SER PEDRA

O gato precisou ser pedra. E não ter rabo, porque pedra não tem rabo. Então o gatoenrolou o que tinha de rabo, juntou tão compacto e imóvel, que o transformou em uma pedra pequena. O gato precisou não piscar. Precisou não ter olhos. E os transformou em duas pedras de quartzo verde. Precisou não lacrimejar. E o que escorria era o sereno que escorre decidido pelas pedras lisas até o chão. Precisou não ter garras. Assim foi que enfiou suas pontas finas até o sabugo na terra fria. Precisou não miar. Mesmo que outro gato, jovem e despreparado, chamasse atenção sem perceber a necessidade de ser pedra. Sequer ronronou. Porque agora ele era pedra e as pedras não miam, tampouco ronronam. Precisou suportar o avanço do sol matutino. E pouco a pouco se aquecer como se aquecem as pedras. E também não reclamar desse ou daquele lugar como não reclamam as pedras. E não procurar uma sombra fresca como não procuram as pedras. O gato tinha que ficar parado como ficam as pedras que não foram jogadas. Precisou deixar crescer o limo e não se enfastiar com as borboletas. Precisou deixar que uma folha da amoreira lhe caísse em cima e suportar a agonia de não retirá-la. Precisou sentir o vento quente e sujo de uma tarde que antecedia o temporal e não escovar o pelo com a língua. Porque as pedras permitem as folhas, não reprimem o vento sujo e não tem língua para escovar o corpo.

Tanta precisão! Mas o gato ia bem. Agora esperava que o filhote de canário caísse do ninho como uma pedra. Porque para ser pedra é preciso também não saber voar.

Rafael Alvarenga

Cabo Frio, 28 de maio de 2019

Nota da redação: Ter o talento de Rafael, no Blog, é uma imensa alegria. Que bom!

SERÁ QUE TEM VERGONHA NA CARA?

O próximo político a sentar na cadeira de prefeito de Cabo Frio vai encontrar um quadro complexo, difícil de governar em tempo de aguda crise econômico-financeira, política e administrativa.

Os tempos áureos do tsunami de royalties sobre a cidade se foram. Restou uma prefeitura obesa, eticamente questionada, desacreditada junto à população e os investidores.

Após vinte e poucos anos do mais absoluto descontrole financeiro e administrativo, como se a prefeitura estive nas mãos com uma fábrica de dinheiro e ouro em pó, o município quebrou.

A prefeitura vive de “pires nas mãos” junto aos “witzels da vida”, tentando garantir um asfaltinho aqui, outro acolá para tapar os buracos, que quase impedem o trânsito nas ruas.

A cidade está tão caída, que sequer cuidou de sua principal praça, que após uma reforma ridícula, que tentou dar a ela piso de “shopping de subúrbio”, está imunda e quebrada. A Praça Porto Rocha foi tratada como coisa qualquer nos últimos anos.

Pois é, após tantos anos de domínio da “politicagem dos royalties” Cabo Frio não tem praça, não tem cemitério: não tem nada. Será que tem vergonha na cara?

PEQUENAS DOSES

O núcleo duro do Palácio Tiradentes ficou bastante satisfeito com a enfática defesa do seu governo feita pelo prefeito Adriano Moreno. O grupo acredita que a atuação do prefeito no Programa Sidnei Marinho representa um “divisor de águas” na administração.

A extrema direita, bem que se esforçou. Chamou gente de São Pedro da Aldeia, Arraial do Cabo e Cabo Frio e mesmo assim não conseguiu mais de 30 pessoas para uma rápida caminhada, que não durou meia hora, na orla da Praia do Forte. Recolheram as traquitanas, entraram nos carros e deram o fora.

Ninguém quis se misturar aos extremistas: empresários, profissionais liberais, líderes sindicais e religiosos. Todos caíram fora da tal passeata, envergonhados pelo fiasco que estavam representando. Nem mesmo o padre que fez gesto de armas na véspera da eleição deu as caras.

Há alguns anos, no auge da moda do “fio dental” um grupo religioso fez uma “passeata contra a indecência”, caminhando pela Avenida 13 de Novembro, em direção a Praia do Forte. Deu ruim: as adolescentes que participavam da passeata ficaram deslumbradas e trocaram a “asa delta” e os “maiôs” pelo “fio dental”.

A Prolagos anuncia que professores da UFF estão realizando estudos sobre a hidrodinâmica da Lagoa de Araruama. Sempre que a opinião pública alteia a voz contra a degradação da lagoa a concessionária apresenta alguma coisa para calar os críticos

A Prolagos adora dizer que cumpre o contrato e fornece água para quase toda a região. Não diz que não tem a mesma eficiência para tratar o esgoto (que é mais caro). Daí, o famigerado sistema de tratamento a tempo seco.

A crescente ocupação urbana desordenada, a inexistência de rede separadora para recebimento do esgoto fora do sistema de águas pluviais e o desastroso sistema de tratamento a tempo seco destroem a Lagoa de Araruama.

O problema de degradação da Lagoa de Araruama parece não sensibilizar a empresa e muito menos as autoridades enquanto se agrava, atingindo a população pobre e os pescadores da Praia do Siqueira.

Ao se estender, de maneira grave, a Praia do Forte, cartão postal de Cabo Frio, será que finalmente as autoridades e a sociedade se mobilizarão para conter a destruição da cidade?

Da mesma forma que no Nordeste existe a indústria da seca, na Região dos Lagos existe a indústria da poluição da Lagoa de Araruama. Muitos “técnicos” vivem de mil projetos para salvar a lagoa: estão nessa há anos. Política pública mesmo que é bom, nada!

A GANGUE DOS SONHOS

Nova York. Nos tumultuados anos 1920, a cidade é, para milhares de europeus, a epítome do “sonho americano”. E não é diferente para Cetta Luminita, uma italiana que, apesar de muito jovem, busca um lugar ao sol com seu filho Christmas. Numa metrópole em plena explosão, onde o rádio está nascendo e o cinema começa a falar, Christmas vai crescer entre gangues rivais, um ambiente de violência e pobreza, com sua imaginação e sua coragem como únicas armas para sobreviver. A esperança de uma nova existência nasce quando ele encontra a jovem, bela e rica Ruth.

Uma história vertiginosa e luminosa, magistralmente escrita, uma reflexão sobre a violência cometida contra as mulheres, sobre o racismo e a incomunicabilidade social, um romance sobre a infância roubada. A gangue dos sonhos queima com um ardor violento e redentor, e transporta o leitor para um mundo onde todos lutam para preservar sua integridade.

Um romance que se lê de uma só tacada, que se desenrola como um filme e no qual cada página é uma nova sequência.

BRASIL, NAÇÃO DIVERSA E MULTIFACETADA.

Este blog sob diversas formas, formatações e vestimentas manteve sempre a política de defesa intransigente dos direitos humanos, da educação, da ciência, da cultura e do meio ambiente.

Não por acaso. O blog acredita nesses valores como essenciais para todas as formas de democracia, porque são inerentes a liberdade de expressão e ao processo civilizatório.

As rápidas e profundas alterações econômicas, através da implementação global do neoliberalismo e da hegemonia do capital financeiro estão provocando extensa crise civilizatória, do qual o Brasil não escapa.

São evidentes as mudanças que acontecem no país, no campo da religiosidade, na estrutura das famílias, passando pela tecnologia, inovação e emprego.

Trepidações, sacolejos são inevitáveis no caminhar desse processo e nele estão inclusos os siricuticos da extrema direita, que se aproveitou da incapacidade da política tradicional em dar respostas rápidas, as seguidas crises tão profundas.

A própria direita tradicional, até então a única defensora do conservadorismo tropical, acusou o golpe e ficou no rabo da fila, na eleição presidencial, de 2018.

A extrema direita, incivilizada por excelência, propõe soluções simples, diretas, para atingir o eleitor iletrado e desesperado com a crise, que lhe tira o emprego e a segurança.

O Brasil é bem mais rico e complexo e não admite soluções de algibeira, violentas e que não respeitem sua quase infinita diversidade.

Pois é essa Nação diversa, misturada, capaz de se reinventar em suas múltiplas facetas e culturas, que defendemos.

PEQUENAS DOSES

  • Cláudio Leitão, na qualidade de testemunha, passou praticamente toda à tarde (3 horas), de ontem, 2ª feira, em depoimento ao Ministério Público Estadual (MPE-RJ).
  • O ex-secretário municipal de educação de Cabo Frio afirma que esclareceu todo o seu processo de gestão e as relações da secretaria com a fazenda (Antônio Carlos Vieira) e com o próprio prefeito Adriano Moreno.
  • Em conversa com amigos Cláudio Leitão disse saber a dura luta política que tem pela frente em função de sua gestão frente à pasta da educação. Os seus próximos passos políticos ainda não estão definidos, mas garante que não admite retrocessos.
  • Alguns observadores da política cabofriense estão de olho na movimentação do secretário de fazenda, Antônio Carlos Vieira. O presidente do Democratas foi o responsável pela guinada do governo municipal para a direita.
  • O secretário, oriundo da área financeira está muito a vontade na política da província e certamente será candidato a uma macia poltrona na câmara de vereadores ou até mesmo a Assembléia Legislativa.
  • Os leitores estão elogiando muito a nova cara do Blog do Totonho. Não é por acaso que o blog tem a luxuosa assistência técnica e artística do Studio Bunker, leia-se Marcos Azevedo.
  • Apesar de ter excelente equipe na comunicação social o governo municipal perde o confronto nas redes sociais da internet: falta direção política e rumos claros ao mandato tampão de Adriano Moreno.
  • A aprovação das contas de 2017, do ex-prefeito Marquinhos Mendes, terá o seu termômetro, na Audiência Pública, da próxima quarta-feira. O ex-prefeito tem gastado sola de sapato pelos corredores da câmara.
  • Caso o grupo de Marquinhos Mendes tenha mesmo acertado acordo com o prefeito Adriano Moreno, as contas do ex-prefeito, reprovadas pelo parecer do TCE-RJ, não terão dificuldades de passar incólumes pelo crivo dos vereadores.
  • A saída da dupla Leitão/Alvarenga e a substituição por Márcia Almeida pode ter sido peça fundamental para o acordo do governo em crise, com Marquinhos Mendes. O fiador? Antônio Carlos Vieira. Como sempre dizia Vovô Bibiu – “Tem caroço debaixo desse angu”.
  • O ex-prefeito José Bonifácio Novellino está nas redes sociais da Internet, convidando para reunião suprapartidária, no bairro Palmeiras, para debater as graves questões do município de Cabo Frio. A reunião acontece na sexta-feira, 31, a partir das 19 horas, na Rua Vitória 99.

O CICLISTA

Emocionante e surpreendente. Assim pode ser definido o livro O Ciclista, obra vencedora da primeira edição do Prêmio José Mindlin de Literatura. Segundo o autor, Walther Moreira dos Santos, já premiado e conhecido da crítica especializada, trata-se de um livro sobre a beleza do perdão, da esperança e da compaixão. Com uma narrativa atraente, O Ciclista tem ingredientes capazes de conquistar e envolver o leitor que aprecia uma história bem contada, com personagens interessantes que se relacionam de forma intrigante e curiosa. Como dizem os jurados da comissão julgadora do concurso, Antônio Torres, Maria Esther Maciel e Maria Amélia Mello: “a obra premiada se destacou das demais por apresentar uma narrativa original, instigante e literariamente bem construída”. De acordo com eles, “o autor demonstra habilidade no manejo da linguagem, criando personagens intrigantes e uma atmosfera que alicia, a cada capitulo, o leitor. O livro é um exercício de destreza e imaginação”

O FIASCO BOLSONARISTA

A tentativa da extrema direita de emparedar as instituições, particularmente o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal (STF) foi um fiasco, previsível com os seguidos vexames internos e externos do governo bolsonarista.

As instituições brasileiras solidificadas pela Constituição Cidadã de 1988 não funcionam as mil maravilhas, como também de nenhum outro país. São as que temos e preservá-las é obrigação dos democratas.

As organizações políticas e jurídicas não flutuam sobre a sociedade, mas são parte e fruto dela. Representam interesses de classe e dentro delas se verificam e se expressam os conflitos inerentes a vida do país.

Apesar de distorções são fundamentais para a preservação da democracia burguesa e representativa, estágio vivido pelo Brasil e que não pode tolerar recuos.

O momento é de brecar a tentativa de avanço e solidificação da onda reacionária, que tenta anular as pequenas conquistas, do povo brasileiro.

Temos que ampliar as conquistas através do fortalecimento da democracia e de suas instituições, entre outras coisas, recuperando nossas cores e nossa bandeira, que não pode ficar como símbolo de fascistas.

PEQUENAS DOSES

O projeto “Música na Fonte” é bom, mas a secretaria de cultura tem que se preocupar em dotar o Parque Municipal da Fonte do Itajuru, com o mínimo de infra-estrutura. Fica difícil para os artistas e para o público. Não existe sequer banheiro químico. Só boa vontade é muito pouco.

A qualidade e a inovação da cantora e compositora Kéren-Hapuk, como de outras atrações musicais, que brilharam no projeto, merecem tratamento mais profissional por parte da secretaria: artistas e público agradeceriam.

A histórica Fonte do Itajuru, berço das águas de Cabo Frio, em torno da qual foi criado o parque municipal, lamentavelmente continua caindo aos pedaços, sem os azulejos e afundando. Pior, sem qualquer notícia sobre projeto de restauração.

A saída da dupla Leitão/Alvarenga, da secretaria de educação mostra o leme da prefeitura de Adriano Moreno, dando a direção mais a direita, portanto conservadora. É esperar pra ver se a crise de identidade do governo chegou ao fim.

Os demais secretários não têm identidade político-ideológica mais explicitada como a do economista Cláudio Leitão e a professora e líder sindical, Denize Alvarenga. Ambos se afirmam dentro do campo da esquerda.

Caso o secretário de fazenda Antônio Carlos Vieira permaneça e se solidifique no cargo não parece haver disposição para conter o seu avanço dentro do governo. O capital financeiro ampliaria sua hegemonia, dentro da prefeitura.

O projeto de maricultura, no Peró, parece ter o apoio de grande parte da comunidade de pesca, embora existam algumas críticas ao projeto, que foram esboçadas na Audiência Pública realizada no Shopping do Peró.

A extrema direita de Cabo Frio e Região dos Lagos participou das magras manifestações em favor de Jair Bolsonaro. A Globo News fez um mapa comparativo com as passeatas pela Educação e o fracasso bolsonarista foi evidente.

Os analistas políticos mostram o evidente refluxo da onda bolsonarista, ultraconservadora, que assolou o país, nas eleições de 2018. Quem apostar na extrema direita, em 2020, pode tomar um “caldo”.

O projeto petista de tomar conta da onda contra Bolsonaro também não funcionou. As pesquisas qualitativas deixam claro que a sociedade (não a militância) quer governo progressista, preservando direitos, mas com grande responsabilidade. O país “encheu o saco” de pitís e siricuticos.

ENTRE CURSOS E RECURSOS

Investir em educação é construir o presente e possibilitar cenários favoráveis para o futuro de uma sociedade. Atualmente a Educação Básica depende verdadeiramente de duas grandes fontes de receitas, os repasses do Fundo Nacional da Educação Básica e os 25% que estados e municípios devem aportar por meio de suas receitas próprias.

Essa dependência ganha contornos dramáticos quando sabemos que o Fundeb, no atual formato, vai vigorar apenas até 2020. Há sinais de uma sensibilidade pela permanência do fundo. E isso se justifica pelo simples fato, mostrado pela ONG Todos Pela Educação, de que a diferença no país entre a rede que mais e menos recebe recursos, em um cenário sem o fundo, pode chegar a até 10.000%. Com o fundo essa discrepância está na casa dos 564%. Ou seja, sem a sua continuidade seria impensável na atualidade a manutenção de qualquer perspectiva de educação nacional como política pública de estado.

O atual ministro da educação já se mostrou a favor, mas desde que haja contrapartidas e metas que nem ele soube explicar quais seriam. Coisa de quem não tem o traquejo necessário para a liturgia e dignidade da função. Aliás, esse tem sido a régua que marca o traçado dos nomes que muitas vezes chegam a postos de comando da educação sem que reúnam a capacidade necessária para dar conta dos processos de gestão estrutural e pedagógica.

É cada vez mais comum as redes de ensino serem comandadas por qualquer pessoa que tenha apenas uma habilitação formal para uma carreira docente. As vezes nem isso. Triste ver a educação ser transformada em trampolim eleitoral e em casamata de aliados. Triste ver a redução das instâncias diretivas da educação ao se tornarem meras planejadoras de folha de pagamento. Educação sempre deveria ser posta acima desse patamar térreo.

O outro problema é que nem sempre a educação recebe corretamente os percentuais de receita própria. Com as propostas de desvinculação de receitas e caso essa moda pegue de cima a baixo, o custeio da educação poderá ceder o lugar para a transferência dos seus recursos, geralmente para molhar a garganta do rentismo.

Essa crise não afeta apenas os níveis básicos. A situação do ensino superior é complicada também. A formação de professores continua sofrendo com limitações curriculares e com cursos que não recebem o devido investimento e condições de existência. Se isso está afetando a rede pública, imaginemos na privada, majoritária e quase soberana no que concerne ao ensino e que em sua quase totalidade tratam os cursos de licenciatura como algo que não merece nada além de um empurrão para uma cristalizada plataforma virtual, barata e simplória.

Novamente, o atual ministro até aceita que nas graduações das universidades públicas não haja cobrança de mensalidades. Mas defende isso justamente no local de produção de ciência e conhecimento mais avançados, os mestrados e doutorados. Ou seja, fazer ciência no país passaria a ser uma questão de foro particular e restrito a quem pode pagar para produzir conhecimento.

O Fundeb é um elemento chave para a manutenção e pagamento de salários. Assim como a formação preliminar e continuada são indispensáveis para a construção da concepção de educação de uma rede de ensino. O restante é gestão. É gente. É competência e sinergia.

O VEXAME DOS BOLSONARISTAS, EM CABO FRIO.

Os bolsonaristas bem que tentaram, mas não conseguiram evitar o vexame. Foi ridículo o pequeno número de pessoas que apareceu na Praça da Cidadania, caminhou até o deck (mandala) e no máximo, em meia hora se dispersou. Engraçado, que quando estavam junto ao deck, alguém na cobertura do edifício mostrou uma bandeira vermelha. Resultado: os bolsonaristas apressaram o fim da modesta passeata e saíram correndo.

ANGELA DAVIS – UMA AUTOBIOGRAFIA.

A Boitempo publica pela primeira vez no Brasil Uma autobiografia, de Angela Davis. Lançada originalmente em 1974, a obra é um retrato contundente das lutas sociais nos Estados Unidos durante os anos 1960 e 1970 pelo olhar de uma das maiores ativistas de nosso tempo. Davis, à época com 28 anos, narra a sua trajetória, da infância à carreira como professora universitária, interrompida por aquele que seria considerado um dos mais importantes julgamentos do século XX e que a colocaria, ao mesmo tempo, na condição de ícone dos movimentos negro e feminista e na lista das dez pessoas mais procuradas pelo FBI. A falsidade das acusações contra Davis, sua fuga, a prisão e o apoio que recebeu de pessoas de todo o mundo são comentados em detalhes por essa mulher que marcou a história mundial com sua voz e sua luta.

Questionando a banalização da ideia de que “o pessoal é político”, Davis mostra como os eventos que culminaram na sua prisão estavam ligados não apenas a sua ação política individual, mas a toda uma estrutura criada para criminalizar o movimento negro nos Estados Unidos. Além de um exercício de autoconhecimento da autora em seus anos de cárcere, nesta obra encontramos uma profunda reflexão sobre a condição da população negra no sistema prisional estadunidense.