“MORREU NEVES”

“Morreu Neves”

Ninguém esperava de José Bonifácio um governo socialista ou algo semelhante: até aí, como dizia Vovô Bibiu, “Morreu Neves”. A expectativa era e é de um governo para “arrumar a casa” e entregar o município com as finanças em dia, bem estruturado administrativamente para que o novo prefeito pudesse começar um novo tempo na cidade. Não se faz isso atrelado ao atraso, ao contrário, mesmo a duras penas é preciso romper com ele.

Crescimento conservador

Apesar de alguns avanços pontuais a ala conservadora do governo de José Bonifácio está ampliando seu poder tanto na esfera administrativa quanto política. O aprofundamento da pandemia tem servido como instrumento para o crescimento desse grupo que já era muito forte desde a formação da campanha.

É muita contradição

Esse grupo conservador e pragmático prega e articula aproximação com o governador em exercício, Cláudio Castro, um dos pilares do bolsonarismo no estado. Ora, a ação negacionista e totalitária de Bolsonaro tem sido fundamental para o recrudescimento da pandemia e dos seguidos ataques ao Estado Democrático de Direito. É muita contradição para um governo só.

Como fica o palanque?

Vai ser bastante complicado para esse grupo conservador/pragmático subir no palanque e ter discurso para apoiar Ciro Gomes, o candidato do PDT a presidência da república, em 2022. De todos os candidatos a presidência é justamente Ciro Gomes, que faz as críticas mais contundentes a Bolsonaro e ao Bolsonarismo.

Reeleição

De olho na reeleição, o secretário/deputado Sérgio L. Azevedo procura chamar para o seu acervo político a possível abertura do Hospital Unilagos pelo governo do estado: o hospital serviria a todos os municípios da Região. O problema é que o hospital que sairia em uma semana não deu as caras, justamente no momento em que o covid-19 ceifa mais vidas.

Com os “burros n’água”

O que a extrema direita teme é que o projeto dê com os “burros n’água”: chegue com muito atraso e não resolva efetivamente o problema de toda a Região dos Lagos. No caso, provocaria o mesmo vexame dos 15 ventiladores sucateados, que o deputado tem que agüentar até hoje. Credibilidade pode se perder em um gesto e o deputado sabe disso.

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TAMOIOS NO ARPOADOR

Zuenir Ventura

Aconteceu neste verão. Convidado a escrever sobre um canto do Rio, escolhi o Arpoador, porque de lá se costuma desfrutar deslumbrantes entardeceres. Os termômetros marcavam quase 40º, com a sensação térmica beirando os 50º. Sentado nas pedras, apreciava o sol refletir com tal intensidade sobre o mar espelhado que devo ter experimentado aquela ilusão ótica que no deserto se chama miragem. A gente entra num clima onírico e acredita ver o que não existe. De repente, senti uma urgência febril de dividir aquele espetáculo mágico com alguns personagens que cantaram e encantaram o Rio. A primeira aparição foi de Millôr, que veio correndo pela areia, como sempre fazia. Passou pelo largo que agora leva o seu nome, subiu até onde eu estava e repetiu uma de suas geniais definições: “O pôr do sol é de quem olha”. Em seguida, foi a vez de Tom e Vinicius, que atravessaram o Parque Garota de Ipanema carregando o violão. Tinham acabado de acordar, após uma longa noite de boemia. Finalmente, vindo de Copacabana, chegou Oscar Niemeyer, trazendo nos olhos as curvas das mulheres e dos morros cariocas com que fez sua arquitetura.

Como não podia deixar de ser, a conversa girou em torno dessa cidade solar, sensual, exibida que nasceu para ser musa. Falou-se principalmente do narcisismo de quem desde pequena se habituou aos elogios. Era ainda uma criança quando um de seus adoradores, o primeiro governador-geral Tomé de Souza, se desmanchou: “Tudo é graça o que dela se pode dizer”. Alguém lembrou que até os religiosos lançaram sobre ela olhares profanos: “É a mais airosa e amena baía que há em todo o Brasil”, suspirou o padre Anchieta, inteiramente catequizado. Seu colega da Companhia de Jesus, o padre Fernão Cardim, sentiu o mesmo: “É coisa fermosíssima e a mais aprazível que há em todo o Brasil”.

Estimulado pela exuberância sensorial daquela tarde, resolvi corrigir Vinicius, que dizia que ser carioca é um estado de espírito. Acho que é mais. Não se trata apenas de alma, mas de corpo e alma. Ama-se a cidade com todos os sentidos, a começar pelos olhos. Olha que coisa mais linda uma garota de Ipanema a caminho do mar. Ela vai se molhar e se estender nas areias para dourar seu copo quase nu. Segundo Tom, que transformou em música tudo isso, esse rito hedonista, quase erótico, é uma herança de nossos antepassados tamoios, que nos ensinaram a curtir a água, o corpo, a música e a dança.

O sol já estava sendo rendido no seu plantão diário, e os banhistas noturnos começavam a estender suas cangas na areia para o mais novo modismo deste verão: o banho de lua. Foi quando chegou Cazuza para fazer parte do show. Antes de dar um mergulho, cantou: “Vago na lua deserta das pedras do Arpoador”.

Nunca me senti tão tamoio quanto nesse fim de tarde, início de noite nas pedras mágicas do Arpoador.

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CANÇÃO DA MOÇA-FANTASMA DE BELO HORIZONTE

Carlos Drummond de Andrade

Eu sou a Moça-Fantasma
que espera na Rua do Chumbo
o carro da madrugada.
Eu sou branca e longa e fria,

a minha carne é um suspiro
na madrugada da serra.
Eu sou a Moça-Fantasma. O meu nome era Maria,
Maria-Que-Morreu-Antes.

Sou a vossa namorada
que morreu de apendicite,
no desastre de automóvel
ou suicidou-se na praia
e seus cabelos ficaram
longos na vossa lembrança.
Eu nunca fui deste mundo:
Se beijava, minha boca
dizia de outros planetas
em que os amantes se queimam
num fogo casto e se tornam
estrelas, sem irônia.
Morri sem ter tido tempo
de ser vossa, como as outras.
Não me conformo com isso,
e quando as polícias dormem
em mim e foi-a de mim,
meu espectro itinerante
desce a Serra do Curral,
vai olhando as casas novas,

ronda as hortas amorosas
(Rua Cláudio Manuel da Costa),
pára no Abrigo Ceará,
nao há abrigo. Um perfume
que não conheço me invade:

é o cheiro do vosso sono
quente, doce, enrodilhado
nos braços das espanholas.
– Oh! deixai-me dormir convosco.

E vai, como não encontro
nenhum dos meus namorados,
que as francesas conquistaram,
e cine beberam todo o uísque
existente no Brasil
(agora dormem embriagados),
espreito os Carros que passam
com choferes que não suspeitam
de minha brancura e fogem.
Os tímidos guardas-civis,
coitados! um quis me prender.
Abri-lhe os braços… Incrédulo,
me apalpou. Não tinha carne
e por cima do vestido
e por baixo do vestido
era a mesma ausência branca,
um só desespero branco…
Podeis ver: o que era corpo

foi comido pelo gato.

As moças que’ ainda estão vivas
(hão de morrer, ficai certos)
têm medo que eu apareça
e lhes puxe a perna… Engano.

Eu fui moça, Serei moça

deserta, per omnia saecula.

Não quero saber de moças.
Mas os moços me perturbam.
Não sei como libertar-me.
Se o fantasma não sofresse,
se eles ainda me gostassem
e o espiritismo consentisse,
mas eu sei que é proibido
vós sois carne, eu sou vapor.

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“CARDEAL” DA VELHA GUARDA

“Cardeal” da velha guarda

O nome do “cardeal” e assessor especial Gustavo Beranger têm circulado como um dos prováveis sucessores do tabelião-surfista Flávio Rosa, na secretaria de turismo, esporte e lazer. Gustavo foi procurador do município, presidente da então Procaf e secretário de turismo.

Pode rachar?

Segundo as “paredes murmurantes” do Palácio Tiradentes e também do histórico prédio da Câmara Municipal é provável que a secretaria seja mais uma vez transformada em duas: turismo e esportes. Nesse caso, abriria mais uma vaga para a composição política da elástica aliança, que elegeu José Bonifácio prefeito de Cabo Frio.

Coligação informal?

A coligação informal formada por Aquiles Barreto (PT) e Janio Mendes (PDT) está sendo costurada dentro do governo de José Bonifácio, apesar do prefeito estar com todos os olhares voltados para a pandemia. Após a saída de Flávio Rosa do governo restou a figura política do secretário adjunto Rafael Peçanha (Cidadania) capaz de ser protagonista nas eleições de 2022.

O papel de Rafael

O exame cuidadoso das pesquisas eleitorais que precederam a eleição majoritária de 2020 mostra que a retirada da candidatura de Rafael Peçanha foi decisiva para a eleição de José Bonifácio. Foi um momento muito delicado, inclusive porque o então vererador/candidato acabou por não assumir a tarefa de coordenador da campanha de Bonifácio.

O papel de Aquiles

A tarefa de coordenador coube ao vereador Aquiles Barreto, que também retirou sua candidatura a prefeito para apoiar o candidato do PDT. A saída de Aquiles do cenário eleitoral não teve o mesmo impacto numérico da retirada de Rafael, mas trouxe com ele uma vasta articulação política, que José Bonifácio não possuía.

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FANTASMAS RONDAM A NOITE COVIDEANA 

José Correia Baptista

1 – 23 de abril, dia de São Jorge. Casualmente e há muito tempo, fui saber que ele fazia parte de minha vida. Pouco ligava para os santos. Até que percebi que eles surgem assim inesperadamente em sua vida, sem muita explicação, como me preenchem Nossa Senhora de Nazareth e Nosso Senhor dos Passos. Da mesma forma aconteceu com São Jorge. A primeira consciência que tive de sua presença foi quando lancei o meu primeiro livro Os dentes do cão Cabo Frio morto, um livro de crônicas, que resolvi escolher ao acaso a data 23 de abril de 2002. E deu tudo certo. Até um estimado grupo musical de chorinho apareceu ao lançamento e tocou sem eu esperar. Meu amigo Dr. Leonardo Machado – devoto de São Jorge -, na noite de autógrafos na Adega Galiotto, de repente empurrou-me um santinho, que guardo até hoje em minha carteira. Achava que era mais um lance imprevisível mas carregado de sentidos do nosso Pajé. Devo ter feito uma cara idiota. “É dia de São Jorge, porra!” Era um tipo de frase em voz grossa recuada curta e direta do amigo Leo restabelecer a realidade.

Registrei uma outra referência curiosa. Ao andar pela rua fico atento por que gosto de ouvir frases soltas que veem com significado. E passando a pé ali pela Rodoviária de Cabo Frio, num ponto de caminhão de mudança, ouvi quando um motorista conversava com outros companheiros de profissão soltar o seguinte argumento: “Enquanto houver cavalo, São Jorge não fica a pé.” Salve São Jorge e os cavalos.

2 – A nota oficial do Sepe Lagos caracterizando o secretário de Educação de Cabo Frio de “capitão do mato” ainda repercute e merece algumas considerações. Inicialmente quero deixar claro que defendo que para os professores e profissionais da educação voltarem à escola só vacinados. Quanto à declaração oficial do Sepe Lagos penso em seus termos conceituais.

O papel do sindicato é claro e universal: defender e promover o direito de sua classe profissional usando as armas legais, que vão do diálogo aos recursos judiciais até à greve. O que legitima a relação entre o sindicato e o patronato é que ambos se reconhecem como protagonistas de interesses mútuos e conflitantes. É tradicional que o embate se dê naquele campo institucional.

Agora, quando o sindicato dos professores personaliza e alcunha o prefeito de “senhor da casa grande e senzala” e seu secretário de Educação de “capitão do mato” em que campo a luta se instaura? Certamente não é o da história do sindicalismo. Ela se projeta na tradução das cargas simbólicas da história colonial. Ao estigmatizar o secretário de “capitão do mato”, o Sepe retoma o papel do caçador de negros escravos fugidos. Àquele negro subserviente que não se identifica com sua gente, mas com o branco dominador e que representa a ordem colonial. O prefeito é o branco que governa sua escravaria e a ela impõe com violência a sua vontade exploradora. O sentido é esse.

Se a nota do Sepe está deslocada da realidade, da luta institucional que um sindicato deve representar na atualidade, por outro lado revela uma ideologia ao colocar a questão nestes termos. Que entendo ter ultrapassado a relação institucional que se espera de um sindicato. E por que usar deste expediente fora da racionalidade? Com esta nota destemperada, a que resultados positivos para a classe espera o Sepe alcançar? A sociedade e suas instituições funcionam por meio de limites e do reconhecimento do lugar que cada um ocupa em um estado democrático e de direito. Penso que o Sepe Lagos optou pela ideologia da extrema direita para combater de um modo irracional os representantes das instituições republicanas.

Depois do Sepe dar a alcunha de “capitão do mato” ao secretário de Educação e de “senhor da casa grande e senzala” ao prefeito, creio que uma saída honrosa para a direção do sindicato seria situar seu lugar nessa sociedade colonial proclamada. Por que com essa nota oficial, caracterizando os dirigentes públicos de hoje como figuras reprodutivas da peçonha do período colonial brasileiro – uma deturpação da realidade de nossos dias, mas que ideologicamente demarcou o terreno -, como esses dirigentes serão agora capazes de pactuar à mesma mesa com os nomeados “capitão do mato” e “senhor latifundiário”?

3 – Stalin não era só “a mais eminente mediocridade do nosso partido”, como o chamou Trotsky. Alguns historiadores defendem que Stalin apreciava Chekhov, Pushkin, até ópera e ballet. Fazia críticas no Pravda. Em 1936, no início do Grande Expurgo, Stalin tachou a ópera Lady Macbeth de Shostakovich de primitiva e vulgar. Com uma crítica dessa natureza, de um crítico que tinha mais que a pena da opinião no jornal do partido, Shostakovich abandonou seus planos operísticos e esperou a morte. O que os críticos apontam como ironia do drama de Shostakovich foi que a partir da crítica de Stalin, ele encontrou seu verdadeiro tema, a história trágica da tirania. Inédito em Stalin: o tirano salvou o artista.

(*) José Correia Baptista é formado em Ciências Sociais e em Letras pela UFF.

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AGASALHO & FUZUÊ

Agasalho & Fuzuê

A prefeitura de Cabo Frio, na nova gestão de José Bonifácio, “agasalha” como diria seu tradicional adversário, o velho morubixaba, gente de todos os matizes ideológicos: é uma verdadeira salada! O governo tem de tudo e o prefeito se equilibra em meio a esse verdadeiro fuzuê.

Os vetores políticos

Apesar da pandemia ser a prioridade das prioridades o grupo de cardeais que articula a política interna do governo continua muito atento e de olho em 2022. Estabelece seus vetores políticos/eleitorais focados nas eleições proporcionais para a Assembleia Legislativa e Câmara Federal. Assim, interfere direta e indiretamente nos cargos em comissão (portarias) do governo.

Sem alternativas

De fora, parece que qualquer projeto político/eleitoral alternativo que se interponha ao dos cardeais será devidamente podado por eles dentro do próprio governo. O cardinalato é institucional e como tal conservador por excelência e não quer nenhuma concorrência, porque para eles 2022 e 2024 estão articulados.

A construção da coligação

A saída de Flávio Rosa representa uma séria baixa para o governo de José Bonifácio. Flávio é um aliado político de muitos anos e foi peça fundamental na arrumação da coligação. O tabelião-surfista trouxe para a aliança o PSB, liderado no estado pelo deputado Alessandro Molon, dos mais expressivos parlamentares do país. Não é pouco!

Não ao retrocesso

O prefeito José Bonifácio desde a pré-campanha diz que não é candidato a reeleição e foi eleito para, entre outras coisas, arrumar a cidade. Ao término dos quatro anos entregar a cidade saneada, após ter enfrentado a pandemia do covid-19, será um feito respeitável. Entretanto, todo o esforço será desperdiçado caso Cabo Frio caia em mãos do retrocesso.

O último vagão do trem?

A frase “Cabo Frio passou do ponto” trás o sentimento que a decadência do município, após o sonho dos royalties do petróleo, é inevitável. Não é por acaso que as forças políticas da Baixada Fluminense e do bolsonarismo estão investindo pesado aqui, especialmente em Tamoios.

Por que não?

Talvez esses quatro anos que estão apenas começando sejam a última chance de Cabo Frio se tornar algo mais que um balneário da zona metropolitana do Rio de Janeiro, muito pouco para as belezas desse litoral. Cabo Frio pode e deve ser reconhecida como uma cidade com uma bela qualidade de vida. Por que não?

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RAFAEL PEÇANHA NO IFRJ/ARRAIAL DO CABO

Seguindo na parceria com os institutos federais da região, hoje recebemos novas doações de álcool em gel e líquido, produzidos pelo Laboratório de Química do IFRJ.

Elas irão ajudar o Projeto de Educação Popular no bairro Manoel Corrêa, do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas; o Projeto Social Esportivo Mancha Verde, do bairro Jacaré; a Secretaria de Assistência Social e a Secretaria-Adjunta de Turismo, Esporte e Lazer em Tamoios.

É missão da Ciência prevenir e combater a pandemia, utilizando todas as tecnologias possíveis!

Agradeço ao Diretor David e ao coordenador do laboratório Glaubert pela recepção e a todo o campus pela força!

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