O fruto!

O deputado Sérgio L. Azevedo, debutante na Assembleia Legislativa, está colhendo os frutos de sua campanha repleta de notícias falsas, ilações e relação íntima com o que há de mais nefasto na política fluminense e brasileira. Resultado: a falta de credibilidade. Não é por acaso, que a campanha do deputado de extrema direita está atolada e não sai do lugar.

Onda reacionária?

O deputado insiste em nacionalizar a campanha, pensando que a onda reacionária, ainda pior que o conservadorismo propagado, possa em um soluço, se repetir. A população entretanto está interessada na resolução dos problemas do município, do seu dia a dia e não na exacerbação dos conflitos. A população quer paz!

Siricuticos & Chiliques

Siricuticos, chiliques e pitís, além de diretas, indiretas e ameaças, que começam a pipocar na campanha do deputado, também não ganham eleição. Servem apenas para demonstrar irritação, desespero e falta de compromisso com a democracia e a liberdade de expressão. Uma pena, porque a campanha está se transformando numa caricatura, prato cheio para os artistas da cidade.

Derrapadas e Acertos

Do outro lado, a campanha de José Bonifácio e Magdala Furtado, após algumas derrapadas iniciais, corrigiu alguns erros, mas carece de organização: não dá para marcar um evento determinada hora e chegar uma hora e meia depois. Não há quem aguente esperar tanto, lembrando ainda que a estrela da campanha é o candidato. Certo?

“Mundos & Fundos”

José Bonifácio tem tido muito cuidado com o que fala nos encontros temáticos, que a campanha tem realizado. Os três últimos prefeitos: Alair Corrêa, Marquinhos Mendes e Adriano Moreno se desgastaram demais, porque não conseguiram pagar os salários em dia. Sanear as finanças da prefeitura, em plena pandemia, não será uma tarefa fácil. Vai exigir competência e muito cuidado com as finanças do município. O candidato tem se recusado a prometer “mundos e fundos”.

Arrogância & Incompetência

Dá uma certa tristeza ver a campanha do prefeito Adriano Moreno, que só aparece queixando-se de injustiças e acompanhado apenas por secretários, que não tem alternativa, exceto estar ali. O prefeito e seu assessor especial, Antônio Carlos Vieira, mais conhecido por Cati, terão da população uma resposta a altura da arrogância e da falta de competência para gerir a coisa pública.

Campanha tardia

O ex-prefeito Marquinhos Mendes paga o preço de ter iniciado tardiamente a campanha, seu grupo já estava disperso e com compromisso firmado com outros candidatos. Além disso, o ex-prefeito enfrenta problemas juridícos, mas mantém a candidatura para não ter seu nome esquecido.

Vida e Tempo coincidem?

Ângela Maria Sampaio de Souza (*)

Acredito e tenho certeza que sim!

A vida de cada um e cada um de nós tem nosso tempo.

Tempo e Vida são a mesma coisa? A minha vida é o meu tempo?

Eu me vou, meu tempo acaba e a vida continua! Por isso vamos aproveitar nosso tempo, para que enquanto tivermos vida, ocupemos esse período com ações, pensamentos, sucessos e fracassos!

Usemos o tempo como prioridade, mas temos que ter as nossas, senão perdemos tempo.

Vamos ser mais humanos ou mais humanos, mas infelizmente estamos morrendo mais cedo emocionalmente, embora estejamos vivendo mais tempo biologicamente.

Uma das graves consequências é a morte do tempo emocional.

Numa época como a que estamos vivendo hoje, vivemos agitados, atarefados e quando paramos para pensar parece que dormimos e não vimos o tempo passar.

Perdemos o melhor de nós: nossa família e amigos. O desemprego, a falta de direitos, falta de teto, saúde, educação, o sistema está nos deixando sem paz de espírito e não estamos vendo o tempo passar!

Temos um sistema que funciona de um lado acumulação de uns e do outro a miséria, a corrupção, a violência.

Assim, enquanto temos tempo, enquanto vivemos, vamos ocupá-las com ações, idéias para o bem da coletividade.

O nosso tempo existirá, ainda que fiquemos estáticos.

Não traia o que temos de melhor!

Assim: no seu tempo, na sua vida quais são as prioridades?

O Papa Francisco numa frase disse:

“Contem, falem o que desejam, porque quanto maior for a capacidade de sonhar, mais caminhos terão percorridos. Por isso acima de tudo, sonhem!”

(*) Ângela Maria Sampaio de Souza é Professora.

A Cartomante

Machado de Assis

Hamlet observa a Horácio que há mais causas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.

– Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: “A senhora gosta de uma pessoa…” Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade.

– Errou! interrompeu Camilo, rindo.

– Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria…

Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois.

– Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa.

– Onde é a casa?

– Aqui perto, na Rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa ocasião. Descansa; eu não sou maluca.

Camilo riu outra vez:

– Tu crês deveras nessas cousas? perguntou-lhe.

Foi então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muita cousa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele não acreditava, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é que ela agora estava tranqüila e satisfeita.

Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se. Não queria arrancar-lhe as ilusões. Também ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento; limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando.

Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada; Camilo, não só o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, correr às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na antiga Rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu pela Rua das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da Guarda Velha, olhando de passagem para a casa da cartomante.

Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da província, onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado. Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo, e foi a bordo recebê-lo.

– O senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. Não imagina como meu marido é seu amigo; falava sempre do senhor. Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras. Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela não desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa. Era um pouco mais velha que ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vinte e seis. Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher, enquanto Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, como os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição.

Uniram-se os três. Convivência trouxe intimidade. Pouco depois morreu a mãe de Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois mostraram-se grandes amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos sufrágios e do inventário; Rita tratou especialmente do coração, e ninguém o faria melhor.

Como daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A verdade é que gostava de passar as horas ao lado dela; era a sua enfermeira moral, quase uma irmã, mas principalmente era mulher e bonita. Odor di femmina: eis o que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorporá-lo em si próprio. Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam às noites; – ela mal, – ele, para lhe ser agradável, pouco menos mal. Até aí as cousas. Agora a ação da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele, que os consultavam antes de o fazer ao marido, as mãos frias, as atitudes insólitas. Um dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma rica bengala de presente, e de Rita apenas um cartão com um vulgar cumprimento a lápis, e foi então que ele pôde ler no próprio coração; não conseguia arrancar os olhos do bilhetinho. Palavras vulgares; mas há vulgaridades sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha caleça de praça, em que pela primeira vez passeaste com a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo. Assim é o homem, assim são as cousas que o cercam.

Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita, como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura; mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos! Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada fora, braços dados, pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam ausentes um do outro. A confiança e estima de Vilela continuavam a ser as mesmas.

Um dia, porém, recebeu Camilo uma carta anônima, que lhe chamava imoral e pérfido, e dizia que a aventura era sabida de todos. Camilo teve medo, e, para desviar as suspeitas, começou a rarear as visitas à casa de Vilela. Este notou-lhe as ausências. Camilo respondeu que o motivo era uma paixão frívola de rapaz. Candura gerou astúcia. As ausências prolongaram-se, e as visitas cessaram inteiramente. Pode ser que entrasse também nisso um pouco de amor-próprio, uma intenção de diminuir os obséquios do marido, para tornar menos dura a aleivosia do ato.

Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu à cartomante para consultá-la sobre a verdadeira causa do procedimento de Camilo. Vimos que a cartomante restituiu-lhe a confiança, e que o rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez. Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu mais duas ou três cartas anônimas, tão apaixonadas, que não podiam ser advertência da virtude, mas despeito de algum pretendente; tal foi a opinião de Rita, que, por outras palavras mal compostas, formulou este pensamento: – a virtude é preguiçosa e avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo.

Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o anônimo fosse ter com Vilela, e a catástrofe viria então sem remédio. Rita concordou que era possível.

– Bem, disse ela; eu levo os sobrescritos para comparar a letra com as das cartas que lá aparecerem; se alguma for igual, guardo-a e rasgo-a…

Nenhuma apareceu; mas daí a algum tempo Vilela começou a mostrar-se sombrio, falando pouco, como desconfiado. Rita deu-se pressa em dizê-lo ao outro, e sobre isso deliberaram. A opinião dela é que Camilo devia tomar à casa deles, tatear o marido, e pode ser até que lhe ouvisse a confidência de algum negócio particular. Camilo divergia; aparecer depois de tantos meses era confirmar a suspeita ou denúncia. Mais valia acautelarem-se, sacrificando-se por algumas semanas. Combinaram os meios de se corresponderem, em caso de necessidade, e separaram-se com lágrimas.

No dia seguinte, estando na repartição, recebeu Camilo este bilhete de Vilela: “Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora.” Era mais de meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, advertiu que teria sido mais natural chamá-lo ao escritório; por que em casa? Tudo indicava matéria especial, e a letra, fosse realidade ou ilusão, afigurou-se-lhe trêmula. Ele combinou todas essas cousas com a notícia da véspera.

– Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora, – repetia ele com os olhos no papel.

Imaginariamente, viu a ponta da orelha de um drama, Rita subjugada e lacrimosa, Vilela indignado, pegando da pena e escrevendo o bilhete, certo de que ele acudiria, e esperando-o para matá-lo. Camilo estremeceu, tinha medo: depois sorriu amarelo, e em todo caso repugnava-lhe a idéia de recuar, e foi andando. De caminho, lembrou-se de ir a casa; podia achar algum recado de Rita, que lhe explicasse tudo. Não achou nada, nem ninguém. Voltou à rua, e a idéia de estarem descobertos parecia-lhe cada vez mais verossímil; era natural uma denúncia anônima, até da própria pessoa que o ameaçara antes; podia ser que Vilela conhecesse agora tudo. A mesma suspensão das suas visitas, sem motivo aparente, apenas com um pretexto fútil, viria confirmar o resto.

Camilo ia andando inquieto e nervoso. Não relia o bilhete, mas as palavras estavam decoradas, diante dos olhos, fixas; ou então, – o que era ainda pior, – eram-lhe murmuradas ao ouvido, com a própria voz de Vilela. “Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora.” Ditas assim, pela voz do outro, tinham um tom de mistério e ameaça. Vem, já, já, para quê? Era perto de uma hora da tarde. A comoção crescia de minuto a minuto. Tanto imaginou o que se iria passar, que chegou a crê-lo e vê-lo. Positivamente, tinha medo. Entrou a cogitar em ir armado, considerando que, se nada houvesse, nada perdia, e a precaução era útil. Logo depois rejeitava a idéia, vexado de si mesmo, e seguia, picando o passo, na direção do Largo da Carioca, para entrar num tílburi. Chegou, entrou e mandou seguir a trote largo.

“Quanto antes, melhor, pensou ele; não posso estar assim…”

Mas o mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe a comoção. O tempo voava, e ele não tardaria a entestar com o perigo. Quase no fim da Rua da Guarda Velha, o tílburi teve de parar; a rua estava atravancada com uma carroça, que caíra. Camilo, em si mesmo, estimou o obstáculo, e esperou. No fim de cinco minutos, reparou que ao lado, à esquerda, ao pé do tílburi, ficava a casa da cartomante, a quem Rita consultara uma vez, e nunca ele desejou tanto crer na lição das cartas. Olhou, viu as janelas fechadas, quando todas as outras estavam abertas e pejadas de curiosos do incidente da rua. Dir-se-ia a morada do indiferente Destino.

Camilo reclinou-se no tílburi, para não ver nada. A agitação dele era grande, extraordinária, e do fundo das camadas morais emergiam alguns fantasmas de outro tempo, as velhas crenças, as superstições antigas. O cocheiro propôs-lhe voltar à primeira travessa, e ir por outro caminho; ele respondeu que não, que esperasse. E inclinava-se para fitar a casa… Depois fez um gesto incrédulo: era a idéia de ouvir a cartomante, que lhe passava ao longe, muito longe, com vastas asas cinzentas; desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-se no cérebro; mas daí a pouco moveu outra vez as asas, mais perto, fazendo uns giros concêntricos… Na rua, gritavam os homens, safando a carroça:

– Anda! agora! empurra! vá! vá!

Daí a pouco estaria removido o obstáculo. Camilo fechava os olhos, pensava em outras cousas; mas a voz do marido sussurrava-lhe às orelhas as palavras da carta: “Vem, já, já…” E ele via as contorções do drama e tremia. A casa olhava para ele. As pernas queriam descer e entrar… Camilo achou-se diante de um longo véu opaco… pensou rapidamente no inexplicável de tantas cousas. A voz da mãe repetia-lhe uma porção de casos extraordinários; e a mesma frase do príncipe de Dinamarca reboava-lhe dentro: “Há mais cousas no céu e na terra do que sonha a filosofia…” Que perdia ele, se…?

Deu por si na calçada, ao pé da porta; disse ao cocheiro que esperasse, e rápido enfiou pelo corredor, e subiu a escada. A luz era pouca, os degraus comidos dos pés, o corrimão pegajoso; mas ele não viu nem sentiu nada. Trepou e bateu. Não aparecendo ninguém, teve idéia de descer; mas era tarde, a curiosidade fustigava-lhe o sangue, as fontes latejavam-lhe; ele tornou a bater uma, duas, três pancadas. Veio uma mulher; era a cartomante. Camilo disse que ia consultá-la, ela fê-lo entrar. Dali subiram ao sótão, por uma escada ainda pior que a primeira e mais escura. Em cima, havia uma salinha, mal alumiada por uma janela, que dava para o telhado dos fundos. Velhos trastes, paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava do que destruía o prestígio.

A cartomante fê-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto, com as costas para a janela, de maneira que a pouca luz de fora batia em cheio no rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas compridas e enxovalhadas. Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava para ele, não de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos. Voltou três cartas sobre a mesa, e disse-lhe:

– Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande susto…

Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo.

– E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma cousa ou não…

– A mim e a ela, explicou vivamente ele.

A cartomante não sorriu; disse-lhe só que esperasse. Rápido pegou outra vez das cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas, três vezes; depois começou a estendê-las. Camilo tinha os olhos nela, curioso e ansioso.

– As cartas dizem-me…

Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Então ela declarou-lhe que não tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava tudo. Não obstante, era indispensável muita cautela; ferviam invejas e despeitos. Falou-lhe do amor que os ligava, da beleza de Rita… Camilo estava deslumbrado. A cartomante acabou, recolheu as cartas e fechou-as na gaveta.

– A senhora restituiu-me a paz ao espírito, disse ele estendendo a mão por cima da mesa e apertando a da cartomante.

Esta levantou-se, rindo.

– Vá, disse ela; vá, ragazzo innamorato…

E de pé, com o dedo indicador, tocou-lhe na testa. Camilo estremeceu, como se fosse a mão da própria sibila, e levantou-se também. A cartomante foi à cômoda, sobre a qual estava um prato com passas, tirou um cacho destas, começou a despencá-las e comê-las, mostrando duas fileiras de dentes que desmentiam as unhas. Nessa mesma ação comum, a mulher tinha um ar particular. Camilo, ansioso por sair, não sabia como pagasse; ignorava o preço.

– Passas custam dinheiro, disse ele afinal, tirando a carteira. Quantas quer mandar buscar?

– Pergunte ao seu coração, respondeu ela.

Camilo tirou uma nota de dez mil-réis, e deu-lha. Os olhos da cartomante fuzilaram. O preço usual era dois mil-réis.

– Vejo bem que o senhor gosta muito dela… E faz bem; ela gosta muito do senhor. Vá, vá, tranqüilo. Olhe a escada, é escura; ponha o chapéu…

A cartomante tinha já guardado a nota na algibeira, e descia com ele, falando, com um leve sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo, e desceu a escada que levava à rua, enquanto a cartomante, alegre com a paga, tornava acima, cantarolando uma barcarola. Camilo achou o tílburi esperando; a rua estava livre. Entrou e seguiu a trote largo.

Tudo lhe parecia agora melhor, as outras cousas traziam outro aspecto, o céu estava límpido e as caras joviais. Chegou a rir dos seus receios, que chamou pueris; recordou os termos da carta de Vilela e reconheceu que eram íntimos e familiares. Onde é que ele lhe descobrira a ameaça? Advertiu também que eram urgentes, e que fizera mal em demorar-se tanto; podia ser algum negócio grave e gravíssimo.

– Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro.

E consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou qualquer causa; parece que formou também o plano de aproveitar o incidente para tornar à antiga assiduidade… De volta com os planos, reboavam-lhe na alma as palavras da cartomante. Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta, o estado dele, a existência de um terceiro; por que não adivinharia o resto? O presente que se ignora vale o futuro. Era assim, lentas e continuas, que as velhas crenças do rapaz iam tornando ao de cima, e o mistério empolgava-o com as unhas de ferro. s vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado; mas a mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, a exortação:

– Vá, vá, ragazzo inflamorato; e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais eram os elementos recentes, que formavam, com os antigos, uma fé nova e vivaz.

A verdade é que o coração ia alegre e impaciente, pensando nas horas felizes de outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pela Glória, Camilo olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, até onde a água e o céu dão um abraço infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável.

Daí a pouco chegou à casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardim e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela.

– Desculpa, não pude vir mais cedo; que há?

Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: – ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensangüentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão.

INÉDITO

Inédito 1

Adriano Moreno, prefeito, candidato a reeleição que nenhum outro concorrente bate, pois já está evidente o seu fracasso político, tal a rejeição popular. Recrudesce o confronto entre José Bonifácio e o deputado Sérgio L. Azevedo e do prefeito que tenta se reeleger ninguém se dá conta.

Inédito 2

Adriano Moreno (Democratas) deverá bater o recorde de menor votação percentual histórica de um candidato á reeleição no Estado. Depois do ineditismo de governar a maior parte do seu governo, com um secretariado que não estava na sua campanha, esse será outro fato na sua curta carreira política.

Dobradinha? Nem pensar!

Os candidatos a vereador apoiados pelo atual prefeito, se recusam a colocar o nome dele nas suas propagandas. Quanto ao material feito em dobradinha continua dentro das caixas. Um brinde a quem achar uma propaganda com dobradinha do ex-secretário de governo, Miguel Alencar, também candidato a reeleição como vereador. Olha que eles são do mesmo partido, o Democratas.

O “injustiçado”

O quase ex-prefeito Adriano Moreno ataca a mídia e os adversários se dizendo injustiçado político. A tática do chororô, que funcionou em outras ocasiões, não provocou nenhum sentimento de pena em relação ao “injustiçado”. Nem mesmo quando fala que só teve dois anos para trabalhar, porque os eleitores estão achando muito e estão torcendo para acabar logo.

Propaganda irresponsável

A sociedade cabofriense está espantada e surpresa com a agressividade da campanha do deputado Sérgio L. Azevedo, que não respeita nada, absolutamente ninguém. Tenta criar a imagem de bom moço e ao mesmo tempo fomenta uma propaganda irresponsável cheia de falsas acusações contra os adversários, que parece considerar inimigos.

Interrogações

O candidato Sérgio L. Azevedo, vive dizendo que fará isso  e aquilo na saúde e educação com apoio do governo federal. Ficam duas interrogações: – Se Cabo Frio não pode receber verbas federais por conta de dívidas com a União, como virão esses recursos? Se ele possui essa influência, porque ele não a usa desde já, ajudando a cidade? E se a escolha da população for outra pessoa, ele usará a influência para prejudicar Cabo Frio?

Atenção!

Como podemos observar, dos mais de quinhentos candidatos a sentar nas confortáveis poltronas do Plenário Oswaldo Rodrigues, pouquíssimos tem condições de assumir o mandato. Falam muito mal da atual composição do legislativo, mas o que vem por aí pode ser ainda pior. Atenção!

AS PALAVRAS

José Sette de Barros (*)

É doce o aconchego das palavras quando elas representam verdades que docemente nos elevam a mundos superiores. Elas são fortes em alguns momentos e noutros são suavemente pronunciadas como se falássemos com os anjos e deuses. Palavras soltas no ar não formalizam a história.

A palavra tem de ser sólida e cristalina em sua total perfeição. Ela tem de ser, aos meus sentidos, uma tela pintada com a mais bela imagem do entardecer de um dia quente de verão.

A palavra é um dom divino ou uma aberração do mal. Não importa a forma em que ela se apresenta. A mesma palavra com um mesmo significado pode ter infinitos significantes.

Uma palavra tem um só tempo, uma única batida certa em um espaço indeterminado… Não é incrível? Poderia falar por horas milhares de palavras sem nenhum sentido.

Alguns chamariam isso de poesia e eu acreditaria. É preciso acreditar. Quando você relaciona duas palavras e elas transformam tabus em totens, ícones, troféu de uma revolução, ai sim é que se inicia o poderoso processo de transformação, transmutação do inconcebível no que pode ser criado. Entendeu? “Foi ali, naquele local inóspito, que obteve seu maior troféu.”

Assim meus amigos e inimigos, que ainda aqui não os tenho, é mister entender a força que vem de uma palavra e de suas composições, de um símbolo, de uma imagem – são armas poderosas para o bem ou para o mal dependendo das circunstâncias onde foram colocadas.

(*) José Sette de Barros é Artista plástico e Cineasta.

Dr. Luis Gustavo Reinés (*)

À partir de hoje, iremos colaborar com o “Blog do Totonho” articulando, semanalmente, dicas sobre saúde e tratamentos naturais através da fitoterapia e naturopatia.

O termo Fitoterapia deriva do grego phyton que significa “vegetal” e de therapeia, "tratamento", e consiste no uso interno ou externo de vegetais para o tratamento de doenças, sejam eles “in natura” ou sob a forma medicamentos.

O uso de plantas medicinais para cura e tratamento de doenças está presente nas sociedades humanas desde os seus primórdios. Os primeiros registros de fitoterápicos datam da China do período de 3000 a.C. quando o imperador chinês catalogou 365 ervas medicinais e venenos que eram utilizados na época, criando assim o primeiro herbário de que se tem notícia porém, há evidências que o uso de ervas já acontecia a 60.00 anos atrás.

No Brasil, a utilização de ervas medicinais tem suas bases na prática indígena, e ainda, com influência da cultura africana e portuguesa. Com os progressos tecnológicos da medicina alopata e da indústria farmacêutica nos últimos anos, os fitoterápicos foram colocados em segundo plano, sendo vistos como algo aliado à crença popular e sem bases científicas.

Por ter muitos efeitos colaterais e sobretudo, ao alto custo dos medicamentos alopáticos, a Fitoterapia está novamente em destaque e os estudos científicos com plantas medicinais sendo retomados e sua utilização pela população, incentivados por ser um tratamento de baixíssimo custo e muito bem tolerado pelo nosso organismo.

Tem dúvidas se pode ou não se tratar com um fitoterápico?

Siga-nos para mais dicas de saúde natural e consulte sempre seu médico ou farmacêutico.

(*) Farmacêutico , fitoterapeuta e naturopata

instagram : @phytonaturalrj