BOM PORQUE FRACO

José Correia Baptista

Outro dia revi parte da série “O Quinto dos Infernos”. Agrada-me o personagem D. João VI no sentido da caricatura do pai extremoso, exagerado na expressão dos sentimentos. A paixão pela aventura e o apego à rotina, comportamentos aparentemente tão contraditórios, caracterizam o português, sacação brilhante de Gilberto Freyre. O que me contraria em filmes como o paradigmático “Carlota Joaquina” e a própria série que um dia passou na TV Globo é o estigma e a ridicularização que se dá à família real e ao português. D.João VI é caracterizado ou como comedor de coxinha de galinha ou como bufão. O combustível que movimenta D.Pedro I e Chalaça é a volúpia sexual. A corte não tinha cérebro. Só corpo. A visão rocambolesca que se dá aos personagens portugueses que eram os poderosos da época não nos ajuda a ter uma avaliação crítica do passado. 

Sobre o papel de D.João VI e de D. Pedro I gosto muito de uma análise do insuspeito republicano Euclides da Cunha. No livro “À Margem da História” (minha edição é da Chardon, 1926), Euclides da Cunha escreveu o que chamou de esboço político “Da Independência à República”. Ele defende a ideia que D. João VI “lançou todos os fundamentos essenciais do nosso destino”. D. João VI fez duas revoluções liberais: a franquia dos portos brasileiros ao comércio (leia-se Inglaterra) e a derrubada de um alvará de 1785 que ordenara o fechamento de todas as fábricas no Brasil. Defendeu nosso território. Fundou a Imprensa Régia, criou o Banco do Brasil, a Biblioteca Nacional. Formatou um país. Concordo também com Euclides da Cunha: as revoltas de caráter republicano que espocaram pelo país eram revolução parciais, desagregadoras, sem base nacional. D. João VI não era um gênio. Na conta de Euclides da Cunha, D. João VI era um medíocre (sic), mas foi um predestinado.

Vale a pena transcrever o raciocínio de Euclides da Cunha: “precisávamos de alguém capaz de nos ceder, transitoriamente, feito um minorativo às cisões emergentes, o anel de aliança da tradição monárquica, mas que a não soubesse implantar; e não pudesse, por outro lado, impedir o adventos das aspirações nacionais, embora estas houvessem de aparecer, paradoxalmente, no seio de uma ditadura desvigorada e frouxa.” O grande risco que corria o Brasil era o desmembramento. Não existiam classes articuladas nacionalmente. O estatuto da monarquia é que conhecia o projeto de nação. D.João VI na verdade seria o grande estadista que o Brasil nunca teve. Um estadista transplantado. Euclides da Cunha achava que o talhe mediano de D. João VI e de D. Pedro I eram apropriados para a nossa condição colonial. Um caráter forte estimularia revoluções parciais. Um reformador de gênio agitar-se-ia como um revolucionário incompreendido. A ausência de uma linha estável, firme, no caráter de D. Pedro I, amoldava-se à plasticidade da nossa sociedade. A grande obra da monarquia foi, num país vastíssimo como o nosso, com frágeis laços de solidariedade, ter saído de cena deixando para a República um país com noção de unidade. Estas questões passam à margem da série e do filme.

Francisco Gomes da Silva, o Chalaça – outro personagem estigmatizado -, quem D. Pedro I conheceu em uma hospedaria em meio a uma briga e se tornou amigo, tinha cérebro, ora pois, pois, e era muito esperto. Morreu em Lisboa em 1852 com 61 anos de idade e deixou fortuna. Depois de ter sido expulso da casa real por D. João VI arrumou logo uma colocação de juiz de balança da Casa da Moeda. Li suas “Memórias” (minha edição é da Pongetti-Zélio Valverde, 1939). É um esforço de limpar sua biografia. Por um lado, reafirmando sua lealdade a D. Pedro I (que para ele representava a constituição e a defesa do Brasil como nação) e por outro imputando ao marquês de Barbacena a pecha de traidor. Barbacena teria traído o imperador, por afastar dele seus amigos portugueses, e por ter sido responsável pelo clima de revolta popular e militar que levou à abdicação de D. Pedro I em 1831. E traidor da amizade de Chalaça. Em boa parte das “Memórias”, Chalaça procura provar que não obteve qualquer vantagem em missão estrangeira. Chalaça se defende acusando Barbacena. Acusando-o de ser responsável pela abdicação de D. Pedro I e de não haver conseguido apresentar a prestação de contas das despesas que fizera com a missão de encontrar um casamento para o Imperador e de tratar de negócios com o Portugal de D. Miguel. Quem lê as “Memórias” de Chalaça, muito bem articulado nos pensamentos, não tem a menor dúvida: Chalaça hoje seria um executivo com trânsito e credibilidade internacional.

(*) José Correia Baptista é editor da revista cultural Nossa Tribo, formado em Ciências Sociais e Letras pela UFF e ex-secretário de Cultura de Cabo Frio (2009/2012)