A ESPERANÇA NO CHÃO

Ricardo do Carmo (*)

Ouvia o ruflar de asas. Seriam aves pré-históricas ou simplesmente predadores

anômalos que o irreal inoportuno infiltrara em minha noite branca para, ao desafiar-me, desafiar a natureza das coisas? Não bastasse a voz interior exigindo, impondo, neste tempo de múltiplas cobranças que nos obrigam esforço de Super-Homem, e esse rumor, esse desfraldar, esse farfalhar misturado à insônia. Ruído que vem de fora e se incorpora devagar, penetrando, querendo falar mais alto que os nossos tormentos; insurgindo-se como um pássaro indócil, debatendo-se em nosso peito com asas descontroladas. Agitando-se, agitando-nos. Aeroscilando, aerosilenciando. Suspenso. Solto ao vento. Esvoaçante. Bicho de acrobacias, flexível, inventado. Aves de arribação? Aves de rapina? Precisava estabelecer alguma lógica ao sono incômodo, fragmentado: meio vigília, meio pesadelo; meio devaneio, meio realidade. Linguagem de difícil tradução! Traduzir imagens em claro, insones e insonháveis, eis a arte própria dos grandes mestres; não caberia aqui traduzi-las nem entendê-las, apenas narrá-las. Vi-vendo que, quando o céu está cinza, a quantidade de urubus aumenta. Seriam os urubus? Seriam as pombas que pousam no parapeito e pimba? Alerta em demasia os sentidos se revezam: olhos escutam, ouvidos veem, mãos imaginam — fulgura- sons que a mente mede, como quem mede uma mentira. Caso tivesse a certeza de estar dormindo, sonhava; caso a certeza fosse de estar acordado, deixava a cama, checava cada ruído da noite lá fora, na rua, na escola em frente.

Uma manhã cheia de luz pula a janela escancarada. Cansaço de perseguir sono;

modorra de noite mal dormida; um dia de novembro de 2000 e uns poucos anos do milênio recém-inaugurado; dia de votar em senador, governador e deputados; e, ainda, dia de eleger o presidente da República Federativa do Brasil. Já estava na calçada a conferir. O vento soprou seu habitual e triunfal sopro. Papéis voaram. E pude ouvir o mesmo tremular: asas da cisma? Não! Eram pequenos impressos de campanha política que o vento ingênuo

sustentava no ar, em revoada, num bando de folhetos planando sem medir consequências. Eram os famosos santinhos dos candidatos que, durante a madrugada, os cabos eleitorais jogam no ar, espalhando aos milhares em frente aos locais de votação, para que o eleitor indeciso possa escolher, no chão, os nossos governantes.

(*) Ricardo do Carmo é poeta, professor e documentarista.

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