O FRÁGIL TOQUE DOS MUTILADOS – Alex Sens

Passado ao longo de 28 dias numa pequena cidade litorânea, o romance conta a história de Magnólia, uma enóloga tão temperamental quanto enigmática, que visita o irmão e os sobrinhos após ter estado três anos distante. Voltar àquela casa de frente para o mar parece ser uma série de novos testes em sua vida: confrontar o passado, aceitar a nova situação do irmão viúvo, viver uma nova e arriscada paixão e ser a guardadora de um segredo que pode abalar toda a sua família. O frágil toque dos mutilados é um drama familiar sobre o reencontro de pessoas que tentam se explicar, se ajustar e se compreender através de seus sonhos e conflitos.

Alex Sens foi o vencedor do Prêmio Governo Minas Gerais de Literatura 2012, na categoria Jovem Escritor. Segundo Jaime Prado Gouvêa, editor do Suplemento Literário, “Alex Sens Fuziy surge na literatura com traços firmes de escritor experiente, compondo uma trama magnificamente elaborada sobre os dramas de uma família que se reencontra numa cidade litorânea e tenta se explicar a partir da morte de um de seus membros.” Para Marcia Tiburi, “O mar é, para a ação que aqui se dá, um pano de fundo tão belo quanto trágico. O romance, desenhado com a meticulosidade da pena de Alex Sens Fuziy, constrói-se nesse trânsito, sobre aquela espécie de dificuldade consigo que é vivida por cada pessoa quando ser e estar – diante de si mesmo e diante dos outros – não parecem nada simples. Quando a possibilidade de viver junto com os outros está a cada momento posta em xeque.”

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POR QUE TIO SAM É IMPERIALISTA?

Após a vitória dos aliados na II Guerra os Estados Unidos assumiu a liderança econômica do Ocidente já que a Europa tinha sido devastada. O modelo norte-americano acelerou a partir de um capitalismo consumista e todos os demais países copiaram esse modelo.

Ocorre que esse modelo consome boa parte dos recursos materiais da Terra que é finita – Estados Unidos tem mais ou menos 5% da população mundial e contribuiu com 36% das emissões de gases de efeito estufa e consome 25% da energia mundial. Essa é a lógica do imperialismo norte-americano, a produção e a exportação de “bens” de consumo.

O Shopping Center é a Catedral do Consumo- você precisa consumir – se você não tem Cartão de Crédito você não existe.

“A ditadura perfeita terá as aparências de uma democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga. Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão.” Aldous Huxley Tinha que ser imperialista. Mas tem o outro lado da moeda.

A contra-cultura americana, desafiando o “bem-estar” do modelo consumista do “use e jogue fora”, começou na década de 50. Com a Beat Generation (São Francisco – Califórnia) Um movimento literário originado em meados dos anos 1950 por um grupo de jovens intelectuais que estava cansado do modelo quadradinho da ordem estabelecida nos EUA após a Segunda Guerra Mundial. Com o objetivo de se expressarem livremente e contarem sua visão do mundo e suas histórias, esses escritores começaram a produzir desenfreadamente, muitas vezes movidos a drogas, álcool, sexo livre e jazz – o gênero musical que mais inspirou os beats.

Mais do que escrever, esse grupo de amigos tinha interesse em estar sempre junto, compondo, viajando, bebendo e, por vezes, transando em grupo. (Super Interessante)

* Não deixe de ler “América” de Allen Ginsberg), na tradução de meu amigo Cláudio Willer

Esse movimento influenciou uma geração posterior que foram os hippies, que tinha maior concentração de jovens em São Francisco. Eram norte-americanos de classe média, alguns de família abastada, a maioria entre 17 e 25 anos, que resolveram contestar os valores que seus pais acreditavam.

Paz e Amor, comida natural, roupas coloridas, liberdade sexual, maconha, mochila e pé na estrada. Essa geração assumiu a bandeira ecológica em defesa do meio ambiente.

*Não deixe de ler “Primavera Silenciosa”, de Rachel Carson de 1962.

Nessa época surgiu o alerta de que a Águia Americana – símbolo nacional dos Estados Unidos – está em todos os escudos oficiais do governo norte-americano – estava em perigo de ser extinta pela alteração do meio ambiente.

No próximo artigo – Por que Tio Sam é imperialista? – O outro lado da moeda.

(*) Luiz Carlos de Barros foi servidor da Câmara Municipal de S.Paulo por 35 anos. Veio para Cabo Frio em 1990. Na Câmara entre suas atividades, foi secretário da Comissão Permanente de Meio Ambiente, desde seu início, fundada em 1977, por iniciativa do vereador Flavio Bierrenbach. Foi a primeira Çomissão Permanente de Meio Ambiente, numa Câmara Municipal em todo o Brasil.

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Notícias falsas X Freixo

As notícias falsas do bolsonarismo tentam desmoralizar o deputado Marcelo Freixo, dos melhores parlamentares do Congresso Nacional. Freixo orgulha o Rio de Janeiro desde os tempos da Assembleia Legislativa.

Substituto?

O “Homem de Meriti”, ex-deputado, policial militar reformado Iranildo Campos está com covid-19? Tem que se afastar para tratamento. Quem o substitui em meio à pandemia?

Abandonando o barco

É evidente que grande parte do meio político está abandonando com “armas e bagagens” a possibilidade de apoiar uma impraticável tentativa do prefeito Adriano Moreno se reeleger. Político não cai no precipício, exceto empurrado.

Aliança complicada

A tendência é a consolidação da aliança entre o Democratas, o PMDB, o PSDB e o PT, ou seja, entre Adriano Moreno e Aquiles Barreto. Problema? A aliança pode ser brecada pela nacional do PT por conta da aliança com o Democratas e o PSDB.

Subnotificação

É evidente que a incapacidade de gerenciar a crise do país gerou uma imensa subnotificação em meio à pandemia do covid-19. Cabo Frio não é um oásis em meio ao deserto. A subnotificação é evidente: os números estão defasados.

PF, carreira de estado?

Embora a Polícia Federal seja uma carreira de Estado há muito se posiciona política e partidariamente nas redes sociais. E o que é pior, sempre pela ultra-direita. No processo de afastamento da presidente Dilma Rousseff isso ficou evidente.

Faltou punição

Delegados da PF, em seus perfis nas redes sociais, zombavam, criavam e divulgavam ataques virulentos, grosserias e muitas notícias falsas. Não foram punidos. Faltou pulso e autoridade ao então ministro da justiça.

Ta virando bagunça

A situação se alastra ameaçando o Estado Democrático de Direito. Comandantes das Forças Armadas divulgam ‘ordens do dia’ de cair o queixo e nada acontece. Ora, quem fala pelas Forças Armadas é o Ministério da Defesa e o Presidente da República. Basta!

Confusão!

A confusão é tal que os juízes hoje falam mais na televisão e nas redes sociais, que nos processos. O comedimento, a discrição, o respeito à ordem legal parecem ter desaparecido.

Falta de pudor

A bagunça geral é agravada pelos privilégios que as Forças Armadas, a “classe política” e o Judiciário desfrutam em meio à crise. A população “comendo o pão que o diabo amassou”, sem que esses estamentos abram mão de qualquer vantagem: vergonha e falta de pudor.

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Caixa Rubem Braga

Crônicas

Rubem Braga, André Seffrin, Bernardo Buarque de Hollanda, Carlos Didier (Organização)

Considerado o mais importante cronista literário brasileiro, Rubem Braga redimensionou o lugar da crônica no país. Sua sensibilidade era imensa, capaz de transformar a mais simples observação numa escrita perturbadora, cheia de lirismo, frescor e estilo único.

Rubem Braga deixou, em 62 anos de atividade profissional, a impressionante marca de 15 mil textos. Foi pensando nisso que a Autêntica convidou os autores André Seffrin, Bernardo Buarque de Hollanda e Carlos Didier para selecionar e organizar crônicas até agora inéditas em livro. O resultado são três volumes saborosos com textos sobre artes plásticas, política e música, reunidos numa caixa. Cada um traz cerca de 100 crônicas, além de posfácios escritos pelos organizadores, com comentários sobre a vida e a obra do escritor capixaba, e textos de orelhas de Miguel Sanches Neto (artes plásticas), Milton Hatoum (política) e Aldir Blanc (música).

Numa seleção que só faz comprovar o talento, a atualidade dos temas, a visão criativa de Rubem Braga, estes três volumes confirmam o que os críticos não se cansam de repetir: a verdade é que ninguém escreveu crônica como Rubem Braga.

Os moços cantam & outras crônicas sobre música, organizado por Carlos Didier
Os segredos todos de Djanira & outras crônicas sobre arte e artistas, organizado por André Seffrin
Bilhete a um candidato & outras crônicas sobre política brasileira, organizado por Bernardo Buarque de Hollanda

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NÃO DOU PÉROLAS AOS PORCOS – José Sette de Barros (*)

Um amigo me pediu para eu falar, em poucas palavras, sobre a frente de uma esquerda solitária e eu fiquei pensando a respeito. O que é o movimento de esquerda e qual é a esquerda em que me situo? São coisas diferentes na essência. Pensamentos e ações diferentes. Uma das coisas que nos unem é a solidariedade com a classe trabalhadora, com os explorados pelo capital e com a reformulação total do estado republicano e a outra é que todos acreditamos que caminhamos inexoravelmente para o socialismo. O que nos distancia é a forma de chegar lá. Sei que as revoluções armadas não fazem mais sentido, não se ganha uma guerra com atiradeira, nem com foices, facas e martelos… Já sabia disso quando não quis ir para a guerrilha do Araguaia… Vivíamos e vivemos a contradição democrática onde quem manda é quem tem do seu lado o capital financeiro e quando a esquerda chega ao poder, democraticamente, tem que se unir a ele. Essa união nunca vai chegar a um lugar comum. Assim está escrito na história. Não adianta dar o coração aos pobres e os braços aos ricos. Hoje, no momento em que vivemos uma pandemia, que estamos fechados em casa, não há mobilização popular para um levante comandado pela esquerda. Agora querer comandar uma união de contrários em nome de uma frente democrática é dormir com o inimigo, é levar o movimento socialistas para o caos, pois o povo vai continuar acreditando nos que podem pagar melhor, nos mais bem sucedidos, no capital internacional e isso vai atrasar por décadas a tão falada e desejada justiça social. Estaremos todos juntos em uma esquerda ideológica sem atravessadores mesquinhos com outros interesses ou então seremos todos mortos com ou sem vírus.

(*) José Sette de Barros é cineasta.

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Visita a exposição de arte

 Queriam sair para visitar a exposição de arte. Afinal, só se falava disso. E como eles viviam ali na cidade, porque não ver com os olhos que a terra há de comer? Separaram roupa e tomaram um banho rápido. É que a tarifa d’água estava mais cara. Antes de partir para debaixo do chuveiro uns pulinhos, pois decidiram que, para não estrangular o orçamento doméstico, seria água fria até as 22h em razão da bandeira vermelha que sangrava a conta de energia elétrica. Pronto, podiam ir. Mas não sem antes comer os pãezinhos de queijo que sobraram do café da manhã. Você sabe quanto custa um salgadinho no café do centro cultural? Ele perguntou. Uma barbaridade! Ela respondeu.

Táxi ou Uber sequer lhes passou pela cabeça. Foram para o ponto esperar o ônibus. Ouviram alguns estrondos ao longe. Será que é tiro? Ela indagou. Do jeito que as coisas estão só pode ser. Ele rebateu preocupado olhando para os lados. O ônibus apontou no começo da rua. Deram sinal, embarcaram. Ele pagou e se voltou para dizer ao cobrador que o troco estava errado. É que a passagem não diminuiu como prometeu o prefeito, explicou o rapaz de uniforme azul.

Desceram do coletivo e atravessaram a praça cheia de meninos de ruas e pombos. Sentiram-se inseguros, abandonados e envergonhados. Entretanto, caminharam em silêncio. Chegaram, enfim, à exposição de arte. Em frente à galeria pessoas protestavam, repórteres entrevistavam, bandeiras eram desfraldadas.

Eles entraram, viram tudo e saíram logo. Chocados? Indignados? Não. Preocupados. Já estavam com fome e o dinheiro não dava para o lanche, pois a passagem não diminuiu. A cidade não tinha segurança e o ônibus ninguém sabia a que horas passaria.

A questão não era se gostavam ou não de arte. E sim que, a cada dia, sobreviver ficava mais arriscado.

Rafael Alvarenga

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Sapo enterrado

Enterraram um sapo na prefeitura de Arraial do Cabo: Andinho, Renatinho Viana e Melman. É dose! Nem royalties resistiram à tamanha incompetência, mas o município é bravo: resiste!

Isolamento

Depois da última presepada (tem sempre a do dia seguinte) do presidente da república, o bolsonarismo está enfrentado seu inferno astral. Quem o apóia tende a ficar isolado politicamente.

Sem expressão!

Mauro Bernardo e Sérgio Luiz Azevedo tem tido atuação medíocre na Assembleia Legislativa. O primeiro no PROS e o segundo no Republicanos. Cabo Frio ainda não viu o ar da graça do trabalho deles.

Iranildo, o Breve!

Do jeito que a coisa anda logo o secretário de saúde de Cabo Frio, Iranildo Campos, vai ser chamado para depor pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal, na investigação sobre as “rachadinhas”.

As trocas

Como as trocas na secretaria municipal de saúde acontecem com muita rapidez, talvez, dentro de pouco tempo, o secretário pode ser chamado de Iranildo, o Breve.

De Dirlei a Iranildo

Governo e Oposição poderiam dar o braço e sair pelas ruas do município sob vaias da população. São anos de crise na saúde pública municipal e nada muda.

Debate

O “senadinho”, o “Parada Obrigatória” e o “Café per Tutti” pontos que aglutinavam os debates políticos na cidade estão parados. Cabo Frio perdeu boa parte do seu charme.

Meio ambiente

Entre tantas nulidades, o governo de Adriano Moreno/Cati, tem também gente que se sobressai pelo trabalho sério e de qualidade. Mário Flávio Moreira é um deles. A secretaria de meio ambiente está fazendo o cercamento do Parque do Mico Leão Dourado, segunda etapa do processo de delimitação da área.

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E AS CRIANÇAS SALVARAM A VISITA DE SAINT-HILAIRE A CABO FRIO

José Correia Baptista

Dos naturalistas europeus que vieram a Cabo Frio no início do século XIX, como em 1815 Maximiliano de Wied Neuwied (1782-1867), em 1832 Charles Darwin (1809-1882) e em 1818 Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853), foi o botânico francês Saint-Hilaire que deixou o relato mais amplo, singular, ambiciosamente completo sobre Cabo Frio. Saint-Hilaire – respeitado professor do Museu de História Natural de Paris – foi o único naturalista a se interessar em conhecer Arraial do Cabo. Em sua passagem por aqui descreveu o que viu da flora e fauna, os recortes geográficos, a ação dos ventos, a força da economia da pesca, a exploração do calcário através da queima e da retirada em pedra na Praia dos Anjos, entre outros registros. Mas foi seu olhar para a vida da sociedade de Cabo Frio o que de mais definitivo marcou seu relato. É a mais bela e importante impressão que sobre nós temos desse período. Mas toda essa maravilhosa incursão de Saint-Hilaire por Cabo Frio que está narrada em seu livro “Viagem pelo distrito dos diamantes e litoral do Brasil” quase se precipita se não fosse a intervenção das crianças cabo-frienses.

A cena: Saint-Hilaire vem de São Pedro da Aldeia observando capoeiras, raramente terrenos em cultura, montanhas, florestas e choupanas dispersas. Aproximando-se de Cabo Frio vê casas melhores. De novo às margens da Laguna, chama sua atenção uma prodigiosa quantidade de pássaros aquáticos, depois um tom mais carregado das árvores e arbustos. E avista o Morro da Guia. Ele está situado na margem oposta à cidade. Vai em direção a uma venda, voltada para o Convento, local então obrigatório para quem quisesse atravessar o canal Itajuru. Saint-Hilaire descreve os próximos passos: “Em pirogas muito estreitas, à razão de 20 réis por pessoa, fez-se a travessia do canal. Os cavalos e bestas passam a nado; mas como os animais são mantidos pelas rédeas pelos que vão nas pirogas, é preciso pagar mais 20 réis por animal”, conta queixosamente Saint-Hilaire.

O botânico francês se informara e estava convencido de que conseguiria asilo no Convento dos franciscanos. E aqui começam os seus problemas. Saint-Hilaire deixa seu pessoal na margem do canal e se encaminha para o Convento a fim de pedir ao guardião que lhe permita passar um par de dias ali no campo assim como deixar seus animais pastar no que ele chama de a montanha da Guia. “Minha solicitação foi duramente recusada”, conta Saint-Hilaire, que insiste e oferece dinheiro ao guardião. Mas tudo inútil. Argumento do guardião para negar o pedido de Saint-Hilaire: “Ordens superiores.” O botânico francês estava acostumado a ser recebido com hospitalidade mesmo em casa de homens os mais pobres. “Acabei, confesso, por perder a paciência; disse palavras duras ao velho monge e voltei à praia, sem saber o que fazer.”

Naquele momento, quando Saint-Hilaire retorna ao ponto de desembarque no canal Itajuru para tomar uma decisão sobre que rumo dar à sua expedição, o desastre para o patrimônio memorialístico de Cabo Frio estava por um fio. Pois se Saint-Hilaire concluisse naquele instante em abortar sua visita à nossa cidade – uma decisão tomada em um átimo de seu abatimento – teríamos então perdido a passagem mais rica e vivaz que um naturalista fez de Cabo Frio com apreciações das mais perspicazes e instigantes, que nos ajudou a nos conhecermos um pouco melhor.

Mas este cenário desanimador que se construíra em torno de Saint-Hilaire mudou repentinamente quando muitas crianças cabo-frienses são atraídas para aquela novidade que rompia uma vida cotidiana tão previsível. Ao redor das bagagens da tropa de Saint-Hilaire, as crianças estão animadas com a novidade. A luz se faz na escuridão dos pensamentos de Saint-Hilaire: “A elas me dirigi para saber se poderia encontrar uma casa para alugar.” E as crianças respondem à indagação de Saint-Hilaire: “Elas me indicaram uma, aonde me instalei mediante o módico aluguel de 320 réis (2 fr.) por quatro dias.” Podemos até imaginar a fantástica cena de Saint-Hilaire acompanhando as crianças a caminho da casa. Aquele momento histórico estava sob o comando delas. As crianças salvaram a vinda de Saint-Hilaire a Cabo Frio.

O problema de onde acomodar seus cavalos também fora resolvido por meio do tropeiro de Saint-Hilaire, Manoel da Costa, que se entendera com o guardião e reconciliara o botânico com os monges. Saint-Hilaire agora estava mais calmo: uma casa alugada e com seus animais em segurança. Um final feliz.

Faço algumas leituras deste trecho da passagem de Saint-Hilaire por Cabo Frio. As crianças observam o botânico e o botânico as observa. Um encontro tão desigual e complementar. Tirando de um outro contexto um pensamento de Saint-Hilaire usado para entender a exuberância da flora e da fauna do Brasil: “misto de desordem e regularidade selvagem [porque natural, da sobrevivência dos seres].”

Outra leitura que defendo é que Saint-Hilaire foi o primeiro turista de Cabo Frio, pois ele vem à nossa cidade e aluga uma casa para passar quatro dias. Detalhe, o slogan padrão educativo contemporâneo do turismo de Cabo Frio, “explore o turismo e não o turista”, já se apresentava ali em 1818 como Espírito Objetivo. Os barqueiros exploraram o turista porque cobraram estranhamente passagem aos animais que nadavam no canal com o argumento de estarem presos à piroga. Saint-Hilaire se sentiu explorado. Mas o aluguel por 2 francos, ele achou baratíssimo. Ali a receptividade estava sendo corretamente exercida.

Outra ideia: Cabo Frio que não tem tradição em homenagear vultos de sua formação – o estudioso Luiz Carlos da Cunha Silveira já enumerou mais de 100 personalidades e coletividades, como os Tupinambá, galhardamente esquecidas por nossas autoridades -, se um dia lembrar de prestar um tributo ao botânico francês Auguste de Saint-Hilaire, por favor, não esqueça das crianças. Pois Saint-Hilaire só prosseguiu sua expedição em Cabo Frio porque foram as crianças, sim, as crianças cabo-frienses que em sua vivacidade curiosa se aproximaram do solitário botânico e prontamente corresponderam com uma solução para seu impasse e que tanto nos beneficiou. A elas, uma dívida inesquecível.

(*) José Correia Baptista é jornalista, sociólogo, professor de português-literatura pela UFF e ex secretário municipal de cultura de Cabo Frio.

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BUGRE, autor desconhecido, madeira, MS Pastel a óleo e lápis sobre papel 18 x 23,5cm.

E-mail : gilperelloatelier@gmail.com Tel. :(22) 997207731

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