuel Sanchez. Com 96 páginas, impresso em papel jornal, “O Professor do Lar” trazia “receitas industriaes, culinarias, pharmaceuticas, veterinárias, chimicas e outras muitas informações de imprescindível necessidade para os lares”. Um livro importante, não por suas intenções literárias, mas por nos dar um perfil das necessidades da vida cotidiana de Cabo Frio nessa época. A maioria das 151 receitas envolve a manipulação de ácido azótico, clorídico, carbonato de potássio, óxido de zinco, ácido lactico, enxofre pulverizado, ácido bórico, ácido nítrico, sulfato de zinco, sulfato de ferro, nitrato de prata, borato de sódio, etc.

Pelo livro, somos levados a acreditar que os conhecimentos do dia a dia do leitor cabo-friense de 1929 permitiam-lhe pegar “O Professor do Lar” e em sua própria casa misturar 10 gramas de borato de sódio, com 10 gramas de amido, 5 gramas de ácido salicílico, 5 gramas de sulfato de alumínio, 6 gramas de naptol e 30 gotas de essência de rosa, e, pronto, obter o remédio “Para evitar o suor dos pés e das mãos”.

Nas primeiras décadas do século XX, o verde predominava no centro de Cabo Frio. As firmas comerciais dividiam o espaço urbano com as casas residenciais, que possuíam quintais onde criavam animais domésticos. Para exemplificar, vamos ler uma nota curiosa saída no semanário cabo-friense “O Itajuru” de 23 de junho de 1901, sob o título “Peru Fugidio”. O sr. Adolpho Beranger publicava no jornal um aviso em que dizia ter aparecido em sua casa um peru. O sr. Adolpho queria entregá-lo mas nas seguintes condições: que seu dono declarasse a cor, a data do desaparecimento do peru e que pagasse a despesa do aviso publicado em “O Itajuru”. No jornal seguinte, de 30 de junho, o sr. Adolpho Beranger republicava o aviso, mas acrescentava que, como não havia aparecido o dono do peru, ele o entregara ao festeiro do Espírito Santo, “como dádiva de anonymo, para ser posto em leilão”.

Em “O Professor do Lar”, lançado vinte e oito anos depois do acontecimento publicado em “O Itajuru”, é curioso notar que os animais são temas de preocupação do livro, notadamente os cavalos pela importância que possuíam na época como meio de transporte. Eles merecem uma atenção especial de Samuel Sanchez que apresenta receitas para curar tosse, para eliminar os carrapatos, o modo de lhes dar purgantes, como tonificar os cavalos aguados (um processo inflamatório que atinge a região do casco), o que fazer para curar suas cólicas e como tratar das pisaduras (assadura ou ferida que pode dar no lombo do animal por uma cela de má qualidade ou com alguma sujeira). Há também manipulações contra percevejos, moscas e ratos. A conservação de alimentos é outro assunto importante no livro. A desinfecção de quartos de doentes também merece a atenção do autor, que leva em conta a incidência da tuberculose.

Estes e outros temas então rotineiros da vida cotidiana é que motivaram Samuel Sanchez a escrever “O Professor do Lar” a fim de socorrer os cabo-frienses. Um livro que tanto nos ajuda a compreender um tempo, como ainda pode nos oferecer muitos ensinamentos.

(*) José Correia Baptista é editor da revista cultural Nossa Tribo, formado em Ciências Sociais e em Letras pela UFF. Foi secretário de Cultura de Cabo Frio. (2009/2012).

Compartilhe:
Instagram
0Shares

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *